Desce e desce ou O Mistério da Rua Viriato, 13

A secção Sobe e desce do Público nunca terá lá chapadas as carantonhas de José Manuel Fernandes e Joaquim Vieira, pelo menos enquanto estes mantiverem a sua ligação ao jornal. Temos de calçar as galochas e chafurdar no submundo para ler uma bem sentida peça onde os animais são chamados pelo nome. Agora que Vieira escreveu sobre o desenlace, Fernanda Câncio volta à carga.

Este episódio cruzou-se, nestas semanas, com o meu propósito de reflectir a respeito da direcção do Público. E tinha uma solução na manga, precisamente o Joaquim Vieira. Acompanhando o seu trabalho de Provedor do Leitor, desenhava-se, no rigor e frontalidade com que apontava e corrigia os erros, o perfil ideal para substituir o Zé Manel. É que o Zé Manel tem de ser substituído, mesmo que nunca o venha a ser e lá fique mais mil anos e alguns meses. Tem de ser substituído porque é um fraquíssimo director de imprensa, porque é um sofrível articulista, porque é um medíocre investigador, porque é um inane pensador, porque nem nos seus jornalistas tem mão, como se comprova semana a semana lendo qualquer uma das crónicas dos Provedores, e porque utiliza um jornal – cujo capital de excelência e independência não foi ele a criar, antes a desbaratar – para se envolver em ataques fulanizados a alvos da sua antipatia. O caso da perseguição a Sócrates e António Costa conheceu o momento mais alto quando este último disse no Rádio Clube, em Fevereiro deste ano, o que se repetia por todo o lado. Este é o ponto mais alto do conflito pois é aquele a partir do qual se começou a notar uma mudança, abrandamento ou estratégia de baixa intensidade, na linha sensacionalista que o Público tinha exemplarmente desenvolvido com os casos da licenciatura e das casas; e depois continuado como linha editorial em registo de campanha contra o Governo. Mas é também o ponto mais alto porque é aquele que não admite recuo. Recuar – quando se está perante uma acusação clara e inequivocamente expressa pelo braço-direito de Sócrates, ex-ministro do Governo, segunda figura do PS e presidente da mais importante Câmara do País– é perder. E perder naquele nível, dado o figurino dos adversários, é comprometer irrevogavelmente a credibilidade. Portanto, sim, eu estava a aquecer a possibilidade de ser o Joaquim Vieira a solução perfeita para ocupar um lugar actualmente vago de carácter.

Só que a Fernanda Câncio veio destapar a ferida, e mostrou como está profundamente infectada, a precisar de outro remédio. De facto, se do Zé Manel qualquer comportamento hipócrita é de esperar, do Vieira esperava-se neste momento uma posição inquestionável e reparadora. E nem está em causa o erro gravíssimo e espantoso de ter alinhado numa versão falsa que ofendia viperinamente a honra e responsabilidade política e civil de outrem (enfim, creio que em Portugal a chantagem ainda é crime, e com punição correspondente ao grau e tipologia de poder do criminoso). O que está aqui em causa, mais uma vez, é o carácter. Convém dar máxima atenção à passagem da carta de Sócrates onde se pode ler que não foi ele a telefonar para o Zé Manel, antes este a tentar insistentemente chegar à fala com o presumível mafioso, o tirano que vem amordaçando a comunicação social livre em Portugal, mas com quem tinha urgência em ir almoçar. Creio que Sócrates não se daria ao trabalho e despudor de relatar com tanto detalhe este aspecto – dando ainda azo a desmentidos de várias testemunhas se não for relato verdadeiro – se ele não estivesse íntima e directamente ligado com o contexto do pretexto para o subtexto invocado na castiça hermenêutica inscrita nas declarações gravadas, afinal, apenas na memória de uns quantos homens de, finalmente, fraca e revolta lembradura. Isto, como escreveu Sócrates, configura um caso de cobardia. E tenho cá para mim que, quando nos acusam de cobardia, há que fazer alguma coisa. O que Joaquim Vieira faz na edição de hoje do Público – ou seja, o que ele não faz – só vem adensar o mistério da Rua Viriato, 13.

A inacção do pensamento

O João Galamba brinda os seus leitores com uma regular didascália de matérias filosóficas. O que perde em popularidade, pois são muito poucos os que o acompanham nas referências, ganha em originalidade. Numa situação em que o próprio ensino da filosofia está ameaçado no Secundário (conversa que já vem dos anos 80, contudo), e não está melhor na universidade, merecem gratidão os divulgadores do corpo de saber onde se funda a política, o direito, a teologia, a epistemologia e uma miríade de disciplinas e discursos; e no qual se inclui também um conjunto muito jeitoso de conversas cujo propósito sempre pertenceu à philosophia perennis: o paleio de saltar para a cueca. Dito isto, cumpre anunciar que o João Galamba é um imbecil. E aproveito o calibre da figura para praticar um dos desportos favoritos dos filósofos, a etimologia. Imbecil vem do latim imbecillus, começando por significar fraqueza do físico e dos materiais. Só a partir do século XVIII, por via do francês, a palavra ganhou o significado de estúpido. Mas é na procura da mais remota origem que a etimologia nos oferece a heideggeriana delícia de encontrar iluminações semânticas: imbecillu permite chegar a baculum, bastão, cajado ou bengala. Então, imbecil é aquele a quem faltam as forças e um ponto de apoio, uma sustentação, a bengala. Ou seja, aquele que não se aguenta nas canetas. Na fonte, a palavra não tem nada a ver com a inteligência, e podemos recorrer ao João Galamba como magnífico exemplo deste significado primevo. Ele não é estúpido quando afirma que a Igreja prefere refugiar-se nos dogmas em vez de acudir aos sofrimentos dos homens, nada disso. Vai nesta consideração complexidade suficiente para colocar o seu autor num plano superior de intelecção, seja qual for o critério técnico escolhido para a avaliar. Mas, igualmente, não há forma de escapar ao título de imbecil, pois está a fazer uma afirmação que é mais fraca do que o Benfica de Artur Jorge.

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Candidato surpresa nas eleições americanas!

A menos de 1 mês das eleições, apareceu um candidato que ameaça alterar todas as regras da democracia tal como a conhecemos até hoje.

O seu projecto é de aplicação imediata, alcançando maior racionalidade energética, diminuição das emissões de CO2, extraordinária recuperação de horas de trabalho e correspondente aumento da produtividade. Para além destes benefícios, fica ainda garantida a paz entre as forças sociais e políticas através da radical uniformização da vida intelectual.

Ver reportagem do NEWS CHANNEL 3.

O Nobel que se Clézio, que o PEN é que está a dar

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O Daniel Jonas acaba de ganhar o prémio literário do PEN Clube na categoria de poesia (ex-aequo com Segredos do Reino Animal de Helder Moura Pereira) pelo magnífico Sonótono (Cotovia, 2007). A efemeridade é particularmente importante porque estamos a falar de um livro que foi profundamente ignorado ou incompreendido por uma crítica que, salvas algumas honrosas excepções, vive do compadrio, da preguiça e de obsessões pseudo-elitistas e mereológico-geracionais. Que o prémio sirva pelo menos para atrair mais leitores à obra profundamente original do Daniel e que consiga sacar ainda hoje da net o terceiro CD do Tell Tale Signs, o oitavo volume das Bootleg Sessions do Dylan, são os meus mais profundos desejos para o que resta deste tão surpreendente ano. Parabéns, Daniel: já podes deixar de lado a tua carreira gastronómica.

Um livro por semana 60

«Portugal no Mercure de France» de Philéas Lebesgue

Com tradução e coordenação de Madalena Carretero Cruz e Liberto Cruz, este volume de 707 páginas regista as intervenções do grande lusófilo Philéas Lebesgue que, entre 1896 e 1951, escreveu na revista Mercure de France sobre livros e autores portugueses. A revista incluía rubricas tão diversas como História, Arqueologia, Literatura, Museus, Questões Coloniais, Militares e Marítimas, Medicina, Teatro e Viagens. Philéas Lebesgue, que colaborou com mais de 1.600 artigos em 232 revistas europeias, tinha um conhecimento profundo da nossa literatura e podia garantir: «Uma literatura que possui mestres do estilo e do pensamento como Raul Brandão e Teixeira Gomes, romancistas jovens e vigorosos do valor de Aquilino Ribeiro, ensaístas e filósofos como António Sérgio e Raul Proença, historiadores como Jaime Cortesão, pode marchar de par com não importa qualquer outra no mundo.» Conhecia também o Povo e podia afirmar que «Se Portugal pôde ficar um povo culto, mau grado o número considerável de iletrados, deve-o ao seu admirável folclore lírico sobre o qual os novos poetas quiseram enxertar a sua inspiração.» No regicídio de Fevereiro de 1908 escreveu: «Portugal é tão pequeno, tão à parte, que não nos convencemos das repercussões europeias accionadas pelas suas próprias convulsões.» Fiquemos por fim com a sua ideia de saudade: «A saudade portuguesa é ao mesmo tempo desejo e recordação, aspiração e queixume. Está tão voltada para o passado como para o futuro.»

(Edição: Roma Editora, prefácio: Jean-Michel Massa, Capa: Albuquerque & Bate)

Educação sexual para bloggers

Um dos aspectos mais notáveis, e decisivos, do cristianismo é o de não ter educação sexual. De facto, os diferentes credos cristãos não têm nada a dizer sobre a sexualidade, apenas sobre o casamento. No catolicismo, a mais segregadora das variantes cristãs quanto ao matrimónio, há dois tipos de casamento: o terreno e o celestial. Os leigos casam entre si, os ordenados casam com o Senhor. No que diz respeito à sexualidade enquanto dimensão antropológica ou espiritual, o cristianismo nada pode dizer porque tem ignorado voluntariamente essa região ontológica; nisso, e infelizmente, não recolhendo a herança do judaísmo. Esta situação é desgraçada, que não haja a menor dúvida, e explica vários fenómenos que compõem o actual momento civilizacional. Um deles é relativo ao império da pornografia, o qual não é só produto de consumo, mas alcançou o feito de ser modo de relacionamento. Com o acesso imediato à pornografia, tanto na TV como na Internet, e ainda antes nas revistas femininas comuns, a pornografia massificou-se. Daqui nascem novos mercados e novas tipologias de relacionamento, onde o sexo se frui como lúdico e destituído de vínculo sentimental. Ou seja, o que os homens (e algumas mulheres) das elites sempre fizerem ao longo da História, ter sexo à disposição sem restrições, é agora uma possibilidade crescente para a enorme maioria dos adultos ocidentais, homens e mulheres, caso o procurem. Se quiserem protestar com alguém da Igreja por causa deste paradoxo, onde a falta de educação sexual gera uma legião de consumidores de sexo, e onde o culto da abstinência acaba como fonte de luxúria, é favor enviar a correspondência para o Santo Agostinho.

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Vinte Linhas 285

«Uma memória de Pereiros» de Joaquim do Nascimento

São 14 crónicas de revisitação («Nasci nos Pereiros e ali vivi até aos doze anos») e daí o subtítulo – «Quotidianos de uma aldeia do Alto Douro – 1930-1980». A geografia sentimental é vasta: «A fonte da aldeia, a azenha ou lagar do azeite e o forno, tal como a igreja, as capelas, o cemitério, as tabernas, ou sotos quando vendiam tecidos, a escola do Combro e as salas de aula que precederam esta, se alguém ainda as conseguir identificar, os velhos caminhos, o rio e os seus açudes e pontes, o moinho da tia Elisa, a caminho de Valongo mas ainda do lado de cá do rio, tudo isto constitui a memória colectiva do povo dos Pereiros». Tudo começa na paisagem («As árvores da minha terra são os sobreiros, embora uma ou outra oliveira de tronco carcomido pelos anos possa figurar em segundo lugar») e acaba no povoamento: «Nos Pereiros, ao pedreiro, ao carpinteiro, ao ferreiro, ao ferrador, ao sapateiro chamava-se artista». Fiquemos pela crónica sobre a carreira: «Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias e nos ligava pela EN 222 à Vila, ao Comboio e ao Mundo. A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava todas as manhãs, pelas oito e trinta minutos a caminho do Pinhão e regressava às quatro e meia da tarde. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento podia desqualificar um cidadão. Nesse curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando quem tinha chegado e imaginando o destino de quem seguia, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena Vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do senhor Marquês de Pombal e da criação da Real Companhia Velha».

(Editora: Padrões Culturais, Capa: Mário Andrade, Apoio: Associação Amigos de Pereiros)

A velhice do líder partidário eterno

Tendo assistido ao debate quinzenal no Parlamento pela televisão, ocorrido hoje, veio um assomo de lirismo: como seria a política e a vida social em Portugal se os trabalhadores tivessem autorização dos patrões para assistir aos debates quinzenais? Para os deputados, membros do Governo, funcionários da Assembleia, jornalistas destacados e ocasional público, este debate não deve ter sido diferente de tantos outros. Não há nenhum facto digno de registo a noticiar, nem sequer alguma frase memorável, mesmo que de memória efémera. Num certo sentido, nada aconteceu. Mas no seu outro lado, aquele que justifica a existência da figura do debate regular, é um dos instrumentos mais importantes da democracia e do Estado de direito. Os partidos têm tempo de preparar as intervenções e podem confrontar directamente os responsáveis governativos. Havendo ideias ou denúncias, o Governo fica sujeito ao desafio de lhes responder na hora, ou correr o risco de passar a imagem de fraqueza ou culpa. Claro que as propostas e as queixas dos partidos podem ser expressas a qualquer altura, não havendo nenhum impedimento para as fazer chegar à comunicação social e à população. Isso ajuda a iluminar a dimensão principal do debate quinzenal, e a qual se liga directamente com a matriz da democracia tal como ela foi primeiramente idealizada: num debate, dá-se prova de carácter. Este aspecto tem a sua raiz na ancestralidade de qualquer grupo humano, onde existe a necessidade de estabelecer hierarquias, sob pena de se desagregar o grupo em causa. Debater é, pois, combater e conquistar o poder – e a arma democrática por excelência é o carácter, a virtude. Na sua perfeição, a democracia é uma aristocracia perene, imune às disfunções oligárquicas e às perversões tirânicas, através da permanente e ordenada renovação.

O espectáculo de ver deputados aos berros, rubros de hostilidade, a sobreporem-se ao discurso do Primeiro-Ministro, pode deixar indiferente qualquer outro. Ou o espectáculo de ver os deputados a falar e a rir enquanto um outro deputado discursa, pode ser a normalidade. E o espectáculo de ver deputados a abandonar o hemiciclo só porque o seu partido já tinha acabado a intervenção, enquanto o debate continuava, pode apenas suscitar bocejos a muitos. O mesmo pode ser dito quanto à lamúria tecnocrática de Paulo Rangel, à retórica serôdia de Paulo Portas, à postura folclórica de Jerónimo de Sousa, à excitação soviética do tipo dos Verdes e à chatice ortodoxa de Alberto Martins – tudo mais do mesmo, a falência da inteligência continuadamente repetida como maldição. Mas, para mim, o choque veio de Francisco Louçã. Num debate cujo tema era relativo à crise económica internacional, Louçã tinha uma pergunta que insinuava a certeza da existência de recibos verdes numa empresa que representava a Segurança Social num dado serviço. A situação suposta era muito fixe, pois sumamente irónica. Contudo, Sócrates tinha a resposta pronta, a qual assarapantou o interrogador e deixou a sua bancada num estado de meter dó. Fatal, porém, foi o modo como Louçã lidou com a situação, não querendo admitir a bacorada com que esgotara a intervenção do seu partido no debate sobre a crise internacional. E veio justificar a questão com deturpações de menino apanhado numa traquinice a não querer assumir responsabilidades. Estes momentos, ó Louçã, são maus para a fotografia.

Passámos parte dos anos 80, e os 90 todinhos, a ter esperança neste rapaz. Entretanto, as primaveras chegam às 52 em Novembro, breve será pré-sexagenário e é crível que não esteja a ir para novo. O mito ainda é o do Louçã verboso, padreco e disposto a fazer a revolução nos 15 minutos seguintes. Só que a realidade, ao longo do tempo, mostra um político estagnado, invariavelmente azedo e odioso, o qual não se imagina a ser substituído por um qualquer lugar-tenente. O Rosas é um espinho cravado na sã convivência com os adversários, o Fazenda não consegue cobrir a nudez de ideias e a Drago queima-se na sua própria chama. Se albergam lá mais alguém de valor dialógico, pelo menos aproveitem os debates quinzenais para irem rodando até acertarem num novo talento. Isto de nem o Bloco ter material político para perturbar o nosso Primeiro, é o espectáculo mais desolador de uma tarde passada a olhar para a casa da democracia.

Lá como cá, game over

Este segundo debate virou o feitiço contra o feiticeiro: McCain julgava ter vantagens na interacção com a assistência, a qual interrogava e cercava os candidatos, mas acabou a exibir a sua banalidade intelectual, mediocridade política, descontrolo emocional e caducidade indisfarçável. Está acabado, todos o sabem neste momento, e já se encomendaram as faixas de campeão. O Mundo vai ter Obama durante os próximos 8 anos, e a América irá unir-se à Europa para a mudança do paradigma económico e da cooperação internacional. Porque se a crise financeira é gigante e assustadora, a certeza da crise ambiental, e a possibilidade da ocorrência de terrorismo nuclear, vão ser os maiores desafios que alguma vez a Humanidade enfrentou. A questão não é a de se ir mudar, porque a mudar já estamos. A questão é a da direcção e velocidade da mudança.

Talvez a escolha de McCain como candidato Republicano tenha resultado da antecipação de candidatos Democratas desruptores, tendo-se apostado num semi-independente com medalhas de guerra para apelar ao choradinho. Mas o facto é que ele não está qualificado para ser presidente, ponto. Mesmo esquecendo a irresponsabilidade, eventual loucura, da escolha de Palin, McCain está fora do prazo e não é estadista. Game over.

Aprende-se mais sobre política assistindo a um debate presidencial americano do que a acompanhar a política nacional durante um ano. A culpa não é de Sócrates, que assumiu os debates parlamentares quinzenais como um guerreiro, e é altamente competente nas entrevistas. E a culpa não é do Governo, que tem sido o mais profissional de sempre na gestão da sua imagem, comunicação e poder negocial. E a culpa também não é do PS, um partido cuja essência é fragmentária, que tem estado surpreendente e notavelmente coeso; Alegre confirmando a regra. A culpa é da oposição, onde não se vê uma única – uma única! – figura que desperte a mínima esperança ou interesse. Da esquerda à direita, não há ninguém que represente uma alternativa, sequer um complemento, ao poder actual. Até McCain, se viesse para cá descansar e curtir a reforma, faria melhor.

O arrastão da inteligência


Quero agradecer ao Al Gore por ter inventado a Internet, engenhoca sem a qual nunca teria recebido esta prova de afecto.

Daniel Oliveira é o melhor discípulo de Pacheco Pereira. Ambos mergulharam nas mesmas águas ideológicas na loucura da juventude, tendo provado o embriagante fruto do radicalismo. Tal como nas experiências com LSD, para o resto da vida passam a estar sujeitos a alucinações. E tal como com o Pacheco, temos visto o Daniel a caminhar para um centro difuso, aceitando compromissos vários em nome da sua carreira de publicista. E justifica-se, porque é uma vida muito boa essa dos que recebem dinheiro para botar opinião. São como os músicos, a quem se paga para fazerem o que lhes dá prazer e envaidece. Se eu pudesse, faria o mesmo, olá.

Mas o que eu nunca faria, e peço que não me deixem fazer, era perder uma oportunidade de ser inteligente. Porque quando se começa no desleixo, folgando a rigorosa disciplina, acaba-se rapidamente na imbecilidade. Ora, temos de ajudar o Daniel a não cair nessa armadilha, pois é duvidoso que alguém queira saber no que pensa um imbecil. É adentro deste projecto destinado ao fracasso que te convido a ler uma grotesca imbecilidade. Se acreditares no que leste, vais acreditar que o Papa está a influenciar positivamente o aumento dos casos de SIDA, de aborto e de miséria demográfica. Claro que aqui te poderás perguntar como é que se cola o aumento do número de abortos com o aumento demográfico, mas deixa lá isso. Por agora, o que importa é reconheceres que ao acreditar no autor isso produz um efeito em ti: dás-te conta que te tornaste num imbecil. E eu pergunto: gostas? Claro que não podes gostar, pois isso obrigaria a que fosses ainda mais imbecil do que já és após a leitura do texto, e tal não é quimicamente possível. Portanto, não gostas de ser imbecil; e esse é o lado bom da ideia que defende uma relação entre Papa, SIDA, aborto e aumento demográfico. Pronto. Descansa um bocadinho, bebe água e volta para o parágrafo seguinte.

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Enconados Futebol Clube

O futebol existe desde o início da civilização e tem uma missão: levar-nos a aceitar o resultado, seja ele qual for. A meta é a consciencialização de que todo e qualquer resultado é o melhor possível, tão válido como outro qualquer. E é só para terminarem que os jogos começam, os fins justificam as partidas na grande teodiceia do pontapé na bola. Dizer que há resultados justos e injustos apenas assinala a necessidade de continuar a ir ao futebol. Pois a justiça nasce da vontade e da lógica, enquanto o resultado é uma flor da sorte. No caso da vitória do Porto neste domingo, o elemento aleatório a ditar o resultado chama-se Paulo Bento.

No dia 5 de Outubro de 2008 deu-se uma mudança de regime na equipa de futebol do Sporting: a monarquia do disparate deu lugar à república das evidências. É evidente que ter Rochemback como médio-ala atacante é das decisões mais estúpidas em toda a História das decisões. Pôr um homem que não devia correr por ordem do médico naquele sítio é desumano. É evidente que Rochemback não pode ter outra posição que não seja a de médio defensivo. A equipa tem de se organizar a partir desta posição central ao baixo, irradiando dos seus pezinhos a distribuição de jogo. Caso ele não possa jogar, por lesão ou cartão, na linha sucessória estão o Moutinho e o Veloso. Mas mantendo a função: pegar na bola e fazer meio golo. É evidente que o Derlei e o Postiga são dois avançados em pré-reforma, sem pernas nem cabeça. Nestas condições, e pensando no que aconteceu na final da Taça, talvez a ave rara Tiuí acertasse mais dos que estes dragõezinhos de papel. É evidente que o Pereirinha não deve ser usado como defesa, onde não rende mesmo que cumpra, mas sim como extremo, pois ele é novo é agora, não daqui a 10 anos. O Pereirinha precisa de jogar e de ter a confiança do técnico para inventar, para ser criativo e tecnicista. É evidente que o Djaló não está a ser aproveitado, pois ele é meio aparvalhado mas compensa com a corrida. Precisa de ficar à mama e conseguir correr até ao fim da linha, altura em que tomará uma de duas opções: centrar ou embicar em direcção ao guarda-redes. Isto é simples de explicar e mais ainda de executar. É evidente que o Miguel Veloso está a revelar-se um bluff, sinal de que não treina bem. Que ele viva um momento de grande produtividade e destruição inglória de espermatozóides, isso não lhe dá imunidade futebolística. Neste momento, é um jogador que quando se supera apenas consegue ser banal. É evidente que o Vuckcevic é mais sportinguista do que o Paulo Bento, e escusa-se de dizer alguma coisa outra sobre o assunto. É evidente que o Sporting é uma equipa onde não há imaginação, onde não se vê dinâmica de grupo, onde quase ninguém remata à baliza, onde se falham demasiados passes, onde se fazem faltas desnecessárias, onde se protesta com os árbitros por imbecilidade, onde se entra em picardias por falta do mais básico profissionalismo, onde não se pensa. Esta república das evidências tem um prognóstico muito reservado, a monarquia do disparate pode voltar a reinar já no próximo jogo.

Que não espante, então, a tristeza que vai no coração dos adeptos. No estádio, o público esteve alheado, tolhido, magoado. Não gostamos de treinadores e jogadores que se queixam da nossa paixão pelo clube, como se lhes tivéssemos ficado a dever dinheiro das partilhas ou não pudessem tomar banho com água quente no final do jogo. Se é para choramingarem por causa da acústica do estádio, tirai os leões do peito e ide procurar trabalho noutra freguesia. Que inaudito paneleirismo é este, mandar vir com o povo que assiste ao espectáculo e quer ver soldadesca a marchar bravamente em direcção à baliza contrária? Se nem sequer entendem que só existem por nossa causa, façam as malas e abandonem a selva, até os abutres merecem ser poupados às vossas carcomidas carcaças. A gentinha das queixinhas e dos achaques que vá jogar com os amigos para uma praia na Caparica. E podem criar lá a agremiação desportiva onde se sentirão em casa: Enconados Futebol Clube.

Um livro por semana 87

«Breve tratado das artes da cópula» de Al-Sayed Al-Makhzoumi

Natural do Iémen, o autor foi um médico que tratou tanto homens como mulheres de Espanha até ao Noroeste da Índia, de Samarcanda até os países da Arábia e ao seu país natal. Dessa experiência de 65 anos de actividade clínica nasceu em 1725 o manuscrito deste actual clássico do erotismo. Vejamos um excerto sobre o beijo: «Na troca de carícias entre o homem e a mulher não há nada mais doce do que beijarem-se nos lábios e na boca. Os lábios e a boca dos homens e das mulheres são muito sensíveis ao toque entre ambos e muito prazer e excitação serão colhidos se isso for feito com bastante sofisticação e habilidade. As mulheres parecem ter bocas muito mais sensíveis do que os homens e retiram muito mais prazer do beijo. Isso pode explicar porque é que as mulheres gostam de demorar-se no beijo sem qualquer desejo aparente de cópula a não ser passado algum tempo depois, enquanto os homens tentam rapidamente e sentem um desejo urgente de copular após alguns poucos beijos preliminares. Realmente o beijo não os satisfaz no mesmo grau mas incentiva-os a outros desejos mais urgentes. As virgens, em especial, retiram do beijo toda a satisfação por que anseiam, pois nenhuma outra parte do corpo é estimulada. Contudo uma mulher experiente deseja ardentemente a cópula depois de estar satisfeita com os beijos. O beijo (Al Qqlab) começa com o toque entre os lábios do homem e da mulher. Os seus narizes devem encaixar-se perfeitamente de modo que os lábios se sobreponham em todo o seu comprimento. É altura de darem início aos movimentos dos lábios do homem sobre os da mulher e uma pequena quantidade de saliva pode ser passada pela língua dele para humedecer o contacto entre os lábios, que ficarão mais sensíveis, convertendo esse contacto num momento de maior prazer.»

(Editora: Padrões Culturais, Tradução: Carlos Adalto Souza, Capa: Mário Andrade, Prefácio: Isabel Afonso)

Pacheco Pereira e o lubrificante

Na continuação das bengaladas do nosso amigo Rui Vasco Neto, também quero molhar a sopa. Lobo Xavier, António Costa e Pacheco Pereira exibiram, no último Quadratura do Círculo, três posições prototípicas em relação à blogosfera: a utilitária, a ignorante e a ressabiada. Lobo Xavier disse o óbvio: os blogues são bons porque são úteis, seja para a busca de informação ou diversão. Compete a cada um descobrir quais interessam e porquê. António Costa mostrou ser um bimbo: emitiu juízos de valor cuja origem é apenas emocional, provando que não sabia do que estava a falar. E Pacheco Pereira repetiu a cassete: que era uma chatice a blogosfera não se restringir ao seu blogue e a mais um ou dois que ele aprovasse. Estas posições espelham o actual entendimento da classe política sobre a blogosfera, talvez nestas exactas correspondências distributivas.

Esta conversa de café não mereceria especial atenção, em condições normais. Mas as condições foram anormais, pois se discutiu o escândalo das casas da Câmara de Lisboa imediatamente antes do paleio sobre os blogues. Ora, não se pode falar do caso das casas sem iluminar a dimensão corruptora que envolve a prática política em todos os níveis do seu exercício. Trata-se de um fenómeno geral, extenso no tempo e no espaço, e é um tabu para todos os envolvidos – grupo onde se incluem os agentes, os cúmplices e os coniventes por conhecimento. A anormalidade está nisto de se quebrar o silêncio e ter os responsáveis a discursar sobre a matéria. Vejamos o que disse Pacheco Pereira:

A nossa política está quase no grau zero.
Toda a gente sabe que as casas na CML são distribuídas, em 40%, para pagar favores políticos, de relações de amizade e proximidade.
A mecânica dos pequenos favores, da cunha, é o lubrificante das estruturas intermédias dos partidos, com peso importante no poder autárquico.
Todas as Câmaras que tenham património para distribuir terão problemas semelhantes.
Todos os presidentes da CML, de António Costa até ao Abecassis, sabiam que este processo ocorria.
A nossa Administração Pública está cheia de favores, prebendas, de que ninguém fala.
O problema de fundo é a cultura da cunha e do favor que invade partidos e Administração Pública.
É uma situação estrutural da Câmara que não pode ser atribuída a nenhum partido em particular.
Eu estive 5 anos no Parlamento Europeu. Seis meses antes de me vir embora é que eu vim a saber duas mil ou três mil maneiras de ganhar mais dinheiro no PE, todas legais, todas mantidas em segredo, transmitidas uns pequenos truques aqui, uns pequenos truques acolá. O que acontece com estes casos é que os que estão dentro – é por isso que o problema também das estruturas partidárias é importante – os que estão no sítio, e os que conhecem os mecanismos, chamam os outros. E portanto há aqui um insight, há aqui um conhecimento interior, que circula por estas instituições, que – exactamente porque não há concursos públicos, a coisa nunca vem a público ou quando vem a público já está dirigida a alguém – que permite esta cultura de favores e de cunhas. [neste ponto, Carlos Andrade interrompe para dizer Temos de avançar…]

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Vinte Linhas 284

Dinis Machado – «Sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!»

Neste dia triste da morte (civil) do escritor Dinis Machado gostaria de o lembrar não pelos livros mas por uma história povoada de ternura que ele me contou há muitos anos quando fomos à Escola Veiga Beirão falar de livros. Nascido no Beco do Carrasco, o Dinis fez a escola primária na Rua da Rosa e andou sempre aqui pelo Bairro Alto. Seu pai, o senhor Oliveira Machado, dono do restaurante «Farta Brutos», ex-árbitro de futebol e jornalista desportivo, levou o Dinis um dia à rua Jardim do Regedor para lhe mostrar a sala de taças do Sport Lisboa e Benfica. No fim da visita guiada o pai convidou o filho a inscrever-se como sócio do Benfica mas ele respondeu: «Pai, sou do Sporting porque apertei a mão ao Jesus Correia!» O porteiro teve uma frase definitiva: «Não há nada a fazer senhor Machado. Não nasceu para ser do Benfica, vai ser leão toda a vida!»

Nesse tempo não havia empresários nem sociedades anónimas desportivas, havia relatos da rádio, jornais desportivos três vezes por semana, rebuçados com bonecos da bola para fazer colecção. Havia menos fotografias mas mais tempo para as paixões. As emoções com as escolhas do nosso clube, essas são para toda a vida e até para além da vida. Morreu o Jesus Correia que apertou a mão ao Dinis Machado, morre o Dinis Machado que me chamava «poeta Lacerda» quando me telefonava para por a escrita em dia. Um dia fiz anos e ele ofereceu-me um soneto dos muitos que escreveu, sabia de cor mas nunca publicou. Eu queria oferecer-lhe um soneto em resposta mas já não vou a tempo. Eu, o «poeta Lacerda», alcunha que nunca saberei como nasceu no imenso sentido de humor do inesquecível Dinis Machado.

X-Files_Herman José

Que o Herman perdeu por completo a graça, é notícia mais antiga do que o início das obras para a Expo 98. Mas ninguém (que eu saiba ou lembre) se preocupou em explicar o fenómeno ou em antever se tal perda é irreversível. Dada a importância do Herman na cultura nacional pós-25 de Abril, importa reflectir no que aconteceu e acontece a este marmanjão do entretenimento à portuguesa. Mas deixo o aviso: se durante a leitura te aperceberes de qualquer coisa assim a modos que estranha ali para os lados do Kosovo, pára imediatamente, mantém a calma e respira fundo (ou vice-versa), pega num pijama e duas latas de atum, dirige-te em passo de corrida para a sede do PSD mais próxima e aguarda instruções. Nada temas, a ajuda não demorará a chegar. Já foi tudo tratado com o Sr. Presidente da República.

Se 1975 anunciava a chegada de um cómico de talento superior, com o Sr. Feliz e Sr. Contente, 1980 consagra-o como uma novidade artística – após os sucessos musicais Saca o Saca-Rolhas e A Canção do Beijinho – n’O Passeio dos Alegres com o Tony Silva. Foi a primeira personagem humorística criada para o meio televisivo nacional e despertou universal paixão, pois reunia toda a sociedade numa só figura de síntese: o Portugal antigo a dar passagem ao Portugal moderno. Nunca tínhamos rido tanto e tão fundo, nesse processo que misturava, e conciliava, identificação e estranheza. Veio O Tal Canal, e com ele atingiu-se o apogeu dessa crítica social e antropológica começada no Tony Silva. Assistíamos à fulgurante definição de um novo paradigma humorístico, e televisivo, onde Portugal se unia à volta de um discurso vanguardista e de uma figura iconoclasta. Herman transformara-se na 1ª super-mega-hiper-estrela desta aldeola virada ao Atlântico, nem os futebolistas de então tinham sequer um centésimo da sua fama. Não conheci a popularidade do Raul Solnado nos anos 60, mas aposto que não é comparável ao que aconteceu com o Herman.

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Entrámos na fase pós-Palin, thank god

Tendo sido a primeira vez que vi Joe Badin em acção, não tenho qualquer dúvida de esta ter sido a melhor prestação da sua vida. Ou a melhor de que tenho memória, prontos. Ao seu lado apareceu uma marioneta, boneca de trapos muito mal cosidos, oca e repetitiva. Uma vítima da irresponsabilidade de McCain e de quem o influencia. Palin conseguiu fugir às perguntas e reduzir as suas respostas ao tema energia do Alasca, feito que chegou para os Republicanos terem respirado de alívio: tinham passado ao lado de uma possível catástrofe. Esta candidata já se enterrou para lá da salvação, deixou de contar para a campanha. Se voltar às grotescas exibições de incompetência, já ninguém se irá surpreender ou chocar, apenas continuaremos todos a rir. E se conseguir parecer uma candidata normal, repetindo os clichés que lhe mandarem repetir, ninguém mais lhe estará a prestar atenção. A ameaça de uma onda irracional à volta de Palin esgotou-se quando os novos óculos da candidata se constituíram como a sua grande mensagem nesse dia.

No final, foi uma lição civilizadora ver o genuíno afecto com que as famílias se trataram no palco. Continuação da estima que esteve sempre presente ao longo do debate e que assinala uma educação democrática superior. Joe Biden, uma velha raposa, é também um estadista de fazer inveja – e a ternura com que tratou a senhora foi uma jogada executada na perfeição. E assim se vai conseguir arrumar Palin no lugar a que pertence: o da irrelevância tacanha.

Um livro por semana 61

«Lisboa na rua» de Júlio César Machado

Além do clássico «Lisboa na rua» este volume inclui um divertido apêndice intitulado «O que havia de poetas por aquela época, é coisa incalculável» que conclui deste modo: «O destempero, a pieguice, a lamúria, produziram um efeito tão agradável que a chochice rimada tomou o lugar ao juízo, à arte e à moral.» «Lisboa na rua» é, como o título indica, uma radiografia feita de modo certeiro pelo nosso querido Machado: «Os rapazes finos de hoje passam dias sem ver o pai nem a mãe; ao princípio habituam as irmãs a ajudá-los a mentir, mais tarde nem isso. Os irmãos emprestam-se mutuamente dinheiro a juros; os pais especulam com as filhas em casamentos de perfeita lotaria social; as filhas habituam-se a enganá-los, vendo que eles as enganam e assim chegam mais facilmente a enganar os maridos. Tem tomado tudo uns jeitos de patuscada e de aventura. Não se vê por todos os lados senão um luxo frágil, egoísta, viajeiro.» A literatura do tempo (1874) também não escapa: «É raro por aí o rapazito literato que não seja condecorado com a Ordem de S. Tiago – e Camilo Castelo Branco não tem a Ordem de S. Tiago. Não são menos lidos os seus livros nem o seu nome é menos considerado. Talvez ele faça falta a S. Tiago mas S. Tiago de certeza não lhe faz falta a ele.» Nascido no Oeste, o autor escreve sobre Lisboa e a Província: «O rapaz de Lisboa saiu do colégio e não pensa senão em ter cavalos, beber muito, fazer desordens e ser ilustre no Chiado; o da Província ao ficar senhor de bens, trata logo de ver quais são os deveres que a sua riqueza lhe impõe. É acanhado mas por baixo do acanhamento há força, essa força é a superioridade da Província sobre Lisboa.»

(Editora: Frenesi, Ilustrações: Manuel Macedo, Assistência editorial: Telma Rodrigues)

O PS não vai em paneleirices

Como estas declarações de Paulo Rangel demonstram, o PSD quer estar de bem com Deus e com os diabinhos. Por um lado, não pode afrontar os rústicos, parolos, ignorantes, fundamentalistas, lunáticos e xexés de quem espera continuar a receber votos. Por outro lado, não pode ser coerente com a sua cobardia; tendo encontrado no cinismo a fuga ao imbróglio: o partido pensa uma coisa, os representantes do partido pensam o que eles quiserem. Isto, numa sociedade onde imperasse a lógica, faria com que se fechasse a cadeado a sede do PSD e se colocasse um cartaz a dizer Este partido acabou porque deixou de fazer sentido.

Oposta, e benéfica, é a posição do PS. Ter cedido ao prazo da oposição à esquerda, seria um erro político. Porque o PS deve continuar a marcar a agenda, se quer continuar a concretizar o programa nas suas condições. Como se viu no referendo para o aborto, não falta disponibilidade para assumir decisões polémicas que em muito transcendem a política partidária ou ideológica. É o caso com o casamento dos homossexuais, apenas uma causa bandeira, não um problema social urgente. E para os que vêm com o argumento de que todos os direitos fundamentais são urgentes, posição que é teórica e abstractamente inatacável, há a lembrar que eles não se coíbem do supérfluo para atender ao essencial. Ou seja, até para os arautos da justiça plena e imediata, há direitos fundamentais de primeira e de segunda necessidade. Assim, para a estratégia do PS, é melhor deixar para a próxima legislatura – portanto, para o próximo ano – o tratamento da questão.

Isto é um exemplo, mais um, de um partido com cultura política. Infelizmente para a democracia, só mais um partido dá mostras de ter cultura política, e infelizmente é o PCP. O BE é um partido oportunista, mas sem estratégia. E o PSD e o CDS são dois desastres. Isto está muito curto. É altura de aparecer uma nova geração de políticos que saiba fazer política, não que apenas ambicione repetir os que se servem da política – a ubíqua arte de roubar o Estado, currículo secreto que se aprende desde tenra idade nas juventudes partidárias dos partidos que têm partilhado o poder e suas benesses. Não nos esqueçamos que os partidos recebem dinheiro dos nossos impostos, a sua actividade é suposto ser algo mais do que andar a brincar aos clubes privados onde são todos amigalhaços e camaradas.

O adepto não é bento

Após o jogo com o Basileia, onde ao intervalo o Sporting foi assobiado pelos adeptos, Paulo Bento disse o seguinte:

Não me parece normal. Uma equipa com um troféu conquistado, que está em primeiro lugar no campeonato e que à segunda jornada da Liga dos Campeões não está a jogar mal… não me parece normal aquilo que aconteceu. Valeu-nos, hoje, o carácter e a personalidade dos jogadores para dar a volta a esta situação. Ao contrário de outras situações, em que foi o público que nos levou, hoje penso que foi ao contrário: foram os jogadores que levaram o público.

Paulo Bento tem qualidades de chefia que lhe garantem uma carreira tranquila, e já provou ser um bom táctico. Falta-lhe, agora, levantar os olhos do umbigo. Primeiro, o seu salário é pago pelos adeptos. Segundo, o seu emprego é mantido pelos adeptos. Terceiro, a equipa foi comprada pelos adeptos. Quarto, o estádio existe para os adeptos. Estes pressupostos são indiscutíveis, levando a três corolários:

– Paulo Bento está tonto.
– Paulo Bento está parvo.
– Paulo Bento está tonto e parvo.

Já chega de falar do carácter e da personalidade dos jogadores porque os adeptos não pagam aos jogadores para terem personalidade e carácter. A personalidade falha golos feitos e o carácter é frangueiro. O que verdadeiramente não é normal, e faz do Paulo Bento um anormal, é vir dizer que o público leva (??) os jogadores. Nunca assim foi e nunca assim será, senão ganhavam invariavelmente os da casa. É o emblema e a equipa que puxam pelo público, aqui como na China, hoje como há 100 anos ou daqui a 1000. E é a equipa que leva o público para o estádio, para a rádio, para a televisão, para os jornais, para as lojas e para a rua. Estas declarações de Paulo Bento revelam que ele está a confundir o futebol profissional com os Jogos Sem Fronteiras ou com algum torneio de malha no concelho de Abrantes. Isso faz prever o pior para a sua relação com o Vukcevic, apenas o melhor jogador em Portugal, pois indiciam completa falta de lucidez. Ó Paulo, olha para aqui: o adepto não quer psicologia, quer raça.

Quando um adepto assobia a sua equipa, está a emitir um sinal que o cérebro do jogador assimila como estimulante do instinto de sobrevivência. Isso leva a que o jogador fique concentrado e desenvolva um sentimento de culpa pró-activo que melhora o seu posicionamento defensivo e aumenta a sua capacidade aeróbica em 33% (acabo de inventar; pelo que, mesmo que não esteja certo, tem a vantagem de ser uma informação recente). Vir fazer queixinhas dos assobios devia ser algo proibido pelos estatutos do Sporting. Os únicos assobios ridículos para um adepto que se preze são aqueles contra as equipas contrárias – porque conferem importância ao adversário, denunciam receio. Devia ser questão de honra leonina aplaudir a equipa visitante à chegada e à partida, independentemente do resultado e das voltas da sorte.

Se não queres ouvir assobios, Paulo, trata então de reinventar os treinos. Nem reunindo todo o poder dos deuses se conseguiria que algum adepto assobiasse a sua equipa quando ela está a jogar bem. E para jogar bem, Bento, basta correr na direcção da baliza adversária com a bola nos pés. É tudo tão simples no futebol, ai.