Vinte Linhas 496

«A noite e o riso» ou «O omãi qe dava pulus»

O Nuno Bragança de «A noite e o riso» escreve entre Azeitão e Belgrado mas é Lisboa cidade que fica no retrato. Sai de casa («esse armazém de peidos») e faz da cidade casa: Lapa, Madragoa, Santos o Velho, Rossio, Restauradores, Cais das Colunas, Cais do Sodré, Mouraria, Rua da Palma, Aeroporto, Cabo Ruivo, Graça, Av. 24 de Julho, Rua Nova da Trindade, Rua de São Paulo. Cria até um advérbio de modo: campo-de-ouriquemente. Depois faz dos amigos, família: Sancho, Simão Cara de Cão, Gaspar, Tomás, Luísa, Júlio Rato, Zana. Vai buscar o título do livro a um poema de Cesariny, invoca Miguel Torga e repete Cristovam Pavia: «Só há saída pelo fundo».

Porém «A noite e o riso» não é só geografia, memória e paisagem; é também povoamento de palavras e expressões de Lisboa: «Eu queria quinze paus porque queria moedas!» diz a Luísa. «Ó ai ó linda, adeus ó virgem, vivó Benfica e mais quem usa do briol!» grita-se no meio do livro. No meio da noite alguém interpela um dos heróis da narrativa: «Tira a mão que o sabão está caro!» Depois de uma cena de pancada com marujos estrangeiros, surge o aviso: «Você diga no Hospital que não viu nada!» No encontro entre Sílvio e a rapariga (futura Luísa) o autor derrama ternura: «O Sílvio é mais novo do que a rapariga: têm a mesma idade.» Porque se trata, obviamente, de ternura e de amor. Depois de ouvir dizer em casa que «um homem que passa a vida a ler só serve para se desonrar, a si e aos seus» o autor vem para a rua porque quer «abrir os olhos à dor e à alegria» e, mais tarde, enfim descobrir: «Toda a hostilidade que há no mundo contra a Arte é contra o Amor».

2 thoughts on “Vinte Linhas 496”

  1. Nos intervalos em que não era “bragança” e revolucionário quase profissional, NB era funcionário do Ministério das Corporações e fez uma prolongada comissão em Paris, na Representação de Portugal junto da OCDE.
    Numa das vezes que foi à Praça de Londres, eu tinha na gaveta ” A noite e o Riso” e fiz-lhe uma espera descarada á porta do elevador.
    Sr. Dr., quero pedir-lhe um autógrafo.
    Surpreendido com a petulância e contrariado, como se via na cara, lá me deu um autógrafo “ao colega, desculpe, recorde-me o seu nome ” já não me lembro o que escreveu, agradeci muito e voltei para a minha sala todo ufano.
    Mostrei -o logo à Marianela: olha um autógrafo do Nuno Bragança, ele tinha deixado cair o “de” , para ser mais povo, saquei-lho agora mesmo, ali no átrio.
    Nuno Bragança ? Nunca li .
    Mas vais ler. Emprestei-lhe o livro , mas Nela nunca mo devolveu.
    Se estiveres a ler, Maria, devolve-me a “Noite e o Riso” um dia destes ou diz-me o que nele escreveu o Autor.
    Tome lá, José do Carmo Francisco, este episódio com Nuno Bragança que devia ter trabalhado tanto como Saramago.
    Jnascimento

  2. Pois meu caro nunca se devem emprestar livros porque se são bons como é o caso nunca voltam. Mas vale a pena ler. Procurei dar um cheirinho do livro em 20 linhas mas é o retrato de um certo Portugal (lisboeta até à medula) entre a Lapa e Almirante Reis com passgens pelo Aeroporto e Cabo Ruivo. Há ali figuras inesquecíveis como a Luísa e o bêbado que diz «Tira a mão que o sabão tá caro!».

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