Vinte Linhas 103

Um iate, um cais, um copo de gin

Voltei as costas ao bulício da parte velha da cidade, aos sacos que já cheiram a compras de Natal, à pressa das pessoas nas escadas rolantes dos armazéns e às iluminações da quadra que já estão nas ruas. Uma pequena viagem de Metropolitano é o suficiente para chegar ao Mar da Palha. Com a ponte Vasco da Gama à direita o Peter lá está à esquerda à minha espera. Um iate, um cais e um copo de gin – eis o lema que, desde sempre, fixei. Não tenho iate, cheguei aqui de Metro mas tenho à minha frente um cais e um copo de gin. Junte-se um livro e uma tosta feita com aquele pão tão especial e temos programa para uma tarde bem passada no Peter do Parque das Nações. Como já estamos no fim do Outono o dia começa a cair muito cedo. O cinzento vence o azul. Acendem-se as primeiras luzes do lado de lá. Sei muito bem que tenho à esquerda Alcochete e logo a seguir Samouco, Montijo, Barreiro e Seixal mas o meu espírito diz-me que ali em frente tenho na verdade a Ilha do Pico. As luzes do lado de lá podem ser da Madalena. Estou sozinho na mesa de quatro mas tenho à minha volta uma solidão povoada. Estão aqui comigo mesmo sem ninguém os ver a Eduardina, o Urbano Bettencourt, a Zezinha Lacerda, o Carlos Lobão, o Sidónio Bettencourt, o Emanuel Jorge Botelho, o Álamo Oliveira, o J.H. Santos Barros, o Emanuel Félix. E todos. E todas as vozes. E todos os livros. E todos os filmes a começar por «Gente feliz com lágrimas» de João de Melo e Zeca Medeiros. Sem um iate mas com um cais e um copo de gin eu posso convocar a paisagem e o povoamento dos Açores aqui no Parque das Nações. E ser feliz. Mesmo se for apenas nestes momentos de alegria breve numa tarde cor de cinza.

3 thoughts on “Vinte Linhas 103”

  1. Força, meu caro poeta !
    Afinal a felicidade também está na nossa capacidade de sonhar.
    Só não gostava que a tertúlia das segundas pudesse ter sido trocada pela mesa do Peter, o Peter de trazer por casa, e o nosso carrascão do Ribatejo pelo insonso do seu gin.
    Um abraço amigo
    Jnascimento

  2. Dizem-me que o gin foi sempre a bebida da raínha-mãe, mesmo neste tempo de República e ela a tornou eterna.
    Você, inglês de gema, pelo lado de seu neto, sabe quem era a raínha-mâe ?
    Era a mãe da raínha-mãe que é a mãe de todas as princesas.
    Para o seu neto, com um abraço republicano do
    Jnascimento

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