Locals only

Ontem, num casamento, ouvi uma explicação taxativa para o sucesso de Moita Flores: Santarém passou a ser cenário de telenovelas.

Quem não perceba nada de política – nem de economia, nem de psicologia, nem de antropologia, nem de História – que mande a primeira piada.

Delenda Cavaco

Conspurcou as Legislativas, abafou as Autárquicas e baralhou as Presidenciais. Mas não interfere na Madeira, até porque na Madeira mandam os madeirenses. E também acha que alguém devia falar verdade aos portugueses. Alguém com tempo e vagar para essas coisas verdadeiras. Alguém que não tivesse de passar os dias a fingir ser Presidente de todos os portugueses.

Guerra ao Nobel da Paz II

A cada protesto contra a escolha de Obama para Nobel da Paz, mais acertada realmente fica a decisão. Desconfio que os pacíficos noruegueses não esperavam tamanho sucesso mediático. Talvez estejam como o próprio laureado, também surpresos e humildes. De facto, não há memória recente de se ter dado tanta importância ao prémio como na presente edição, pese o longuíssimo historial de polémicas que esta categoria regista. Eis a força da marca Obama a suscitar crises de urticária. O resultado do bruaá, contudo, é desconcertante: estamos todos a falar da paz como se ela fosse um assunto importante para as nossas vidas, mas não é.

Que é isso, a paz nobelizada em 2009? Os cínicos, eternamente distraídos e sempiternamente distractores, são alérgicos às vanguardas. Tudo o que é novo ameaça a sua inesgotável capacidade de repetição. Aliás, a tarefa quotidiana de um cínico consiste na destruição das novidades. E que poderia ser mais inovador do que dar um Nobel a quem não tem obra? Acaso Obama acabou com alguma guerra, sequer uma discussão doméstica, e a CNN esqueceu-se de nos informar? Este critério, porém, se aplicado desde 1901, teria poupado uma colossal fortuna gasta com lobos em pele de cordeiro ou com palhaços tristes. Só que os cínicos não querem perder tempo a pensar, há muita falácia para despachar. E a principal é essa de nada ter feito. Mas nada de nadinha de nada, mesmo nada?

Obama foi eleito Presidente da democracia militarmente mais poderosa no Mundo, tendo inscrito a ambição de fazer a paz à cabeça das suas promessas. Chocando os belicistas alucinados, e apesar de estar em campanha eleitoral, declarou estar disposto a encontrar-se com qualquer inimigo que queira a paz, seja ele quem for. E ainda garantiu ter sido leitor de Tucídides, revelando a ambição de manter a América como uma superpotência militar sem rival. É que a paz, uma paz que seja pacificadora, não se define como ausência de guerra. Essa será uma definição negativa, pacifista, perigosa. Pelo contrário, a paz, para nações livres, é um implacável combate contra as tiranias. Assim, dizer que Obama ainda nada fez equivale a dizer que o acontecimento do ano de 2008 não aconteceu. Será o mesmo que apagar a esperança com que milhares de milhões acompanharam as eleições americanas, dedicando-lhes mais atenção e afecto do que às eleições dos seus países.

No que talvez os cínicos tenham razão é nisso de, à luz do que mais importa, o Nobel da Paz dever passar a chamar-se Nobel da Esperança.

A charrua do pensamento

Filipe Nunes Vicente serve-se das tabelas para a carambola. Será um geómetra, um físico. Um engenheiro, pois. Mais um. Tamanha é a complexidade das suas jogadas que o risco de falhar é enorme. E, no bilhar, falhar por pouco pode ser até mais embaraçante do que falhar por muito. Revela falta de mão onde o rigor é tudo. Repare-se neste 1984. Liga o Jugular ao Aspirina B, a Fernanda Câncio ao Marinho Pinto, Orwell ao Charrua. Pelo meio, ainda polvilha com a caixa de comentários onde o Fernando Venâncio, autor do post onde estão citações do Bastonário, conversa sobre diferentes assuntos. E, assim, o Filipe entretém-se a mandar para o caldeirão outros ingredientes secretos, pois as memórias que alega ter recuperado não foram identificadas. Onde quer chegar? Não viremos a saber, bem sei.

O caso Charrua ficará como exemplo maior da desonestidade intelectual da oposição e dos demagogos. Continua a ser explorado por todos aqueles em quem não podemos confiar as chaves da Cidade. Curiosamente, só numa sociedade onde não há qualquer perseguição política, e a liberdade de expressão é desfrutada na sua plenitude, é que um conflito banal se poderia tornar bandeira corporativa e matéria de calúnia. É porque não há mais nada para pôr no prato, lá está. Contudo, a verdade continua a mesma, com ou sem Sócrates na equação: para discutirmos as opções de Margarida Moreira, e do director de serviço que denunciou o professor, não é preciso ofender a inteligência própria, quanto mais a alheia. Ou será que os bravos defensores do Charrua garantem, sendo poder, umas máquinas já mais 2084 que anulem o livre-arbítrio das margaridas moreiras desta e doutras administrações públicas? Porque do caso, ironia das ironias, o que fica é uma única evidência: em 4 anos e meio de perseguição feroz aos coitadinhos dos professores, os velhacos socráticos apenas conseguiram apanhar um – e foi preciso esse mártir da resistência ter usado o espaço laboral para ameaçar os pilares do regime no renovo do estatuto da senhora mãe do Primeiro-Ministro.

Não comprem um tractor, não.

Vinte Linhas 417

«Cacilhas» de Luís Alves Milheiro

A História não se esgota na posteridade dos poderosos – reis, príncipes, guerreiros e navegadores. Os oprimidos e anónimos, muitas vezes sem acesso à escrita, também são História e merecem que os livros os não esqueçam. No bairro da cidade, na vila ou na aldeia, o pulsar da vida justifica a atenção do historiador. Depois de «Cacilhas – A gastronomia, a pesca e as tradições locais» com Fernando Barão, Luís Alves Milheiro regressa ao tema Cacilhas com um livro a focar o comércio, a indústria, o turismo e o desenvolvimento socio-cultural e político desta localidade ribeirinha.

Cacilhas despertou nos séculos XIX e XX o interesse de famílias estrangeiras que aqui criaram empresas: os Buknall, os Shultz, os Armstrong, os Sygmington e os Ferguson na indústria corticeira; os Parry e os Oakley na construção naval e os Black na indústria de fiação e no negócio do carvão. Entretanto já desde 1797 funcionavam em Cacilhas os grandes armazéns de vinho de Bento José Pereira Júnior.

Essa actividade de armazenagem e venda de vinho, azeite, vinagre, cortiça e conservas de peixe surge nos livros «Os Tanoeiros» e «Cais do Ginjal» de Romeu Correia e nos quadros de José Malhoa, Manuel Henrique Pinto, António Ramalho, Alfredo Keil e João Vaz ou, ainda, num poema de José Carlos Ary dos Santos sobre os cacilheiros: «Leva namorados, marujos / soldados e trabalhadores / E parte dum cais / que cheira a jornais / morangos e flores / Regressa contente / levou muita gente / e nunca se cansa / Parece um barquinho / lançado no Tejo / por uma criança.» Dito de doutra maneira: os anónimos e periféricos em relação ao poder também podem ser – e são – história.

(Edição: Junta de Freguesia de Cacilhas, Apoio: Sociedade Cultural de Artes e Letras de Almada, Capa: Alfredo Keil, Foto: Elsa Carvalho, Prefácio: Diamantino Lourenço)

Limites do tolerável e da decência

Como tão bem frisa o Carlos Esperança, a recusa em deixar-se interrogar deixa-nos com um Presidente da República que falta à responsabilidade primeira: o seu juramento. É espantoso – isto é, ainda bem que continuo a espantar-me – haver quem defenda a postura de Cavaco, sequer quem não dê um berro ou murro na mesa de indignação. Esses são os mesmos que encheram a boca com a seriedade e honestidade da Manela, e que sentem qualquer crítica a Cavaco como uma falta de respeito e insolência. São os mesmos que apregoaram o mandamento para se falar verdade aos portugueses e que foram votar na Política de Verdade. São os mesmos que rejubilam com qualquer difamação ou calúnia contra Sócrates, venha de onde vier e como vier. Não há coincidências.

Os limites do tolerável e da decência foram há muito violados em Belém. Há, pelo menos, 18 meses. Pelo menos.

Justamente

As reformas que a partir de 2005 foram iniciadas correspondiam, no espírito, a uma rara unanimidade. O tema das reformas dominou o discurso de Sampaio, tomado aqui como mínimo denominador comum da política nacional, desde o abandono de Guterres. O regime estava, indisfarçavelmente, enterrado num pântano de inércias e vícios adquiridos no período revolucionário, uns, herdados do salazarismo, outros. Trabalhadores, classe média e patrões, todos tinham boas razões para acolherem um Governo reformista. O sarilho era conseguir conciliar interesses aparentemente tão díspares, quiçá contraditórios. Isto, para começo de conversa; ninguém sequer discutindo a viabilidade do intento reformista num país politicamente imaturo, intelectualmente débil e civicamente atrofiado. No estouvado Governo de Santana, ainda banzos com a traição de Barroso, o desânimo era avassalador. Superior à aguda consciência da necessidade e urgência das reformas, na pena dos publicistas ao tempo, só a mais inamovível descrença na capacidade da classe política para as efectuar. Foi este caldo cultural e sociológico que deu a 1ª maioria absoluta ao PS – o povo queria coragem na governação, queria fugir da decadência.

Depois veio um Sócrates que era como os melões, tinha de abrir-se para saber o que valia. Aqueles que desvalorizam o que foi alcançado no campo das reformas, são apenas banais mentirosos. Mas aqueles que desvalorizam o que foi tentado, e que por razões diversas está incompleto ou não passou dos primeiros passos, estão a ser sinceros. Eles não compreendem o alcance de, pela primeira vez, um Governo ser capaz de exigir a fortíssimos grupos de interesses novas e mais justas regras. A novidade é tão grande que mesmo as reformas apenas começadas provocaram alterações simbólicas percepcionadas pela comunidade. E em nenhum outro campo a alteração simbólica é tão importante como no campo da Justiça. Porque não temos problema maior, mais grave e mais difícil.

Este texto de Ricardo Sardo é um de muitos que anuncia esta nova era em que a comunidade começa, finalmente, a exigir da Justiça o cumprimento do ideal democrático e o fim da sua perversão impune. Esta questão diz respeito a todos os portugueses que estejam dispostos a exercer a sua soberania. Pois é disso que se trata, justamente.

Balada do meu amor

(sobre um tema de Pedro Homem de Melo)

O meu amor anda em fama
Mesmo assim lhe quero bem

Saltam pedaços de lama
Não acertam em ninguém

E batem a todas as portas
Profetas de voz medonha
Á noite às horas mortas
Não se percebe a vergonha

Do Aljube ao Limoeiro
Vai a distância de um grito
No olhar do carcereiro
Está tudo o que não foi dito

Entre Peniche e Caxias
Não pude escolher prisão
Na pele negra dos dias
Brilha o fogo da paixão

Fosse da boca a vermelho
Ou dos teus olhos escuros
Minha vida foi um espelho
Partido contra os muros

Nas prisões sou condenado
Sofro estranhas sentenças
Procurei por todo o lado
Só encontrei indiferenças

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Deixem-no andar por aí

Santana tem muito melhor campanha do que António Costa. Os cartazes são particularmente eficazes, tudo neles estando certo do ponto de vista das técnicas de comunicação, por um lado, e da demagogia, pelo outro. Também ganha na oratória e no descaramento, como é sua imagem de marca.

A campanha do PS para Lisboa é algo que reproduz a parte de trás de um acidente automóvel. Para se avaliar rapidamente a confusão estratégica daquela equipa, basta assinalar que existem 5 assinaturas possíveis:

Unir Lisboa
As pessoas são o [coração] de Lisboa
Uma cidade das pessoas
Uma equipa que faz bem
Uma questão de confiança

Este caos na comunicação, e a irrelevância das mensagens escolhidas, é comum em grupos cuja autoridade não está bem hierarquizada e os âmbitos de trabalho não estão bem definidos. Aposto meio jantar em como toda a minha gente alvitrou e quis participar com a sua frase bem esgalhada, pois o apelo a brincar aos publicitários é tão irresistível como o de sermos treinadores de bancada. Já agora, a parolice do coração terá vindo da Roseta? Se não veio, poderia ter vindo; pelo que aproveito para me rebolar no preconceito sexista.

Depois de ouvir António Costa várias vezes, e de ler o material de campanha, confesso que não faço ideia de qual seja a sua ideia para a cidade. Provavelmente, não tem nenhuma, sendo demasiado realista para esses lirismos. Mas devia ter tido, podia ter feito uma campanha onde o coração não fosse apenas de papel. Vai ter o meu voto, mas só porque Santana merece continuar andando por aí. Por aí longe.

Gazeta 149

«A oração é uma forma de poesia, a poesia é uma forma de oração»

Do tempo da Estrada de Macadame a oração que mais vivamente recordo é a «Salvé, Rainha». Soube outro dia numa conversa entre escritores que o poeta Mário Cesariny considerava esta oração um dos mais belos poemas de todos os tempos. Vale a pena recordar: «Salve, Rainha / mãe de misericórdia / vida, doçura, esperança nossa, salve! / A Vós bradamos / os degredados filhos de Eva. / A Vós suspiramos, gemendo e chorando / neste vale de lágrimas / Eia, pois, advogada nossa / esses Vossos olhos misericordiosos / a nós volvei. / E depois deste desterro / nos mostrai Jesus, bendito fruto / do Vosso ventre. / Ó clemente, ó piedosa / ó doce Virgem Maria. / Rogai por nós, Santa Mãe de Deus / para que sejamos dignos das promessas de Cristo.»

Esta revelação de um poeta da dimensão de Mário Cesariny sobre o valor poético de uma oração tão conhecida e tão rezada em todo o Mundo, levou-me a fazer, eu mesmo, uma reflexão sobre esta relação entre a poesia e a oração. O mesmo é dizer entre oração e poesia. Vejamos:

Continuar a lerGazeta 149

Reino de Pacheco

Um poder como o do PS em Portugal tem tradicionalmente atraído para si “colaborações” ingénuas, ou interessadas, de duas maneiras. Uma é sendo forte, marcando bem o seu traço no chão, de modo a que todos saibam que, ou estão daquele lado, ou ficam de fora. Como se dizia numa história espanhola, quem se mexe não fica na fotografia. E quem não fica na fotografia não tem benesses nem protecção. Por muito que agora se ataque o falar-se de “asfixia democrática” (não é o melhor termo, mas serve), o resultado é mesmo esse: perseguições, marginalizações, punições. Como aconteceu com a TVI, posta na ordem, e como está a acontecer no Público. Como aconteceu na DREN, e nas múltiplas DREN que existem por todo o lado. (De passagem, noto que deixar de falar deste ambiente malsão seria um grande favor que se podia fazer ao PS, pela simples razão… que ele existe mesmo.)

in AS SEREIAS DO PODER

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Porquê e para quê continuar a malhar no Pacheco? Porquê, por duas razões: (i) resiste uma memória do tempo em que gostámos dele, em que a sua excentricidade parecia independência e a sua independência aparecia excêntrica – ou seja, em que ele foi importante para o nosso crescimento crítico; (ii) é o próprio a reclamar para o Abrupto o poder de uma secretaria de Estado, a que se junta a ubiquidade mediática: jornal, revista, rádio e TV – ou seja, o mercado opinativo continua a dar-lhe importância máxima. Para quê, para este singelo objectivo: aproveitar o mal que faz para o bem que há a fazer.

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Fátima Murta

Fátima Murta – Quando o poema se confunde com a oração

Desde sempre os poetas tiveram a coragem de chamar todas as coisas pelos seus nomes. Pois se a vida é tão breve e o amor tão incerto que outra oposição podemos fazer à morte além da criação de poemas, pequenos alicerces na grande casa da posteridade?

A posição do poeta é coincidente com a do crente. Ambos ajoelham em silêncio e ambos levantam do chão a palavra cansada para ligar de novo dois mundos separados pela distância, pelas sombras e pelo esquecimento.

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Caruncho

O que é que está por detrás do comportamento de uns senhores que vieram para aqui?

Jardim exibe, em crescendo, sinais típicos de um psicopata. Linguagem ultrajante contra as mais altas instituições nacionais e seus representantes, violação dos direitos constitucionais de deputados, tiro ao zepelim, apelo à violência popular, ameaças à PSP. O padrão é óbvio, o qual se estende às suas figuras politicamente mais próximas na Madeira. Neste momento, já não estamos apenas dentro dos limites de uma retórica folclórica inconsequente. Jardim quer à viva força instituir um Estado paralelo. E esse intento não é grave, pois para lidar com as ilegalidades existem a Constituição e o edifício jurídico. O que é grave, terrível, é a cobardia do PSD. Pelos vistos, não há nenhum social-democrata capaz de pôr a dignidade de Portugal à frente dos desvarios na Madeira.

Que estranho, e penoso, ver o partido de Sá Carneiro corroído pela cobardia.