Chávez vem aí e eis o que pode acontecer: compra-nos o segundo submarino e paga-o com petróleo. Como se prevê que o crude suba em 2011, acresce ao valor da venda a futura poupança. Isto resolveria o problema das contas para 2011. Em 2012, havendo necessidade de receitas extraordinárias, podemos propor-lhe um pacote que inclua os estádios do Euro que estão ao abandono, o jornal SOL, o Parque Mayer, o PCP e o Crespo.
Arquivo mensal: Outubro 2010
Vinte Linhas 103
Um iate, um cais, um copo de gin
Voltei as costas ao bulício da parte velha da cidade, aos sacos que já cheiram a compras de Natal, à pressa das pessoas nas escadas rolantes dos armazéns e às iluminações da quadra que já estão nas ruas. Uma pequena viagem de Metropolitano é o suficiente para chegar ao Mar da Palha. Com a ponte Vasco da Gama à direita o Peter lá está à esquerda à minha espera. Um iate, um cais e um copo de gin – eis o lema que, desde sempre, fixei. Não tenho iate, cheguei aqui de Metro mas tenho à minha frente um cais e um copo de gin. Junte-se um livro e uma tosta feita com aquele pão tão especial e temos programa para uma tarde bem passada no Peter do Parque das Nações. Como já estamos no fim do Outono o dia começa a cair muito cedo. O cinzento vence o azul. Acendem-se as primeiras luzes do lado de lá. Sei muito bem que tenho à esquerda Alcochete e logo a seguir Samouco, Montijo, Barreiro e Seixal mas o meu espírito diz-me que ali em frente tenho na verdade a Ilha do Pico. As luzes do lado de lá podem ser da Madalena. Estou sozinho na mesa de quatro mas tenho à minha volta uma solidão povoada. Estão aqui comigo mesmo sem ninguém os ver a Eduardina, o Urbano Bettencourt, a Zezinha Lacerda, o Carlos Lobão, o Sidónio Bettencourt, o Emanuel Jorge Botelho, o Álamo Oliveira, o J.H. Santos Barros, o Emanuel Félix. E todos. E todas as vozes. E todos os livros. E todos os filmes a começar por «Gente feliz com lágrimas» de João de Melo e Zeca Medeiros. Sem um iate mas com um cais e um copo de gin eu posso convocar a paisagem e o povoamento dos Açores aqui no Parque das Nações. E ser feliz. Mesmo se for apenas nestes momentos de alegria breve numa tarde cor de cinza.
Sócrates Fan Club
Acabo de ver o Ângelo na porqueira. Tinha a raiva dos perdedores. Anunciou a abstenção do PSD no Orçamento, com o argumento de que o mercado assim o exige, e disse uma parvoíce maravilhosa: que a oposição não chegava para Sócrates, tinha de ser Sócrates a cair sozinho.
Estes infelizes ainda acabam a levantar-lhe estátuas, tal o furor com que o idolatram.
A mãe de todas as crises
“Estamos a pagar a factura de ter incomodado, nas investigações e no trabalho jurisdicional que fazemos, os ‘boys’ do Partido Socialista. Estamos a pagar a factura do processo ‘Face Oculta’ e de outros processos anteriores”, disse António Martins em entrevista à Agência Lusa.
*
Só há duas interpretações para a bacorada: ou que o Governo, com a conivência do PS, não é uma entidade que actue na legalidade ou que os juízes, com a conivência dos restantes partidos, não são entidades que actuem na legalidade. Em ambos os casos, o representante sindical dos juízes acaba de anunciar ao País que não estamos num Estado de direito.
Ser capaz de publicitar a imagem de juízes castigados pelas autoridades governativas por terem tentado combater a corrupção é uma daquelas situações, dada a responsabilidade da figura em causa, que nem merecem explicação, devemos partir logo para as consequências.
Mas esta declaração não levará à expulsão de António Martins da magistratura judicial. A raiz da crise, de qualquer crise que se encontre no cardápio, começa aqui: a disfunção da Justiça.
Memória justificativa dum título

Quem nas direcções trocadas me lembrou
Entre afazeres e normas e um governo
Talvez se tenha esquecido logo a seguir
A luz não chega a todos os recantos
Nem torna visíveis objectos e nomes
De quem desaparece noutra direcção
Aos sábados à tarde então passam jornais
Nos passeios eles estendem-se a dormir
Cansados de gritar a loucura do telex
Volto, sempre, à poesia como regulador
Escondo nas palavras o nome que procuro
Talvez brilho, talvez mãe – leme de luz
Perguntas simples
PEC – país em calhado
A nossa amiga mdsol está a aceitar contributos para esta obra.
A culpa é do lobo mau
A reacção aos atrasos na entrega do Orçamento e documentos anexos é mais um pináculo do ridículo nacional, desta vez arrastando lúcidas figuras geralmente imunes ao contágio dos raivosos e dos decadentes. Que diferença faz, seja para o que for, a entrega acontecer a uma hora ou outra, num dia ou noutro? Aproveitar uma circunstância arbitrária, o limite legal, para atacar o Ministro das Finanças nesta altura de circunstâncias excepcionalmente graves e confusas é próprio de quem só procura o boicote da governação. O facto de serem muitos a fazê-lo, e de dominarem a maior parte da comunicação social, é uma pressão corrosiva. E não vai parar, nem diminuir.
Entretanto, Teixeira dos Santos deu um espectáculo surpreendente. Calmo e sobriamente bem-humorado, despachou em pouco tempo a apresentação do Orçamento mais importante dos últimos 25 anos e tratou dos jornalistas sem esforço. Ficámos a saber que não se fazem omeletas sem galinhas, e que veremos ao longo de 2011 se têm ovo. Também disse que montou algumas armadilhas contra as raposas – mas que a galinha dos ovos de ouro há muito foi comida pelo lobo mau.
Estás avisado
O nosso amigo Eça de Querós registou o email do Aspirina B nas newsletters do Mail Gay, Gay to Z, Gay Life e mais não sei o quê do género. Tratou-se de um gesto de boa vontade, uma simpatia, de alguém que partilha os seus interesses e gostos com um dos seus blogues favoritos. Todavia, agradeço que não voltes a fazer isso, Querós, pois não tenho tempo para as tuas sugestões. Já me custa prestar atenção ao que escreves, quanto mais seguir o que lês.
Deixo-te é um formal aviso: se te der para chapares com o email do Aspirina B nas newsletters do Benfica ou do Porto, acaba-se a brincadeira com a pilinha aqui por estes lados.
Vinte Linhas 545

Nos 70 anos de Pelé – mais uma vez o nojo do costume
Edson Arantes de Nascimento nasceu em 21-10-1940 e esta efeméride começa a ser festejada nos jornais. O Diário de Notícias de hoje (16-10-2010) recorda o rei Pelé mas da pior maneira: repetindo um erro cometido por jornalistas brasileiros ignorantes e complexados sobre o que se passou de facto em 1966 no Reino Unido. Na «caixa» intitulada «Uma carreira quase sempre em festa» surge a seguinte legenda: «A lesão no Mundial de 1966 no jogo com Portugal que deixou o Brasil fora da prova».
A verdade é outra: não foi Morais que arrumou Pelé em 19-7-1966 porque ele já estava «arrumado» desde o dia 12-7-1966. De facto o jogador Voutsov no jogo Brasil-Bulgária arrumou mesmo Pelé com uma entrada violenta. De tal modo foi a entrada violenta que no dia 15-7-1966 Pelé não alinhou no jogo com a Hungria sendo substituído pelo jogador Tostão. Em 19-7-1966 Pelé ainda não estava (nem podia estar) recuperado da cacetada de Voutsov mas o treinador brasileiro resolveu arriscar. Colocou Pelé no «onze» e fez alinhar um grupo de jogadores que não tinha jogado nos jogos anteriores: Manga, Fidelis, Brito, Orlando, Rildo, Denilson, Lima, Silvas e Paraná. Foi um «tudo por tudo» que não resultou nem podia resultar pois estes jogadores nunca tinham jogado juntos no Mundial de 1966.
Fingir que Pelé não saiu lesionado no jogo com a Bulgária, fingir que Pelé não foi impedido de alinhar com a Hungria por lesão e afirmar que foi o jogo com Portugal que afastou o Brasil só por má-fé ou por ignorância. Basta! Não sabem? Agarrem-se aos livros! Já passaram 44 anos e está tudo explicado até em livros de autores brasileiros.
Dá o último passo, Passos
Ficarei desiludido e zangado com Passos Coelho se, depois de ter aguentado a titânica pressão, acabar por ceder ao resto do mundo e deixar passar o Orçamento. Seria morrer na praia após a travessia de um vasto e tempestuoso oceano. Não é dessa mariquice que o País precisa, como tantas inteligências com a consistência da laranja têm proclamado.
Do que precisamos é de um Governo a duodécimos para aprender a poupar ou de um Governo demissionário ou de um Governo de iniciativa presidencial tácita. Qualquer um desses três cenários é preferível ao Governo do partido que ganhou as eleições, isso é evidente. E a seguir às presidenciais, rápido e em força para o Governo de Passos e do inevitável Portas. Também queremos a Manela de volta, mas agora para ministra da Economia; ela que acertou em tudo, do abalozinho da crise internacional à profecia do que viria a acontecer na Grécia. E queremos Medina Carreira a ministro das Finanças, porque só ele nos pode salvar com os seus gráficos desenhados à mão. E queremos que Moura Guedes, Zé Manel, arq. Saraiva, Eduardo Cintra Torres, Mário Crespo, Eduardo Dâmaso e António Ribeiro Ferreira formem um conselho para a erradicação da memória de Sócrates da História de Portugal, garantindo-se a destruição de todos os registos audiovisuais e escritos a que deitem os garfos. Ah, e queremos que o Pacheco seja o próximo Procurador-Geral da República, mas com a possibilidade de acumular com o cargo de Presidente do Supremo nos eventuais casos que envolvam primeiros-ministros do PS.
Já chega de humilhações e derrotas, PSD. Mostrem como se põe esta terra na ordem.
A suprema consolação do blogger político
Tal como eu aqui escrevi…
Sapataria

(à Teresa, à Clara, à Luísa)
Calçam repetidos números
Modelos vários, cores
Por entre vozes falsas
Não procuram – dizem
Dúvidas e notas contadas
Num balcão pequeno
Não explicam – pedem
O que não percebem
Na palavra presa
Calçam repetidas horas
Nos pés cansados
À porta mal fechada
Relógio parado, saudade
Abre a porta ao vento
No pó das caixas, no lugar
Horror ao vácuo
O PSD nega-se a dizer como governaria – onde cortaria, como recuperava a economia, acabava com o desemprego, inventava novas exportações, reduzia a factura energética, aumentava a produtividade, metia a Alemanha na ordem, dominava a selvajaria dos mercados, e tudo isto sem aumentar impostos – declarando que para tal missão é que existe o Governo. Também reclama não conhecer as contas públicas como os Ministros as conhecem, sendo essa mais uma razão para não partilhar as suas brilhantes ideias. Mas, logo a seguir, aparece a criticar e maldizer o Governo por este governar com ideias próprias. A única forma do PSD aplaudir o Executivo implicaria que se copiassem as ideias do PSD – embora tal seja tarefa impossível posto que não há ideias aplicáveis para copiar nesse partido, só gordurosa retórica e demagogia para dar e vender.
Não estranho a estupidez desta forma convencional de fazer oposição, estranho é que não surjam novos partidos à direita e no centro para ocupar tanto espaço livre.
Celebremos a subtracção de mais um preconceito
É que já são 14 anos, fora o resto
Quem quiser ser presidente tem que ter a certeza absoluta de que vai para vencer e não vai só para ser candidato. Basta observar que os dirigentes das principais associações, que à luz dos actuais estatutos são preponderantes na eleição da direcção da FPF, estavam na Islândia com a selecção nacional. Isto quer dizer alguma coisa e algo importante. Tem a ver com a recandidatura de Gilberto Madaíl. Os sinais são esses. São as associações que têm preponderância na eleição do presidente e vendo que estavam na Islândia, com a selecção, isto quererá dizer algo importante. Madaíl é a aposta na continuidade de quem manda no futebol português.
*
Caso Baía tenha razão e Madaíl continue presidente da FPF, previsivelmente alegando que só pretende concluir o processo da candidatura ibérica ao Mundial de 2018/2022, a entidade política que der um murro na mesa e lhe corte as vazas vai ter o favor popular. Até os Verdes ganhariam votos se encabeçassem essa revolta.
Um livro por semana 201
«A Cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino
A Cidade é Elvas (soldados e padres) e o Homem é António Dinis (juiz auditor e poeta), o autor do célebre poema O Hissope. Amadeu Lopes Sabino (n.1943, Elvas) assina neste seu nono livro a biografia imaginada do poeta-magistrado (1731-1799). Um texto povoado de guerras e de querelas: os soldados de Elvas, mal pagos e mal alimentados, desertavam; os padres (e o povo) tinham dois partidos desde que o deão José Carlos se recusou a dar o hissope ao bispo D. Lourenço. A sombra de Sebastião José chega a Elvas: «O conde pode não ser um santo mas reforma as mentes deste reino de parasitas». Com o Reino de relações cortadas com a Santa Sé, já se espera uma Igreja Nacional. Mas nem tudo é linear e simples; os mais esclarecidos elvenses sabem que «as catedrais humanas assentavam nas divinas, como a Cidade do Homem tinha alicerces na Cidade de Deus». Neste contexto António Dinis discute com o escrivão e conclui: «A Justiça é a vontade do monarca». A condessa de Olivença, mesmo sabendo que a sociedade local é «jesuítica, provinciana e hipócrita», proclama: «A injustiça é uma mercadoria abundante, o mais comum de todos os bens à disposição dos seres humanos». O pano de fundo desta biografia é Elvas, o Alentejo, Lisboa, o Brasil e o Mundo mas este é também um romance de ideias. Um dos protagonistas afirma: «A Europa necessita de uma cadeia de comando. Em cada Estado, em cada família, em cada cidade, em cada regimento, em cada tribunal, deve haver um Pai, um Comandante…» E outro adverte: «Como é possível viver livremente da pena num país governado pela censura e pelo preconceito, e onde fidalgos e burgueses não lêem livros nem sequer os que compram ou encomendam ou pagam?». Um livro fascinante – da biografia dum poeta-magistrado se alcança a biografia do Portugal do século XVIII.
(Edição: Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte e Susana Cruz)
Câmara de Comuns
Regressa um espaço plural, que acrescenta inteligência ao debate político.
Já tinha saudades do Paulo Ferreira. Mas lamento que tenha saído do elenco o meu antigo, e mui estimado, professor Mendo Castro Henriques.
Esforço, dedicação, devoção e glória
1 minuto e 12 segundos após a chegada da sopa de nabiças, 3 minutos e 48 segundos depois de me ter sentado, colocavam-me 2 besugos grelhados em cima da mesa. Ia a meio da quarta colherada. Nunca tal estouvada rapidez me havia acontecido – nem a qualquer dos meus familiares, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e terceiros não identificados – entre o caldo e o conduto. Mas havia uma leonina explicação: estava a jantar no Núcleo Sportinguista da Figueira da Foz. E, de imediato, como bom sportinguista com as quotas em dia, culpei Bettencourt e Costinha pelo mau resultado do serviço.
Ter ido a este restaurante foi um puro acaso. Momentos antes de o encontrar tinha passado pela Casa do Benfica, o que me deixou apreensivo e receoso. É que já passava das 9 da noite, ansiava por uma casa de pasto. Tinha feito mais de 30 quilómetros à procura de um restaurante decente, daqueles com pessoas dentro a comer e palrar. Ver-me a atravessar território lampião, tomado pela fraqueza, deixava-me em cuidados acrescidos.
Muito obrigado, Sócrates *
Diminuiu número de jovens e crianças mortos nas estradas portuguesas
__
* Aplicação do principal critério político da oposição à leitura avulsa e aleatória de factos aleatórios e avulsos.

