Um livro por semana 203

«Contos da sétima esfera» de Mário de Carvalho

Esta é a terceira edição do primeiro livro (1981) do autor do muito premiado «Um Deus passeando pela brisa da tarde». O que torna o conjunto mais especial, além do português sólido, escorreito e fascinante de Mário de Carvalho são as ilustrações de António Jorge Gonçalves, no seu traço inconfundível, sublinhando alguns aspectos da narrativa, numa espécie de contraponto a azul.

O título geral surge no conto «O emprego» quando um homem conta a sua história a outros dois: «Aqui, um belo dia, veio-me a ideia de criar uma nova religião. Os tempos eram de grande incerteza e desespero e bem me parecia que as pessoas estavam precisadas disso. Assim, considerei que a natureza de Deus era séptima: o espírito, a alma e o mane, o pai e o filho, o cordeiro e a pomba. Com isto, fui pregar para os parques da cidade. Demonstrei com passagens de escrituras inventadas e de livros secretos que os eleitos seriam os mais próximos da compreensão da natureza de Deus e que havia sete graus de expiação, extensos e dolorosos, mas nenhum deles irremediável ou definitivo. Comprei com as esmolas que me deram uma tenda e bancadas desmontáveis. Em pouco, tinha o suficiente para pagar discípulos e sacerdotes. Multidões procuravam-me. Não tardei a construir um pequeno templo, de tijolos vidrados de azul, e a inventar orações novas, implorando à natureza única e séptima de Deus e às sete legiões de arcanjos das sete cores».

O fim e a moral da história só lendo o livro. Mas vale a pena.

(Editora: Caminho, Ilustrações: António Jorge Gonçalves, Foto: José Carlos Aleixo)

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