E para ti?

Uma feliz sequência de três textos bondosos – ingénuos, nesse sentido da generosidade e do engenho, o oposto do cinismo – permite a rara oportunidade de enaltecer a política:

Da necessidade de ideologias políticas e outra vez o voto – Fernando Nobre
Isabel Moreira

A cartilha.
Tomás Vasques

« Nem realpolitik, nem irrealpolitik, mas politik, pf.»
Inês de Medeiros

Estamos perante três facetas de uma mesma compreensão. Para os autores, e para muitos de nós, a intervenção política ocorre num contexto de complexidade intelectual e de ambiguidade ideológica, sem rótulos evidentes. Seja no acto de votar ou apenas de vocalizar uma opinião. E uma das maiores dificuldades consiste na polissemia, na fluidez dos conceitos e confusão dos discursos, onde não se cultiva a análise e a reflexão na ânsia feroz de obter anuências. Por isso, estes três textos escritos para a partilha informal, inerentemente humildes e genuínos, dão a pensar. Enquanto a Isabel reclama uma definição ideológica, a Inês abjura-a. Pelo meio, o Tomás assume o ramalhete das correntes e designações e passa-lhe uma fita rubra à volta. Mas todos estão a expressar um sentimento de pertença a um espaço comum, imune aos tribalismos e receptivo à surpresa.

O que me interessa, e encanta, neste território é a sua fragilidade, por ver nela a condição necessária para o crescimento cívico, político e pessoal. Os soldados à esquerda desta esquerda não podem conviver com dúvidas, o seu treino é religioso e violento. Tomaram conta da História, conhecem as suas leis, têm a casa cheia de livros que os deixam dormir descansados. Obviamente, não suportam esta gente. À direita, os cavalheiros de indústria que conhecem por experiência própria as delícias do capital, e a facilidade com que ele compra convicções e honorabilidades, exibem sorrisos condescendentes e paternalistas perante o lirismo. Obviamente, não suportam esta gente.

Para mim, esta é a minha gente. Uma gente que não sabe a que mundo veio parar, mas que dá o seu melhor para descobrir o que fazer com a liberdade.

33 thoughts on “E para ti?”

  1. Sim, sim, já todos perceberam quem é a tua gente! Como eu disse no post anterior, a gente com que este Valupetas se identifica é a «esquerda» ranhosa ou de merda (onde se incluem os varas, lellos e outros semelhantes) e a «direita astuta» (onde se incluem os Júdices e Proenças de Carvalhos). É a tal gente que, mais do que não saber a que mundo veio parar, tem pouco interesse em mudar o mundo a que veio parar (o tal sistema) mas acomoda-se a ele, e que dá, de facto, o seu melhor para descobrir o que fazer não com a liberdade mas com o poder obtido, no sentido de satisfazer os seus interesses particulares e os interesses do próprio sistema. È, portanto, gente de grande flexibilidade ideológica (ou que foge da classificação ideológica), não porque tenha dúvidas mas porque a conquista do poder é que define os rótulos a adoptar: tal como da venda de produtos se tratasse, adoptam-se uns slogans ambiguos e vazios de princípios, mas capazes de fazer a cabeça de eleitores-consumidores. È o caso da tal «esquerda» moderna que actua na base dessa certeza: da certeza de que para atingir o poder precisa de parecer esquerda, e de que para o exercer deve fazer como a direita.

  2. Gostei particularmente do texto da Inês, foi um dos que mais me fizeram reflectir, e não o acho particularmente modesto, muito pelo contrário, podia perfeitamente ser uma bandeira da minha geração (73). Mas ocorre-me que esta crise de ideologias aparenta ser um fenómeno europeu. Nos EUA, por exemplo, o combate ideológico vai de vento em popa, o que tem como consequência a permanente renovação política, a permanente discussão, o combate ainda (ou cada vez mais) com lados perfeitamente definidos, e escolhas claras para os eleitores. E é por isso que, perante a mesma crise e com os mesmos meios, os EUA constantemente se renovam e reinventam (desta vez não vai ser a excepção), enquanto a Europa parece definhar em constantes intrigas palacianas tão ao gosto francês, e permanentemente com os bárbaros à porta. O que temos na Europa, em oposição aos americanos, é um défice sério de democracia participativa ao nível parlamentar. O que inevitavelmente separa os políticos dos cidadãos, o que é não só péssimo para esses mesmos políticos, que perdem a ligação a quem o elegeu, e por isso alocam as suas lealdades ao aparelho, que é quem, na prática, os elege. A ligação aos cidadãos é, neste contexto, algo que ainda se apregoa como “virtude”, em vez de ser uma ligação que ocorre naturalmente, em simbiose. Por outro lado, tem como efeito perverso a desresponsabilização desses mesmos eleitores quanto a quem elegeram, como se a política estivesse num nível inacessível, e os políticos uns semi-deuses a quem se exige tudo sem ter o mínimo trabalho ou incómodo.
    A verdadeira política, neste pais, é feita a nível autárquico, onde a ligação dos presidentes e vereadores aos eleitores é muito mais directa e palpável, e é curiosamente onde a conversa das “ideologias perdidas” interessa menos, ao mesmo tempo que a actividade política é mais fervilhante. Basta ler a imensidão de blogues locais que por aí pululam, ou participar numa dessas eleições, para perceber isso. O que os cidadãos querem talvez seja isso mesmo: menos ideologia estéril, mais combate político a sério.

  3. Vega9000, excelente comentário. Concordo, o texto da Inês é denso, síntese de uma longa reflexão e está ainda marcado por circunstâncias que lhe aumentam a carga afectiva. Mas não é canónico ou intelectualmente correcto, antes assume a forma do desabafo.

    Seja como for, e podendo ser através das linhas comparativas que sugeres, devemos repensar a política indo aos seus fundamentos mais básicos. Começar por saber, por exemplo, que significa ser de esquerda ou de direita, do centro ou do alto, de algures ou de nenhures.

  4. Sim, acho que o que é necessário em Portugal é um “regresso” (entre aspas porque não me parece que alguma vez lá tenhamos estado) aos fundamentos da democracia participativa. Uma Democracia 2.0, se quiseres, pelos cidadãos para os cidadãos (que belo nome para um movimento).
    A ideia do que significa “esquerda” ou “direita” é interessante, porque está em permanente mutação – a Teoria da Relatividade aplicada à política. Tudo depende da nossa posição nesse exacto momento. Dou um exemplo: sorrio sempre quando leio alguém descrever Obama como “de esquerda”, quando o vejo sim como herdeiro de Reagan. A famosa reforma da saúde, que ficará provavelmente como o seu maior feito, é nada mais nada menos que uma cópia quase perfeita do que já tinha sido proposto por…Nixon, nos anos 70, e chumbada na altura pelo partido democrata e Ted Kennedy. E é isto que é considerado “de esquerda” para muitos comentadores. Daí que ser “de esquerda” hoje em dia poderá ser considerado “de direita” para quem tenha ficado calcinado no tempo. Basta ler o nosso amigo ds ali em cima para se ver um exemplo (vou-me arrepender de o ter puxado à discussão, mas enfim…). A realidade em constante mutação é difícil para quem gosta do universo pré-copernicano.

  5. Certíssimo, há espaço para a ambiguidade, a mutação, a rotatividade, até a confusão. O exemplo americano, realmente, não é o que melhor nos serve como horizonte, posto que o sistema e a axiologia do Tio Sam apresentam irredutíveis diferenças com a Europa. Mas tudo ajuda à formação de uma consciência cívica decidida a participar no máximo da sua capacidade política. Por aí, importa recuperar a História e a ciência política, e descobrir uma forma de transmitir esses conteúdos para um público alheado, desconfiado e medroso – porém, igual a todos os outros e com as mesmas ganas de se realizar em liberdade.

  6. Não sei se as diferenças são assim tão irredutíveis – o sistema político americano deriva do inglês, que é firmemente europeu, e num mundo globalizado essas separações tendem a diminuir. Mas concordo com a educação e transmissão dos valores da política aos cidadãos. Só desconfiamos e receamos o desconhecido, o misterioso, o oculto. Mas essa educação não pode ser unidireccional, sob pena de andar uma classe armada em “grande educadora das massas”, dizendo-lhes o que elas não estão interessadas em ouvir. A educação é prática, abrindo o processo político a mais pessoas, abrindo a participação a mais gente. Uma boa maneira de começar é através de primárias entre militantes dos partidos para seleccionar os candidatos, não apenas os lideres das distritais.
    E já agora, mais prático se calhar, começar a educação politica na escola, desde a mais tenra idade. O meu miúdo mais velho acabou o quarto ano agora, e sou eu quem tem de lhe explicar o que é e para que serve um presidente, um primeiro-ministro, o parlamento. Nos EUA, nesta idade, não só recitam de cor os presidentes como todos sabem a rábula do “How a bill becomes a law”. Somos uma democracia recente, podemos aprender muito com os outros sem complexos de inferioridade.

  7. Vega9000, acho que não te vais arrepender por me teres chamado à discussão. Sabes porquê? Porque eu vou esclarecer-te àcerca do que significa a teoria da relatividade aplicada à política. Vais ver que vais ficar surpreendido com aquilo em que consistiu a mudança de paradigma ou modelo na política…
    Como deves saber, segundo a física clássica e newtoniana o espaço e o tempo são absolutos, o que foi contestado por Einstein, para quem estes (o espaço-tempo) não são independentes do referencial sendo que o que é constante é a velocidade da luz. Ainda na física clássica o Sol é visto como o centro do sistema solar (teoria heliocêntrica), o que com Einstein deixa de fazer sentido, pois não há centros (até porque nada está em repouso ou é estático).
    Ora, a política clássica (a política instaurada com a modernidade) está marcada pela ideia cartesiana do cogito, do sujeito, como centro e fundamento do conhecimento (e também do agir), assim como pela ideia de «direitos naturais», direitos absolutos que seriam independentes da vida em sociedade e como que «anteriores» a ela. Aliás, é sobre esta ideia de «direitos naturais» e do sujeito humano como centro de tudo que assenta o liberalismo, doutrina segundo a qual a propriedade e a liberdade são «naturais» e o individuo atomizado é autónomo e referência para tudo.
    Mas eis que se dá uma nova revolução copernicana: se a modernidade tirou deus do centro do mundo para lá colocar o sujeito (da mesma forma que tirou a Terra do centro do mundo para lá colocar o Sol), a certa altura o sujeito deixou de ser o centro e fundamento da realidade (da mesma forma que o Sol ou outra coisa qualquer deixaram de ser o centro do Universo). O sujeito puro cartesiano autónomo e independente do mundo foi posto em suspeita e em causa, deixando o pensamento de ser o centro e fundamento da realidade para passar a ser um reflexo desta. E nem há quaiquer «direitos naturais» ou absolutos, mas direitos na sociedade e relativos a essa sociedade. E quem fala em direitos, também fala em ideologias, pois todos estes princípios vistos como «naturais» e absolutos são parte da ideologia produzida por um determinado tempo e espaço social. Essa tua ideia de que a esquerda e direita são conceitos ultrapassados é um exemplo disso e que acaba por estar certa e errada ao mesmo tempo. Porquê? Está certa na medida em que é uma criação do tempo presente, actual, mas é por isso mesmo parte da ideologia actual e dominante, da ideologia que ingenuamente e inconscientemente se assume como a verdade. Está «certa» se o ponto de vista assumido é o da ideologia dominante. Não é por acaso que quem mais defende essa ideia é a direita, que é quem actualmente tem o poder. E está errada pelo mesmo motivo, porque é relativa a um tempo especifico e não nenhuma verdade autómoma a ser vista como o centro de qualquer reflexão política absoluta. Está errada se o ponto de vista assumido for o de que essa ideia não é independente da ideologia que a sustenta. Está errada se o ponto de vista assumido for o de que o tal cogito cartesiano não é centro nem fundamento da realidade, como o novo paradigma estabeleceu.
    Para finalizar resta dizer quem inaugurou esta nova forma de ver a realidade e quem rompeu com a ideia de quem o sujeito humano é o centro ou fundamento da realidade. Esse tipo em causa foi considerado (pelo filósofo francês Ricoeur) como um dos «mestres da suspeita», e a sua tese que inverteu a forma de ver as coisas é a seguinte: «Não é a consciência que determina a existência. È a existência social que determina a consciência». Quem é pois o «Einstein» da política que rompeu com as visões absolutas? É esse mesmo: Karl Marx.

  8. Suponho que quem escreve um texto como o que acabei de ler não precisa de elogios.

    Mas não resisto!…

    Há muito tempo que não lia um texto tão BRILHANTE como o teu, DS.

  9. Entretanto, decorrido o século XX em cima do XIX, lá se rebateu essa visão absoluta e unilateral de uma coisa (a sociedade) determinar a outra (a consciência) : não se pode falar em determinismo mas em complementaridade, interdependência e inter-influência. A realidade material não nasce de geração espontânea e a consciência cria realidade, sim.

  10. A «ediota» que já me mandou para o caralho e que disse que ia ignorar os meus comentários decidiu entrar na conversa. Vou limitar-me a ser telegráfico: já esperava que alguém dissesse isso, mas a verdade é que Marx nunca afirmou que a realidade material surgisse do nada, muito pelo contrário, pois são os homens quem faz a história.
    De qualquer forma, se Marx é, por assim dizer, o «Einstein» da política e se para os dois «deus não joga aos dados», e se na física se procura conciliar o determinismo einsteiniano com a mecânica quântica, o mesmo se deveria passar na política. Mas não: o embuste da dita «esquerda» moderna prefere fazer tábua rasa do marxismo e adoptar as visões politicas clássicas liberais ou neoliberais: prefere voltar ao «Newton», isto é, ao Adam Smith e ao Locke…
    Ponto final. Parágrafo. Fim de conversa.

  11. ds, é isso que me espanta no teu pensamento: essa busca da “verdade” como algo absoluto e intemporal, quando tudo é relativo. Dizes que as verdades são apenas fruto de determinado tempo e ideologia dominante? Pressuponho então que penses que há uma “verdade” absoluta e imutável, algures por aí, só à espera que as “ideologias” que não gostas se afastem para ser revelada em todo o seu esplendor, é isso? E Karl Marx, cuja obra não conheço – e lamento não te poder dar uma resposta à altura do que pensas merecer, mas a minha formação foi distante da filosofia e ciência política – dizia eu, Karl Marx “liberta” então o indivíduo da sua autonomia para o sujeitar à sociedade que o rodeia, terei percebido bem? A sociedade “faz” um indivíduo, e não o contrário, é essa a premissa? Fabuloso, não haja dúvida. Agradeço o “esclarecimento”. Como é que passámos da vida comunitária em cavernas para democracias avançadas tipo ocidental é então um mistério. A “ideologia dominante” que tudo impede pelos vistos não é grande coisa.

    Faço minhas as palavras da Carmen: que lindo castelo de areia, ds. É pena que o mar da história não perdoe…

  12. Vega9000, de facto não percebeste grande coisa daquilo que eu escrevi. Aquilo que tu dizes ser «fabuloso», isto é, a sociedade a fazer o indíviduo é algo visto como adquirido (o que não quer dizer que é uma «verdade absoluta»: é uma verdade produzida pelo conhecimento do homem), pois o ser humano é um ser social, não vive isolado à maneira cartesiana. Não há individuos fora da sociedade. Ou será que nunca ouviste falar dos casos reais de «seres humanos» (biologicamente falando) que abandonados e vivendo entre animais adoptaram comportamentos e lingaugens animais?
    Por outro lado, pelos vistos não percebeste o paralelo que eu estabeleci entre Einstein e Marx, mas eu tornei-o explítico: com Marx dá-se uma mudança de paradigma, pois a consciência, o sujeito, deixa de ser vista com algo feito à partida e como algo absoluto e independente da realidade social – porque o homem é um ser social, é um ser em situação (como dira Heidegger)! Não há centros, não há espaços absolutos, nem tempos absolutos, tanto em Marx como em Einstein. Este é o paralelismo.

  13. ds,

    neste blogue, estou habituada a entrar na conversa tantas vezes quantas as que me apetecer. O centro desta conversa não és tu (nem é determinado por ti), é o assunto do post…
    E mando-te e volto a mandar para o caralho sempre que te puseres a jeito, como acabaste de fazer.

    Vega, como é bem de ver, o marxismo é, para os marxistas ortodoxos (fundamentalistas?), a verdade absoluta, a que escapa aos seus próprios príncipios…

  14. ds, correcto, mas também não há sociedade fora do ser humano. É uma relação de interdependência, mas focada no indivíduo, não na sociedade “em si” como um valor absoluto, e é o indivíduo que deve ser predominante. A sociedade existe para servir o indivíduo, e não o contrário. A capacidade social, logo toda a sociedade, existe apenas porque nos dá vantagem evolucionaria na realidade em que nos inserimos. Foi o caminho que escolhemos como espécie há muitas fases evolucionarias atrás, e tem resultado lindamente. As formigas também não se têm dado mal. É quando se procura inverter esse valor da liberdade individual (esse sim absoluto) para o sujeitar a “valores comuns” que as asneiras acontecem. Como qualquer naufrago numa ilha deserta te dirá, somos perfeitamente capazes de nos desenvencilhar, e até prosperar, sozinhos sem apoio da sociedade. Por outro lado, se a sociedade reprime essa individualidade, rapidamente definha. O indivíduo é o centro do mundo. Tudo o resto são castelos de areia construídos por este. Alguns resistem, outros não.

  15. Vega9000, o sistema americano, mesmo que herdado do inglês, tem pouco a ver com o europeu. Tanto pelo bipartidarismo, como pela dinâmica das duas câmaras, como ainda – e mais importante – pela cultura religiosa e política dos eleitorados. E por tantas outras coisas, evidentemente, que não é preciso lembrar. Mas nada disso impede o reconhecimento de que há um espírito cívico nos Estados Unidos que está solidamente fundado no seu edifício constitucional e judicial, com todas as vantagens daí decorrentes. Isso é um território comum onde podemos ir buscar inspiração, lições e alento.

    O que dizes do teu filho não pode ser mais importante. A escola, depois de 11 ou 12 anos de escolaridade obrigatória, devia formar cidadãos. E o que é um cidadão neste sentido da formação escolar? Pois seria alguém que, no mínimo, não sofresse de iliteracia cívica. Alguém que dominasse os conceitos e códigos comuns à vida institucional e partidária. Alguém proficiente em matéria de direitos e deveres constitucionais. Depois, se o jovem votava à esquerda ou à direita, neste ou naquele, isso seria indiferente para o que está em causa: termos cada vez mais cidadãos a dialogar em prol da comunidade.

    Os conflitos políticos não são prejudiciais, nem sequer evitáveis. O que é prejudicial é a ignorância e a má-fé. A má-fé, de resto, procura sempre a ignorância para a manipular. Eis, pois, o que podemos começar por fazer: diminuir a ignorância.

  16. Não gosto de equívocos.

    Lá para trás vi o meu nome associado a um comentário que não subscrevo.

    DS, quando digo que o teu texto é brilhante, é exactamente o que penso. Faço-o pela matéria abordada, pela clareza de raciocínio, pela lucidez de interpretação que dás ao tema, em suma, pelo conhecimento que demonstras ter.

    Lamento sempre que encontro pessoas que abordam a obra de Marx displicentemente, não a conhecendo. Mas experimentem, não custa nada…

    Correm apenas um risco: se lida desapaixonadamente não nos deixa indiferentes. É só

  17. Vega 9000

    Em lugar de sarcasmos frustrados, devias ler com atenção o texto do DS. Se te faz confusão, não leias a palavra MARX, pronto. Tudo se resolve

    Agora, tenho que sublinhar uma frase tua:
    ” A sociedade existe para servir o indivíduo, e não o contrário”

    Confesso que fiquei bastante curiosa para conhecer esse conceito de sociedade

  18. Val,

    Ontem, quando acabei de ler os textos que encimam a rapsódia que se seguiu, estava bem longe de pensar que, por uma vez, as melgas do costume não largassem a sua pegada.

    Gente fina desta vez, a consistência e as convicções do “ds” são como os “dentes de betão”.

    A tua mensagem “diminuir a ignorância” é todo um programa. E por falar em programas de formação cívica ou política, que dá no mesmo, qualquer escola secundaria pode abrir inscrições, o que nunca fazem, que eu saiba. O curso pode ser consultado na associação de ciências políticas.

    Não dói nada, dá um enorme trabalhão, mas no fim ninguém fala por palpite.

    A evolução, adaptação, em algumas espécies é medida em MILHÕES de anos no que se refere aos aspectos fisiológicos, quanto ao resto começámos ontem.

    Parabéns pela higiene contida.

    Abraço para ti.

  19. Vega9000, como a Carmen disse, o teu problema está visto que é a palavra Marx. Intencionalmente, só referi o nome do tal «Einstein» da política no fim do texto (e não no princípio, por exemplo) para evitar que fizesses leituras apressadas ou preconceituosas. Mas, pronto, mesmo estando o seu nome no fim do texto, a tua reacção é a esperada de alguém que se recusa a perceber o paralelismo. Mas garanto-te que Marx é menos complicado que Einstein, pois não mete equações diferenciais ou integrais.
    Agora, precisas é de te abstraír desses preconceitos ideológicos, da mesma forma que quem nunca ouviu falar de Einstein e da sua teoria precisa abstrair-se daquilo que é (parece) «evidente» e é intuitivo, como seria ou é o caso do espaço e tempo serem uniformes e o caso da velocidade da luz num comboio em movimento ser igual à soma das duas velocidades. Essa tua recusa é ainda mais evidente no teu último comentário, pois aquilo que dizes assenta na tal visão cartesiana (e que tu assumes) de fazer do indivíduo o centro do mundo: preferes ver as coisas segundo o prisma clássico ou «newtoniano» da política.
    O teu equívoco está logo no facto de opores a «liberdade individual» aos valores comuns. Então a «liberdade individual» não é ou seria um valor comum, partilhado por toda a sociedade? Claro que é um valor comum ou maioritário: mas é comum porque é dominante. E é um valor, como eu disse, que assenta numa visão liberal e cartesiana da realidade: da visão que entende que há individuos fora da sociedade, como a própria neoliberal Thatcher afirmou quando disse que «a sociedade não existe, pois é a mera soma de individuos». A consequência disto é, claro, afirmar que só se é «livre», se se cortar com tudo o que o é entendido como social.
    Mas não, nem o indivíduo, nem o homem é centro ou princípio de nada. Depois de Marx, o que pode dizer-se é que o homem deve ser o fim a alcançar. De acordo com Marx o comunismo seria mesmo isso: a sociedade em que os homens deixam de ser meios para atingir fins, deixam de ser mercadorias. Só não afirmou que DEVE SER isso, devido ao tal determinismo subjacente à sua teoria que transforma essa finalidade numa inevitabilidade: não «deve ser», porque seria automaticamente.
    A sociedade em que vivemos e que estabelece que o individuo atomizado é o fundamento da realidade, do direito, etc, etc, é uma sociedade organizada não tendo em vista o homem como finalidade, mas o lucro, o crescimento económico, etc, etc. È o próprio Adam Smith quem reconhece isso. E numa sociedade assim essa tal «liberdade individual» é mera ideologia sem correspondência com a realidade, já que ninguém é livre quando é tratado como um meio; ninguém é livre quando a necessidade impôe ser tratado como meio. Não acontecendo isto automaticamente, como suponha Marx, impunha-se que fosse um exigência ética: de quem é de esquerda, claro. E está visto que isso não é exigência ética da dita «esquerda» moderna embusteira cada vez mais submissa às inevitabilidades e determinismos neoliberais do mercado que funciona por si mesmo. O que não deixa de ser irónico…

  20. ds, temos visões muito diferentes da realidade, mas aprecio e agradeço a explicação franca e esclarecedora do que os Marxistas pensam. É sobretudo por isto que ando por aqui.
    Já no que diz respeito a Einstein e Marx, há uma diferença, muito pequenina, que os distingue: as teorias de um foram provadas cientificamente precisamente através da experiência, a observação da realidade, da teoria em funcionamento. As teorias de outro foram sujeitas à mesma prova, com os resultados que se conhecem. Daí, a fazer fé no pensamento científico, é uma teoria falhada. Bonita, mas falhada. A realidade, suprema juíza, não a valida. E isto decorre da observação da realidade, a mesma para mim e para ti. Foi tentado. O resultado foi uma sociedade inferior aquela com que competia, logo extinguiu-se. Darwin no seu melhor. Daí que dou-te razão, não percebo mesmo o paralelismo, a não ser numa associação forçada para demonstrar que como uma teoria que rompeu a visão que tínhamos da realidade está correcta (até agora…), a outra teoria que pretende fazer o mesmo também estará. Não é verdade.
    Depois, não digo que a liberdade individual se opõe aos valores comuns. Digo que estes existem em complementaridade, ou para ir mais longe, os valores comuns são construções que fizemos porque descobrimos, à eons atrás, que tínhamos melhores hipóteses de sobrevivência colaborando uns com os outros do que por nós mesmos. Mas o benefício é, em ultima análise, individual. Eu estou inserido numa sociedade porque esta sociedade me dá melhores hipóteses a mim. Com os outros é o mesmo. Daí que a sociedade, tal como a linguagem, por exemplo, é uma ferramenta, não um fim em si mesmo, ao contrário do que pareces pensar. Um dos nossos castelos de areia. Se duvidas, pensa no que acontece nas ocasiões em que essas regras intrincadas da sociedade se eclipsam. Num incêndio numa sala de cinema, por exemplo. Quanto os instintos de sobrevivência, aquilo que é mais básico no ser humano, vêm ao de cima, é cada um por si. Multiplicado à décima potência se houver filhos envolvidos. É o que somos, não vale a pena andar com rodeios. E é por isso que as sociedades avançadas de mercado prosperam, enquanto as outras definham. Porque se baseiam na realidade e se adaptam a essas “falhas” do ser humano, enquanto a sociedade que Marx pretende, ao que descreves, se baseia num ideal não existente, na ficção, em algo que não existe nem nunca existirá. O tal pensamento mágico. Que, quando confrontado com a realidade (a tal que morde), é incapaz de perceber o que acontece, dando origem à tua bela frase: “o homem não é o centro de nada”. Eu nisso discordo. Do meu ponto de vista, o homem é o centro de tudo. Este homem, com todos os seus defeitos, é que domina agora o mundo, não apesar das suas falhas, mas precisamente por causa destas.

  21. Vou começar pelo fim. Dizes tu que para ti o homem é o centro de tudo, mas depois tanto no plano da interpretação da realidade, como no plano da acção não é isso que se encontra no teu discurso. O teu discurso está marcado por uma visão darwinista (que tu assumes) da realidade, e, tenho que te dizer, aí o homem não é centro de nada: os homens são apenas uns animais como outros que sobreviveram porque se adaptaram à natureza. Quando colocas os instintos de sobrevivência como chave de interpretação para se perceber o que são os homens, estás a negar que o homem ocupe qualquer posição central ou privilegiada na realidade. Lembro-te que, no paradigma moderno estabelecido por Descartes, o homem é o centro porque o cogito se torna no fundamento, e não os instintos animais mais primários. Aliás, para Descartes os animais são máquinas destituidas de «alma», ao contrário do homem. Na (tua) visão darwinista esta distinção não tem sentido, e o pensamento, o cogito, acaba por ser um efeito secundário.
    Mas o teu darwinismo não se fica por aqui, e estende-se ao mundo social. Tu defendes ao fim ao cabo o darwinismo social: tal como a natureza, a «sociedade» deve funcionar segundo o princípio da lei do mais forte, segundo a lei que dita que sobrevivem os mais fortes. Um principio que, no plano ético e político, retira novamente ao homem qualquer centralidade, e que é, ao fim ao cabo, o princípio que domina a sociedade capitalista mais selvagem (como se costuma dizer): selvagem porque sem regras, lá está, a não ser a regra da lei do mais forte. E isto meu caro não tem nada de esquerda: terás pois de reconhecer que não segues, nem defendes, qualquer projecto de esquerda. Aliás, vivendo tu na América isso também era expectável, já que a América é desde o seu nascimento um país conservador, puritano e anti-socialista. Basta ver que até dizem que o Obama tem tiques ou tendências de socialista!!
    Depois dizes uma coisa «fabulosa» (agora é a minha vez de ficar espantado): dizes que a sociedade é um ferramenta que asseguraria o benefício individual de cada um. Vê-se que assimilaste bem a tal ideologia dominante! Ora, diz-me lá então: qual foi o benefício individual de cada um que foi assegurado com a sociedade esclavagista? Terá sido o «direito» a trabalhar para o senhor? – estou a ser irónico, claro. És capaz de andar mais perto da verdade se disseres que essa sociedade esclavagista era uma «ferramenta» que asseguraria o beneficio individual de alguns poucos: da classe dominante, segundo o marxismo. Ora, na sociedade capitalista passa-se o mesmo: há uma classe dominante, e a tua ideia de que está organizada a pensar no benefício individual é apenas mais um produto da ideologia do capitalismo. Tu procuras legitimar o capitalismo numa dita ordem natural, mas isso não é nada de novo: o esclavagismo fazia o mesmo!
    Finalmente, e pegando no ínicio do teu texto, a questão da cientificidade ou não do marxismo é uma questão complexa, pois envolve a distinção entre as ditas ciências exactas e as ditas «ciências» sociais (que até vai entre aspas por causa das coisas). Mas digo-te desde já que o darwinismo também foi visto como não cientifico, pois ao contrário das teorias da física, não é uma teoria susceptivel de ser submetida a testes e experiências. De qualquer forma, é preciso distinguir duas componentes no marxismo: a parte que analisa a sociedade e as relações sociais, e a outra que prevê o que será o futuro da sociedade, o sentido em que caminha a história. Se as previsões não saíram correctas, já a análise continua válida e actual. Cada vez mais actual, tendo em conta que o poder político é cada vez mais submisso ao poder económico. Ou seja, a tese de que o Estado está ao serviço da classe dominante é cada vez mais actual.

  22. O homem não domina o mundo coisa nenhuma. Basta as placas tectónicas espirrarem e é um ver se te avias, quando mais se lhes der para dançar salsa. O bicho homem é um ser cretino obcecado com a sua própria morte, sem ter a coragem do homem velho que sabe que é imortal (Caetano dixit), e assim a vai provocando. No entanto também acredito que não estamos fora da hipótese de Gaia e esta terá as suas razões. É preciso atingir a tensão da Guerra Fria depois da mortandade da Segunda Guerra para conseguir pôr uma pata na Lua? Quiça, não sei responder.

    A Gaia do Lovelock não é a única, também há a gaia ciência da qual fazia gala o nosso rei poeta, D. Dinis, e era a arte de trovar:

    Ai flores, ai flores do verde pino
    Se sabedes novas do meu amigo?
    Ai Deus, e u é?

    Ai flores, ai flores do verde ramo
    Se sabedes novas do meu amado?
    Ai Deus, e u é?

    Se sabes novas do meu amigo
    Aquele que mentiu do que pôs comigo?
    Ai Deus e u é?

    Se sabes novas do meu amado,
    Esse que mentiu do que mi há jurado?
    Ai Deus, e u é?

    Nota: é muito bom! mas já agora peço que se não me aplique ali numas coisas,

  23. Gostei muito do que disseste ds, é uma abordagem pedagógica e muito verdadeira ao contrario de análises resultadistas provenientes do método Record, o que está a jogar melhor é sempre o que está em vantagem e o que ganha. do fim para o principio…perdão principio? do fim para o fim, assim é que é. O principio é muito longe.

  24. ds, se olhares pela janela verás que o homem fez bastante mais do que “sobreviver”, e todos os animais se adaptaram à natureza. O homem é aquele que, mais do que adaptar, tem consciência dela e procura moldá-la em seu proveito. Coisa que tem feito com admirável eficácia e sucesso. Agora o facto de ter consciência de si mesmo não anula o facto de, no fundo, ter também instintos básicos e animais, que convivem, mais uma vez em complementaridade com essa consciência. Aliás, essa complementaridade é o que nos torna tão espantosamente eficaz e dominante. O instinto aliado à inteligência, ambas a empurrar progresso humano. Mais uma vez, olha pela janela. Observa aquilo em que nos tornámos. Há milhões de anos atrás, éramos mais uma criatura entre tantas. Hoje, somos A criatura, alegremente fazendo do mundo o que queremos, modificando-o e adaptando-o às nossas vontades e caprichos, constantemente estudando, cada vez com mais detalhe, o seu funcionamento, com o objectivo, confessado ou não, de obter cada vez mais poder sobre ele. A criatura explora a máquina. Observa-a. Mede-a. Testa-a. Tenta modificá-la, e observa os efeitos. Está melhor? Serve-me mais? Sou beneficiado? Gostes ou não, essa é a criatura que tu és também. Sempre que brincas com um cão, estás a dominá-lo. A moldá-lo à tua vontade. O cão, lembro-te, é uma criação humana. Existe por que nos é útil.Como o são as vacas leiteiras, e toda a panóplia de animais e plantas que pomos ao nosso serviço. As rosas azuis, inexistentes na natureza. Os ratos com orelhas nas costas. O Homem, ds, é uma criatura que quer, e cada vez mais pode. Muito diferente desse “nada” que lhe pretendes atribuir, de “uma criatura entre as outras”, as que simplesmente “aceitam”. Isto é o que nos distingue.
    O que nos leva a Darwin. Onde estás correcto, o Darwinismo social é o que acredito. E o resto do mundo também, simplesmente damos-lhe outro nome, mais consensual, menos chocante: Meritocracia. A ascensão dos melhores. Agora o que nos distingue é o facto de tu pensares que essa “lei do mais forte” conduz ao individualismo primário e à selva. Não conduz, precisamente pelas razões que já te expus: o individual progride melhor inserido numa sociedade que o apoia, que o serve, logo não faz sentido acabar com ela, antes interessa sim aperfeiçoá-la, como ferramenta que é. Usar os meus talentos para benefício próprio e, simultâneamente, tornar a sociedade mais funcional e próspera, porque isso funciona a meu favor. É isso que se entende por complementaridade em benefício do indivíduo. Para além disso, apesar de se pensar em “forte” aplicado literalmente, no caso humano a força que nos impele, e que domina, é a inteligência. Foi por ela que nos impusemos. Força bruta é para os Leões. Recomendo-te a cena inicial do filme “2001”, onde o macaco se impõe aos outros com um osso transformado em arma. Não se impôs aos outros porque é o mais forte. Impõe-se, isso sim, porque foi o primeiro a perceber que o uso do osso lhe dava uma vantagem. Impôs-se, em suma, porque foi mais inteligente que os outros, e essa inteligência dá-lhe uma vantagem. Logo, substitui “lei do mais forte” por “lei do mais inteligente” e terás talvez uma descrição mais precisa do que entendo por “Darwinismo social”. E se determinadas sociedades se impõem às outras pela força, meu caro, é porque tiveram a inteligência de o fazer. Melhores armas, melhor organização, tudo se resume ao intelecto humano. Hitler não foi derrotado porque fomos simplesmente mais fortes, foi-o porque uma sociedade livre tem constantemente provado ser mais inteligente do que uma não-livre, logo mais forte. Como poderás observar no mundo actual, dominado pelas democracias. Mas de onde vem a inteligência dessas sociedades livres?
    A questão fundamental, para te explicar o meu entendimento porque Marx falhou, é que se mais uma vez olhares à tua volta, verás que tudo o que somos resulta de acções individuais. De alguém que “quis”. Pensa lá: Portugal – graças a D. Afonso Henriques. India – Ghandi. O teu computador – Turing. A web – Berners-Lee. Os teus livros – Gutemberg. A tua casa – o promotor, ou, no caso dos bairros sociais, o vereador, ou o tipo que se foi queixar que vivia numa barraca. Avião – Wright (sim, eu sei que são dois, mas garanto que houve um que se lembrou primeiro). Igreja católica – apóstolo Paulo. Igreja protestante – Lutero. Os teus ideais – Marx. A tua existência – o primeiro dos teus pais a meter conversa. Etc. Etc. Etc. Pensa numa coisa, investiga, e por trás dela garanto-te que está um tipo que teve uma ideia. É isto que eu chamo de individualismo – o que nós nos tornámos resulta de milhões de acções individuais. Inseridas numa sociedade, é certo, mas individuais e muitas vezes com risco considerável. Seja de vida, se o indivíduo viveu numa sociedade repressiva, seja o risco de falhar, de se dar mal, de ir para a miséria, de ser ridicularizado. Isto para mim é uma evidência, não sei se para ti será. Mesmo que sejas um tipo que se limita a fazer o que os outros mandam, estás nessa posição porque queres. Cabe-te a ti, e exclusivamente a ti, saíres dela se não te agradar. Quereres. Mesmo que para isso tenhas de arriscar a vida, por exemplo, como todos os teus amigos militantes (estou a supor, se calhar erradamente, que serás do PC) que lutaram contra um regime de que não gostavam. Que sentiam que os prejudicava. Mas a decisão é sempre individual. És tu que não gostas desta sociedade, e por isso queres modificá-la para ficar mais do teu agrado. Não venhas com desculpas que é por nós. Em última análise, podes dizer é que tu decidiste que não gostavas como nós vivíamos. Tú, mais uma vez. ds, o indivíduo. A junção do instinto e da consciência. Percebes agora porque digo que o indivíduo é a base de tudo?
    Agora pega numa sociedade onde esse individualismo é reprimido. Onde a ideia individual, a livre iniciativa, é desencorajada. Que te diz para pensares não em ti, mas nos outros, porque não passas de uma peça no sistema que não funciona para ti, mas para todos. Onde alguém cuidará das tuas necessidades, alguém te diz onde estudar, o que estudar, o que vais fazer, quanto vais ganhar. Onde nada é decidido pela tua vontade ou capacidades, mas sim por uma vontade comum em benefício comum porque, como dizes, “o homem não é nada”, logo a sociedade é tudo, e o homem existe para a servir. Qual é, nessa “segurança” entorpecedora, o incentivo para correres mais riscos do que o tipo ao lado? Para explorar uma ideia nova? Para criar algo? Para abanar o barco? Qual é a recompensa? Se não há, porque é distribuída por todos, mesmo os que nada fizeram e se limitaram a ver-te fazer, porque é que te hás de te dar ao trabalho? Só se for por vaidade, pela vontade de reconhecimento. Pelo ego, em resumo. Porque é que achas que todos os países comunistas acabaram dominados por déspotas cheios de si mesmos? Achas que foi por azar?
    Dou-te um exemplo: imagina um grupo de miúdos que vai fazer um teste de matemática. Aplicar o que aprendeu. Como é que a sociedade sai mais beneficiada, se cada um fizer o teste por si, e for recompensado consoante o seu mérito, ou juntando todos à volta de uma mesa e resolvendo em conjunto, ficando todos com uma única nota que é resultado do esforço colectivo? Esta última ideia não parece má, não é? E justa. Todos se esforçaram, todos beneficiam. Isto é a tal sociedade comunista com que sonhas. Agora olha com mais atenção: tendo em conta que não são telepatas, como é que resolveram o teste? Todos contribuíram por igual, ou havia uns mais espertos que resolveram os problemas mais difíceis, enquanto os menos dados à matemática foram a reboque? Tudo muito bem, até chegarem à faculdade. Se as notas foram resultado de um esforço comum, e iguais para todos porque todos, à sua maneira, contribuíram, como é que se distingue quem vai para engenharia, para física, para biologia, para direito? Como é que se vê as reais capacidades de cada um? Assume-se que são todos iguais? Que as capacidades individuais não interessam? O reino da mediania, em que independentemente das tuas capacidades não vales mais do que os outros e os teus talentos não são valorizados? Volto à questão inicial, é assim que uma sociedade sai mais beneficiada? Ias a um médico formado em tal sistema?
    Voltamos então à hipótese 1: todos fazem os testes individualmente, sendo premiados pelo seu mérito. Uns brilham, a maioria está na média, outros falham. Na faculdade, uns entram no que gostam, porque trabalharam para isso, outros entram na segunda escolha, outros não entram. Aliás, entram pela porta de serviço, porque o chão tem de ser varrido.
    No final, o marrão a matemática forma-se e ganha um Nobel, enquanto o seu colega de carteira se encarrega de lhe varrer a passadeira vermelha. Parece injusto, não é? O varredor, pelo menos, assim pensa, porque tem calos nas mãos enquanto o colega está lá dentro a beberricar champanhe.
    Acontece que o tipo que varre a passadeira está inserido numa sociedade onde, se adoecer, tem um médico que entrou por mérito. Sai beneficiado com isso, porque tem a garantia que o médico é competente. Vai para casa num carro pequeno mas seguro, pois o engenheiro que o desenhou é competente, porque entrou por mérito no Técnico. Sai beneficiado com isso. Quando o acusam de roubar a vassoura, tem a certeza que o juiz será justo, porque entrou para o CEJ por mérito. Sai beneficiado com isso. O antigo colega que se formou engenheiro informático inventou o telemóvel, fez uma empresa, ganhou rios de dinheiro com a sua invenção. Passeia-se agora no seu jacto privado com a terceira amante. O tipo da vassoura sai beneficiado com isso, porque pode ligar aos filhos quando lhe apetecer para ver se, ao contrário dele, estão a estudar, e além disso o cunhado, que entrou em gestão como segunda escolha, trabalha como manager na fábrica de telemóveis, e faz umas patuscadas porreiras na vivenda de Foros da Amora. Todos acabam por ser beneficiados também, mas conforme o seu esforço. Individual, inserido numa sociedade que premeia o mérito.
    Agora diz-me, qual das sociedades é mais justa? Qual é que achas que prevalece numa competição entre ambas?

    Já em relação à comparação que fazes entre capitalismo e escravatura, mais uma daquelas tentativas de paralelos para demonstrar que sendo uma má, a outra também o será, resolve-se facilmente, sem o testamento que escrevi acima: a minha avó tem uma quinta, eu arranjo umas grilhetas e um chicote, e vais ver que percebes num instante a diferença entre trabalho pago e trabalho forçado. Não gostas do teu trabalho, sentes-te escravizado? Resolve-se com uma folha de papel, começada com a frase “apresento a minha demissão”. É a diferença fundamental, se calhar para ti um mero pormenor, entre o capitalismo e a escravatura.Depois, como precisas de viver, e o dinheiro não cresce nas árvores, tens duas escolhas: na primeira, abres o teu próprio negócio e vives da tua ideia, da tua inteligência. Na segunda, tornas-te comunista e procuras apropriar-te do fruto das ideias dos outros, com a desculpa que eles têm muito e tu não tens nada. Porque nada fizeste, e não gostas de te subjugar àqueles que fizeram.
    Ah, mas dizes, não é bem assim, porque aqueles que fizeram são a “classe dominante”, e arranjam maneira de não te deixarem impor a tua ideia, de abrires o teu negócio. Muito bem, aí voltamos a estar em sintonia, é preciso criar as condições para que todos tenham a sua oportunidade de pôr em prática o seu individualismo, sem que os mais fortes se aproveitem do seu poder para o impedir. É preciso, antes de mais, que todos tenham a oportunidade de resolver aquele teste de matemática. Meu caro, bem-vindo à esquerda moderna. Aquela que reconhece que Marx falhou e é uma ilusão. Mas que no entanto, reconhece também que partes das suas ideias (sindicatos, direitos dos trabalhadores) podem ser aplicadas para melhorar esta sociedade, em vez de andar atrás de uma sociedade mágica e depois culpar “o homem” quando tudo se desmorona. Aquela que procura criar um mundo mais justo reconhecendo que tudo provém do indivíduo, em proveito deste, e em consequência de todos, e que é portanto do interesse geral promovê-lo. Tendo em conta que conseguimos que um dos grandes problemas da sociedade seja a obesidade, o excesso de comida, a necessidade mais básica da humanidade desde o início dos tempos, eu chamo-lhe um admirável sucesso.

    já agora, uma nota: pode parecer pelos meus interesses, mas não moro nos EUA, embora lá tenha estudado um ano na minha adolescência. Sou de Lisboa.

    sigma, quando falo em domínio estou mais a pensar em relação às outras criaturas. Tens razão, não dominamos as placas tectónicas. Ainda. E no entanto cá estamos.Wait and see.

  25. Vega9000, este teu lençol acaba por ser elucidativo da confusão (e/ou impostura) que vai na cabeça da dita «esquerda» moderna. Alguém que se assume como um «darwinista social» e que defende que a sociedade deve estar ao serviço dos egoísmos de cada um vir dizer que é de esquerda só pode ser uma piada. Uma piada de alguém que não sabe que entre os valores essenciais da esquerda estão a igualdade e a solidariedade, ou de alguém que o sabendo faz tábua rasa deles para defender uma agenda liberal ou neoliberal que tudo reduz ao chavão ideológico da «liberdade individual». Chavão que vem acompanhado de todos os outros chavões e eufemismos da cartilha ou cassete neoliberal, e que nos conduziram à crise financeira actual, mas que parece já esquecida: «premiar o mérito», «competir», «iniciativa individual», etc, etc. Isto é de facto aquilo que se pode chamar de «esquerda ranhosa» ou de «direita astuta».
    Esta é uma cartilha que, repito, imagina que existem indivíduos feitos fora da sociedade; que, por isso, vêem a «sociedade» como uma mera soma de indivíduos (à la Thatcher); e que concluem, assim, que a «sociedade», os laços sociais, só devem existir para servir os individuos, os seus interesses pessoais. Como se os interesses pessoais de cada um não entrassem em choque uns com os outros, acrescente-se. Não sabem o que significa viver em sociedade, ou em comunidade. Não sabem que liberdade, para a esquerda, não se reduz aos ditos direitos individuais, mas passa pela existência de direitos sociais. Como já disse Hobbes, «o homem é o lobo do homem», e a transposição do darwinismo para a vida em sociedade traduz-se nisso mesmo, como a História revela: no domínio de uns sobre outros, na exploração de uns sobre outros. Alguém de «esquerda» andar a defender isto só pode ser mesmo uma piada!
    Depois a minha comparação entre o capitalismo e a escravatura foi feita para contestar a tua ideia de que a sociedade surgiu para garantir o beneficio dos individuos. Foi feita para realçar o facto de a tua ideia ser mais um produto da ideologia neoliberal que tu confundes com a realidade. Foi feita para mostrar que a História do homem e da sociedade não começou quando tu nasceste, ou quando nasceu a ideologia neoliberal. Mas também foi feita para mostrar que o capitalismo é, na sua essência, escravatura, e nem a possibilidade de alguém se poder demitir invalida isso, pois o escravo também se podia recusar a obedecer ao senhor. As consequências da recusa são diferentes, mas as consequências da submissão são semelhantes: em ambos os casos o senhor apropria-se de parte do trabalho do subordinado. A isto chama-se, no léxico marxista, alienação do trabalho.
    A tua referência ao filme «2001 – Odisseia no espaço», também revela que não viste o filme com muita atenção. Esse filme mais do que um elogio à tua forma de ver as coisas é uma crítica. O que esse filme (mais do que o livro) mostra é que não há grandes diferenças entre o macaco e o homem espacial por mais desenvolvido que este seja: ambos têm vontade de dominar, mas ambos não dominam nada e acabam dominados. Isto é, o homem nasceu com a manipulação e fabrico de instrumentos, e acabou dominado por eles (pelo HAL, nomeadamente). Nessa medida, o filme acaba por ser uma critica ao mundo em que os homens se tornam apêndices das máquinas, e, porque não dizê-lo, apêndices, peças e meios do tal sistema tecnocratizado e orientado para o lucro. Mas o filme acaba como começou: com o nascimento de um novo ser, do homem novo, do homem com uma nova consciência. Pensa nisso…

  26. ds, desculpa lá o lençol, e digo-te que por muito que discordemos, gostei deste bocadinho. No final, dou-te razão num ponto, e apenas num: não me arrependi nada de te ter chamado à discussão.

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