Desce e desce ou O Mistério da Rua Viriato, 13

A secção Sobe e desce do Público nunca terá lá chapadas as carantonhas de José Manuel Fernandes e Joaquim Vieira, pelo menos enquanto estes mantiverem a sua ligação ao jornal. Temos de calçar as galochas e chafurdar no submundo para ler uma bem sentida peça onde os animais são chamados pelo nome. Agora que Vieira escreveu sobre o desenlace, Fernanda Câncio volta à carga.

Este episódio cruzou-se, nestas semanas, com o meu propósito de reflectir a respeito da direcção do Público. E tinha uma solução na manga, precisamente o Joaquim Vieira. Acompanhando o seu trabalho de Provedor do Leitor, desenhava-se, no rigor e frontalidade com que apontava e corrigia os erros, o perfil ideal para substituir o Zé Manel. É que o Zé Manel tem de ser substituído, mesmo que nunca o venha a ser e lá fique mais mil anos e alguns meses. Tem de ser substituído porque é um fraquíssimo director de imprensa, porque é um sofrível articulista, porque é um medíocre investigador, porque é um inane pensador, porque nem nos seus jornalistas tem mão, como se comprova semana a semana lendo qualquer uma das crónicas dos Provedores, e porque utiliza um jornal – cujo capital de excelência e independência não foi ele a criar, antes a desbaratar – para se envolver em ataques fulanizados a alvos da sua antipatia. O caso da perseguição a Sócrates e António Costa conheceu o momento mais alto quando este último disse no Rádio Clube, em Fevereiro deste ano, o que se repetia por todo o lado. Este é o ponto mais alto do conflito pois é aquele a partir do qual se começou a notar uma mudança, abrandamento ou estratégia de baixa intensidade, na linha sensacionalista que o Público tinha exemplarmente desenvolvido com os casos da licenciatura e das casas; e depois continuado como linha editorial em registo de campanha contra o Governo. Mas é também o ponto mais alto porque é aquele que não admite recuo. Recuar – quando se está perante uma acusação clara e inequivocamente expressa pelo braço-direito de Sócrates, ex-ministro do Governo, segunda figura do PS e presidente da mais importante Câmara do País– é perder. E perder naquele nível, dado o figurino dos adversários, é comprometer irrevogavelmente a credibilidade. Portanto, sim, eu estava a aquecer a possibilidade de ser o Joaquim Vieira a solução perfeita para ocupar um lugar actualmente vago de carácter.

Só que a Fernanda Câncio veio destapar a ferida, e mostrou como está profundamente infectada, a precisar de outro remédio. De facto, se do Zé Manel qualquer comportamento hipócrita é de esperar, do Vieira esperava-se neste momento uma posição inquestionável e reparadora. E nem está em causa o erro gravíssimo e espantoso de ter alinhado numa versão falsa que ofendia viperinamente a honra e responsabilidade política e civil de outrem (enfim, creio que em Portugal a chantagem ainda é crime, e com punição correspondente ao grau e tipologia de poder do criminoso). O que está aqui em causa, mais uma vez, é o carácter. Convém dar máxima atenção à passagem da carta de Sócrates onde se pode ler que não foi ele a telefonar para o Zé Manel, antes este a tentar insistentemente chegar à fala com o presumível mafioso, o tirano que vem amordaçando a comunicação social livre em Portugal, mas com quem tinha urgência em ir almoçar. Creio que Sócrates não se daria ao trabalho e despudor de relatar com tanto detalhe este aspecto – dando ainda azo a desmentidos de várias testemunhas se não for relato verdadeiro – se ele não estivesse íntima e directamente ligado com o contexto do pretexto para o subtexto invocado na castiça hermenêutica inscrita nas declarações gravadas, afinal, apenas na memória de uns quantos homens de, finalmente, fraca e revolta lembradura. Isto, como escreveu Sócrates, configura um caso de cobardia. E tenho cá para mim que, quando nos acusam de cobardia, há que fazer alguma coisa. O que Joaquim Vieira faz na edição de hoje do Público – ou seja, o que ele não faz – só vem adensar o mistério da Rua Viriato, 13.

3 thoughts on “Desce e desce ou O Mistério da Rua Viriato, 13”

  1. De toda esta história,cada um que se convença do que quiser,há telhados de vidro de TODOS em tal quantidade que ninguém consegue uma boa pose para a foto.É pena.

  2. Verdadeiramente abominável. Mas um belo exemplo da importância da blogosfera. E sublinho a última frase da Fernanda Câncio: o que andará o conselho deontológico do sindicato dos jornalistas a fazer no meio desta linda novela?

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