Aspirina marada

Desde ontem à noite que temos tido comentários, e até uma publicação, a desaparecer de cena como danos colaterais por se estar a fazer uma intervenção técnica no servidor. Se alguém deu por si roubado de algum comentário, esta é a singela causa. Não sei se os comentários desaparecidos serão recuperáveis nem quando a situação estará resolvida.

13 thoughts on “Aspirina marada”

  1. O lugar da Bouça:
    Era assim conhecido até que as modernices relegaram estes lugares para o esquecimento. De lugar passou a Travessa da Bouça e Rua da Bouça – não os sei distinguir – para mim e maioria das pessoas de Freamunde é sempre o lugar da Bouça. Hoje quando me pedem uma informação e dizem o nome da rua, pergunto qual a finalidade, para me saber situar e informar com precisão, pois por nome de ruas ainda não me habituei, claro está, a não ser a do Comércio mas esta é tão antiga como os lugares.
    No lugar da Bouça foi onde passei a minha meninice, juventude e adolescência. Nasci no lugar da Gandarela depois, rumei até S. Mamede de Negrelos e passados dois anos vim novamente para Freamunde. O não ouvir o sino da nossa terra é no que dá e os meus pais não eram diferentes.
    Assim vim parar ao lugar da Bouça no ano de 1953 mais precisamente no mês de Junho. Sei que era este mês pelo motivo de na nossa chegada, – passamos a viver numa espécie de “ilha” – na entrada haver uma cascata de louvor aos santos populares. Nunca mais me saiu da ideia pelo facto de sem querer ou por traquinice estragar parte da cascata que os filhos do senhor Sousa da “Tipografia” tinham construído e que a partir daí e por algum tempo mais, – foram viver para o lugar da Feira – tive a antipatia deles.
    Nesse lugar, dos mais pobres de Freamunde, viviam poucas pessoas quase que se contavam pelos dedos das mãos e a maioria eram idosas. A senhora Rosário e Gracinda eram irmãs mas entre elas eram tão opostas: a primeira má, não suportava crianças, a segunda uma jóia de pessoa. Não compreendo como as duas se suportavam. Numa casa, sua pertença, morava o senhor Arnaldo Alves, pai do “Barrigana” tinha uma tamancaria, ali passava algum bocado de tempo a ver a confecção dos tamancos. Pegado a estas, era a casa e terrenos do senhor José Silva, pai do Domingos “Teles”, tanto dele como da esposa, guardo as melhores recordações, algumas vezes matei ali a “fome” ou “lambarice”.
    Na minha rua (ilha) morava o Juca “Careca” recordo os pombos de papo que ele tinha e que alguns vinham comer às suas mãos as migalhas de pão que ele ali depositava, a sua esposa Marília, pela vida fora uma segunda mãe para mim; o António “Coroa” que passado pouco tempo foi viver para Angola, a senhora Marquinhas, viúva do pai do senhor Manuel da “Bouça” casado em segundas núpcias.
    Estas casas pertenciam á família Brito, donos da drogaria que havia na rua do Comércio, com o mesmo nome de família e confrontava com a casa e terrenos do referido Manuel da “Bouça”. Aliás, estes terrenos em tempo pertenceram à família do Manuel da “Bouça”, com as partilhas e as necessidades foram vendidas à família Brito. Quantos tanques de água ali tirei! Explico. No tempo de calor as plantas precisavam de serem regadas e nos terrenos do Manuel da “Bouça” havia um poço com uma bomba para tirar água. A bomba estava apetrechada para tirar água maquinalmente, não havia luz eléctrica, assim tinha de recorrer a quem a tirasse ou ser ele ou a esposa a dar-se a esse trabalho ou pagar o esforço braçal. Ganhava 2$50 por cada tanque de água e este comportava em quase duas pipas. De manhã cedo tirava um tanque e depois da hora laboral – trabalhava na fábrica “Grande” – tirava outro o que perfazia 5$00, com este serviço extra auferia mais dinheiro que a trabalhar na dita fábrica – era dado a minha mãe para minorar as dificuldades, às vezes, ajudava-me porque os meus braços eram tenros e o esforço grande.
    Mais abaixo morava a senhora Angélica – mãe do Toninho da “Angélica”. Tinha mais filhos mas falo deste porque foi o primeiro oleiro que conheci. Trabalhava na olaria do Vitorino Ferreira. Tinha mãos de magia. Estas produziam artigos de sonho que eu admirava na minha tenra idade. Morreu novo. Com a doença da época: tuberculose. Mais abaixo morava a família “Repenica”, não sei se ainda fazia parte do lugar da Bouça.
    O senhor António da “Luzia”, sempre de “Sobretudo pelas costas” e de carabina nas mãos, naquele tempo a sua casa era num lugar ermo, casado em segundas núpcias com a senhora da” Bouça”, – era assim tratada pela maioria das pessoas, tinha uns terrenos de cultivo, e um caseiro que os cultivava. Às vezes ia para ali ver o seu cultivo: o deitar estrume para adubar o terreno, os bois a puxar o arado para este sulcar a terra, o mondar o milho. Tudo isto ainda permanece na minha memória. Passado pouco tempo de eu ali viver, faleceu. Ainda me recordo do seu funeral ser acompanhado por inúmeras pessoas e eu sentado em cima dum muro a ver a sua passagem. Julgo que foi no ano de 1954. Assim, com a sua morte, o lugar da Bouça passou a ter menos um habitante e um idoso.
    Mais retirado mas ainda no lugar da Bouça moravam a senhora Rosalina “Bicha” mãe do Quim “Bicha” falava sempre do outro filho que tinha ido para o Brasil, as saudades eram tantas que a isso a levava, – este (Quim “Bicha”)não tinha sido uma perfeição de filho – nunca mais o viu. A senhora Maria da “Poça” sua inquilina, solteirona, estas senhoras vieram a ser contempladas com a solidariedade dos vizinhos tanto na alimentação como no anseio das suas pessoas e casas. Não tinham ninguém de família para as ajudar. Julgo que nesse tempo havia mais solidariedade.
    Como disse o lugar da Bouça era pobre e isolado mas rico na convivência entre moradores. Não havia luz eléctrica nas casas e via pública. As noites de Inverno eram escuras como breu. Não havia nas imediações cafés e Freamunde nesse tempo era servido pelos dois café Teles, um para ricos outro para pobres e pelo café Popular do Américo “Caixa”. Uns anos mais tarde foi uma proliferação de cafés. Hoje há mais cafés que lugares em Freamunde. A Televisão também passou a ser uma realidade em Portugal e em Freamunde os cafés passaram a adquirir esse aparelho para fazer frente ao progresso porque a partir daí os programas da rádio iam passar a ser preteridos.
    Era jovem mas já um pouco curioso. Os programas de televisão, nesse tempo, começavam ao início da noite. Para os ver – só aos sábados – tinha que pedir autorização aos meus pais e ter a benevolência do empregado do café, julgo que era o Maximino “Candeeiro”, no Café Popular. Delirava com todos os programas. Para mim uma maravilha e não compreendia como uma caixa rectangular podia mostrar pessoas a falar e mover-se.
    O Mundo estava em revolução no que tocava a tecnologia. Havia o cinema mas este era projectado por uma máquina para o pano (ecrã). Como era possível ser apresentado numa caixa rectangular e dar programas em directo. Aproximávamos do ano dois mil e como era corrente dizer o … fim do mundo. Só podia ser isso. Russos e Americanos estavam a destruí-lo. O que queriam mostrar era as suas invenções. Parece que estavam fartos da vida.
    Nesse entretanto o que eu queria ver era os programas que davam na televisão: Rin-tin-tin, Daniel Boone, Bonanza e vários outros. Gostava de todos mas o mais admirado por mim era o Bonanza. O rancho de Ponderosa de Ben Cartwright e de seus filhos, Adam, Hoss e Joe. As horas passavam e animado com tal programação não me lembrava que tinha o retorno para casa. Depois de sair do café Popular e ver como a noite estava escura é que vinha a minha preocupação: sozinho e com um trajecto feio. Tinha na altura uns onze anos. Era ainda uma criança.
    Tinha duas opções. Ir pelo lugar do Calvário ou pelos lugares de Gaia, Boavista e subir a costeira da Bouça. Ambos de difícil acesso. Pelo segundo apanhava parte do trajecto com luz pública mas a costeira da Bouça metia medo e tinha fraca fama. A primeira não tinha luz pública era também um trajecto feio principalmente a partir do lugar do Calvário. Tinha um cruzamento onde depositavam defumadouros, para quem não sabe, uns bruxedos feito por bruxos e que tinham de ser deixados em cruzamentos para dar o efeito desejado pelos seus clientes. O medo já era tanto que nem olhava para trás. Meu pai dizia quando visse esses defumadouros que não era bom olhar para trás, nunca soube qual o motivo, também não olhava com medo de me aparecer a fada, meio mulher meio cavalo.
    Uma coisa sabia que tinha de fazer: a deslocação para casa. Quem me dera a família Cartwright a fazer-me companhia. O tempo que gastei para ver aquele episódio podia ser recompensado com a sua companhia. Prazer era pago com prazer. Eu com o episódio e com a sua companhia para me guardar o medo. Eles iam conhecer o lugar da Bouça. Mas quem queria conhecer tal lugar. Ermo e de idosos.
    Com o progresso e as novas vias de comunicação o lugar da Bouça está totalmente modificado. Os terrenos, antes de cultivo, hoje abandonados, passaram a ser vendidos para a construção civil. Nas bouças, que intermediavam o lugar da Bouça, foi ali construída a Escola EB 2 3 Dr. Manuel Pinto Vasconcelos, pai dos doutores Fernando e José Carlos de Vasconcelos. Hoje parece outro lugar ou como lhe chamam travessa e rua da Bouça. A via pública toda iluminada, as suas bouças desapareceram o que já não amedronta ninguém.
    Deixei de ali morar no ano de mil novecentos e setenta e cinco. Tenho sete irmãos que nasceram ali e o meu pai ali viveu quarenta e dois e a minha mãe quarenta e quatro anos. Dali foram para a sua última morada que não é muito longe. O cemitério nº. 2, de Freamunde, confina com o lugar da Bouça e Talhô.
    Do lugar da Bouça guardo boas recordações. Devido a ser pobre e isolado e ter como lema do lugar em que nasci, – Gandarela – a minha vida tem sido pautada por isso mesmo e reza assim: quem nasceu na Gandarela, por força tem de chorar, o que o destino lhe reserva, é morrer a trabalhar.

  2. Amigo Manuel

    Retiremos a excessiva importância que o dinheiro alcançou e todas as coisas boas do passado reviverão á luz da modernidade.

  3. Caro Manuel Pacheco,

    Não percebo a história no contexto do «post».
    É uma bela história que nos traz dum neo-realismo (de Redol, Pereira Gomes e assim) para um realismo memorativo contemporâneo eivado de memórias ficcionadas (ou não) dum passado intuído/vivido.
    Uma espécie de José Luís Peixoto a falar-nos sobre Galveias mas sem «piercings» nem tatuagens (suponho).
    Um abraço e parabéns pelo texto.

  4. pedro oliveira:
    Tenho vários textos no meu blogue com factos reais vividos por mim e de vez em quando venho ao Aspirina B publicá-los. Aproveito para não os enquadrar com textos escritos pelo Vega, Isabel Moreira e Penélope aos do Val e José do Carmo Francisco, aproveito, quando não vá importunar o seu sentido.
    Fui ao seu Santamargarida, o nome deu-me curiosidade, e vi que realmente era o que supunha. Em 1971 por várias vezes fiz o trajecto da estação de caminho de ferro, julgo ser Constância, até aos quartéis de Santa Margarida, eram vários, estava no CIM (Centro de Instrução Militar) a tirar o chamado “ióó” para ir para Angola.
    Agradeço as palavras de consideração assim como à Sinhã, ao anónimo, jcfrancisco e Horizonte XXI.

  5. Rectifico:
    Em 1971 por várias vezes fiz o trajecto a pé da estação de caminho de ferro, julgo ser Constância, até aos quartéis de Santa Margarida, eram vários, estava no CIM (Centro de Instrução Militar) a tirar o chamado “ióó” para ir para Angola.

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