Vinte Linhas 550

Uma memória das «Cartas de Marear» de Mário Machado Fraião

Quando morre um poeta (só no registo civil) há quem escreva palavras de circunstância, há quem apareça no funeral para ser visto, há quem se remeta ao silêncio. Neste breve espaço quero recordar Mário Machado Fraião, hoje (10-11-2010) sepultado na sua amada Costa do Sol e, lembrando as suas conversas ao telefone todos os domingos, perceber que esses telefonemas me vão fazer muita falta. A minha ligação ao «Quarto Crescente» e ao «Vento Norte» desde 1982 fazia de mim, aos seus olhos, um açoriano honorífico.

«Cartas de Marear» trata de uma viagem no tempo português dos anos 50 e 60 em duas cidades: Horta e Lisboa. Na Horta, os filmes vistos no Salão do Sporting Clube da Horta vinham revelar um mundo «vasto e variado onde havia muito mais na vida que frequentar as aulas, regressar a casa no cortejo dos alunos do Liceu, vestir o fato aos domingos, pentear o cabelo, escovar os sapatos, espera as meninas depois da missa.» Já em Lisboa, o autor vem encontrar cafés não iguais ao Internacional ou ao Volga mas onde era ainda possível «trocar ideias, impressões, experiências, contar anedotas, comentar estreias, novas publicações, jornais, discutir, conspirar, escrever poemas e manifestos». Mas escrever sobre a «maior cidade pequena do Mundo» como lhe chamou Pedro da Silveira, é também lembrar os mestres e maquinistas dos barcos do Canal que arriscaram as suas vidas para salvar outras vidas, doentes em perigo, mulheres em trabalho de parto: Mestre Guilherme, mestre Alfredo Saca, mestre Augusto Pau de Lérias, mestre Simão. Há aqui memórias de livros e autores, etapas de uma outra viagem de Mário Fraião: Jorge de Sena, Fernando Arrabal, Gonzalo Torrente Ballester, Teixeira de Sousa, Francisco Coloane, Vitorino Nemésio, Raul Brandão, Carlos Faria, José Martins Garcia, Rui Duarte Rodrigues, Almeida Garrett, Pedro da Silveira. Mas sempre, acima de tudo e para além de tudo, o fascínio das viagens: «Pedaços de nós mesmos que sugerem o dia de São Vapor nas ilhas pequenas, as partidas na doca da Horta, as despedidas, mulheres a chorar, um caixeiro viajante a contar anedotas, os bagageiros transportando as malas e os sacos de viagem pelas escadas íngremes e muito estreitas, os diversos sinais de aviso aos passageiros, a espumas das hélices. O apito final. Largaram-se os cabos, «adeus, adeus», soltam-se os lenços, chapéus e cachecóis. Alguns vão a Lisboa tratar de assuntos particulares. Outros, talvez, não voltam nunca mais.» Adeus, amigo, até sempre!

4 thoughts on “Vinte Linhas 550”

  1. Tome lá um miminho, Sr. JCFrancisco.
    “A métrica é um assagissement do ritmo… para uso dos que não são poetas, mas a que os autênticos poetas se deixaram escravizar em épocas de cobardia endémica dos espíritos. A métrica contém como que uma redução das leis rítmicas a uma redução das suas combinações possíveis.”
    Adivinhe quem o disse.

  2. Soube apenas agora, já lá vão estes meses todos.
    Apesar do calor, leio coisas na Net e vou sentindo arrepios.
    Mais um amigo que parte.

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