Vinte Linhas 551

Dissertação para um momento no Campo dos Mártires da Pátria

Os miúdos de 1980 continuam no escorrega e nos baloiços. O trânsito mudou, os números dos autocarros são outros mas o grupo de miúdos da creche do Hospital Miguel Bombarda não se alterou. Continuam a brincar com a mesma persistência de um pedreiro, de um carpinteiro, de um electricista. Para eles brincar é um trabalho, um ofício, um destino. Procuro o teu olhar mas não estás neste preciso momento. Foste beber água num instante ao outro lado do parque mas ficou a Emília a tomar conta dos meninos todos. Cheguei no eléctrico que vem do Cais do Sodré e passa na Rua Rodrigo da Fonseca; percebi logo que não estavas.

Tal como em 1973, procurava nas linhas do teu olhar a força do sol e o iodo das praias do Oeste, o perfume das maçãs e o peso do mosto das vindimas recentes. Estamos em Setembro, no tempo das colheitas e das ofertas no santuário da Senhora do Monte. Durante a noite a tua mãe continua a fazer luvas e passa-montanhas, a loja da Rua do Ouro não pára com as encomendas. Os teus sobrinhos estão todos na fotografia da eira, a meio caminho entre o santuário e o rio. Entre as orações e as águas. No intervalo feliz do tempo suspenso à volta dos tios que não páram de sorrir.

Os miúdos de 1980, com o Gamito à frente, continuam no escorrega e nos baloiços. O teu olhar ilumina este lado do jardim do Campo dos Mártires da Pátria. Ao fundo as ambulâncias choram as urgências das vidas em perigo. Aos poucos deixam de se ouvir, lá para os lados do Marquês de Pombal, perdidos no trânsito da cidade. Tu continuas. Nunca saíste deste momento entre crianças no jardim do Campo dos Mártires da Pátria.

3 thoughts on “Vinte Linhas 551”

  1. A escrita, em computador, ás vezes tem destas coisas !
    De manhã, disse aqui da poesia enorme da sua prosa, ritmada como versos e da memória que o lugar me evoca, de Lina, vinte anos antes, em noite quente, estavam as crianças no sonho.
    Perdeu-se, poeta. Refaço-a, agora, para dizer o mesmo, à noite e a Lina.
    Obrigado pela memória
    Jnascomento

  2. Fui eu que perdi o que escrevi de manhã, não sei em qual das teclas do meu computador.
    Não se assuste, JCF, que o essencial está lá em cima.
    Um abraço
    Jnascimento

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