O PS não vai em paneleirices

Como estas declarações de Paulo Rangel demonstram, o PSD quer estar de bem com Deus e com os diabinhos. Por um lado, não pode afrontar os rústicos, parolos, ignorantes, fundamentalistas, lunáticos e xexés de quem espera continuar a receber votos. Por outro lado, não pode ser coerente com a sua cobardia; tendo encontrado no cinismo a fuga ao imbróglio: o partido pensa uma coisa, os representantes do partido pensam o que eles quiserem. Isto, numa sociedade onde imperasse a lógica, faria com que se fechasse a cadeado a sede do PSD e se colocasse um cartaz a dizer Este partido acabou porque deixou de fazer sentido.

Oposta, e benéfica, é a posição do PS. Ter cedido ao prazo da oposição à esquerda, seria um erro político. Porque o PS deve continuar a marcar a agenda, se quer continuar a concretizar o programa nas suas condições. Como se viu no referendo para o aborto, não falta disponibilidade para assumir decisões polémicas que em muito transcendem a política partidária ou ideológica. É o caso com o casamento dos homossexuais, apenas uma causa bandeira, não um problema social urgente. E para os que vêm com o argumento de que todos os direitos fundamentais são urgentes, posição que é teórica e abstractamente inatacável, há a lembrar que eles não se coíbem do supérfluo para atender ao essencial. Ou seja, até para os arautos da justiça plena e imediata, há direitos fundamentais de primeira e de segunda necessidade. Assim, para a estratégia do PS, é melhor deixar para a próxima legislatura – portanto, para o próximo ano – o tratamento da questão.

Isto é um exemplo, mais um, de um partido com cultura política. Infelizmente para a democracia, só mais um partido dá mostras de ter cultura política, e infelizmente é o PCP. O BE é um partido oportunista, mas sem estratégia. E o PSD e o CDS são dois desastres. Isto está muito curto. É altura de aparecer uma nova geração de políticos que saiba fazer política, não que apenas ambicione repetir os que se servem da política – a ubíqua arte de roubar o Estado, currículo secreto que se aprende desde tenra idade nas juventudes partidárias dos partidos que têm partilhado o poder e suas benesses. Não nos esqueçamos que os partidos recebem dinheiro dos nossos impostos, a sua actividade é suposto ser algo mais do que andar a brincar aos clubes privados onde são todos amigalhaços e camaradas.

16 thoughts on “O PS não vai em paneleirices”

  1. Se o Valupi por cá andar daqui a uns meses vamos cobrar-lhe isto que disse “Este partido acabou porque deixou de fazer sentido”, muito provavelmente, noutro ponto de vista ;-)

  2. val,
    gostei do texto, enfim, quase todo (brilhante a definição de política, “a ubíqua arte de roubar o Estado, currículo secreto que se aprende desde tenra idade nas juventudes partidárias dos partidos que têm partilhado o poder e suas benesses”) , mas o título tem um não sei quê… não achas que já é tempo de esquecer o Paulo Pedroso?
    :-)))

  3. O titulo está quase bem, pois, segundo Valupi o PS não vai em paneleirices, por ora, mas irá para no próximo ano :-D 8-)

  4. Segui o post, mas só até certo ponto. Percebi a questão da estratégia política (concordando ou não com essa coisa da estratégia…) mas porquê misturá-la depois com a questão dos direitos fundamentais de primeira e de segunda necessidade? Porque quem é que define o que isso é? O PS, os homossexuais que têm pressa em casar, ou as pessoas que concordam ou não concordam com esse direito? Um direito fundamental, hoje de segunda, passa amanhã, por obra e graça da próxima legislatura do PS, a ser de primeira?

  5. Rui, pelos vistos, o Pedroso também não vai em paneleirices, surpresa.
    __

    Ana, quem define o que são direitos fundamentais de primeira e segunda necessidade é a sociedade, e esse processo tem dois nomes genéricos: cultura e política. Assim, por exemplo, alguém que acredite piamente que se deve alimentar quem passa fome e dar educação ou saúde a quem não a pode pagar, não estará disposto a viver com os mínimos para partilhar o excedente com qualquer um dos que precisariam de ajuda. Idealistas de todas as proveniências gostam de comprar a sua roupinha gira, os seus livros viciantes, o seu telemóvel vaidoso, ter o seu bom jantar careiro, passar umas boas e dispendiosas férias. Certo? Certo. Não se encontram com facilidade S. Franciscos entre a família, amigos, vizinhos e colegas. A santidade nunca foi sexy, apenas a sua aparência, a marca.

    Então, estratégia. Para o PS está em causa exibir liderança, não se deixando atemorizar com o folclore à esquerda. Repare-se como seria fácil acusar o PS de eleitoralismo por estar a alinhar com o BE num ano eleitoral. Assim, como se vê o PS coerente e seguro de um rumo, fala-se cinicamente do processo democrático. De facto, o grupo parlamentar socialista votou e isso é inquestionável: venceu a democracia. Não é por terem faltado à votação um número qualquer de deputados que a democracia ficou diminuída, quando muito apenas os absentistas ficarão com o nome chamuscado (se for caso disso, não faço a menor ideia). A democracia tem essa característica tão popular e pragmática: só lhe fazem falta os que a querem.

  6. o Bloco não foi oportunista no sentido negativo do termo, Valupi, fez o que lhe competia, como partido pequeno não amarrado aos esquemas de poder antecipou a questão, marcando o PS que teve de recorrer à figura da disciplina para impedir o destrambelhamento da votação e a carga nominal. Penso que todos saímos a ganhar desta antecipação, mesmo os hetero, claro.

    o dia em que os casamentos homo sejam aprovados em Portugal é um dia de distensão, a seguir vêm asneiras que acabam em divórcio mas a liberdade é assim

  7. y, exacto: oportunista em sentido positivo. O Bloco fez aquilo que sabe, e quer, fazer. De resto, a minha postura não é a de representante do PS ou seu defensor, antes a de analista. Interessa-me mais a lógica do PS porque é o partido que está na posição mais difícil.

  8. olha lá amigo, eu aos amigos tendo a aceitar tudo, quem sabe se eles têm razão, seja como fôr gosto sempre de os ouvir ou ler. Mas olha lá que macacos me mordam se a única maneira de sair desta catástrofe fiduciária não é o BCE pôr dinheiro a chegar às pessoas de maneir que las sintam liquidez. E se calhar lé tenho eu que passar pela vergonha de pensares que estou a pensar em mim, não estou pá, estou folgado, estou a pensar em ti e nos outros da tua geração e abaixo, que estão a ser comidos pela engrenagem. Te garanto que quando chega àqueles que eu amo torno-me mesmo perigoso. Mas enfim ainda tenho que admitir que sendo tu inteligente como és, um gosto, possas ter razão…

    PS: sorry pelas bacances mas p meu daimon toma conta de mim e uma avaria na net calhou-me que nem ginjas para despachar o artigo com os infinitos infinitos, ainda não está, mas quase.

    votos que estejam bem,

  9. Ibn, se lá fores levantar o cheque, serás.
    __

    y, espero que tenhas (tido?) umas férias produtivas e prazenteiras. Despacha artigos em barda, que o mundo precisa de toda a ajuda que for capaz de arranjar.
    __

    rvn, não te escapa nada, man.

  10. sou y sim, para lidar com o tricheur tive de descartar outra capa, e não preciso do sinal mais

    y=(z-x)/i

    amanhã vai para o cyberar

    a islândia está a afundar, cabrão

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