Esquerda imbecil

Louçã, na voragem de quebrar o PS por dentro, impôs um candidato condenado à derrota contra um farrapo chamado Cavaco. E isto em nome de uma psicadélica esquerda unida da qual se sonha general.

Ao menos, que lhe escrevessem discursos audíveis.

Vinte Linhas 551

Dissertação para um momento no Campo dos Mártires da Pátria

Os miúdos de 1980 continuam no escorrega e nos baloiços. O trânsito mudou, os números dos autocarros são outros mas o grupo de miúdos da creche do Hospital Miguel Bombarda não se alterou. Continuam a brincar com a mesma persistência de um pedreiro, de um carpinteiro, de um electricista. Para eles brincar é um trabalho, um ofício, um destino. Procuro o teu olhar mas não estás neste preciso momento. Foste beber água num instante ao outro lado do parque mas ficou a Emília a tomar conta dos meninos todos. Cheguei no eléctrico que vem do Cais do Sodré e passa na Rua Rodrigo da Fonseca; percebi logo que não estavas.

Tal como em 1973, procurava nas linhas do teu olhar a força do sol e o iodo das praias do Oeste, o perfume das maçãs e o peso do mosto das vindimas recentes. Estamos em Setembro, no tempo das colheitas e das ofertas no santuário da Senhora do Monte. Durante a noite a tua mãe continua a fazer luvas e passa-montanhas, a loja da Rua do Ouro não pára com as encomendas. Os teus sobrinhos estão todos na fotografia da eira, a meio caminho entre o santuário e o rio. Entre as orações e as águas. No intervalo feliz do tempo suspenso à volta dos tios que não páram de sorrir.

Os miúdos de 1980, com o Gamito à frente, continuam no escorrega e nos baloiços. O teu olhar ilumina este lado do jardim do Campo dos Mártires da Pátria. Ao fundo as ambulâncias choram as urgências das vidas em perigo. Aos poucos deixam de se ouvir, lá para os lados do Marquês de Pombal, perdidos no trânsito da cidade. Tu continuas. Nunca saíste deste momento entre crianças no jardim do Campo dos Mártires da Pátria.

Ou pode?

Em mais um acto de assassinato de carácter, agora atingindo Edite Estrela, o Correio da Manhã publicou suposto material recolhido judicialmente nas escutas a Vara, o qual não tem qualquer relevância legal. Acontece que também não tem qualquer relevância política, isto se aceitarmos que a política em Portugal ainda não se faz a partir de escutas, particularmente aquelas que são patrocinadas pelo Estado. Que resta para justificar a infâmia e o terrorismo cívico?

Não há mais nada a não ser uma colectiva impunidade para o crime, desde os jornalistas que assinam estes serviços até aos directores e administradores do jornal. O envio do material – a ser verdadeiro e a ter sido fielmente registado e copiado – e a sua publicação correspondem a uma repulsiva violação dos direitos dos envolvidos, com imediatos prejuízos de impossível contabilidade. É pior, muito pior, do que o roubo de bens materiais ou a sua destruição. E o modo como estes casos se repetem, de acordo com calendários que têm impacto político, só é possível por existir da parte do aparelho judicial – e do Ministério Público – uma qualquer cumplicidade, conivência ou passividade que leva ao sentimento de absoluta protecção para todos os bandidos, dos mentores aos executantes.

Mas o supremo horror da merenda estava guardado para o DN, o qual também quis chafurdar no espectáculo de violência que os pulhas tinham montado. A peça bate no fundo, porque deste secular jornal esperamos um qualquer fundo, não o abismo onde vale tudo. E coloca-se inevitavelmente um problema que atinge os colunistas dessa outrora instituição de referência, pois não se pode servir a dois senhores.

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Um bravo para o Pedro Marques Lopes.

Vinte Linhas 280

O quarto de João Garcia

O quarto de João Garcia fica aqui no primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa, a mesma rua onde nasceu Camilo Castelo Branco. Escrevo e digo fica porque embora João Garcia já não viva naqueles metros quadrados nem já espere cartas de Margarida ao domingo (naquele tempo havia correio ao domingo…) a verdade é que está tudo na mesma como quando Vitorino Nemésio por aqui passou entre 1919 e 1921, entre a vida militar nas Janelas Verdes e as reportagens no jornal A Pátria. A capelista da Rua da Rosa nº 200 que entra no romance «Mau tempo no canal» na página em que se recorda a criadita que deixou molhar o jornal quando veio da capelista, pois a capelista também continua. Hoje já não vende só jornais, figurinos, cadernos, agulhas e carrinhos de linha mas relógios, bonecos, perfumes, brinquedos, bilhetes-postais e CDs. Isto além de ter uma máquina de fotocópias. Mudou de dono por trespasse e hoje tem ao balcão um simpático senhor indiano que regista as lotarias, as raspadinhas e o euro milhões. Os gatos do tempo de João Garcia, quando o jovem militar açoriano subia do Rossio cheio de cafés onde os boatos escaldavam tanto como a bica, os gatos deram lugar aos cães. O peixe frito que João Garcia via sempre nas portas da Rua da Atalaia desapareceu para sempre.

À noite, quando regresso a casa pelo Elevador da Glória e entro no Bairro Alto por aquele lado, olho sempre para o primeiro andar do nº 204 da Rua da Rosa. Então se está nevoeiro e choveu de mansinho ou se ouvi nesse dia um CD de Hélio Beirão com músicas da viola da terra, fico com a quase certeza que João Garcia continua ali no seu quarto à espera de uma carta de Margarida.

Um livro por semana 203

«Contos da sétima esfera» de Mário de Carvalho

Esta é a terceira edição do primeiro livro (1981) do autor do muito premiado «Um Deus passeando pela brisa da tarde». O que torna o conjunto mais especial, além do português sólido, escorreito e fascinante de Mário de Carvalho são as ilustrações de António Jorge Gonçalves, no seu traço inconfundível, sublinhando alguns aspectos da narrativa, numa espécie de contraponto a azul.

O título geral surge no conto «O emprego» quando um homem conta a sua história a outros dois: «Aqui, um belo dia, veio-me a ideia de criar uma nova religião. Os tempos eram de grande incerteza e desespero e bem me parecia que as pessoas estavam precisadas disso. Assim, considerei que a natureza de Deus era séptima: o espírito, a alma e o mane, o pai e o filho, o cordeiro e a pomba. Com isto, fui pregar para os parques da cidade. Demonstrei com passagens de escrituras inventadas e de livros secretos que os eleitos seriam os mais próximos da compreensão da natureza de Deus e que havia sete graus de expiação, extensos e dolorosos, mas nenhum deles irremediável ou definitivo. Comprei com as esmolas que me deram uma tenda e bancadas desmontáveis. Em pouco, tinha o suficiente para pagar discípulos e sacerdotes. Multidões procuravam-me. Não tardei a construir um pequeno templo, de tijolos vidrados de azul, e a inventar orações novas, implorando à natureza única e séptima de Deus e às sete legiões de arcanjos das sete cores».

O fim e a moral da história só lendo o livro. Mas vale a pena.

(Editora: Caminho, Ilustrações: António Jorge Gonçalves, Foto: José Carlos Aleixo)

Vinte Linhas 550

Uma memória das «Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Quando morre um poeta (só no registo civil) há quem escreva palavras de circunstância, há quem apareça no funeral para ser visto, há quem se remeta ao silêncio. Neste breve espaço quero recordar Mário Machado Fraião, hoje (10-11-2010) sepultado na sua amada Costa do Sol e, lembrando as suas conversas ao telefone todos os domingos, perceber que esses telefonemas me vão fazer muita falta. A minha ligação ao «Quarto Crescente» e ao «Vento Norte» desde 1982 fazia de mim, aos seus olhos, um açoriano honorífico.

Continuar a lerVinte Linhas 550

Do camandro

Volunteering Can Benefit Those With Functional Limitations, Study Finds

Neste artigo descreve-se um estudo onde se mediu o efeito do trabalho voluntário em idosos com problemas de saúde incapacitantes. Resultado: trabalhar dá saúde, e os doentes que o digam.

Mas se a proverbial evidência se aplica neste caso extremo, igualmente terá aplicação no enorme, crescente, grupo de adultos reformados que estão cognitiva e fisicamente em condições de trabalhar com níveis de eficácia próximos ou iguais, nalguns casos melhores, aos dos trabalhadores não reformados. Por maioria de razão, uma crise económica que leva a cortes drásticos em vários serviços sociais oferece a oportunidade perfeita para ir buscar o contributo voluntário de milhares de cidadãos que encontrarão no trabalho voluntário uma fonte de saúde e alegria – de sentimento de utilidade, importância, pertença.

Quanto vale essa massa laboral para a economia e para a qualidade de vida da comunidade (a qual volta a ter implicações económicas positivas)? Se alguém fizer as contas, vai aparecer um valor do camandro.

Um livro por semana 202

«O crime em 21 lições – Antologia do conto policial inglês e americano»

Fernando Fausto de Almeida seleccionou e prefaciou este conjunto de 21 contos policiais traduzidos por Luís Varela Pinto. Os 19 autores são os seguintes: Edgar Allan Poe, Arthur Conan Doyle, G.K. Chesterton, Jacques Futrelle, Frederick Irving Anderson, Thomas Burke, Roy Vickers, Agatha Christie, Anthony Berkeley, Dashiel Hammet, Cornell Woolrich, Helen McCloy, Carter Dickson, Roald Dahl, Stanley Ellin, P.D. James, ED Mcbaine, Edward D. Hock e Ruth Rendel.

Esta escolha é coincidente com a opinião de Jorge Luís Borges, autor de La muerte y la brújula, que em 1979 afirmou: «Esqueceu-se a origem intelectual da narrativa policial. Esta ainda se mantém na Inglaterra onde ainda se escrevem romances muito tranquilos». Como convite à leitura fica um excerto de Borrego para o jantar de Roald Dahl (1916-1990). Mary Maloney esperava o marido mas não esperava a anúncio de um divórcio estando ela grávida de seis meses: Eu sei que não é uma boa altura para te estar a contar isto mas é que eu simplesmente não tinha outro remédio. Claro que te vou dar dinheiro e tratar de tudo para que fiques bem. Mas acho que não será preciso fazer muito barulho sobre isto. Espero bem que não. Não seria bom para o meu trabalho. Mary bateu com a perna de borrego na cabeça do polícia que achava uma vergonha continuar a andar todo o dia a pé depois de ter atingido uma categoria superior. Foi o mesmo que bater-lhe na cabeça com um taco de aço.

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Chuva de dardos

O nosso amigo Eduardo Pitta aproveitou o pretexto do Prémio Dardos para fazer uma cúmplice e amistosa provocação à blogosfera política, reunindo 10 bad boys (sim, estou a incluir as duas meninas na categoria) irredutíveis e irrecuperáveis. Claro que poderia ter posto 20, ou 200, mas os mandamentos sagrados do Prémio não o permitiam [not]. O que não poderia ter feito era deixar de fora o nosso amado maradona, o qual se vingou fazendo cair fogo nominalista sobre a vexata quaestio da liberdade. Creio que o Prémio Dardos (e quem foi o bacano que inventou a coisa, já agora?), levando a polémicas deste calibre académico, está a caminho de se tornar numa instituição com direito a cerimónia no espaço encantador que descobri ontem à noite, na divertidíssima entrega dos Prémios Neurónio: Teatro da Luz. Uma pérola com as dimensões exactas para bloggers ufanos e seus dardos marotos.

O nosso amigo Luís Novaes Tito também aproveitou o Prémio para elencar um conjunto de escribas sem denominador comum para além de um qualquer je ne sais quoi que lhe cai no goto. A lista é surpreendente e ecléctica, sendo antecedida de uma contextualizadora explicação: o Luís não precisa de concordar para apreciar. Durante muitos séculos, esta virtude teve nome – grandeza de alma. Hoje em dia, não sei bem como se nomeia.

O nosso amigo T. Mike meteu o Aspirina B em excelente companhia. Assim se vê o que é a misericórdia.

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Estas escolhas não interessam tanto pelos blogues escolhidos, interessam mais é pelo que dão a conhecer de quem os escolheu. É esse o alvo onde os dardos acertam em cheio.

Na quadra dos bacanais

Este homem, para além de se chamar Jofre de Lima Monteiro Alves, o que chega para nos levar a puxar uma cadeira e ficar à espera que faça revelações de arrebimbomalho, tem um facies telúrico e arcano. É o rosto do português de antanho, novecentista, como já não há por ter morrido o fabricante.

Hoje é o dia ideal para conhecermos a sua republicana prosa e mergulharmos nesta alegria de estarmos uns com os outros, celebrando a generosidade à castanhada.