Sozinhos em casa

O que impressiona mais no relato das actividades do nosso agente no Funchal não é o ridículo que São José Almeida e Luciano Alvarez assinam como se fosse uma notícia, antes o subtexto. O discurso identifica com precisão milimétrica o evento fundador do conflito: Rui Paulo Figueiredo, persona non grata em Belém, foi enviado por Sócrates na visita presidencial à Madeira. Afronta imperdoável. Tudo o que se segue não é mais do que a racionalização da hostilidade. Quem conta o episódio está cego de raiva, perde a noção das conveniências. Ao censurar a violação de supostas regras protocolares relativas a mesas e cadeiras, a fonte da Presidência baixa as calcinhas e põe-se a jeito. É a falta do respeitinho que não se admite, a presença que não se tolera, a liberdade que se castiga. Acossados pela asquerosa proximidade ao bandalho que ousou investigar o Professor, entraram em alergia colectiva, reagindo com crescente paranóia à sua presença, fosse onde fosse: Na altura houve quem considerasse que o adjunto de Sócrates se comportava como se quisesse escutar conversas para que não fora convidado. Ah, bom, houve quem considerasse como se! Temos espião.

A Casa Civil do Presidente fantasia-se a merecer escutas e vigilância. Os outros, os porcos do Governo, não descansam e farão qualquer coisa para descobrir os segredos da Casa Civil do Presidente e seus poderosos generais. Como deve ser emocionante ir todos os dias a caminho da Casa Civil do Presidente sabendo que Sócrates espreita cada um dos nossos passos, não dorme a pensar no que nós pensamos. Até já houve quem considerasse, na Casa Civil do Presidente, que a auto-estima cresceu muito desde que começaram a fechar janelas e reposteiros, para depois ficarem a falar baixinho, juntinhos, uns com os outros. Bichanando.

Ex silentio

A ser verdade que estes blogues representam parte significativa da direita portuguesa:

31 da Armada

Abrupto

Blasfémias

Cachimbo de Magritte

Corta-Fitas

O Insurgente

Jamais

Mar Salgado

Então, o silêncio que os habita quanto às peripécias que a Presidência da República Portuguesa e o jornal Público protagonizaram, em conluio, não permite saber se aprovam ou reprovam a acção. E essa ausência de afirmação, este silêncio acabrunhado, cria a suspeita de não estar aqui a direita. Porque a direita não se agacha perante os que desprestigiam os símbolos mais altos da Nação.

Mas se a direita não está neste grupo de blogues, por onde anda?

Clima parapsicológico

E espero, espero mesmo, que não haja gente dos serviços de informação também nos combates blogosféricos, nas caixas de comentários, em blogues, usando todos os recursos e potencialidades da desinformação.

Pacheco recuperou uma suspeita antiga para a destacar e reforçar: os serviços de informação estão a ser usados pelo Governo para actos de desinformação em blogues e caixas de comentários, os palcos decisivos do combate político. Escolheu o momento em que alguém da Presidência da República lança a suspeita de haver espionagem do Governo no Palácio de Belém e, pelo menos, numa visita presidencial à Madeira, para alargar o espectro da conspiração. Ontem, Constança Cunha e Sá, na TVI24, lembrou a declaração de Ferreira Leite, de Maio, acerca do seu telemóvel poder estar a ser escutado. Aguiar-Branco disse que a notícia das escutas comprovava a existência de uma asfixia democrática. E, dias antes, já Jardim se tinha antecipado a todos dizendo que Sócrates estava a construir um Estado policial.

Que se vai seguir? Algum assessor da Presidência irá mandar um sms ao Zé Manel e este, minutos depois, irá tuitar que Sócrates foi visto a roubar o rádio dum automóvel junto ao Palácio de Belém?

Bento sem fé

Antes do jogo com a Fiorentina, Paulo Bento disse que o Sporting não precisava de milagres para vencer os italianos. Chegou ao ponto de falar de Fátima, só para dizer que não tinha lá ido. Isto é de uma estultícia que devia merecer processo disciplinar interno. Porque toda a gente sabe que o futebol transcende a cognição humana, é o resultado de forças sobrenaturais. Se não o fosse, Queiroz e o seu caderninho já estavam no Tussauds e os 3-6 não teriam vindo embaciar os 7-1.

Um italiano agride Liedson. Agressão que justifica vermelho. Vukcevic corre para a escaramuça. O italiano não é expulso. Vukcevic leva amarelo. Vukcevic marca golo. Vukcevic tira a camisola. Vukcevic é expulso. Vukcevic não vai jogar a 2ª mão. Bento, faxavor, chega aqui. Acaso esta sequência não é um milagre ao contrário? Hã?

E o golo do Veloso, aquele efeito marado na bola? Só possível por causa de Vukcevic, como é fácil de correlacionar. Aliás, tudo no Sporting se resume ao Vukcevic. E quando, um dia, Bento perceber que a equipa deve ser organizada à volta de Vukcevic, de forma a que ele passe a maior parte do tempo com a bola nos pés junto da baliza adversária, um milagre terá acontecido. Bento voltará a ter fé, nós voltaremos a ter Sporting.

Um Presidente que não respeita os portugueses

Já tinha acontecido no ano passado, na comunicação ao País que deixou o tal país num estado de ansiedade totalmente despropositado. Foi uma exibição gratuita de poder, indicadora de irresponsabilidade, inconsciência ou soberba. Voltou a acontecer nos meses seguintes, com a colagem entre a Presidência e o PSD, com a desestabilização das fugas de informação originadas na Presidência, com a pressão dos cavaquistas na comunicação social e também com o boicote legislativo ao Governo. Finalmente, temos a utilização de um jornal, outrora independente, para lançar a maior suspeita política de que há memória viva em Portugal. E, durante o dia, o Presidente da República não se dignou esclarecer os portugueses do que os seus assessores publicaram na forma de boato. Um boato absurdo, nascido da paranóia e da indigência moral.

Esta ofensa não pode ser esquecida, Cavaco não pode ser reeleito.

O ovo e a galinha

A polémica entre o João Galamba e o João Gonçalves é um dos mais interessantes episódios da campanha até agora, porque espontâneo e significativo. O Gonçalves vem de lançar um livro que teve dois passarões do sistema na sua consagração: Medeiros Ferreira e Pacheco Pereira. Justamente, o Gonçalves tinha razões para acreditar ter chegado lá, àquele sítio que só ele sabe onde fica por ser interdito aos impuros, o santíssimo onde a divindade é feita à nossa imagem e semelhança. Galamba também tinha chegado lá, é a mais nova promessa do PS, estrela independente em ascensão, conquistando simpatias e empatias. Uma dupla polaridade explica a atracção e o choque: movimento de ligação causado pelas cargas diferentes, PSD-PS; movimento de repulsão causado pelas cargas iguais, ambos machos Alfa num pico de confiança e fama. [introduzir bocejo antropológico]

O nevoeiro da guerra fez vítimas nos observadores. Quem saiu a correr para atacar o segundo atacante teve de atravessar um campo minado que estava, nesse preciso momento, a ser bombardeado em conjunto pela aviação, marinha e exército, e onde também se realizava o campeonato mundial de snipers. Se foi o teu caso, lamento dizer que não sobreviveste, podes seguir em frente por esse túnel de luz. É que não vale tudo. A regularidade dos fenómenos naturais, que está na origem da agricultura e dos Rolex, prova que existe uma ordem. Nem que seja a ordem do tempo. Como neste caso, em que o Gonçalves antecede o Galamba na utilização do substantivo filho. Pode perguntar-se: mas que mal tem a expressão filho do outro? Poder pode, mas muito mais poder tem a pergunta: que sentiria eu se fosse tratado como filho do outro? São muito poucas as situações em que a audição ou leitura de filho do outro, calhando-nos ser o filho, não desperte os demónios ctónicos, as erínias, que se alimentam da honra. E este é um caso de honra ― ou, para ser conceptualmente exacto, um caso de filha-da-putice.

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Vinte Linhas 392

Para o Castelo de São Jorge, já!

Esta de o António Lobo Antunes estar «apaixonado» por uma rapariga brasileira mais nova 30 anos lembrou-me logo o Saramago e a sua espanhola espalhafatosa – também tem menos 30 anos. De vez em quando aparecem na Imprensa uma bojardas do Nobel 98 que (percebe-se logo) são sopradas pela voluntariosa espanhola. Ele é a integração em Espanha (que só tem vantagens), ele é o salário mínimo (que é muito melhor) mas nunca falaram de Olivença. Ele já está integrado e por isso é que aparece tão entusiasta – os maiores fanáticos são os recém-convertidos. Esta história da integração na Espanha é antiga; no tempo da ditadura do João Franco as nossas províncias já estavam designadas e até tinham governador anunciado: Rodrigues de Freitas para o Porto (capital de Entre Minho e Douro), Teófilo Braga para Lisboa (capital de Entre Douro e Sado), Jacinto Nunes para Évora (capital de Entre Sado e Guadiana) e Eduardo de Abreu para Funchal (capital das Ilhas Adjacentes). Agora esta rapariga de 30 anos é golpe do Brasil para o acordo ortográfico. Com uma rapariga bonita ao lado do escritor famoso, o acordo pode vencer obstáculos mesmo que o resultado seja um português com mais pataxó que português. Agora António Costa tem um problema a juntar ao caos do Bairro Alto, aos dois mortos recentes (um de ataque de coração e outro de navalhada) e à vergonha do quiosque de São Pedro de Alcântara que não existe apesar de ele anunciar quinze novas esplanadas (só se for ao colo dos moradores) para além dum delirante «cartão de visitante» que permitirá «estacionar» a 15 euros por hora. Depois da Casa dos Bicos para o Saramago só pode dar o Castelo de São Jorge ao Lobo Antunes. E com obras…

O que mais surpreende no Pacheco

O que mais surpreende no Pacheco é a sua debilidade intelectual. Ser intelectual não se afere por títulos académicos, aclamações de terceiros ou número de recensões por trimestre. Ser intelectual é um ofício metafísico, consiste em dizer o ser de muitas maneiras. Eis um dos pilares da tradição ocidental, ligando a ontologia à retórica, servindo a retórica para iluminar a ontologia. O seu ethos é essa perene busca da verdade como ideal. E daqui decorre essoutra sapiência de nunca reclamar a posse da verdade, de saber que não se sabe. O máximo permitido ao filósofo é ainda, e apenas, aproximação ― ou um nada, na sua versão mística, se a meta for o infinito. A glória está na procura, no fazer caminho e nos encontros dos que se procuram. No amor, acertaste. Tudo isto é lana caprina, por isso surpreende (choca?) não se encontrar nem um vestígio destes princípios no Pacheco.

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Descodificar PCP e BE

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Sócrates já disse, faz tempo, que governará em minoria. E de Sócrates sabe-se que fará qualquer aliança que permita a melhor governação possível, Portugal pode contar com ele. Assim, e paradoxalmente, a posição do PS é a mais esclarecida antes das eleições. Todos os outros partidos é que estão dependentes dos resultados para fazerem contas à vida. O que não é uma falha deles, antes uma necessidade nascida de duas circunstâncias: terem limitações ideológicas e lideranças fracas. As limitações ideológicas e fraquezas dos líderes serão diferentes, mas existem e explicam a ausência de propostas, ou irrealidade das mesmas, que caracteriza a oposição.

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Crespopatia

Há um enigma à volta do Crespo. Esta figura assina textos onde ofende a honra de instituições e pessoas, fazendo insinuações generalizadas, como nesta recente opinião. Simultaneamente, recebe as mesmas pessoas e instituições ofendidas enquanto jornalista. Para maior estranheza, ele não se inibe de expressar as suas insídias no exercício da função jornalística. E, para completo desconchavo, alguns dos convidados, simultaneamente ofendidos, fazem-lhe bacocos e gordurosos elogios. Que é isto?… mas que… fosga-se… que… cum caralho… Que é isto?!

O Público, na edição digital, aproveita para o citar numa passagem onde ofende o Governo, o PS e um sem-número de entidades públicas e privadas, mais os seus responsáveis. Crespo talvez não descanse até ser processado por difamação, para que finalmente possa cumprir-se como mártir do seu delírio paranóico. Ser chamado à razão judicial, ser obrigado a provar as acusações que ininterruptamente bolça enquanto publicista e jornalista, seria para ele a confirmação da narrativa: todos à sua volta são corruptos e querem abafar a única voz que os denuncia. Não? Se não, o Crespo está a prestar um serviço público inestimável. As suas crónicas de um Portugal desgraçado e sem salvação, disputando com Medina Carreira o título de agoirento-mor do regime, atingem um valor político que se sobrepõe ao conjunto dos partidos. O povo fará bem em se unir à sua volta, partindo para a revolta e subsequente limpeza do Estado. E sejamos sinceros: com um lenço na cabeça e um xaile pelos ombros, o Crespo dá uma Maria da Fonte bem jeitosa.

Senhora da Boa Viagem

As mais belas colchas nas janelas

Flutuam como bandeiras dum país

Nas filas da Filarmónica paralelas

Eu sou de novo um menino feliz

Vi o rapaz da Biblioteca no andor

Reconheço um anjinho disfarçado

O vento que nos refresca do calor

Diz que já andou por todo o lado

Perdido entre andores e bandeiras

Entre o pálio e pendões dispersos

Sinto logo saudades verdadeiras

Da poesia sem linhas e sem versos

Um tempo onde tudo era imenso

E a morte na verdade não existia

Na mistura do sol com o incenso

A procissão era o lugar da alegria