Disse que na próxima semana se tornaria público o novo poiso. E que seria algo na área da comunicação, mas não TV. Será um blogue?
Arquivo mensal: Agosto 2009
O tronco de carvalho e a vareta
Meu caro Val, não são propriamente a mesma coisa. Entre um stalinismo de consumo interno e um trotskismo a favor da revolução universal vão algumas diferenças. Experimenta pensar no caso do stalinismo como um daqueles cagalhões género tronco de carvalho que um gajo quando o caga até se sente orgulhoso, e no trotskismo como uma daquelas cagadas género vareta, como se diz na minha terra, que borrifa todos os sagrados cantos de uma retrete. Um marca bem a sua posição como única e irrepreensível e o outro espalha-se infantilmente por tudo o que o rodeia. Se de acordo com esta minha comparação não te fiz compreender que são merdas muito diferentes, experimenta pensar no seguinte, o stalinismo vence mais cedo ou mais tarde, nem que seja às custas de uma machadada bem aplicada nas longínquas terras do México.
Abençoada a esquerda que tem por ídolos semelhantes facínoras.
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Pitta Bull
Rasgar e romper o PSD. Em três dentadas. Imagens chocantes.
O trotskismo é a mesma merda que o stalinismo*
* Poste pedido pelo nosso amigo António P., e ocasião para sugerir este texto; o qual, se não demonstra a tese, pelo menos permite-nos encontrar padrões de disfuncionalidade ideológica exactamente iguais nas sociedades americana e europeia ou portuguesa.
O mercantilismo sabe bem – II
Hellmann’s – It’s Time for Real from CRUSH on Vimeo.
Há vários motivos de interesse neste vídeo, o menor dos quais não é o da entidade que o assina.
Um jornal na merda
Vasco M. Barreto e Francisco José Viegas contam porquê.
Viegas não se limita a bater no ceguinho, também estava com tempo e disposição para lhe dar baile.
Duas gajas na merda
Ana Cristina Leonardo e Joana Lopes anunciam a quem passa estarem na merda. Talvez as possas ajudar a sair da merda ou a aceitar que é na merda que gostam de estar.
Balada de Mateus Queimado em 1913
Meu tio, juiz de Direito
Comarca da ilha de Goa
Veio reformado a preceito
Era a bondade em pessoa
Da Índia eu nada sabia
Com tigres e palmares
Na Ilha era outra alegria
Touros em vários lugares
Na venda do Cambadinho
Cravo, pimenta e canela
Faço um recado sozinho
Espero o meu tio à janela
Entre lágrimas da mãe
Um suspiro mal abafado
Saímos mas não a bem
Despejados no mandado
Uma loiça de tons quentes
Foi sair duns caixotões
Eram colchas diferentes
Estampas, leques, cadeirões
No Mandovi ele insistia
Nós só tínhamos ribeiras
Um caudal só de um dia
Com lamas amareleiras
Um telegrama cifrado
Meio da aula de francês
De Lausanne enviado
Levou meu tio de vez
Pediu-lhe ajuda a filha
Para a fúria da mulher
Ele disse adeus à Ilha
São Francisco Xavier
Conversa interrompida
Do meu tio aposentado
Assim Goa saiu da vida
Do moço Mateus Queimado
O que importa reter do não-golo do não-Sporting num não-jogo
O que importa reter ― de um golo que nasce da confusão provocada pelo Patrício, o qual leva a bola a bater no ombro dum defesa e ressaltar para trás, aparecendo no segundo imediato um ganda bacano, de seu nome Peter Wisgerhof, a desviá-la, com todo o cuidado e perícia, para o lado mais afastado do seu colega guarda-redes ― é que Vukcevic, o leão mais avançado da equipa nessa jogada, quase que impede a bola de entrar na sua gana de marcar golos.
A decadência do jornal do Zé Manel explicada ao Zé Manel

*
Zé Manel, quando o Público foi fundado, em 1990, tinhas 33 anos. Estavas pujante de entusiasmo na antevisão de que o teu nome ficasse na História do jornalismo português, começando por cima num projecto que ambicionava ser a referência máxima de tudo o que já tinha sido feito, e de tudo o que fosse possível fazer, na categoria imprensa de qualidade. Oito anos depois, estavas ao leme da barca, o vasto mar da comunicação social esperando ser atravessado pela quilha do teu génio editorial. E em 3 de Agosto de 2009, às 23.40, a Maria José Oliveira dá à luz do meu monitor esta notícia supra. Eis um possível resumo do teu trajecto, parcial e distraído como qualquer resumo.
Este será o momento para te ajudar: Na prisão e no hospital, vês quem te quer bem e quem te quer mal. Não estás na prisão nem no hospital, mas é igual, ou parecido. Precisas dos amigos. Porque tens amigos, muitos. São muitos os que desejam que o Público sobreviva à tua passagem, porque precisamos de ter um jornal em que possamos confiar, e apoiar, e comprar, e recomendar. Sim, desejar o melhor para o Público é ser teu amigo. Não vais negar, pois não? Pois. Então, olha, ó Zé Manel, ir buscar notícias ao 31 da Armada é tão legítimo como citar o Washington Post, talvez mais barato por não carecer de tradutor, mas há um requisito que nem a social media conseguiu alterar: quando não se tem nada para dizer, o melhor é ficar calado. Esta regra adquire extrema relevância e actualidade no jornalismo, por razões que até pode acontecer que conheças. Já agora, quem é que vai pagar a chamada telefónica para o PS? Que o Belmiro não saiba do despesismo.
Claro que tu dirás que estou a esquecer o impacto do título. E que, nesta era de atenção fragmentada, 247% dos leitores do Público só lê os títulos, adora gordas, vejam só. E mais me dirás que ignoro o impacto da fotografia, o expressionismo, o chiaroscuro que devora uma personagem sinistra envolta em sucessivos e imparáveis escândalos e ilegalidades, muito provavelmente crimes, como este 31 acabadinho de inventar.
Bom, Zé Manel, como teu amigo, tenho de te avisar: a decadência a que conduziste o Público devia ser considerada ilegal. Que a Maria José Oliveira não te apanhe.
Vinte Linhas 388
«Casas do Espírito Santo» de Carlos Lobão (coordenação)
Carlos Lobão é o grande entusiasta das edições do Clube de Filatelia O Ilhéu da Escola Secundária Manuel de Arriaga na Horta. Este livro sobre o Espírito Santo é resultado desse labor. São 120 páginas com muitas fotografias e um título feliz – «Casas do Espírito Santo». Na verdade as casas do Espírito Santo em Santa Maria e São Miguel chamam-se teatros, na Graciosa e na Terceira são impérios, em São Jorge, Pico e Faial são ermidas ou capela e nas Flores e Corvo são casas. Muitos impérios têm anexos (local onde se preparam as sopas além de espaço onde se guardam as varas, os lampiões, os estandartes, as bandeiras e os utensílios de cozinha) que ganham nomes diferentes de Ilha para Ilha: casa das sopas (São Jorge), talho (Flores), copa (Faial), despensa (Terceira) e copeira (Santa Maria e Flores). Página a página cada fotografia com as suas cores e as suas mensagens («Deus é Caridade, União e Caridade») ou as suas abreviaturas (DES – Divino Espírito Santo) vai comovendo o leitor. Todas são especiais e diferentes entre si (há umas que até são amovíveis) mas o Império dos Outeiros na Agualva apresenta uma pauta musical gigante nas suas paredes. Convite óbvio a que das paredes saltem as notas para serem cantadas na alegria convocada dum encontro feliz. Em Santa Maria o Império do Santo Espírito tem a particularidade de o azulejo referir «Triato de Nossa Senhora da Piedade construído em 2002 pela Junta de Freguesia do Santo Espírito». Esta aliteração prova a ingénua diferença entre língua e linguagem, entre cânone e prática. Para fechar com chave de ouro fica a quadra da contracapa do livro: «Império é casa serena / Onde se entra por bem / Em tamanho a mais pequena / E a maior que o mundo tem».
Ainda não fostes avisados
Em vésperas de eleições não se discutem assuntos tão sérios e tão importantes para a transparência da vida democrática quanto esse.
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O assunto que a Presidente do PSD, e candidata à chefia do Governo, não quer discutir em período eleitoral é só o mais importante para os eleitores e para o presente e futuro dos portugueses: a Justiça que não faz justiça. Porquê? Porque discutir a Justiça traz o risco de se diminuir o poder dos diferentes grupos que ocupam a parte superior da pirâmide social. Mas a senhora não está só. Nenhum partido, à esquerda ou à direita, dos velhos ou dos novos, se propõe discutir a Justiça. É este o maior problema do regime, principal causa do atraso económico e marasmo cívico, e problema que não tem qualquer solução à vista.
Estranho que o MEP, nascido numa tessitura da direita tradicionalista e católica, não tenha agarrado na reforma da Justiça como bandeira principal. É que o território está vago, é de quem o quiser apanhar. Estranho esta cobardia, mas por muito pouco tempo, nem chega à metade de meio minuto. Pois é missão para heróis, isto de assumir a causa da justiça para a Justiça, mete medo ao susto. E teriam sido um pequeno PRD, tantos os portugueses que esperam por quem os represente nesta área, no mínimo obrigariam à entrada do tema no debate eleitoral. Não voltaríamos a ouvir, do maior partido da oposição, uma barbaridade do calibre que a Manela serviu no dia em que o ex-autarca-modelo do PSD, também ex-magistrado do Ministério Público, também ex-ministro, também ex-deputado, também ex-consultor jurídico no Ministério da Justiça, declarou ter sido condenado sem que existissem provas para o condenar.
O Portugal do Isaltino Morais, do Valentim Loureiro, do João Jardim, do Dias Loureiro, do Oliveira Costa, do Cavaco Silva, daqueles todos que nestes se apoiaram para as carreiras e os negócios, pensa o mesmo que a Manela: os assuntos sérios e importantes discutem-se à porta fechada entre gente séria e importante. Mas, então, despachem-se ― é que esse Portugal já acabou, vós é que ainda não fostes avisados.
Um livro por semana 130

«A irresistível voz de Ionatos» de Vítor Oliveira Mateus
A irresistível voz a que se refere o título deste livro é a de Angélica Ionatos que canta a poderosa massa sonora de Mikis Theodorakis e de toda a música popular da Grécia.
O ponto de partida deste livro é a Ilha, seu tempo e seu espaço: «Azul que em azul te desdobras. / Cerco de baías. Moldura de espuma. / De penhascos afagados pelo vento. / É na linha do fogo que te desenho / ò insubmissa de vagas e fulgores! É em ti que me renovo, Cítera, / a dos amores. / E por ti diariamente renasço».
Numa ilha grega o poema revela que o Turismo nada tem a ver com a Poesia: «A mulher da loja em frente traz consigo / algo das antigas deusas. / Reforça a perigosidade dos poetas / sempre a infectar gentes, ilhas, rotas / ancestrais. E que o bem houvera sim / na ditadura dos generais, onde a ordem / fora ordem, sem abcessos a estorvar o destino».
O Turismo é um negócio e por isso o viajante é sempre visto como um invasor: «Nunca soube lançar o pião / como os rapazes do terreiro / entre os contentores: aprendizes / de ladrões, de proxenetas / arrumadores. Nunca soube lançar o pião. Lancei / a minha vida, os meus / anseios. E foi tudo.»
Entre a viagem («a viagem é uma cisão absoluta») e a rotina («com o seu debrum de gangas que nem conheço») o amor é a linha dum rosto e o rumor de uma voz: «Tenho saudades da tua voz / desse rendilhado de sílabas/ a desaguar lento no alvoroço / da tarde. Tenho saudades / da tua boca onde eu – náufrago / de antigas visões – todas / as noites ouvia a límpida melopeia / da ilha».
(Editora: Labirinto, Capa: Manuel Carneiro, Prefácio: Posfácio: Cláudio Neves, Nota de contracapa: Olga Savary)
Mentiras transparentes, verdades opacas
O Primeiro-Ministro, o Ministro do Trabalho e o porta-voz do PS desmentiram totalmente que tivesse havido um convite a Joana Amaral Dias. Esse convite existiu – e foi um membro do Governo! Que o Governo não goste da verdade… mas, enfim, não me confunda com as suas trapalhices… Eu utilizo critérios, e se o Engenheiro Sócrates ou o seu Governo não gosta desses critérios, o problema é deles. Insultem-me todos os dias, estão à vontade, cá estou para resolver esses insultos.
O critério é: é preciso transparência e é preciso verdade. O Governo fez um convite, desmentiu o convite, negou o convite. E agora, o que é que quer?… Foi apanhado com a boca na botija, e portanto tem que responder por isso. E o assunto em si tem pouca importância. Qualquer convite responde-se com a consciência de cada um. Eu não dou nenhuma importância a esse assunto, o Primeiro-Ministro é que se empolgou com essa matéria.
Mas há uma questão a que eu dou importância: é que tem de haver uma diferença entre o Partido e o Governo.
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A expressão tráfico de influências designa um tipo de corrupção, crime punível com prisão até 5 anos. Quando, em 25 de Julho, Francisco Louçã afirmou que José Sócrates decidiu convidar Joana Amaral Dias para as listas do PS e, subsequentemente, para um eventual lugar de Estado, disse que estávamos perante um caso de tráfico de influências. Portanto, disse que Sócrates era criminoso, aos seus olhos. Não sei o que se passa contigo que lês este texto, mas para mim esta situação não pode ser deixada assim, encerrada e esquecida como mais um desaforo corrente. Quando o chefe de um partido com representação parlamentar declara que o Primeiro-Ministro e Secretário-Geral do PS é criminoso, tem de haver consequências políticas e/ou legais correspondentes para o acusador ou para o acusado. Contudo, após os desmentidos de três responsáveis do Governo e do PS, Louçã mantém a acusação. Mais: após o último relato de Joana Amaral Dias, que não contradiz Paulo Campos quanto à ausência de um convite formal nem confirma a oferta dos lugares, Louçã envolve todo o Governo num aliciamento criminoso. Pergunta: já estamos numa esquizofrenia generalizada ou ele tem razão e ninguém se importa?
Lembretes
– A jurisprudência é uma disciplina na dependência da lógica formal, da gramática e da retórica. Quando um tribunal decide, tanto pode expressar uma necessidade lógica ou histórica, como pode instituir uma interpretação possível entre outras, igualmente legítimas a partir do mesmo texto base. Isto acontece em qualquer sistema de Justiça, seja onde e quando for, porque as leis são objectos constituídos exclusivamente pela linguagem natural ― contêm inevitáveis e intrínsecas ambiguidades semânticas e sintácticas, a que se juntam as complexidades hermenêuticas e relativismos axiológicos inerentes aos processos cognitivos e volitivos dos sujeitos decisores (ena, quanta complicação nisto de sermos humanos, falantes e civilizados…). Por não ser uma matemática, a jurisprudência permite aos advogados ganharem a vida explorando as incertezas dos códigos, para o bem como para o mal. Assim, quem apareceu a fingir-se indignado com as decisões do Tribunal Constitucional quanto ao Estatuto dos Açores, exclamando ser grave o número de inconstitucionalidades estabelecidas, ou é ignorante ou demagogo. Provavelmente, demagogo porque ignorante.
Se a vires, dá-lhe um beijinho
A nossa amiga Cláudia pediu-nos para avisar a sociedade civil, altas patentes e bispado de ser hoje o melhor dia do ano para lhe dar os parabéns.
Portugal, uma sonda espacial
Em Julho de 2009, alguém propõe este retrato:
31% dos eleitores vai votar num partido que não tem programa nem inteligência para governar.
10% dos eleitores vai votar num partido que se recusa a governar.
9,4% dos eleitores vai votar num partido que só se sabe governar.
8,5% dos eleitores vai votar num partido que não se imagina a governar.
–
Ou seja, 58,9% dos eleitores habita algures no espaço cósmico, bem longe da gravidade terráquea. E se esta é a clarividência que revelam em matérias políticas, como será noutras áreas da sua vida pessoal e nossa existência colectiva?
Joana, come a papa
Paulo Campos é um bronco. Dizer que não sabia o que é o IDT faz duvidar da sua sanidade mental. Porque ninguém acredita. E deixa-se de acreditar no que seja dito a seguir. Mas se está a dizer a verdade, então ainda é pior. Por não saber o que é o IDT. E por não saber que não podia dizer não saber nesta situação. Em qualquer dos casos, é um bronco. Um bronco que na mesma noite consegue superar-se a si mesmo ao dizer que não percebeu, durante os primeiros dias da polémica, ser o ataque de Louçã a Sócrates uma consequência da sua conversa com a Joana. Obviamente, este melro brinca com a tropa.
A Joana disse algo incontornável: que o seu apoio ao PS era impensável. E assim parece. O seu discurso é de um fanatismo tão monótono que chegou a tornar interessante a cassete do Carvalhas nas manhãs da TSF, algo que cálculos em supercomputadores tinham previsto não ser possível de acontecer. E esse dado leva a que o caso esteja longe de estar fechado. Para quem se permitiu ficar calada durante uma semana, as justificações que deu cheiram muito mal. Primeiro, disse que o silêncio decorria de estar no seu período de férias, argumento ridículo e mentiroso. Depois, disse que ao partir tinha confirmado o convite, pelo que competia à imprensa investigar e descobrir quem o tinha feito, ela nada mais teria que dizer. Este será um argumento a la Paulo Campos, bronquite mental. Ficou-se pelas evasivas quanto à oferta de um lugar no IDT, ou algo equivalente, apenas realçando que não se vendia. E, finalmente, nada disse quanto às declarações de Louçã, o qual acusou Sócrates de ter feito o convite e a proposta.
Esta caso está longe do fim. Assim, Paulo Campos deve apresentar provas dos dois telefonemas referidos, um feito por si, outro feito pela Joana. Igualmente deve identificar quem lhe disse estar a Joana disponível para entrar nas listas do PS. A Joana deve esclarecer se recebeu a sugestão dos lugares em institutos por parte do Campos ou de outra personagem ainda não nomeada. E Louçã deve ser confrontado com o desenvolvimento do caso para que faça a confirmação da acusação a Sócrates ou a sua retractação.
O PS também é feito por material do calibre deste Paulo. Mas não são estas figurinhas que fazem o PS. Já o BE é cada vez mais uma papa onde a ética se desfaz como bolacha Maria e tem sabor a banana.