O retrato de Nuno Gray

Há uns meses, fiquei meio abalado com o intempestivo azeviche que substituía o glorioso prateado da sua melena. Foi negritude de pouca dura. Agora, como se pode aferir pela entrevista abaixo, aposto singelo contra dobrado como Nuno Rogeiro foi ao Botox e gostou do resultado. Do seu rosto desapareceram as marcas da finitude e do sofrimento de carregar com a sapiência que lhe permite explicar detalhadamente qualquer acontecimento dos últimos 3,7 mil milhões de anos, a que acresce a capacidade de prever acontecimentos para igual, ou superior, extensão temporal.

Faz ele muito bem, sintonizado com esta tendência: os 50 são os novos 30, ou mesmo 25, 22 e tal.

Enfrentar (enfeitando) a crise

A nossa amiga Sofia Loureiro dos Santos lançou-nos este divertido isco:

E porque não um desafio a blogues e bloguistas para puxarem pela imaginação e partilharem uma ideia natalícia bem poupada e adaptada à austeridade mais espartana? Vale tudo: desde ideias para prendas a orçamento reduzido a decorações sem gastar dinheiro, passando por ceias saudáveis, saborosas e em conta.

Não podia vir mais a calhar, pois tenho uma saca cheia de ideias espartanas, umas, atenienses, outras, e ainda troianas, as restantes. Mas deixo só esta:

– Apagar as luzes de Natal, privadas e públicas, até ao dia 23 de Dezembro. O efeito de só as acender no dia 24 criará um crescendo de expectativa igual ao de quem espera pelo início de um fogo-de-artifício. Pelo meio, poupa-se dinheiro e não se satura a paisagem com esta hipocrisia de se começar a celebrar a quadra com mais de 1 mês de antecedência.

Um livro por semana 206

«Percurso de um sonhador» de João Luís Pereira Maurício

O padre Fernando Maurício (1928-1963) foi um sonhador que morreu muito novo num acidente rodoviário com apenas 35 anos. Nasceu na Benedita; seu pai foi João Maurício natural de Santa Catarina e sua mãe Isabel Bernardina, natural da Ribafria. Conheceram-se na apanha da azeitona em Turquel. Ordenado sacerdote na Sé de Lisboa em 29-6-1952, festejou a Missa Nova em 13-7-1952 na Benedita. Foi amigo do padre Felicidade Alves com quem teve longas conversas sobre a Igreja em Portugal. Esteve na capital italiana entre 1953 e 1955 enviado pelo cardeal Cerejeira apesar de Salazar advertir «os padres que vão a Roma voltam de lá com uma vontade louca de mexer na política». Visitou vários países: Alemanha, Inglaterra, Áustria, Espanha e França.

Em 2-2-1962 fixou-se em Alcácer do Sal no santuário do Senhor dos Mártires onde, com o seu Instituto Regnum Dei constatou que era preciso «retomar a ideia de missão» pois «a Igreja perdera a classe operária». A experiência durou até 1970 e sobre ela afirmou o padre António Marcelino: «É possível questionar as ideias do Pe. Fernando Maurício mas não é possível pôr em causa o seu grande amor à Igreja».

Precursor de alguns aspectos do Vaticano II, tinha a ideia de ver os alunos dos seminários, findos os cursos, colocados como auxiliares dos párocos em sistema rotativo, primeiro em Lisboa, depois numa vila e, por fim, no meio rural. Só após esse estágio tomariam a decisão de serem ordenados».

Mas não teve tempo. Morreu quando ia buscar flores para uma celebração eucarística.

(Edição do Autor, Capa: Maria Augusta Sousa, Notas de contracapa: D. Serafim Ferreira e Silva, D. António Marcelino, Dr. Almerindo Lessa)

Rage, rage against the dying of the light

Ana Gomes respondeu à Fernanda de uma forma surpreendente, de tão crua e indefensável: admitindo a publicação de escutas – e, pasme-se, ao arrepio da legalidade ou moralidade na sua obtenção, conservação e divulgação – desde que o conteúdo o justifique segundo o seu, da Ana, subjectivo critério de avaliação. Isto corresponde à assunção do tribalismo como matriz do Estado, servindo para apaixonantes exercícios de imaginação acerca da vida comunitária em tal regime, mas não passa de mais um dano causado pela infâmia do CM, primeiro, e do DN, depois. Na tréplica, leva uma implacável coça da Fernanda.

Entretanto, agora sem surpresa, a questão polarizou e volatilizou opiniões. Dando dois exemplos que me convocam, Alda Telles e José Albergaria, a que se juntam os comentários na casa, constata-se como não se resiste aos efeitos da exposição não autorizada da privacidade. Trata-se de um tipo de violência que gera mais violência, e a mais trágica: a das vítimas contra as vítimas. Porque por mais que preferíssemos outro tipo de respostas da Ana Gomes, ou de qualquer outro metido na berlinda, a puta da verdade é a de que ela não pediu para ser interrogada, nem foi ela que ordenou a publicação fosse do que fosse. A Ana vê-se apanhada numa teia da qual não pode escapar, a teia do seu psiquismo, onde qualquer movimento seu só a imobiliza ainda mais na mesma posição afectiva, de mágoa narcísica. À sua volta acontece precisamente o mesmo, como se viu. A violência torna-se contagiante e imparável, mesmo que invisível e silenciosa. Eis a potência dos ataques de carácter feitos através da violação da privacidade, valendo tanto para figuras públicas de sólida e louvável biografia como para a minha vizinha do 4º andar. Se um boato pode chegar para se perder a confiança em alguém, mesmo que racionalmente nada o torne sequer verosímil, uma escuta que se diz obtida judicialmente não tem defesa possível, é imediatamente aceite como facto consumado. E este particular aspecto, o de estarmos perante conteúdos privados que são obtidos pelo Estado no âmbito judicial, obriga a reordenar as prioridades com todas as forças que restarem depois de sermos atingidos: face ao terrorismo jornalístico, seja ele de origem política ou propósito mercantil, temos de começar por proteger as vítimas – e, nalguns casos, de si próprias. Ora, as vítimas somos todos nós, os cidadãos.

Garcia Pereira tem aqui, indubitavelmente, o mais decidido, e eloquente, toque a rebate que já se fez em Portugal para quem estiver disposto a mostrar aos pulhas que esta merda não é toda deles.

Sinais de longa duração

Isto está de cortar à faca. É um pouco inevitável com a conjugação de três coisas em sequência: um pano de fundo de crise económica e social grave, que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, e, como na política não há alternativas, tudo desagua num ambiente pastoso, irritado e sem esperança. Hoje, num supermercado, um homem disse-me: “vai haver uma explosão”. Sei lá, alguma coisa vai haver. Não menosprezem os sinais.

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Dardo de Ouro

Em Janeiro deste ano, expressei a minha resolução em levar o nosso amigo Manuel Pacheco a tornar-se blogger. De imediato me esforcei em não mexer uma palha nesse sentido, entregando aos deuses da blogosfera a responsabilidade de tratar do caso. Em Julho, deu-se o divino parto: Coisas que podem acontecer

Agora, um dos portugueses que me enche de orgulho por ser meu patrício, Osvaldo de Castro, teve a graça de nomear o novíssimo blogue na sua escolha para o Prémio Dardos. É uma merecida, e instantânea, consagração.

A história do nosso amigo Manuel Pacheco, interessado em aprender e dominar as novas tecnologias de comunicação, vencendo as naturais inseguranças da exposição pública, ganhando calo na desvairada e selvagem interacção no meio digital, é a prova de que podemos ser um país de jovens. Tenham eles a idade que tiverem.

Um livro por semana 205

«Henrique Mota – Atleta, Treinador, Dirigente e Escritor Almadense»

A chamada história local está na ordem do dia pois cada vez mais as comunidades percebem ter o direito ao conhecimento da sua história. No caso de Henrique Mota (1920-2001), trata-se de recuperar a memória do atleta, treinador, dirigente e autor dos quatro volumes da série «Desportistas Almadenses», dos «Contos Desportivos», das memórias «Memorando» e «Personalidades Cacilhenses» além de «Ginásio do Sul – 75 anos de glória». A sua obra tornou-se uma indispensável enciclopédia desportiva do concelho de Almada porque, segundo Romeu Correia, «sem este curioso e oportuno trabalho corríamos o risco de não sabermos no futuro o que foi a prática desportiva em Almada e até as modalidades praticadas por alguns dos seus mais destacados atletas».

Nascido em Mafra mas radicado em Almada, Henrique Mota, a par do atletismo, também jogou futebol, rugby e voleibol no Ginásio Clube do Sul onde se tornou presidente da Direcção em 1949 com apenas 28 anos de idade. Em 1994 foi um dos fundadores da SCALA – Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada. Completam o livro os contos premiados no concurso literário Henrique Mota, dos autores Cláudia Guerreiro Martins, José Luís Tavares, Luís Alves Milheiro, Artur Vaz, Henrique Costa Mota, Jorge Gomes Fernandes, Jorge Moreira da Silva e José Nogueira Pardal.

(Edição: SCALA, Apoio: C. M. Almada/Ginásio Clube do Sul, Coordenação: Luís Alves Milheiro, Prefácio: Fernando Barão, Revisão: Diamantino Lourenço)

Vinte Linhas 554

Conversa de autocarro ou «isto anda tudo ligado» de Eduardo Guerra Carneiro

Venho agora da Rua do Salitre, fui marcar uma consulta para o meu cunhado nos Diabéticos mas só para o fim de Fevereiro do ano que vem. A minha sobrinha, a que está à espera de bebé para Abril, soube hoje que é outro rapaz. Tá conformada, gostava que fosse uma menina mas a ecografia não admite dúvidas. Pronto, que venha perfeitinho, é o importante. Quando nasceu a minha sobrinha mais nova em 1985 a senhora da cama ao lado da minha cunhada passou a noite a suspirar pelo menino, metia dó, parecia drogada e foi a minha cunhada que lhe deu de mamar algumas vezes. A filha dessa senhora, muito querida, aí com uns oito anos, dizia que a menina tinha três mães: a mãe do Céu, a mãe e a senhora da cama ao lado. Mas veja lá a minha cunhada andava desorientada com umas saloias que a enganaram. Vieram com falinhas mansas, exigiram a Internet em casa, ela gastou algum dinheiro com isso e foram-se embora sem pagar a factura. Agora está lá a box às moscas. Abalaram porque receberam uma bolsa de estudo mas não avisaram que estavam à espera. Se fosse assim não deviam ter insistido com a Internet. Isto é uma maneira de falar. Aquilo é gente com dinheiro mas elas recebem bolsa de estudo; portanto penso eu que o dinheiro que falta para os Diabéticos é o mesmo que está a mais nas bolsas de estudo das saloias. Saloias somos nós, vizinha. Agora ela já está a bordar fraldas e babetes em azul. Distrai-se mas não se esquece. Isto anda tudo ligado – dizia o poeta que morava aqui ao Príncipe Real. O Orçamento Geral do Estado é o mesmo. Já a minha sobrinha mais nova tinha um colega com bolsa de estudo que era o único a usar automóvel. Isto é uma maneira de falar.

Do not go gentle into that good night

Fernanda Câncio, no DN, dá-nos mais um exemplo da sua independência e afirmação profissional, agora acusando o próprio jornal onde trabalha de ter tido uma prática que ofende a decência mínima necessária à vida em comunidade e ao funcionamento das instituições políticas democráticas. É, até à hora em que escrevo e se nada me escapou, a singular voz nesse órgão de imprensa a dizer o óbvio e o necessário. Nem sequer o director, na sua coluna ou em nota de rodapé aos editoriais diários, gastou meio caracter com o assunto. Derrelicção de quase todos os que aí exercem funções de responsabilidade deontológica, alienação ou cobardia que nos estigmatiza como sociedade – e ainda mais forte o aplauso para a Fernanda, portanto.

Mas há um ponto onde ela não tem razão, falha também cometida pelo Pedro Marques Lopes e Pedro Adão e Silva, pelo menos. Ao se causticar a reacção de Ana Gomes, e outros, registada no contexto de uma provocação insidiosa, estamos a deixar que as emoções nos façam ainda mais mal do que aquele que o acontecimento inicial já fez. Os risos dos que foram apanhados pelo jornalista do DN, que nos começam por aparecer como chocante legitimação da perfídia, podem não passar de respostas defensivas ou expressões de ansiedade e desorientação. O que muito provavelmente não são é o resultado de uma demorada reflexão acerca do conúbio entre uma Justiça inimputável e um jornalismo imprestável. Ana Gomes também é vítima, directa, da pulhice feita a Edite Estrela e Armando Vara. Exigir-lhe seráfica imperturbabilidade e discernimento em matéria desta toxicidade afectiva, e no instante em que é confrontada a frio (ou a quente), talvez seja excesso de zelo.

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Vinte Linhas 553

Memórias de Irene Lisboa em Arruda dos Vinhos

No sábado passado fui a Arruda dos Vinhos integrado no Grupo da Associação Cultural Aldraba. Recebidos por Paulo Câmara, o homem da cultura no Município local, tivemos nele um cicerone qualificado na visita à Igreja Matriz. Mostrou tudo além do portal manuelino e lembrou a mão em falta (da imagem da padroeira) que foi para a Índia com um dos governadores-gerais, natural destas terras. Seguiu-se um passeio pelas ruas estreitas do centro urbano, escolas, casas, lagares de azeite desactivados, muros e pedras envelhecidas, silenciosas e anónimas. Depois fomos à Biblioteca Municipal de Arruda e almoçámos muito bem no restaurante Nazareth. Muito boa comida e excelente cenário. Seguiu-se a visita à Adega Cooperativa de Arruda onde provámos um magnífico vinha abafado. Mas no regresso a Lisboa pela nova auto-estrada vim sempre a pensar no livro «Esta cidade!» de Irene Lisboa, autora nascida no concelho de Arruda no ano de 1892. Há a edição moderna da Presença mas tenho à mão as palavras da página 35 desta edição de 1942: «Neste meio tempo veio ao mundo o terceiro neto da Adelina. A mãe tinha estado tão mal do último desmancho que teve medo e deixou ir para a frente esta barriga. Foi um rapaz e o pai que já tinha duas raparigas ficou todo contente. Quando a Adelina foi a minha casa deu-me parte destes casos e disse-me que o genro queria agora receber a sua Isilda; como ele era desvorciada…e que depois iam à terra. Parece que os bimbos dão lá muita importância a estas coisas! E acrescentou: a mim serviu-me de muito ser arrecebida… Fiquei com uma filha nos braços e um tostão na gaveta da cozinha. Nunca mais me hei-de esquecer! Nem mais um real».

Mundialização

Em pouco mais de 1 mês, Sócrates decidiu entrar no Conselho de Segurança do Mundo, trouxe o homem mais poderoso do Mundo a Portugal para lhe sacar o dinheirinho, chamou o segundo homem mais poderoso do Mundo só para lhe ouvir elogios do outro mundo, explicou à Nato como é que se mantém a paz neste novo mundo e ainda teve tempo para ordenar à Selecção que toureasse os Campeões do Mundo.

Vinte Linhas 552

Rouslam Botiev no Palácio da Independência até 30 de Novembro

O cavaleiro da Mongólia voltou. Nasceu em 5-5-1963, estudou filologia, escultura e pintura em Rostov e S. Petersburg mas vive em Portugal desde 2002. Habituei-me a vê-lo aos domingos de manhã com os seus pequenos desenhos em aguarela debaixo da sombra do elevador de Santa Justa. Mais tarde passou para a basílica dos Mártires. Quando chovia tapava os trabalhos com sacos de plástico. Aprendi a vê-lo e a respeitá-lo. Não por acaso a nossa saudação passou a ser «Bom dia Portugal!», título de um dos seus quadros quando olhava Lisboa do comboio da ponte.

Hoje é com alguma emoção que percorro o espaço povoado pelas suas 21 aguarelas no Palácio da Independência, ali ao Rossio. Abre a exposição com quatro figuras de religiosos: dois monges (Beneditino e de Cister) e dois frades (Dominicano e Franciscano). Segue-se uma viagem de Norte a Sul pela paisagem religiosa portuguesa: Tibães, Felgueiras, Coimbra, Tomar, Fátima, Alcobaça, Batalha, Mafra, Lisboa, Évora. O mesmo é dizer um outro olhar sobre monumentos e casas consagradas que, de tanto por elas passarmos, quase cristalizaram numa imagem desbotada. Rouslam Botiev dá-lhe nova luz, novos aspectos, reais embora inesperados. Seja a Cartuxa de Évora ou seja o convento de Mafra, sejam as ruínas do Carmo ou seja a Igreja de Santa Cruz em Coimbra. Seja ainda o Convento de Cristo ou o Mosteiro de Alcobaça. Mesmo as paisagens mais familiares como, por exemplo, o Colégio do Espírito Santo, actual Universidade de Évora, surgem sempre numa perspectiva inovadora e diferente. Fica a sugestão de convite (não percam!) e uma saudação ao pintor («Bom dia Portugal!).

Apotegmas da quinta

A divisão entre esquerda e direita é confusa sem essoutra, muito mais distintiva, entre conservadores e reformadores. Porque há conservadores à direita e à esquerda, reformadores de esquerda e de direita. O PCP é conservador, Sá Carneiro era reformador.

O centro é o lugar da união entre o que vale a pena conservar e o que precisamos de reformar.

Toda a governação é feita ao centro, gerando novas esquerdas e direitas sucessiva e inevitavelmente.

O Poder. Quem o tem quer conservá-lo, quem não o tem quer obtê-lo através de reformas. O Poder está sempre circunscrito. Não há poderes infinitos, nem sequer ilimitados – nem sequer na imaginação.

A direita é pessimista porque sabe a História quase toda. Quase.

Donde vem o culto da erudição balofa, maníaca, que se vê em tanto revolucionário pançudo e pinga-amor? Daqui: na origem, o marxismo é uma aristocracia sem aristocratas. Não tem títulos, mas abundam os titulares.

Isto é fundamental. Isto é simples.

Tempos perigosos

Uma Selecção com Rui Patrício na baliza e Postiga no ataque, treinada por Paulo Bento, ganha por 4-0 ao Campeão do Mundo e Campeão da Europa. Temor e tremor.

Mas calma, calma… A Nato foi rápida a reagir e já marcou uma cimeira para discutir esta ameaça à estabilidade internacional, aqui para Lisboa mesmo. Começa na sexta, porque não há tempo a perder.

Um livro por semana 204

«A escola do paraíso» de José Rodrigues Miguéis

O ponto de partida é a nostalgia: «Não se pode ter nascido ali, viver a ver chegar e partir navios todos os dias, com um rasto de lágrimas e o esvoaçar de adeuses no azul, nem ouvir noite e dia estas vozes, sem ficar impregnado de irremediável nostalgia». O ponto de chegada é a «Escola do Paraíso», ela-mesma mas também a metáfora do Mundo e da Vida: «Por extraordinário que pareça, o Paraíso existe e está ao nosso alcance: ao cimo da Calçada, quase no encontro de três ruas, mas recolhido e ausente». O autor constrói um mundo à parte, um intervalo entre sonho e realidade, entre família e cidade, entre Galiza e Lisboa: «Lisboa, para aqueles imigrantes, era a vida nocturna e subterrânea, o trabalho forçado, a mina; e a Galiza, o mundo azul e verde da esperança e redenção, da abastança e repouso. A conversa arrastou-se sobre os eternos temas – capitais, juros, conversões, câmbios, ágios, inscrições, vacas, pinheiros, lameiros, canastros, contas em papelinhos inverosímeis, amarrotados…» De vez em quando a narrativa pergunta («Como é que o tempo passa tão depressa?»), volta a perguntar («Como é possível a gente viver e depois esquecer assim tudo?») para, no fim, concluir: «Entre o sonho e a realidade quotidiana não existe laço algum». Entre a paisagem e o povoamento, o autor escolhe: «No meio disto tudo, o que realmente nos interessa são as pessoas». À porta do Coliseu, afirma: «Há no Circo, como no Amor, uma tristeza de impossível.» No ponto alto da metáfora, a despedida: «Que tristeza a duma escola abandonada! Os meninos foram-se todos embora. E o Paraíso vai ficando para trás, no cimo da Calçada empinada, cabo da memória para sempre dobrado e oculto».

(Editora: Estúdios Cor, Capa: Manuel Correia)

E mais valia estares calado

A crise, sim. E a pobreza, pois. Os políticos que não prestam, claro. E a legião de trafulhas, javardos, moinas e pilha-galinhas que nos oprimem e esmagam sem terem de mexer uma palha, basta aparecerem nas nossas desculpas. Mas história continua a mesma, exactamente igual há uns bons, excelentes, milhares de anos: saber é poder.

Se dizes que não podes, não sabes o que dizes.