Ana Gomes respondeu à Fernanda de uma forma surpreendente, de tão crua e indefensável: admitindo a publicação de escutas – e, pasme-se, ao arrepio da legalidade ou moralidade na sua obtenção, conservação e divulgação – desde que o conteúdo o justifique segundo o seu, da Ana, subjectivo critério de avaliação. Isto corresponde à assunção do tribalismo como matriz do Estado, servindo para apaixonantes exercícios de imaginação acerca da vida comunitária em tal regime, mas não passa de mais um dano causado pela infâmia do CM, primeiro, e do DN, depois. Na tréplica, leva uma implacável coça da Fernanda.
Entretanto, agora sem surpresa, a questão polarizou e volatilizou opiniões. Dando dois exemplos que me convocam, Alda Telles e José Albergaria, a que se juntam os comentários na casa, constata-se como não se resiste aos efeitos da exposição não autorizada da privacidade. Trata-se de um tipo de violência que gera mais violência, e a mais trágica: a das vítimas contra as vítimas. Porque por mais que preferíssemos outro tipo de respostas da Ana Gomes, ou de qualquer outro metido na berlinda, a puta da verdade é a de que ela não pediu para ser interrogada, nem foi ela que ordenou a publicação fosse do que fosse. A Ana vê-se apanhada numa teia da qual não pode escapar, a teia do seu psiquismo, onde qualquer movimento seu só a imobiliza ainda mais na mesma posição afectiva, de mágoa narcísica. À sua volta acontece precisamente o mesmo, como se viu. A violência torna-se contagiante e imparável, mesmo que invisível e silenciosa. Eis a potência dos ataques de carácter feitos através da violação da privacidade, valendo tanto para figuras públicas de sólida e louvável biografia como para a minha vizinha do 4º andar. Se um boato pode chegar para se perder a confiança em alguém, mesmo que racionalmente nada o torne sequer verosímil, uma escuta que se diz obtida judicialmente não tem defesa possível, é imediatamente aceite como facto consumado. E este particular aspecto, o de estarmos perante conteúdos privados que são obtidos pelo Estado no âmbito judicial, obriga a reordenar as prioridades com todas as forças que restarem depois de sermos atingidos: face ao terrorismo jornalístico, seja ele de origem política ou propósito mercantil, temos de começar por proteger as vítimas – e, nalguns casos, de si próprias. Ora, as vítimas somos todos nós, os cidadãos.
Garcia Pereira tem aqui, indubitavelmente, o mais decidido, e eloquente, toque a rebate que já se fez em Portugal para quem estiver disposto a mostrar aos pulhas que esta merda não é toda deles.