Um livro por semana 201

«A Cidade do Homem» de Amadeu Lopes Sabino

A Cidade é Elvas (soldados e padres) e o Homem é António Dinis (juiz auditor e poeta), o autor do célebre poema O Hissope. Amadeu Lopes Sabino (n.1943, Elvas) assina neste seu nono livro a biografia imaginada do poeta-magistrado (1731-1799). Um texto povoado de guerras e de querelas: os soldados de Elvas, mal pagos e mal alimentados, desertavam; os padres (e o povo) tinham dois partidos desde que o deão José Carlos se recusou a dar o hissope ao bispo D. Lourenço. A sombra de Sebastião José chega a Elvas: «O conde pode não ser um santo mas reforma as mentes deste reino de parasitas». Com o Reino de relações cortadas com a Santa Sé, já se espera uma Igreja Nacional. Mas nem tudo é linear e simples; os mais esclarecidos elvenses sabem que «as catedrais humanas assentavam nas divinas, como a Cidade do Homem tinha alicerces na Cidade de Deus». Neste contexto António Dinis discute com o escrivão e conclui: «A Justiça é a vontade do monarca». A condessa de Olivença, mesmo sabendo que a sociedade local é «jesuítica, provinciana e hipócrita», proclama: «A injustiça é uma mercadoria abundante, o mais comum de todos os bens à disposição dos seres humanos». O pano de fundo desta biografia é Elvas, o Alentejo, Lisboa, o Brasil e o Mundo mas este é também um romance de ideias. Um dos protagonistas afirma: «A Europa necessita de uma cadeia de comando. Em cada Estado, em cada família, em cada cidade, em cada regimento, em cada tribunal, deve haver um Pai, um Comandante…» E outro adverte: «Como é possível viver livremente da pena num país governado pela censura e pelo preconceito, e onde fidalgos e burgueses não lêem livros nem sequer os que compram ou encomendam ou pagam?». Um livro fascinante – da biografia dum poeta-magistrado se alcança a biografia do Portugal do século XVIII.

(Edição: Sextante Editora, Capa: Henrique Cayatte e Susana Cruz)

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