O catastrofismo como catástrofe

Uma das vantagens do estudo da História, e pode ser apenas pela rama, é a de nos imunizar contra os catastrofistas. Friso o vocábulo estudo, pois há quem utilize a História apenas como tela onde projecta as suas angústias e maldições. Estes não estão a estudar, estão a consumir estupefacientes sob a forma de historietas mal contadas e pior entendidas. Utilizam o passado para antecipar o futuro, assim provando que lhes escapa o presente.

A História consiste na colecção universal das catástrofes de que há memória e indício. Como as alterações ecológicas no século XXI. Como as Guerras Mundiais no século XX. Como a escravatura nos séculos XVI, XVII e XVIII. Como a colonização do Novo Mundo. Como a Peste Negra. Como a queda do Império Romano. Como o incêndio da Biblioteca de Alexandria. Como a destruição dos meios de subsistência na Ilha da Páscoa. Como a extinção dos mamutes pela caça. Como o adeus aos dinossauros à pala de um asteróide maiorzinho. Está-me a faltar alguma? Ah, o Big Bang, essa explosão do caraças que inquestionavelmente resultou de alguma coisa ter corrido mesmo, mesmo, mesmo muito mal mesmo. Logo, conclui-se que nós somos o belo fruto destas catástrofes. Ter medo delas é como ter medo dos próprios pais.

O catastrofista não é só um inútil, é também um peso-morto e um empecilho. Possuindo entranhada até à medula a arrogância dos ignorantes, permanece incapaz de aprender seja o que for. Para ele, aprender seria mudar, e mudar seria desaparecer. Por isso persegue furibundo aqueles que estudam, experimentam, pensam. São estes os seus inimigos. A possibilidade de o futuro estar em aberto assusta-o de morte, daí a segurança que encontra na catástrofe – a segurança de ter uma certeza. E daí o conforto melífluo e secreto do catastrofista – nada ter de decidir, por nada se responsabilizar.

Estamos rodeados de catastrofistas. Muitos fazem carreira profissional nessa categoria, seja na política-espectáculo ou na falsa religião. Antropologicamente, somos impelidos a dar atenção a quem traz más notícias, pois delas pode depender a nossa sobrevivência imediata. Mas quando as más notícias são apenas a expressão de uma inteligência atrofiada, de emoções descontroladas e de uma vontade débil ou inexistente, os catastrofistas devem ser implacavelmente ignorados ou combatidos. A sua influência é tóxica, os danos que provocam são extensos e prolongados.

11 thoughts on “O catastrofismo como catástrofe”

  1. Val, se o texto era para animar, falhou. Quer dizer que quem diz que esta é a pior crise que atravessamos desde a 2ª guerra mundial está a mangar com a malta?

  2. Mas sejamos um pouco mais específicos: se um analista concluir, da sua análise, que estamos à beira de uma catástrofe económica e social, chamas-lhe o quê?

  3. arranjei um sinónimo catita: calamidalóides que são, não do agouro, os carteiros que tocam sempre duas vezes. :-)

    (eu chamo-o de atento e bem informado, edie. é que o visionário nem sequer lida com factos palpáveis no seu, dele, presente)

  4. edie, dependendo da sua análise, chamar-lhe-ia analista ou catastrofista. Falar de catástrofes, passadas, presentes ou futuras, não é o que define o catastrofismo. O catastrofismo é antes a promoção de um ambiente fatalista onde o pânico, a inacção e a desorientação são as únicas respostas que se oferecem.

  5. Catastrofistas = MEDO = ‘Velho do Restelo’ = inutilidade TÓXICA e epidémica, uma vez que o medo é atractor do medo!!!

    Nada de rendições!!! Toca a ‘LIMPAR a nossa rua vandalizada’!

  6. Que interesse tem isto? O mundo vai acabar para o ano!
    Serei catastrofista?
    Certamente!
    Mas se disser que o governo que nos (des)governa não tem uma linha de pensamento coerente e tem os seus dias contados, estou apenas a ser um analista otimista.

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