Ver a distância

Chama-se Sensitive Skin e é uma criação de Hugo Blick, que assume a sua escrita e realização. Em Portugal tem o nome À flor da pele, e passa na RTP 2 em horários calculados para obter o menor número de espectadores que for possível. Não há qualquer dúvida quanto à intenção do programador, como poderás comprovar se tentares ver um dos episódios. O melhor é comprar a caixa dos DVD, ou, ainda mais barato, pedi-la emprestada a um amigo e não a devolver.

Há alguma coisa que misturam na água canalizada da Grã-Bretanha que leva ao aparecimento de génios televisivos para a comédia. Eles já nos ofereceram os Monty Python, The Singing Detective e The Office, para só referir três casos à prova de dissidência opinativa. E depois de os ver, ficamos a babar com a surpresa de o pequeno ecrã ser maior do que o tédio, o desespero e o cinismo, juntos. E depois ficamos orgulhosos por sermos europeus. E depois ficamos a sonhar com a possibilidade de imitar estes cabrões destes britânicos que fazem televisão genial. E depois desistimos, altura em ficamos à espera que os cabrões reinventem outra vez a comédia. Informação útil: voltaram a fazê-lo em 2005.

Em Portugal estão a passar os primeiros episódios. Mostram o quotidiano de um casal de cinquentenários ou sexagenários, ou alguma coisa pelo meio. Têm um filho trintão e neurótico, são cultos, endinheirados e trabalham em funções intelectualmente sofisticadas e narcísicas. Serão felizes? Claro que não, a felicidade nem sequer é narrável. Mas também não são infelizes, e este é o golpe de génio. O caminho do meio, que é o de todos nós se tivermos sorte, é o da natureza humana. Estas personagens de 60 anos estão mais humanas do que nunca. Elas sabem que a felicidade é apenas uma miragem no deserto do desejo, têm a obrigação de o saber pela sua experiência de vida, conforto material e decadência física. E igualmente sabem que a infelicidade é somente o pesadelo dos que passam pela vida a dormir. Neste último ponto, as nossas personagens têm de agradecer ao brilhante Hugo Blick.

A comédia é o género mais difícil, e um dos mais violentos; tanto para os autores, como para o público. A comédia vulgar, que é quase toda, explora mecanismos de agressão, tenha esta como alvo terceiros ou o próprio comediante. Em Sensitive Skin, o efeito cómico obtém-se através da exclusão de todos os efeitos de comicidade, ficando a realidade no seu esplendor. É que a realidade não é má, não é triste, não é cínica. A realidade apenas é. Por isso, o primeiro impacto no espectador será o da estranheza, andando ali um bocado à nora à procura dos sinais de trânsito que o orientem para o género em causa. Devagarinho, então, o trabalho do texto e dos actores começa a puxar-nos e não nos deixa partir. Algo se passa com aquela gente que é profundamente nosso. A realização aproveita a surpresa e prega-nos partidas terríveis, enternece-nos, comove. Os espaços e os silêncios, os rostos e as palavras, não estão a representar, estão a apresentar-se. Num repente, somos projectados pela superfície onde nos estávamos a afundar, trampolim interior. E ficamos a pairar no ar, banzos, por uns instantes livres da força da gravidade. Claro, livres da gravidade, a vida só dá vontade de rir e de abraçar.

9 thoughts on “Ver a distância”

  1. Também estou a gostar imenso da série. Droga rara, altamente inteligente e viciante ao mesmo tempo. Só ingleses são capazes deste nível em televisão, de facto. Inteiramente de acordo contigo, Val, por uma vez.

  2. Proponho que inicies uma nova e assumida série de posts chamada “Teleterapia”, onde faças, não como uma distraída leitura poderia suscitar, uma terapia à distância (embora também seja disso que se trata), mas sim nos vás dando pistas para encontrar, no deserto da televisão, programas como este que nos apresentas. A tua terapia à distância levou-me para as noites de um Verão de meados dos anos 70, em que os Novos Vingadores entravam pela televisão e não saiam pelas janelas abertas, espalhando magia e mistério pela sala semi-iluminada. Então, Joana Lumley tinha pouco mais de 20 anos e uma estonteante beleza a preto e branco, que a avaliar pela imagem que acompanha as tuas palavras, continua a manter, agora com as cores do tempo, em Sensitive Skin. Gosto do termo em inglês, aliás nome de uma linha de comida de marca elitista para gatos, e ainda mais do que nos contas à flor da pele. As tuas palavras deixaram-me com vontade de rir e de chorar ao mesmo tempo – daí que não tenha expresso nenhuma delas. Mas pensei que não deve ser por acaso que todos os humoristas têm um lado triste, como se escondessem uma lágrima na palma da mão. Ou como escreveu Kierkegaard: “Tal como a fera, o humorista anda sempre sozinho”. Talvez o humorista seja o acrobata à beira da tristeza. É mais fácil fazer rir ou chorar? Deve ser mais fácil fazer chorar, porque choramos no momento em que nascemos e apenas aprendemos a dobrar o riso lá para os 4 meses de idade. A partir daí, somos finalmente candidatos a humanos. Basta aprendermos a rir-nos de nós. Ou a sorrir com séries como À Flor da Pele, no serão de domigo já com a segunda-feira e espreitar. Enquanto conto os dias até lá, deixo cair uma pergunta: aceitas encomendas de cineterapia? Gostava muito de te ler sobre o Antonioni e o seu Deserto Vermelho ou o seu Blow-Up. Se por acaso não tiveres os filmes, pede emprestados. Se prometeres que um dia os devolves mesmo, eles já serão teus.

  3. Hoje, isto é, amanhã às 2 e 20, dá o último episódio. Mas há uma segunda série, que passou na BBC em 2007, também com seis episódios. Lá para 2010, passa cá.

    Pensando melhor, Val, eu não diria exactamente, como tu, que «Em Sensitive Skin, o efeito cómico obtém-se através da exclusão de todos os efeitos de comicidade, ficando a realidade no seu esplendor.» Isto não é cinéma vérité, é comédia mesmo. Não tem é gags, ou os gags a que estamos habituados pelos Pavlovs americanos.

    O que aqui nos faz rir é o reconhecermo-nos, o apanharmo-nos em flagrante a nós próprios e aos que nos rodeiam nestas cenas de quotidiano aparentemente banais. Mas fazemos essa introspecção em voyeurs, a mirar a suposta intimidade dos outros, logo sem sentimento de culpa nem repulsa por estarmos a ser tão cruelmente vasculhados. Podemos rir ou não. Depende de nós, do nosso estado de espírito, de quanto condescendemos em nos analisarmos e deixar que nos analisem, de quanta auto-derisão somos capazes e de como nos afecta pessoalmente cada uma das cenas. Se estivermos numa onda boa, podemos até rebentar a rir.

  4. Bolas, desculpem : a ver se é desta

    Agora quanto ao resto, parece-me que quem não pousou completamente o facho és tu.

    Mais uma vez : ninguém pede à Igreja que se substitua ao Estado, nem que abdique dos seus principios. Apenas se-lhe pede (e mais concretamente ao seu mais alto representante) que esteja consciente das consequências que a sua palavra pode ter e que, por fidelidade aos seus principios (e pelas razões que tu proprio expões no texto), opte por explicar-se melhor ou, se isso a incomodar, por estar calada.

  5. susana e claudia, também faço minhas as vossas palavras.
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    fernando e CHICO, também faço minhas as vossas palavras.
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    Nik, tens razão, claro. Mas o esplendor da realidade a que remeto não é o do realismo ou documentário, obviamente, é o da essência. O seu veículo é a arte, ou o pensamento. Claro que estamos perante um artificialismo complexo e primoroso, daí a experiência ser tão envolvente.

    E gostei muito do que escreveste.
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    J de João, que tal seres tu o psicólogo de serviço para a cineterapia antonioniana? Para nós, pacientes carentes de pessoal clínico, seria um prazer e uma honra. Lembra-te que também devemos a Kierkegaard este conselho: “Na primeira metade da vida, o maior perigo é não correr riscos.”

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