Reino de Pacheco

Um poder como o do PS em Portugal tem tradicionalmente atraído para si “colaborações” ingénuas, ou interessadas, de duas maneiras. Uma é sendo forte, marcando bem o seu traço no chão, de modo a que todos saibam que, ou estão daquele lado, ou ficam de fora. Como se dizia numa história espanhola, quem se mexe não fica na fotografia. E quem não fica na fotografia não tem benesses nem protecção. Por muito que agora se ataque o falar-se de “asfixia democrática” (não é o melhor termo, mas serve), o resultado é mesmo esse: perseguições, marginalizações, punições. Como aconteceu com a TVI, posta na ordem, e como está a acontecer no Público. Como aconteceu na DREN, e nas múltiplas DREN que existem por todo o lado. (De passagem, noto que deixar de falar deste ambiente malsão seria um grande favor que se podia fazer ao PS, pela simples razão… que ele existe mesmo.)

in AS SEREIAS DO PODER

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Porquê e para quê continuar a malhar no Pacheco? Porquê, por duas razões: (i) resiste uma memória do tempo em que gostámos dele, em que a sua excentricidade parecia independência e a sua independência aparecia excêntrica – ou seja, em que ele foi importante para o nosso crescimento crítico; (ii) é o próprio a reclamar para o Abrupto o poder de uma secretaria de Estado, a que se junta a ubiquidade mediática: jornal, revista, rádio e TV – ou seja, o mercado opinativo continua a dar-lhe importância máxima. Para quê, para este singelo objectivo: aproveitar o mal que faz para o bem que há a fazer.


Na citação supra, Pacheco recorre a uma fórmula estafada: fala dos constrangimentos do exercício do poder, tomados abstractamente, e apresenta-os como aspectos concretos e exclusivos do PS. O teste à sua deturpação é feito trocando PS por PSD no texto, surgindo uma constatação que se pode aplicar a qualquer Governo PSD, só ou em coligação. A banalidade do que assim fica exposto é atroz, resume-se à evidência de que o poder político favorece os seus ou aqueles que o favorecem. Bom, mas poderia ser de outra forma? Acaso não é essa uma das motivações principais para se fazer política? Acaso não é isso que o Pacheco fez, faz e fará? O que ele esconde, grande mentiroso que é, contaria outra história: a da propensão para o abuso do poder na direita ranhosa a que pertence. O BPN não passa de uma condensação do que foi todo o cavaquismo como cultura do oportunismo mais rapace. E a matéria humana que preenche as fileiras militantes do PSD e CDS é quase toda ela alérgica à ética, sequer perdendo tempo a tentar disfarçar. Esta tragédia cívica não acontece no PS, bem pelo contrário. Com Sócrates e Santos Silva à cabeça, estamos numa fase em que o partido oferece à sociedade um verdadeiro escol. Até os casos de Sócrates ajudam à defesa da tese, pois não seria possível resistir a tanta difamação sem superiores capacidades psicológicas e intelectuais. Mas o PS tem outra característica fundamental para a qualidade da nossa democracia: a cultura de exigência ética que perpassa de alto a baixo, dos históricos aos militantes de base. Isso tem várias implicações no exercício do poder, uma delas a de se constituir como antídoto para chefes antidemocráticos.

Os recursos intelectuais do Pacheco, desde que desistiu da reforma do PSD, têm surpreendido pela sua pobreza. Repare-se no modo canhestro como ensaia, pele enésima vez, a infâmia. Vai buscar a TVI, o Público e a DREN, nada apresentando de factual ou passível de comparação objectiva. O intento é só o de espalhar a suspeita, por isso não há informações, contextos, análises, correlações, factos, pensamento. Só lhe interessa fazer acusação sem prova. Se algum funcionário da DREN tiver o azar de pisar um professor ao passar num corredor, Pacheco dirá que já esperava esses incidentes, e que eles tenderão a piorar. As perseguições, marginalizações, punições só existem na condição de permanecerem dentro das transparentes paredes da sua cachimónia, rebentam no ar caso saíam desse espaço onde a honestidade intelectual é inexistente. Estamos neste nível grotesco de ofensa à nossa inteligência, mas ele ou não quer saber ou já perdeu a noção do ridículo.

O apelo para que o ambiente malsão continue a ser cantado pelas vielas chega quase a despertar compaixão. Nele o Pacheco espalha-se ao comprido e apresenta-se como o bufarinheiro que insiste em vender as suas falsificações, protestando contra aqueles que lhe querem acabar com o negócio. Aqueles que dão sinais de quererem esquecer a boçalidade da Política de Verdade e voltarem a fazer verdadeira política.

7 thoughts on “Reino de Pacheco”

  1. Malhar no Pacheco nos dias que correm é dar-lhe uma relevância que ele já não tem mais. Actualmente, malhar no Pacheco só por caridade.

  2. Também se pode ver assim, Paulo Martins. Mas estamos a falar de um publicista que foi um dos principais agentes da campanha negra em versão PSD. Portanto, alguém com muito poder e influência no consulado de Ferreira Leite. Malhar nele é igualmente malhar no que ele representa e tentou fazer. Aliás, que tenta.

  3. Amigo Val, quanto ao Pachecão já não prescrevo o mesmo tratamento do Jardim.
    Pacheco é apenas uma ténia. Como podem atingir oito metros de comprimento, segundo as minhas contas já estão à vista aí uns cinco, é apenas deixar que saia o resto do intestino e aguardar a respectiva decomposição. Funcionará como adubo para as novas ideias, como exemplo do que foi o zénite do vómito.

  4. O que o PSD não entende que as políticas definidas para Portugal pelos Credores da Dívida mandam apertar o cinto. E isso só se faz sem grande alarde social atacando os privilégios de muita gente que anda por aí de Mercedes quando não produz sequer o suficiente para andar num Renault Clio. Milhares de funcionários públicos estão a reformar-se aos 60 anos com mais de 2500 euros por mês, muitos deles professores que ascenderam aos escalões máximos de remuneração sem qualquer entrave, só por antiguidade.
    Numa palavra: Os Credores da Dívida Portuguesa impõem uma política de Estado Social para Portugal. Se o PSD quiser “alternar” no Poder, tem que aceitar fazer esta política, e para isso tem que convencer os tais pequenos e médios empresários a mudar de viatura, e convencer os professores a… e os juízes a… etc.. É o que o Sócrates anda por aí a fazer! e vai continuar…

  5. Bem, se outra utilidade não tivesse, pelo menos JPP alimenta as agências de comunicação e as suas pobres rémoras. Já é uma função social de relevo.

  6. Quem é JPP? Joaquim Pereira Pacheco? Ou será José? Ou será Pacheco Pereira? Escreve? Livros? Em jornais? Quais? Quero aprender alguma coisa. Desculpem-me, só leio as manchetes dos jornais, o conteúdo só interessa aos JPP deste país. Nunca li nenhum livro de tal senhor. Será que escreveu? Estão-me aqui a dizer que escreveu a biografia do Cunhal. O Cunhal gostou?

    Por favor, na volta, enviem-me as notas biográficas de JPP e já agora o C.V.

    Cascais, 13 de Outubro de 2009

    João do Canto Lagido

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