Esforço, dedicação, devoção e glória

1 minuto e 12 segundos após a chegada da sopa de nabiças, 3 minutos e 48 segundos depois de me ter sentado, colocavam-me 2 besugos grelhados em cima da mesa. Ia a meio da quarta colherada. Nunca tal estouvada rapidez me havia acontecido – nem a qualquer dos meus familiares, amigos, colegas, vizinhos, conhecidos e terceiros não identificados – entre o caldo e o conduto. Mas havia uma leonina explicação: estava a jantar no Núcleo Sportinguista da Figueira da Foz. E, de imediato, como bom sportinguista com as quotas em dia, culpei Bettencourt e Costinha pelo mau resultado do serviço.

Ter ido a este restaurante foi um puro acaso. Momentos antes de o encontrar tinha passado pela Casa do Benfica, o que me deixou apreensivo e receoso. É que já passava das 9 da noite, ansiava por uma casa de pasto. Tinha feito mais de 30 quilómetros à procura de um restaurante decente, daqueles com pessoas dentro a comer e palrar. Ver-me a atravessar território lampião, tomado pela fraqueza, deixava-me em cuidados acrescidos.

Mas antes, no lusco-fusco de um dia lindo em Outubro, ouvira relatos de uma gastronomia secreta na região. Contaram-me de petiscos famosos com raposa, texugo e gato. Gato?! Sim, bem mais limpo, mais selectivo no que come, do que a porca da lebre. O argumento pareceu-me invencível, sendo que saí da conversa com muito má impressão da lebre e uma renovada admiração pelas esquisitices dos gatos.

De volta aos besugos, oiço pela primeira vez, como resposta à colocação de algumas espinhas na travessa: Quer que lhe arranje mais um? Primeiro pensei que fosse o súbito reconhecimento de se estar a lidar com um sócio do clube abaixo do número 8.000, o qual não merecia ter ingerido a sopa de penalti. À terceira repetição da oferta fui iniciado: É que aqui pode comer quanto quiser e paga sempre o mesmo. Quanto quiser, mesmo?… Pode repetir o mesmo prato as vezes que lhe apetecer e pode ir trocando de pratos enquanto conseguir comer: peixe, carne, acompanhamentos, pão, sem limite. Tirando as bebidas e sobremesas, só paga 7,5 euros. Acreditei. E, de imediato, como bom sportinguista com as quotas em dia, pensei que este inacreditável serviço era possível apesar de Bettencourt e Costinha. A garbosa senhora que me instruía ainda me contou da noite de Natal, para a qual recebem inscrições dos mais pobres. É um jantar exclusivo para esses príncipes da esperança, de graça, e ainda dão de comer aos que aparecerem sem inscrição.

Tendo em conta que na origem deste périplo vespertino e nocturno esteve a meticulosa investigação acerca da existência de uma famosa chouriça assada com broa (já não existe, desgraçadamente), confirmei que há falhanços que são gloriosos sucessos.

15 thoughts on “Esforço, dedicação, devoção e glória”

  1. Então vais à minha terra e não dizes nada!
    Para a próxima vai ao Mar à Vista. Tem a melhor sardinha assada do mundo, vá lá, do Oeste, e também é comer até mais não poder.

  2. Um dia, sábado ou domingo, de um mês qualquer, julgo que de Junho, do ano também não me lembro mas já neste século. O meu irmão que está radicado na Madeira desde 1993, veio passar férias à minha terra acompanhado com a namorada, julgo a primeira vez. Como gosto quando vou a qualquer lado a primeira vez que me mostrem os locais para mim desconhecidos fiz o mesmo com eles.
    Então nesse dia resolvi dar um passeio acompanhado por eles e a minha esposa e fui a várias terras incluindo Óbidos e Peniche, onde almoçamos uma caldeirada de peixe. Gosto de Óbidos e quando ali me desloco aproveito para ir a Peniche, antes uns quilómetros, julgo que perto onde houve o assassinato praticado pelo rei Ghob, há ali um restaurante que serve caldeirada de peixe que é uma delícia.
    No regresso viemos pela Figueira da Foz e as horas convidávamos a tratar do jantar. Andamos à procura de um restaurante mas na Figueira de Foz estavam todos fechados, pelo menos no centro da cidade, por isso é que julgo que o dia era um domingo, muitos restaurantes encerram para descanso do pessoal. Demos umas voltas a pé à procura de algum que estivesse aberto mas só via churrascarias abertas, daquelas, género venda para fora. Como andávamos fartos de frango de churrasco é o desenrasque em qualquer momento resolvemos arriscar-nos a procurar melhor.
    Pouco à frente de onde nos encontrávamos vimos uma mancha de fumo e como não há fumo sem fogo para ali nos deslocamos para ver qual o motivo e qual é o nosso espanto! Estavam a assar sardinhas ao ar livre, bastantes pessoas ali em roda e numa parede da casa as seguintes letras: Núcleo Sportinguista da Figueira da Foz. Como éramos desconhecidos perguntamos se serviam refeições ao público, estas casas funcionam mais para os associados, onde disseram que era para toda a gente e de imediato arranjaram uma mesa para nós quatro. Gostei da maneira como fomos recebidos, logo de entrada, para mais e mais tarde vi que ali estavam mais pessoas para serem atendidas, julgo que associados, e como a casa era bastante reduzida em dimensões, deram-nos logo a primazia.
    Como se usa dizer que quem meus filhos beija minha boca adoça, foi o bastante para repararmos que estávamos entre pessoas que pareciam uma família. De repente fomos atendidos por uma empregada, ainda me recordo de baixa estatura, mas alta nas funções que desempenhava, disse-nos o que havia para servir, não havia o menu, este era a sua boca e palavras. Para mim mandei vir um arroz de polvo e para os restantes veio sardinha assada, acompanhada com batatas cozidas e pimentos. Quando estava a acabar o nosso jantar a tal empregada veio perguntar se queríamos mais que o preço era o mesmo. Não repeti, sou de pouco comer, só experimentei uma sardinha, a minha esposa disse que eram uma delícia, eles repetiram e estavam deliciados com tal jantar.
    Até hoje nunca mais passei por lá e julgava que a casa já não possuía esses dotes, são casas que estão obrigadas aos estatutos e de anos a anos vão a eleições e por vezes perdem qualidade com a nova gerência. Ainda bem que veio esta notícia no Aspirina e quando ali me deslocar vou ser uma presença, aliás, aos meus amigos que iam para aqueles lados aconselha-os a uma visita.
    Quem lá for que não espere encontrar bastante espaço e uma casa bem apetrechada, mas de uma coisa afianço, encontra cordialidade, amizade e profissionalismo. É como se costuma dizer nem tudo o reluz é ouro.
    Obrigado Val por esta notícia, assim pude descrever um passeio e um bom jantar num dia de um fim-de-semana e de um mês que não posso precisar.

  3. Também já lá estive, é um ambiente super simpático. Fui em reportagem depois de ter estado de manhã em Santo Tirso. Foi cá uma maratona. Mas valeu a pena. Fui com Menezes Rodrigues e Hilário, o Magriço. Boa gente. Doutra vez passámos por Fátima e vimos perto da capelinha das aparições um grupo de ceguinhos nosso conhecido do Metro. SE eles são cegos alguém os leva para lá.

  4. Manuel Pacheco, se calhar a empregada é a mesma, ela disse-me que está lá há oito anos e contou-me dos primórdios com o fogareiro ao ar livre, de como aquilo foi crescendo e de terem sempre sardinhas e carapaus. E explicou que fizeram obras há dois anos, têm agora um espaço coberto onde era a esplanada. Também abrem uma sala extra ao fim-de-semana, tal a afluência. Aliás, ela garantiu que é o restaurante que mais clientes serve, e de longe, na Figueira e arredores.

  5. huuum, pois eu também me afinfei ali com uma massada de peixe ao almoço e depois com a inspiração continuei com um misto de bacalhau cozido, camarão e atum ao jantar, numa macedónia besuntada de mayonese mas claro tudo por causa dos mineiros chilenos, grande alegria,

    que terror ontem voltei a ver tv, lá levei com o balázio do DiCaprio que nem o pijama me safou

  6. o BCE já pode anular parte da dívida pública dos Estados mais debilitados e repôr o serviço da dívida destes para níveis consentâneos com a propalada estabilidade – a disparidade com o dólar está a ficar excessiva.

    repito: o BCE tornou-se parte contratual do deficit dos Estados-membro, tem que financiar os Estados a juro mais baixo do que financia os bancos, como instrumento que é, e não fim.

    shifting mosaics

  7. E eu vim do Norte, um pouco mais cheinha, mas valeu a pena. Não há vitelinha como a que comi em Braga, e também comem peixe (bacalhau, portanto) de tais dimensões que nos perguntamos se aquilo não foi manipulado geneticamente. Andamos pois todos a refastelar-nos com o bom o melhor…acho bem, que tristezas não pagam dívidas, e comer bem ajuda a economia nacional.

    E o Val também gosta de sopa de nabiças, reparaste, ⅀?

  8. Exactamente em frente ao Núcleo Sportinguista, do outro lado do pequeno largo e com as traseiras a baterem no parque das Abadias, está uma casa, à venda, onde me ficaram colados os olhinhos há muito. Ganhasse eu o euromilhões…

  9. By the way, vais para a Figueira comer besugo??? Besugo é um peixe de águas quentes, durante muitos anos nem aparecia no mercado aí em cima, matavam-se os desejos nas férias no Algarve. Na Figueira come-se carapau, raia com molho de pitau, robalo e outros petiscos assim…

  10. pois é, isto de namoros na cidadela em Cascais com nabiças à mistura afigura-se perigosíssimo, barca fatal, mas eu aproveito e meto logo o BCE à mistura que sempre vai de pau encaminhado e sai de lado,

    ainda assim interrogo-me sobre esta sina,

    bem, toca mas é de avançar o projeto. Acho muito prático deixar cair o cêzinho, fica mais fluente logo mais fácil,

    não obstante tenho de convencer-me um pouco mais.

  11. Já sabia que para esses lados os gatos são um petisco, mas o argumento em relação às lebres deixou-me curiosa. As lebres não são exclusivamente herbívoras? E quanto à esquisitice dos gatos, há gatos e gatos. Só de pensar que a maioria não diz que não a um ratito…

  12. huuuuuuum, sempre a aprender, ora aprender talvez queira dizer negação de prender, e portanto vou esticar as patas para ver o que me sai na rifa e apanhar solzinho no toutiço. Vou aterrar com as quatro patas em cima dumas bifanas à mistura com um espirro, ou então sou intersectado no caminho por um polvo à lagareiro. Valha-me o Espírito Santo.

  13. Pena minha não ter sabido antes de tão excelente porto de abrigo gastronómico. É que passei pela Figueira aqui há uns tempos e, em matéria de petiscar, não fiquei com grandes recordações.

  14. Ofereço à borla esta peça de arte pós-socrática, com um lacinho de cor-de-socas-bebé. Não se façam rogados e lambuzem-se com o miminho. Já o vi tantas vezes que vou propor a substituição dos indutores de caganeira – para intestinos atafulhados de merda xuxialista – por esta maravilha farmolaxante.

    http://www.youtube.com/watch?v=BDwSzZAYRMU&feature=player_embedded

    É o tal vídeo do Circo do Socratintas, onde os PALHAÇOS interpretam os papéis de GOVERNANTES. É de rir e chorar por mais … comédia portuguesa da mais alta qualidade.

    Fo **** se que já me cagei outra vez … tenho de largar este vício porque o PALHAÇO é de partir o caco e fico de rastos depois de vê-lo pela enésima vez.

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