Bizarro? Não, grotesco

Cavaco e Manela querem que o PSD se deixe de merdas e diga que aprova o Orçamento, enquanto o actual PSD recupera a cassete da Verdade e entrega a estratégia a cavalheiros de indústria que se imaginam especialistas em teoria dos jogos.

O PSD deixou de ser um partido, é uma marca que vive de glórias passadas – mas que agora já só vende produtos em segunda mão.

Direito de pergunta

Azeredo Lopes desenvolveu a sua exposição acerca do direito de resposta na blogosfera, registando a nota da Fernanda e a minha reacção a ela. Começa por esclarecer o âmbito da problemática, garantindo que não está em causa uma eventual regulação de conteúdos ou caixas de comentários em blogues. E depois concentra-se na argumentação a favor do direito a reclamar publicação de resposta num blogue.

Para lá do interesse genérico da questão, é também interessante seguir o seu exercício hermenêutico a partir do texto constitucional. Como estou de férias, logo sem tempo a perder, vou arrepiar caminho e ir ao fulcro da disputa: não se pode invocar o art. 37º, aludir ao 38º e fazer de conta que o art. 39º não conta. Ora, devemos iniciar a leitura neste e recuar. Porque nele se indica que o direito de resposta nos meios de comunicação social será assegurado pela intervenção de uma autoridade independente cujo mandato é regulador. Assim, teremos esta sequência de leitura: Regulação da comunicação social, Liberdade de imprensa e meios de comunicação social e Liberdade de expressão e informação. Estes três artigos, mal ou bem, são logicamente interdependentes, implicando uma concepção de comunicação social que remete para o exercício estatutário do jornalismo adentro da categoria de imprensa que estiver socialmente vigente. Estabelece o espírito da lei que essa actividade de comunicar socialmente nestes moldes, à luz da Constituição, é inerentemente passível de regulação por estar em causa a defesa de princípios superiores: os direitos dos visados, a sua liberdade de expressão e a nossa liberdade de informação. Se o texto constitucional fundamentar o direito de resposta em blogues, então decorre que um blogue – de facto – é um órgão de comunicação social. E sendo-o, estaria ao alcance do regulador não só para a figura do direito de resposta. Ficaria a faltar, pois, que o fosse igualmente de jure. Faria algum sentido?…

Azeredo Lopes e a Fernanda estão de boa-fé e são intelectualmente honestos, as suas posições merecem atenção. E o tópico, que até pode passar por frívolo dado o contexto político, é fértil em matérias que promovem a cidadania, o conhecimento jurídico e a reflexão política. Tal e qual como um bom blogue.
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Nota: a nossa amiga Tereza, num abraço mais largo da problemática, ofereceu-nos uma estimulante prosa, onde toca em pontos essenciais.

Alexandre Herculano – 200 anos depois um exemplo

«Estamos pobres, somos ignorantes, vivemos na corrupção e no aviltamento»

Alexandre Herculano (1810-1877) foi poeta, romancista, historiador, polemista e jornalista. Duzentos anos depois do seu nascimento, há sempre aspectos novos na personalidade do escritor-soldado: vejamos a sua ligação ao mutualismo e as respostas ao chamado questionário de Proust.

Sobre as Caixas Económicas, precursoras do Montepio Geral, escreveu este autor: «As caixas económicas são primeiro e agigantado passo para a solução do problema que as leis ainda não tentaram resolver; as caixas económicas são o contraste, a negação do patíbulo. Matam a perversão popular nas suas causas em vez de a punir nos seus efeitos. Criam o futuro para milhares de indivíduos que nunca imaginariam tê-lo, criando-lhes o gozo da propriedade, e nesta, um recurso para a hora da aflição e escassez, tão próxima entre as almas vulgares da hora do crime. O facto de não aparecer o nome de um único depositante das caixas económicas nas listas dos sentenciados em França e em Inglaterra é a consequência natural dos princípios em que esta instituição se estriba».

Continuar a lerAlexandre Herculano – 200 anos depois um exemplo

Cocktail Seguro

“inaceitável que quando se pedem sacrifícios aos portugueses, não sejam todos, em particular aqueles que mais têm, a darem esse exemplo e a fazerem mais sacrifícios”

“a trajectória das últimas décadas vem endividando o país”, o que vai sobrecarregar as gerações futuras “com os encargos do estilo de vida das gerações actuais”

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O mais activo candidato à sucessão de Sócrates já tem a receita: misturar BE com PSD, agitar até se dissolverem as diferenças e servir com um enfeite rosa.

Good food for good thought

When people are angry, they want to see their anger reflected in their leaders. Many voters believe “that getting angry is somehow a ‘good thing’ in a leader, and that the [apparent] absence of anger betokens someone who is out of touch or insensitive to the moral dimensions of the problem,” psychiatrist Ronald Pies of SUNY Upstate Medical Center wrote in Psychiatric Times. “There is a ‘magical’ dimension to intense anger: it transforms the world from one in which the person feels helpless and impotent into one in which the person has the illusion of power and control.

I’m Mad as Hell … and I’m Going to Vote!

Balada para uma loja na Rua da Madalena

Brinquedos de madeira
Cavalos de papelão
De repente é uma feira
Numa aldeia no Verão
Um eléctrico amarelo
Dá nas vistas nos postais
Mais do que loja, modelo
O balcão parece um cais
Olho a mala de viagem
Convite a uma excursão
Onde é grátis a portagem
Nas fronteiras da paixão
Escrevo no bloco-notas
Com os lápis da verdade
Passam por cima gaivotas
Notícias de tempestade
Mais do que loja, atitude
Sabonete perfumado
Contributo de saúde
Vai para todo o lado

Se pensa gastronomia
Em gerações populares
Sal e bolacha sadia
O azeite dos lagares
Os lenços de namorados
Poemas em despedida
Os livros encadernados
Tudo faz parte da vida
Na rua da Madalena
Portugal num fragmento
Há uma loja pequena
Nome Temperamento
Prateleiras infinitas
Caixas, frascos de cola
Malas garridas, bonitas
Ardósias da antiga escola
No mundo em mudança
Na confusão desta vida
Há sorrisos de criança
Na hora da despedida

Vinte Linhas 542

Ricardo Parreira e a OML em homenagem a Carlos Paredes

Na noite de 2-10-2010 no Largo de São Carlos aconteceu um concerto extraordinário de um músico que eu desconhecia em absoluto e que passo a considerar um intérprete absolutamente excepcional no difícil instrumento que é a guitarra portuguesa. Trata-se de Ricardo Parreira que, em parceria feliz com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, sob a direcção de Pedro Neves, homenageou Carlos Paredes – e com ele a cidade de Lisboa. O concerto arrancou com Saint-Saens, Frederico de Freitas e Darius Milhaud mas o ponto mais alto em termos de emoção foi a «suite» para Carlos Paredes. A orquestração é de Tiago Derriça.

A minha emoção advém do facto de ter conhecido Carlos Paredes a partir de 1980 (foi-me apresentado na FIL por José Gomes Ferreira e Wanda Ramos) e de me ter dado a ideia (talvez errada) que o notável intérprete Ricardo Parreira mantém a pose discreta, modesta e simples do grande músico que homenageou. Ao ouvir a música dos «Verdes anos» e de outros clássicos de Carlos Paredes, foi como se estivesse a ouvir de novo a música de seu pai Artur Paredes e de seu avô Gonçalo Paredes lá pelas bandas de Coimbra. Foi como se tivesse ouvido de novo as campainhas daqueles eléctricos da Estrada de Benfica (o 5 e o 1) onde morava o Carlos Paredes. Foi como se tivesse voltado de novo àquela noite na FIL na Junqueira em que Carlos Paredes, perante aplausos que não terminavam, se voltou para José Gomes Ferreira e para Wanda Ramos a dizer da sua estranheza pelo volume e duração dos aplausos. Simples, modesto e discreto como sempre e como na noite de Lisboa Ricardo Parreira tão bem o recordou.

2 em 1

Fernanda Câncio publicou uma carta do advogado José Augusto Rocha, recusada naquilo que já foi um jornal de que nos orgulhávamos, e, de caminho, promoveu uma possível regulação dos blogues. As duas questões não têm outro ponto de contacto para além da oportunidade, mas ainda bem que a primeira trouxe a segunda.

Para mim, qualquer tentativa de equiparar um blogue a um meio de comunicação social profissional é abusivo. Aliás, nem sequer a categoria de imprensa se aplica, posto que o autor do blogue não assume qualquer compromisso prévio com os eventuais leitores nem se apresenta como profissional de jornalismo. Um blogue não se obriga a ter secções temáticas, a cobrir acontecimentos, a opinar segundo alguma convenção de bom gosto, boa educação ou boa gramática. Não se compromete com uma deontologia comum aos seus pares, não tem de justificar a sua moral ou a falta dela. E, last but not least, nada se cobra. Na boa tradição da Internet como abertura democrática de pura intervenção cívica, também nada se ganha, não se vende o espaço para a publicidade (sem remoque, apenas o refiro por escrúpulo analítico).

A exposição de Azeredo Lopes, tocando em diferentes situações e remetendo para um caso concreto, é basto sugestiva. De facto, o enquadramento legal desta tão simples e natural actividade, isto de falarmos usando meios digitais, está pejada de ambiguidades passíveis dos maiores disparates.

Mas que pensas, devemos limpar a porcaria da blogosfera ainda antes do Queiroz limpar a porcaria da Federação?

Vinte Linhas 541

Rui Pinheiro também merece uma notícia

Nada contra Joana Carneiro que ocupou a semana passada largo espaço de entrevistas a propósito do cargo de maestrina na Universidade de Berkeley mas os jornalistas do nosso país parecem não saber nada de Rui Pinheiro, o jovem young conductor in association da Bournemouth Symphony Orchestra sedeada em Poole, na Inglaterra. Fundada em 1893, a BSO é de momento dirigida (principal conductor) por Kiril Karabits e dá uma média de 150 concertos por ano, actuando regularmente na BBC e no Royal Albert Hall. Já foi dirigida por monstros sagrados da música como Edward Elgar e Gustav Holst além de Stravinsky, Rachmaninov e William Walton. Recentemente actuou nos EUA, na República Checa e na Áustria.

O nosso compatriota é director artístico e maestro titular do Ensemble Serse – uma companhia londrina de ópera barroca. Fundou na mesma cidade o Ensemble Disquiet, projecto dedicado à divulgação da música contemporânea portuguesa. Foi maestro da Orquestra do Conservatório Nacional entre 2005 e 2008, tendo dirigido a Filarmonia das Beiras e a ONP – Orquestra Nacional do Porto. Como maestro-assistente trabalhou com Sir Roger Norrington, Esa-Pekka Salonen, Vladimir Jurowki, Martin André, John Wilson, Peter Stark e Robin O’Neill. Trabalhou com os compositores contemporâneos Keneth Hesketh, Alison Kay e Augusto Read Thomas. Concluiu o mestrado em Direcção de Orquestra no Royal College of Music de Londres trabalhando com os maestros Jorma Panula e Colin Metters. Fez estudos musicais e teve actuações em diversos países da Europa além da Inglaterra – Roménia, Áustria e Hungria.

Aposto que sabes a resposta

Os políticos que chegam ao Poder, em democracias, duram pouco tempo nesse lugar. Não só porque as oposições dedicam 120% do seu tempo ao exercício do desgaste, descrédito e desonra dos governantes como a comunicação social, sem excepção, não perde uma oportunidade de explorar o sensacionalismo. O resultado é uma permanente intoxicação, um berreiro, que passa por eficaz fiscalização dos negócios e ócios públicos. Mas é treta – sabes disso, né?

A invariável postura bélica, as promessas irresponsáveis e o discurso simplista dos opositores contrasta com a consciência da complexidade, dificuldade e insegurança que os governantes deixam transparecer por palavras e actos, silêncios e gestos, a respeito das medidas onde colocam a assinatura. À sua volta têm milhões de concidadãos que desprezam os políticos com intensidade igual à que dedicam a invejar as benesses ocultas que imaginam estarem eles a recolher. O serviço público surge como a prova mesma de algum ganho ilícito passado, presente ou futuro. A injúria estende-se do Primeiro-Ministro ao mais baixo funcionário da Repartição de Finanças, o Estado surge-lhes como o grande coito para os maiores bandidos.

Quem ganha com este atrofio? A quem interessa a decadência que afasta os cidadãos da cidadania?

É escolher

Ter as finanças de um Estado sujeitas a uma lógica bolsista, onde os juros a pagar pelo seu financiamento externo sobem e descem ao ritmo de episódios psicológicos diários, quando não horários, já não tem nada a ver com a política. A racionalidade torna-se inútil, mero guarda-chuva contra o furacão. Lidar com o problema, pois, não remete para questões ideológicas e técnicas, porque nenhuma dessas instâncias tem eficácia contra a especulação internacional. Com um Governo de esquerda ou direita, com este ou aquele ao leme, o resultado seria igual: impotência e frustração. São estas as regras do jogo de um jogo sem regras.

Não há receitas para ganhar na bolsa. Há é dois tipos de investidor: o que endeusa o mercado e o que o teme. O primeiro possui a verdade, o segundo cultiva a dúvida. Também para os Estados na berlinda da especulação, não há receitas para evitar os socos da mão invisível dos agentes – há é quem seja mais tenrinho ou mais rijo.

Na janela

Tão oculto na janela a passar
Mais veloz por baixo do avião
Teu rosto, sua medida e lugar
Ocupa nesta cidade o coração

Sucedem-se as várias imagens
Mais nítidas nesta velocidade
E porque iguais às carruagens
Não percebo onde a claridade

Que rodeia o quadro do teu rosto
E ilumina este lado da carruagem
O escuro do túnel no lado oposto
É a sombra do olhar e da viagem

Depois do intervalo no meu dia
Regresso às tarefas repetidas
Ao esplendor da monotonia
Pronta a ocupar as nossas vidas

Dar o exemplo

Com Sócrates, temos dado por nós a saber tanto como os mais reputados especialistas acerca das mais complexas dimensões do Estado e da sociedade. Foi assim com as campanhas de assassinato de carácter, as parcerias mediático-judiciais e o segredo de fabrico dos famosos pastéis de Belém. Podemos dar palestras e escrever livros a respeito, assim haja tempo. Agora, chegou a vez da economia. E não pode ser mais básico: o dinheiro, posto que não cai do céu, tem de vir de algum outro lado. Munidos deste princípio de realidade, segue-se um método infalível: riscar os locais onde antecipamos de ciência certa que não vamos encontrar o dito. À cabeça dessa lista, desde Alcácer-Quibir, Portugal. Assim, se queremos dinheirinho, temos de roubar os estrangeiros ou, numa mais antipática opção, vender-lhes umas cenas.

É neste plano que se encontra, destacado, o Sporting. O propósito é o de conquistar o máximo de vitórias na Liga Europa, as quais trazem o carcanhol dos camones pá malta, nem que para isso se tenha de lutar pela manutenção na 1ª Divisão. Jogar apenas para ganhar pontos e uns minutos de aclamação dos adeptos, como acontece no campeonato, é completamente pré-crise. Já se for para inglês ver uns pontapés na borracha, finge-se que estamos a vender um espectáculo; mas trata-se de um sacanço de guito à má-fila. Muitos não perceberam o que estava em causa, ou fizeram-se de parvos, quando se elegeu Bettencourt, foi buscar o Costinha e se fez da equipa um armazém de cansadas vedetas, mas agora, depois da cabazada aos búlgaros sem carência de suar Liedson, não há mais razão para falsas modéstias: estamos na linha da frente da recuperação económica nacional.

Sibila

Ferreira Leite bem merece este momento de glória que está a saborear. Por onde passa, deve receber as mais rasgadas manifestações de simpatia e reverência de toda a sua longa carreira. Fica no ar um odor a santidade por onde passa luminosa, seráfica, ufana do seu dom. Afinal, esta brava mulher sacrificou-se pelo partido só para evitar que ele caísse nas imaturas mãos de Passos Coelho.

O futuro deu-lhe plena razão.*

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* Frase reconstruída com a ajuda de uma prestimosa leitora

Um livro por semana 200

«Uma história de amor» de Miguel de Unamuno

Escrita em Salamanca em 1911, esta pequena obra-prima da literatura (segundo Jorge Luís Borges) relata os amores de Ricardo que, junto da grade da casa, dizia para Ludovina: «Não tenho mais nada que fazer, senão olhar para ti». Amores contrariados pelas famílias: «Nem a mãe dela nem o pai dele queriam aceder a dar-lhes o consentimento para se casarem». Os dois fogem de comboio mas regressam passados poucos dias. Ela a uma tia paterna («Não te fazia tão criança!») e ele ao pai («Palerma!»). Ricardo, no convento para onde foge, queima a última resposta dela sem abrir a carta e torna-se um frade complicado: «Procura destacar-se; supõe-se superior aos outros; despreza os companheiros». Ludovina refugia-se num convento de uma vila escondida numa serra agreste: «Ali se enterraria em vida, à espera da morte, da justiça divina e do amor que sacia». Mas é nesse casarão conventual da Província que se resolve esta história circular iniciada junto de um casarão da Cidade perto das muralhas de um convento. Frei Ricardo vem pregar um sermão e reencontra Sóror Ludovina: «Ao estreitarem-se e confundirem-se em um só os soluços de ambos, fundiram-se-lhes os corações e ficou a nu, e descoberto, o amor que, a partir daquela triste fuga, os sustentara pelos caminhos solitários. E a partir desse dia…»

(Editora: Padrões Culturais, Tradução: Alberto Cardoso, Paginação: Mário Andrade)