Um livro por semana 189

«Aprendiz de Homero» de Nélida Piñon

Prémio Literário Casa de las Américas Cuba 2010, este livro reúne 24 ensaios. A autora começa por se afirmar aprendiza («Há anos converso com Homero») e, de seguida, saúda os seus mestres: «Acolho no coração os que me infiltraram com a descrença indispensável para ter fé. Aos aedos, aos amautas, aos xamãs, a Homero, a Cervantes, a Shakespeare, a Camões, a Machado de Assis. Aos seres da ilusão e da oralidade. Eu os cultuo e eles me devem a imortalidade. Todos os mortos estão em débito com a minha espécie que enaltece o engenho humano e acredita ser a arte voraz quando retrata esta nossa substância corpórea que tritura e sonha ao mesmo tempo».

Não dissertando só sobre o Mundo, acaba por falar de si: «Não sei ser outra coisa que escritora. Já pelas manhãs, enquanto crio, apalpo emoções benfazejas, sentimentos instáveis, a substância sob o abrigo do sinistro e da esperança. Tudo o que a realidade abusiva refuta. É mister, contudo, combater os expurgos estéticos para narrar a histórias jamais contada.» Entre a Autora e o Mundo, fica a Literatura: «A literatura brota de todos os homens, de todas as épocas. Sua ambígua natureza determina que os escritores integrem uma raça fadada a exceder-se. Seus membros, como uma seita, vivem na franja e no âmago da realidade, que constrange e ilumina ao mesmo tempo. E sem a qual a criação fenece. A arte dos escritores arregimenta a sucata e o sublime, o que se oxida em meio aos horrores, o que se regenera sob o impulso dos suspiros de amor». Este livro fascinante pode ser uma História Universal, não das Guerras e dos Países mas do Amor e da Memória: «O meu reportório é composto de memórias do mundo».

(Editora: Temas e Debates/Círculo de Leitores, Capa: ARD-COR Lda.)

2 thoughts on “Um livro por semana 189”

  1. grande livro, é uma grade escritora, Nélida.
    Ela é galega,
    ja sei que nasceu no Brazil e é ja de terceira geração de emigrantes, mas sem renunciar a sua cultura brasileira , dito por ela, o seu imaginario e o profundo cultural da sua vida é Galiza. Escreveu um grande livro no que narra en forma de romance, isso, a hestoria da emigração galega para o Brazil e a formação do Brazil do século vinte: A REPUBLICA DOS SONHOS.

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