Primeira parte parva, segunda parte cínica

Só vamos descobrir o que é esta Selecção no próximo jogo. Até lá, vou ficar à espera que me respondam: existe alguma forma de convencer os jogadores de que não vale a pena questionar as decisões do árbitro, antes se arriscam a prejudicar toda a equipa se o fizerem? É um dos maiores enigmas do futebol esta insistência numa atitude que só em jogos da Distrital, com vândalos de calhaus na mão junto ao pelado, resulta.

Um livro por semana 190

«2009 Elogios» de Joaquim António Emídio

Joaquim António Emídio (n.1955) que publica desde 1983 retoma neste seu 12º título de poesia o tema do Amor:
«O meu primeiro amor está a nascer / mais uma vez e é o maior amor da minha vida / o meu amor é sem futuro e não tem fim / por isso eu amo para não morrer / enforcado nos braços / de cada mulher que me prende pelo pescoço».
Na escrita de JAE o Amor é, não só um trajecto pessoal mas também a ligação entre a Natureza e a Cultura:
«ando a reler os meus poetas preferidos / rui belo jorge de sena antónio ramos rosa sophia de mello breynner josé maria fonolhosa / pierre louys pablo neruda/ e a redescobrir lugares da infância / à beira do tejo o rio / para onde corre a água / de todas as nascentes / depois de tanto aprender por estreitos / caminhos à beira das estradas».
Há nesta poesia uma dupla inscrição: de um lado a Geografia («Hoje o sol nasceu às seis da manhã»); do outro lado a Arte: «recuso-me a escrever versos / sobre as noites de inverno».
Mas sempre lúcida e fixa na adversativa perante a chamada «vida literária»:
«Leio um prefácio / um poema com dedicatória / um excerto de uma crítica perfumada / uma contracapa azul de elogios / por último dou uma vista de olhos / nas badanas do livro onde se conta / uma certa vidinha literária / e não consta a idade do poeta».

(Editora: Terra Branca, Capa: Pierre Auguste Renoir)

Tudo vale a pena, ó Tabosa

Percebi. Valupi não é, de facto ninguém. É apenas uma palavra que esconde um ou vários seres que não têm a coragem de revelar a sua identidade obscura, o que é compreensível se formos lá ao sítio dele(s) ler as postas laudatórias ao ‘chefe máximo’. Um gang, portanto. A forma reles como a(s) criatura(s) se expressa(m) apenas confirma que pertence à escola do ‘porreiro,pá!’
Por mim, sempre soube que essa corporação que serve o poder socialista não tinha carácter. Nem para dar o nome.
‘Valupi’ é, pois, qual Polifemo, um bruto que dá pelo nome de ‘ninguém’.
A vossa festa está, no entanto, a chegar ao fim. 6 anitos de valupis levaram Portugal à miserável situação actual.
E nem a porcaria do nome deram…
Finalmente, como explicar que, para aceitar o repto do blogger anónimo, teria de me encontrar com ‘ninguém’?
Não vale, de facto a pena.

Rui Crull Tabosa


*

Enquanto o Zelig da bloga fez de economista hiperactivo e se limitou a arquivar emails, andava com a malta do PS. Depois, quando começou a violar a confiança e a correspondência de todos quantos apanhou na rede, abraçou-se ao Mascarenhas e ao Tabosa. De vendido passou a herói. E foi aclamado. Similia Similibus.

Tabosa, tu que aprovas a exposição de correspondência alheia, podias convencer o teu amigo Carlos Santos a publicar os emails que trocou comigo em Janeiro deste ano, poucos dias antes de ter ido para os jornais soltar a franga. Já lho pedi há uns dias, mas ele deve ter esquecido e julga que ainda estão sob segredo de Justiça. Vais gostar do material. Ele diz coisas tão giras.

Quanto a nós, relê a Mensagem. E toma os comprimidos. Se não sabes de que comprimidos estou a falar, marca a consulta.

Inquérito à comissão de inquérito

Comecemos pelo fim: quem for intelectualmente honesto, quer saber como se chegou ao ponto de votar conclusões risíveis. Dizer que o Governo sabia do negócio por este ter sido noticiado na imprensa no dia anterior ao debate no Parlamento talvez não justificasse a existência de uma comissão de inquérito. Talvez, vamos pois supor. Dizer que a PT queria mudar a linha editorial da TVI através da contratação de Moniz fica como exemplo da política-Tarot: lança-se uma carta e fala-se do que apetecer. E dizer que o Governo interveio no negócio por nada ter feito, primeiro, e por ter reagido à desvairada intervenção dos partidos e do Presidente da República nesse mesmo negócio, depois, é de um nível de estupidez que ameaça ficar sem ser ultrapassado nos próximos 900 anos.

Não por acaso, os tontinhos que foram para a Assembleia durante a hora de almoço, movidos a toque de escutas e violação do Estado de direito, calaram-se assim que a Comissão de Ética passou a exibir os números circenses dos asfixiados. Calaram-se bem caladinhos, não voltaram a tocar no assunto tamanha a falta de vergonha e deboche a que se chegou no Parlamento. Com a CPI foi igual, não piaram. A única esperança era o Pacheco Pereira, esse exemplo de probidade. O deputado-espião encontrou matéria avassaladora no que releu, e anunciou que o Governo devia ser demitido e entregue à Judiciária. Como não foi ouvido, nem sequer no seu partido, esperemos que ele próprio divulgue as escutas e vá até às últimas consequências. A Política de Verdade a isso obriga.

PSD e BE quiseram esta comissão de inquérito para desgastar Sócrates e, dependendo das agendas políticas respectivas, ter pretextos para jogadas parlamentares. Acabam a votar um relatório que apaga as declarações dos principais responsáveis por todo o negócio: Bava, Granadeiro e Polanco.

A Assembleia da República viveu um dos seus piores momentos, conclui o cidadão.

E para ti?

Uma feliz sequência de três textos bondosos – ingénuos, nesse sentido da generosidade e do engenho, o oposto do cinismo – permite a rara oportunidade de enaltecer a política:

Da necessidade de ideologias políticas e outra vez o voto – Fernando Nobre
Isabel Moreira

A cartilha.
Tomás Vasques

« Nem realpolitik, nem irrealpolitik, mas politik, pf.»
Inês de Medeiros

Estamos perante três facetas de uma mesma compreensão. Para os autores, e para muitos de nós, a intervenção política ocorre num contexto de complexidade intelectual e de ambiguidade ideológica, sem rótulos evidentes. Seja no acto de votar ou apenas de vocalizar uma opinião. E uma das maiores dificuldades consiste na polissemia, na fluidez dos conceitos e confusão dos discursos, onde não se cultiva a análise e a reflexão na ânsia feroz de obter anuências. Por isso, estes três textos escritos para a partilha informal, inerentemente humildes e genuínos, dão a pensar. Enquanto a Isabel reclama uma definição ideológica, a Inês abjura-a. Pelo meio, o Tomás assume o ramalhete das correntes e designações e passa-lhe uma fita rubra à volta. Mas todos estão a expressar um sentimento de pertença a um espaço comum, imune aos tribalismos e receptivo à surpresa.

O que me interessa, e encanta, neste território é a sua fragilidade, por ver nela a condição necessária para o crescimento cívico, político e pessoal. Os soldados à esquerda desta esquerda não podem conviver com dúvidas, o seu treino é religioso e violento. Tomaram conta da História, conhecem as suas leis, têm a casa cheia de livros que os deixam dormir descansados. Obviamente, não suportam esta gente. À direita, os cavalheiros de indústria que conhecem por experiência própria as delícias do capital, e a facilidade com que ele compra convicções e honorabilidades, exibem sorrisos condescendentes e paternalistas perante o lirismo. Obviamente, não suportam esta gente.

Para mim, esta é a minha gente. Uma gente que não sabe a que mundo veio parar, mas que dá o seu melhor para descobrir o que fazer com a liberdade.

Betsaida

Rui Castro, que tem levado às costas o Blogue de Direita desde o seu início, assinalou o seu protesto contra o delírio. De caminho, relembra um tempo em que era leitor frequente do Aspirina B. O elogio misturado com o acinte faz uma mistura sempre fértil.

Adivinho a surpresa, e gosto, do Rui com a minha dissonância face à orquestra de esquerda purificada que se reuniu neste blogue, um elenco de luxo até meados de 2006. Em diferentes ocasiões, citou-me pelos blogues por onde foi passando. E, em Abril de 2008, chegou a convidar-me para escrever um texto para o 31 da Armada. Que se passou entretanto que justifique o azedume da sua nota? Simples de explicar: o ambiente ficou tóxico com a estratégia e acção do trio Cavaco-Manela-Pacheco. Sócrates foi diabolizado e quem se aproximasse dele, ou dele não se afastasse, apanhava por tabela.

Não desejo ao Rui que perca o seu tempo a ler o que escrevo, sem ironia o digo. Mas é descoroçoante constatar como é fácil perder a lucidez por causa das paixões ideológicas e políticas. Essa ideia de eu ser um dos defensores oficiosos de Sócrates é despejada sem o mínimo contexto ou justificação. É um dichote. Contudo, se lhe desse a maluqueira e passasse os meus textos a pente fino, não encontraria alguma defesa política de Sócrates, Governo ou PS. Pelo contrário, defendi o Não no referendo do aborto, defendo a Igreja e o seu universo em variadas ocasiões, não votei PS nas Legislativas, não irei votar Alegre nas Presidenciais. Que pensará o Rui que ando a defender, então? Licenciaturas ao domingo e por fax? Os envelopes castanhos do Freeport? O plano para acabar com um programa de comédia na TVI?

Rui, se não entendes que sou capaz de defender Sócrates, ou outro governante qualquer, de ataques que me pareçam injustos e indignos com o mesmo entusiasmo com que defenderei a Igreja, a Bíblia ou um qualquer católico nas mesmas circunstâncias, tenho a dizer-te que estás cego. Espero que não seja preciso um milagre para começares a ver.

Viegas dixit

Não vou entrar de novo em considerações juridicas que, pelos vistos excedem as capacidades do telespectador português comum e apenas nos levariam a concluir que, infelizmente, 35 anos após o 25 de Abril, ele continua a não merecer ter direitos.

Vou limitar-me a um comentário vindo do planeta do bom senso, que devemos situar numa galáxia distante de Portugal.

Uma comissão de inquérito não pode ter como objectivo apurar se existem dúvidas. Isto é o pressuposto de começo: só vale a pena instituir uma comissão de inquérito SE existirem dúvidas (caso contrário, estaríamos apenas a dilapidar dinheiros públicos). Portanto uma comissão de inquérito apenas tem sentido se procurar apurar se as dúvidas, que por hipótese existem, têm ou não um fundamento sério e objectivo.

Segue desse pressuposto que quem esperava que a comissão concluisse não existirem dúvidas nenhumas e estar completamente provada a inocência de seja quem for, estava pura e simplesmente equivocado.
Continuar a lerViegas dixit

Vinte Linhas 497

Fernando Venâncio – «A luz e o sombreado» em José Saramago

Julgo ser oportuno recordar este livro de Fernando Venâncio (n. 1944) pois as suas 129 páginas abordam alguns aspectos importantes na obra do Prémio Nobel 1998. Por exemplo, em «Ensaio sobre a Cegueira» F.V. detecta inúmeros castelhanismos:

«Não insistamos nos muitos giros do tipo «não há outro remédio que arriscar», nos abundantes «deve de ser», nos inumeráveis «uns quantos», nos monótonos conjuntivos onde nós poríamos um infinito pessoal, nas frequentes inversões verbo-sujeito, hipérbato que conhecemos mas em que o castelhano refine e que, por vezes, nos obscurece a frase. Grave, grave, é a construção estrangeira, o léxico poluente. Sem castelhano fica-se sem saber o que é «chamar o ministério» ou «um leve roce» ou «tomar terra» ou «os urgidos. E depois um português não diz «a estas alturas» mas «nesta altura». Não diz «a gente do comum» mas «a gente comum». Não diz «pronto» querendo dizer «logo». Não diz «logo» se quer dizer «em seguida». Não diz «distintos» se quer dizer «diferentes» ou «vários». Não diz «em algum caso» querendo dizer «num dos casos». Não diz «à vista» querendo dizer «à primeira vista». Não diz repetidamente «os demais» quando também pode dizer «os outros».

Terá o seu charme dizer «o gracejo levava muitos anos de uso» ou «a saber quem é que manda aqui». Mas convinha não escrever «estão fabricados de materiais combustíveis» ou «a porta buscada estava fechada» ou «não seja que haja por aqui mais vidros» ou «o último que vi foi nas minhas mãos».

Conclui F.V. com razão: «Hoje temos um língua que dispensa o ouro alheio».

Da natureza humana

Se Mota Amaral surpreendeu muitos com a dignificante proibição de utilizar escutas para fazer política, terá calado fundo em quase todos com a invocação da sua experiência com a PIDE.

Em quase todos, mas não naqueles que o censuram. Seus colegas de partido. Parlamentares e presidente do partido. Políticos que conspurcam a política.

Pedro Mexia, correndo o risco de ser vítima dos fanáticos, partilha também a sua experiência e termina com uma citação definitiva a respeito deste péssimo momento da democracia portuguesa.

Vinte Linhas 496

«A noite e o riso» ou «O omãi qe dava pulus»

O Nuno Bragança de «A noite e o riso» escreve entre Azeitão e Belgrado mas é Lisboa cidade que fica no retrato. Sai de casa («esse armazém de peidos») e faz da cidade casa: Lapa, Madragoa, Santos o Velho, Rossio, Restauradores, Cais das Colunas, Cais do Sodré, Mouraria, Rua da Palma, Aeroporto, Cabo Ruivo, Graça, Av. 24 de Julho, Rua Nova da Trindade, Rua de São Paulo. Cria até um advérbio de modo: campo-de-ouriquemente. Depois faz dos amigos, família: Sancho, Simão Cara de Cão, Gaspar, Tomás, Luísa, Júlio Rato, Zana. Vai buscar o título do livro a um poema de Cesariny, invoca Miguel Torga e repete Cristovam Pavia: «Só há saída pelo fundo».

Porém «A noite e o riso» não é só geografia, memória e paisagem; é também povoamento de palavras e expressões de Lisboa: «Eu queria quinze paus porque queria moedas!» diz a Luísa. «Ó ai ó linda, adeus ó virgem, vivó Benfica e mais quem usa do briol!» grita-se no meio do livro. No meio da noite alguém interpela um dos heróis da narrativa: «Tira a mão que o sabão está caro!» Depois de uma cena de pancada com marujos estrangeiros, surge o aviso: «Você diga no Hospital que não viu nada!» No encontro entre Sílvio e a rapariga (futura Luísa) o autor derrama ternura: «O Sílvio é mais novo do que a rapariga: têm a mesma idade.» Porque se trata, obviamente, de ternura e de amor. Depois de ouvir dizer em casa que «um homem que passa a vida a ler só serve para se desonrar, a si e aos seus» o autor vem para a rua porque quer «abrir os olhos à dor e à alegria» e, mais tarde, enfim descobrir: «Toda a hostilidade que há no mundo contra a Arte é contra o Amor».

Silly President

De Cavaco Silva aceitávamos que não fosse ao funeral de Saramago. Do Presidente da República, não.

Agastado com quem o detestou em vida, temendo aumentar o fosso com os católicos ressabiados, optou por faltar a um acontecimento que uniu os portugueses. Os portugueses gostam dos seus mortos, são essencialmente unos. Infelizmente, têm um Presidente da República que não é tão patriota como eles, como fica patente pelas explicações que deu para faltar: promessa de férias com a família. Esta completa ausência de sentido de Estado, e de compreensão simbólica do que está em causa, tem acompanhado a sua Presidência. Mais valia que assumisse a sua ausência com uma declaração de distância ao homem, havendo tantas e tão boas razões para tal, mas a hipocrisia que rege a sua conduta política não lhe permite essa afirmação de carácter.

O cavaquismo dá-se muito mal com a época estival.

Um livro por semana 189

«Aprendiz de Homero» de Nélida Piñon

Prémio Literário Casa de las Américas Cuba 2010, este livro reúne 24 ensaios. A autora começa por se afirmar aprendiza («Há anos converso com Homero») e, de seguida, saúda os seus mestres: «Acolho no coração os que me infiltraram com a descrença indispensável para ter fé. Aos aedos, aos amautas, aos xamãs, a Homero, a Cervantes, a Shakespeare, a Camões, a Machado de Assis. Aos seres da ilusão e da oralidade. Eu os cultuo e eles me devem a imortalidade. Todos os mortos estão em débito com a minha espécie que enaltece o engenho humano e acredita ser a arte voraz quando retrata esta nossa substância corpórea que tritura e sonha ao mesmo tempo».

Não dissertando só sobre o Mundo, acaba por falar de si: «Não sei ser outra coisa que escritora. Já pelas manhãs, enquanto crio, apalpo emoções benfazejas, sentimentos instáveis, a substância sob o abrigo do sinistro e da esperança. Tudo o que a realidade abusiva refuta. É mister, contudo, combater os expurgos estéticos para narrar a histórias jamais contada.» Entre a Autora e o Mundo, fica a Literatura: «A literatura brota de todos os homens, de todas as épocas. Sua ambígua natureza determina que os escritores integrem uma raça fadada a exceder-se. Seus membros, como uma seita, vivem na franja e no âmago da realidade, que constrange e ilumina ao mesmo tempo. E sem a qual a criação fenece. A arte dos escritores arregimenta a sucata e o sublime, o que se oxida em meio aos horrores, o que se regenera sob o impulso dos suspiros de amor». Este livro fascinante pode ser uma História Universal, não das Guerras e dos Países mas do Amor e da Memória: «O meu reportório é composto de memórias do mundo».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: ARD-COR Lda.)