Leite derramado

Ferreira Leite critica “fantasia tremenda” de Teixeira dos Santos

Manuela Ferreira Leite sustenta que depois de ter assumido a liderança do partido “já não se fala no esboroamento do PSD”, que é visto “como alternativa ao poder” e “tem um nível de intenção de voto nas sondagens que é o mais alto dos últimos anos”.

20 de Outubro de 2008 assinala o fim político de Ferreira Leite como dirigente de quem se espera responsabilidade. Ela começou por ser vista como a melhor possibilidade de resgate do partido face à loucura de Menezes, mas a seguir só cometeu erros, graves e imperdoáveis. A exibição de ontem à noite consagra o diagnóstico: autismo, estado de negação, projecção neurótica, disfuncionalidade executiva, delírio. Esta mulher é uma senhora que se comporta como menina, recusa-se a crescer. Não há mistério ou profundidade no seu silêncio, há capricho e snobismo. E quando fala, reduz-se à sua insignificância.

A crise do PSD começou com a fuga de Cavaco, como se sabe. A procissão de figuras tristes e toscas que temos visto passar, de Nogueira a Barroso, de Mendes a Santana, de Menezes a Ferreira, não parece ter fim. Porque Rio e Passos, Borges ou Sarmento, são mais do mesmo, apenas o pacote varia. Quando alguém no PSD conseguir vencer o Adamastor da Madeira, teremos fumo branco. Sem essa prova de coragem, será mais uma figurinha para esquecer.

Ainda não têm nome, mas já te podes filiar

É uma das frases de Chandler mais citadas:

Chess is as elaborate a waste of human intelligence as you can find outside an advertising agency.

Por experiência pessoal, de jogador de xadrez e animal de agência, posso confirmar a exactidão do apontamento. Todavia, tivéssemos o Raymond connosco e já teria adaptado a boquinha à blogosfera. Porque aqui o desperdício de inteligência é ainda mais torrencial, incomensurável e necessariamente catastrófico. Mas o caos é apenas um estado de organização; e particularmente fértil, como se deixou escrito faz tempo. Talvez desta reunião de intelectos e vontades nasça finalmente um movimento cuja ausência está a deixar os sociólogos impacientes: um partido político com inspiradores, dirigentes e base de apoio provenientes inicialmente das redes sociais da Internet.

Daí, estas ideias quentes e boas para a renovação da classe política:

Partido sem ideologia – Estado de permanente abertura à inteligência, sem qualquer pressuposto teórico, histórico ou axiológico. As propostas dos partidos concorrentes seriam copiadas à má-fila, no todo ou na parte, à esquerda e à direita, caso tivessem os mínimos, idealmente os máximos, de proveito.

Partido com maioria de mulheres – Adequação metodológica, nos instrumentos de decisão, à psicologia feminina; esta muito mais colaborativa, horizontal. Sendo o primeiro partido preparado para o feminino, teria crescimento fulminante nesse grupo demográfico. As mulheres são mais capazes do que os homens quando se trata de gerir, proteger, reforçar.

Partido da ontologia extremista – Culto do tempo vivido e por viver, da profundidade e da amplitude, da sabedoria e da brincadeira. O programa político teria como única meta levar os nossos velhos a passar tempo com as nossas crianças. Fosse nas famílias, escolas ou ruas. Todos os dias celebrando juntos o espanto de ser.

Partido que estaria sempre na oposição à estupidez – Fazer oposição ao Governo só porque não se faz parte do Governo é uma das mais espectaculares exibições de estupidez. Quem não está no Governo deveria honrar o seu compromisso patriótico ajudando quem governa, sugerindo melhores alternativas, aplaudindo a boa obra. Este partido, mesmo que fosse Governo, ou especialmente se o fosse, continuaria a ser o maior partido desta oposição por inventar.

Partido com castigos atrozes para os cínicos – Os cínicos são a pior espécie de imbecis, devendo ser perseguidos, sovados e sumariamente expulsos desta organização. À porta dos locais onde se reunissem elementos do partido, haveria aparelhos detectores de cinismo, os quais fariam muito barulho e acenderiam luzes no caso de apanharem algum rasto de cinismo escondido nos neurónios dos participantes.

Partido cuja liderança fosse alcançada através de provas de pentatlo cívico – Os candidatos seriam aconselhados a irem para o congresso com fato de treino e sapatilhas confortáveis. Provariam o seu valor em cinco provas:

– Discurso de improviso.
– Danças de salão.
– Venda de atoalhados aos congressistas.
– Explicação da Teoria da Relatividade e definição do Bóson de Higgs.
– Confecção de sopa de legumes.

A escolha seria por aclamação. Eventuais casos de empate seriam resolvidos por sucessivas provas de confecção de sopa de legumes, sempre diferentes. Em caso de urgência, moeda ao ar.

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Sim, podes inscrever-te já.

Vinte Linhas 289

Postal da Ericeira para Marta em Madrid

Está um sol esplendoroso e quente, aqui na Ericeira. Em Lisboa chove e em Sete Rios caiu uma tromba de água. Do limite da esplanada vejo o teu banco. Passou a ser designado como o teu banco quando o descobri no teu Blog. Continua a chover em Lisboa segundo me informam os telemóveis em cima da mesa. O empregado brasileiro serve-me um carioca de limão e continua a achar graça às palavras do preçário. Tal como eu, na revisão de um livro para diabéticos, achei graça a um bolo brasileiro que se chama «pé de moleque». Tal como duas italianas acharam insólito ouvir dizer em voz alta no bar da Faculdade de Arquitectura da Universidade Lusíada na Junqueira esta frase: «Duas italianas para este senhor!»

Está um sol esplendoroso e quente. Também pelo inesperado sol de Outubro, as crianças encheram o parque infantil de Santa Marta. Ao lado o carro do Noddy continua a atrair os mais pequenos e as moedas não páram de cair. Um eléctrico pequenino tem nas bandeiras um destino curioso que eles ainda não percebem. Neverland. Terra do Nunca. Talvez seja esta mesa de esplanada onde tento juntar a imagem do teu banco, o sol que faz do mar um imenso espelho e as gaivotas que atravessam a esplanada para virem descansar no lugar onde ficavam as antigas balizas do hóquei em patins. A âncora deitada que separa o teu banco das rochas, onde um grupo de idosos apanha sol e iodo, forma um gigantesco travessão. As gaivotas não páram e vão espreitar de novo a luz branca das ondas contras as rochas. Parecem vírgulas inesperadas e sonoras na organização das linhas deste postal da Ericeira para ti. O travessão da âncora, a vírgula das gaivotas, o banco à tua espera.

Entre homem e mulher, mete garfo, faca e colher

Portugal, país de cobardes, não se enoja com a violência doméstica, talvez até esteja a tomar-lhe um renovado gosto: em 2007, os casos declarados subiram mais de 6% – do total dos casos, a maior incidência estando nas zonas urbanas, Lisboa à frente. Um aspecto crucial do fenómeno é o de ser transversal à sociedade, mesmo que haja factores de risco a remeter para diferenças de educação, valores e condição social. A transversalidade institui a violência doméstica como característica de identificação de género, gerando cumplicidades psicossociais que oprimem ainda mais as vítimas. A cultura de promoção da pornografia e da sexualidade irresponsável também reforça o potencial disfuncional das carências e deformações afectivas na origem dos comportamentos violentos, possível explicação para o crescimento a par da violência doméstica com os casos de assédio sexual no local de trabalho. Temos assistido, igualmente, à legitimação da prostituição como recurso legítimo e amoral, até complementar de relações estáveis e igualmente satisfatórias no acesso à actividade sexual. A prostituição como moda teve o seu momento de glória com os rumores, ou denúncias, relativos a Cristiano Ronaldo e suas animadas festas em hotéis ingleses; um rapazinho que, diríamos, não teria qualquer dificuldade em arranjar uma namoradinha descomplexada e descomplicada. O circuito da prostituição é ancestral, mas agora tem a sua promoção na cultura popular, gerando padrões de comportamento nos homens que validam a sua impulsividade e procura da gratificação instantânea a uma escala nunca antes vista. Por sua vez, este reforço do instinto animal e da psicologia primária é contrário às exigências cognitivas, afectivas, intelectuais e volitivas que se requerem numa relação monogâmica e civilizacional. Finalmente, a tentação de reduzir as mulheres à sua dimensão de fêmeas – anulando-as como cidadãs e pessoas, os únicos planos onde a igualdade é plenamente realizada – leva a que os seus óvulos sejam tratados como subproduto, até empecilho, da sua função como instrumentos sexuais e força de trabalho escravo ou explorado. Os defensores do aborto livre, e todos os que persistem em considerar que a educação sexual se resume à distribuição de preservativos e pílulas a crianças a partir dos 14 anos, são os algozes desta desumanização.

Precisamos de inteligência, precisamos do que se está a praticar na instituição House of Ruth, a qual desenvolveu o Gateway Project. Constata-se que os casos de violência doméstica implicam as duas partes, havendo ciclos de violência mútua em que as mulheres agridem os parceiros. As agressões podem ser físicas, mas a maior parte das vezes são verbais e emocionais, suscitando episódios sucessivos e escalados de mútua violência. O novo enfoque está em reconhecer que os violentadores também são violentados, e, a partir desta realidade bem mais interdependente, disponibilizar programas capazes tanto de tratar os agressores, como de ver os agredidos como vítimas também responsáveis pela situação que vivem.

Não precisamos de mais preconceitos e ideologia, de mais aproveitamentos da miséria para repetir alucinações políticas de que se desconhece a origem ou consequências. Precisamos é de mais ciência e de alguma, mínima que seja, coragem. Quando o amor é louco, não devemos continuar a fazer tão pouco.

Um livro por semana 57

«Os Narcóticos» (volume 1) de Camilo Castelo Branco

A partir de dois livros de Fernando Palha editados em 1882, Camilo Castelo Branco revisita alguns episódios da História de Portugal. O título «Narcóticos» tem a ver com as tentativas de envenenamento de D. João II, diversas desde 1491 até à morte. Camilo recorda o rei («homicida traiçoeiro, implacável destruidor dos seus parentes, o primeiro que em Portugal queimou hebreus expulsos de Castela, promotor do extermínio de oitenta vítimas ilustres, a veneno e a punhal»), não se mostra surpreendido pela incorrupção do seu cadáver («faltava a ponta do nariz o que não quer dizer nada em matéria de santidade») e avança com uma explicação: «emprega-se o sublimado corrosivo e o cloreto de zinco para embalsamar cadáveres humanos por possuírem essas substâncias as propriedades conservadoras do arsénico.» Camilo aproxima a actualidade europeia (1882) ao passado português (1536) no que respeita ao problema judaico: «O mesmo era matar judeus não processados, como em tempo de D. João II, ou desterrá-los roubados nos bens e nos filhos como em tempo de D. Manuel, ou rebanhá-los em massa e lavá-los daí processionalmente aos suplícios públicos das praças.» Completam o volume a novela «O senhor ministro» e os textos «A viúva do poeta Ovídio», «Silva Pinto e a sua obra», «Ideias de D. João VI» e «Camões e os sapateiros» Na novela, Amália ouve do tio padre esta frase sobre os sonhos de literato do seu herói: «os melhores poetas de Portugal mendigaram mas os que eram pobres tiveram o bom juízo de não casarem – Camões, Bocage, Tolentino, etc.»

(Editora: Bonecos Rebeldes, Capa: Fernando Martins, Revisão: António Bárcia)

Educação sexual? Concerteza!

Visitando o PCP digital, constatei que os comunistas portugueses não tem qualquer posição política quanto à sexualidade. Porém, buscas por sexo e sexualidade trazem um sortido de discursos avulsos e desconexos. Num deles, Luísa Mesquita sugere que a educação sexual nas escolas é uma matéria que se deve centrar na arte de bem colocar todo o preservativo, assim como na generosa distribuição à juventude de tão urgente artefacto. Não achei digna de censura essa ideia, a qual tem méritos inquestionáveis. O que me escandalizou foi o concerteza com que a Luísa achou por bem medalhar o seu texto, e que nenhum camarada terá ainda tido tempo de corrigir. A suspeita agora cobre como uma película protectora a minha adesão às ideias do PCP: estarão eles, mesmo, com a certeza certezinha de que a educação sexual que as famílias portuguesas desejam nas escolas públicas deve ter como principal objectivo a destreza manual, ou bocal, na colocação do preservativo?

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Politicopsicose

Politicopsicose não era termo que o Google conhecesse, logo, não existia no Universo conhecido; e até um pouco mais além. Faz falta? Nenhuma. Mas dá jeito quando se vai botar faladura sobre este manifesto de gravíssima perturbação mental.

É muito difícil escolher a passagem mais hilariante, registo só comparável ao que se escreveu na imprensa inglesa antes da primeira viagem de comboio, mas vou arriscar:


O que é que estará naquele ecrã? Não deve ser nada de interessante visto que nem as crianças que não levantam o braço, olham para lá.

O Pacheco está a precisar de tirar umas longas férias. A sua sócratesmania queimou-lhe os fusíveis todos.

Nos extremos é tudo mais simples

Um dos aspectos mais interessantes dos debates entre McCain e Obama está na interpretação do acontecimento feita pelos profissionais da opinião. No caso da CNN, onde os tenho visto, constata-se que os comentadores do lado Republicano são os mais pobres na argumentação, o que pode resultar tanto da fraqueza do candidato como da cultura política dos Republicanos. De facto, a caricatura usual de um Democrata, no imaginário americano, é o de um intelectual, enquanto um Republicano aparece como um jogador de futebol norte-americano ou militar. Tendo em conta que, para um europeu, até os Democratas serão de direita, ou centro-direita, isso colocará os Republicanos na extrema-direita. Os extremos são sempre mais redutores, pois seguem uma lógica de exclusão, enquanto o centro é inclusivo, seguindo uma lógica de negociação.

Já como epifenómeno, temos o caso do Ricardo Lourenço, jornalista do Expresso, o qual assinou um incrível disparate, e agora regressa com mais um arroubo. Escreve:

Deu para vencer o debate por curta margem. McCain apostou na forma mas também na substância. Explicou como governará com menos Estado e, claro está, menos impostos e aprimorou a proposta (adiantada no segundo debate, há uma semana) de renegociar os créditos à habitação de milhões de famílias necessitadas. Tudo em forma compactada, numa primeira meia hora de arraso.

Factos: é opinião unânime em toda a imprensa, nacional e internacional, que Obama ganhou, e os dados das sondagens revelam que ele teve neste os melhores índices de sempre dos 3 debates. Mas para o Ricardo Lourenço, não. Porque ele arrasa, até as evidências.

Pessoal do marketing: stop

A indústria da comunicação é igual em todo o Mundo e desde sempre. Em Portugal, dada a ausência de uma cultura competitiva e criadora de riqueza, ela tem sido uma das áreas mais profissionais e produtivas. Trabalha-se em alta velocidade, fora de horas, em dias de descanso e em ambientes disfuncionais. A seguir à falta de capacidade de gestão por parte da maioria dos patrões de agência, que não sabem como gerir e aproveitar o talento intelectual, o maior problema é o dos clientes. Os profissionais das equipas de marketing procuram sistematicamente boicotar o trabalho das agências, anulando o seu capital de experiência e capacidade criadora. Há excepções, mas o mais frequente é aquilo que este filme revela.

Vinte Linhas 288

Marcelo Rebelo de Sousa está comigo nos «atirados ao chão»!

Na aeronave «Luís de Camões» da TAP num voo recente Lisboa-Paris lembrei-me do «Aspirinab». Muito. É fácil perceber porquê. Foi-me oferecido o jornal semanário «Sol» que na sua edição de 4-10-2008 publica um texto de Marcelo Rebelo de Sousa na página 55 no qual o «professor» explica a sua versão dos «levantados» e «atirados» ao chão: «Saramago – Mas há coisas que não entendo. Como pôde mudar em edição posterior a dedicatória feita numa primeira edição. É como apagar alguém de uma fotografia antiga!» Para mim foi muito reconfortante ver que o professor Martelo dos bonecos e o professor da Faculdade de Direito (Marcelo Rebelo de Sousa) concorda comigo na tese de que aquela dedicatória àquelas pessoas do Lavre nunca podia ter sido apagada – com espanhola ou sem espanhola. Porque contém no seu articulado a génese da sua impossível desaparição. Quando eu escrevi que o Nobel tinha feito o mesmo que os fotógrafos de Estaline houve mosquitos por cordas mas a verdade é que o professor Marcelo Rebelo de Sousa lembra os processos de Estaline ao referir expressamente «apagar alguém de uma fotografia antiga». Valeu a pena esperar. Quando reproduzi parcialmente uma carta de um dos «atirados» ao chão houve um comentador do «aspirinab» que viu uma coisa que não estava lá. Quando o senhor em causa afirma «também eu reparei» isso significa que além de mim e de muitas outras pessoas (nomeadamente familiares das pessoas que contaram ao autor as histórias do livro) ele também já tinha reparado. Mas não – o comentador viu nisso o contrário; que ele não teria reparado se eu não lhe tivesse escrito. Mentira. Agora com o Marcelo Rebelo de Sousa é caso para dizer que valeu a pena…

Vinte Linhas 287

A francesinha torceu o pé no domingo de manhã

Num destes domingos de sol inesperado nos arredores de Paris, a francesinha torceu o pé. Bastou perceber que o pai (português) estava a bater à porta do quintal com os tios de Lisboa para, alvoroçada pela surpresa, surpreendida pela ousadia do pai, ter torcido o pé. Afinal o pai (português) estava só a mostrar uma parte dos arredores de Paris onde vive a canalha de Sarkosy (marroquinos, senegaleses, tunisinos, argelinos) e, como estava muito perto, foi mostrar a pequena moradia da filha aos tios de Lisboa.

Há trinta anos a avó da francesinha ficou muito surpreendida quando o pai (português) recusou de modo firme a hipótese (para ela óbvia) de passar a ser cidadão francês. Ele, cidadão de um país com fronteiras definidas muito antes da França que, ao tempo, era apenas um amontoado de ducados e condados. Mas para ela não era o genro nem o pai dos seus netos; era o estrangeiro. Há quinze anos a mãe da francesinha acusou o pai (português) de estar a assediar uns pequenos ladrões de bicicletas vizinhos quando ele apenas tentava recuperar as três bicicletas que os pequenos ladrões tinham roubado aos seus três filhos. Mas para ela não era o marido nem o pai dos seus filhos; era o estrangeiro. Neste domingo a francesinha torceu o pé porque se surpreendeu e alvoroçou num domingo de manhã cheio de sol ao ver o pai com os tios de Lisboa a bater ao ferrolho da porta do quintal. Mas para ela não era o pai, aquele em cuja casa os seus filhos ficam todos os dias; era o estrangeiro.

A ligadura que envolve todas estas pequenas histórias tem um nome (chauvinismo) e uma raiz comum: a maldade humana que, como sabemos, é infinita.

A tragédia de uma equipa de flores

No empate com a Albânia, ganhou o demónio. O rosto de Carlos Queiroz, na segunda parte da segunda parte, vendo o azar a encher o campo, era o de um autêntico possuído – ou encavado, é escolher que o coitado não está em condições de se importar. Depois do jogo nem apareceu para as declarações da praxe à TV, nem ninguém por ele, um técnico ou anjo. Também não apareceu jogador. Apareceu o demónio, sempre pronto a ocupar os espaços donde a palavra está ausente.

Futebol é sorte. Mas que é a sorte? É a matemática. Se uma equipa está com pouca sorte pode ainda ganhar, tem é de superar o azar. Se o azar corresponder a 90%, 9 em cada dez oportunidades de golo vão ser falhadas. Logo na oportunidade seguinte, a bola entra, e seja lá como for. Calhando entrar por cabriola nunca antes vista e que desafie as leis da física e a vocação dos guarda-redes, isso será apenas o espectacular efeito de simples aritmética. Se a equipa apenas dispuser de 9 oportunidades, ou menos, irá no máximo empatar. O problema é o de não se poder saber à partida qual seja o total de oportunidades, porque esse conhecimento anularia a própria sorte. Como se criam as oportunidades de golo? Eis a pergunta sacramental. Que não espante a resposta: sendo receptivos à graça. Isto é, jogando à bola porque é engraçado, não porque seja obrigatório ganhar. Falhar obrigações é assunto sério, mete medo, gera violência, anula a criatividade. Para aceder a todas as possibilidades da consciência, é preciso agir não agindo, como ensinam os taoístas (pelo menos, enquanto a bola não chega aos pés, porque depois toca é a agir com imediata rapidez e intenção, e que se confucem os taoístas).

Carlos Queiroz tem azar. Teve azar na Selecção, no Sporting, na África do Sul, no Real Madrid e de novo na Selecção. É o preço a pagar pelo sucesso inicial que o levou a convencer-se de que o futebol não precisava da sorte, apenas de um caderno de notas. Neste momento, a Senhora de Caravaggio está a rir-se de braço dado com o demónio de Queiroz. Se é para termos uma equipa de flores, os narcisos que hoje se cansaram para nada devem ser substituídos pelos lírios que não trabalham, nem fiam; mas têm sorte.

Um livro por semana 58

«A história da PIDE» de Irene Flunser Pimentel

Este trabalho é dedicado a Maria Ângela Vidal e Campos e Maria Fernanda de Paiva Tomás, as duas mulheres que, durante mais tempo permaneceram presas pela polícia política. A PIDE foi criada em 1945 no seguimento da actividade da PVDE (fundada em 1933) e deu origem em 1969 à DGS – três nomes para uma mesma sinistra tarefa: destruir a oposição organizada contra o Estado Novo. Este trabalho de 575 páginas desvenda o que foi a PIDE, a sua estrutura e os seus métodos: vigilância, captura, interrogatório, investigação e instrução de processos. Vejamos em breve nota o que no livro consta sobre o Padre Felicidade Alves: «Em 1965 a PIDE informou Salazar de que, na sua homilia proferida na Igreja dos Jerónimos, em 17 de Janeiro, o reverendo José Felicidade Alves defendera a teoria evolucionista, terminando com uma crítica às relações entre o Estado e a Igreja em Portugal. Disse ainda a PIDE que tinha sido feita a gravação integral desta homilia, prometendo que continuaria a gravar as missas desse sacerdote. Diferentemente do caso do bispo do Porto, em que Salazar se envolveu directamente mas em que o papel ambíguo de Cerejeira foi sobretudo de silêncio, o caso do padre Felicidade Alves teve a intervenção deste último, que acabou por emitir sobre ele o decreto de remoção e de suspensão a divinis das funções sacerdotais. No entanto o padre Felicidade Alves contou mais tarde que apenas começou a ser alvo da repressão da PIDE/DGS durante o governo de Marcelo Caetano.»

(Editora: Círculo de Leitores/Temas e Debates, Capa: Rochinha Diogo)

Vinte Linhas 286

Amália Rodrigues – saiu a 1ª das fotobiografias do século XX

Para quem esteve no serviço militar no fim dos anos 60, Amália Rodrigues (1920-1999) ficou nesse tempo conhecida por dois factos: o disco «Natal 1970» do Movimento Nacional Feminino no qual aparece ao lado dos Parodiantes de Lisboa (Patilhas e Ventoinha) e de Cecília Supico Pinto a dizer que «gostava de descascar batatas» para os nossos soldados em África e os célebres versos que mandou com um ramo de flores a Salazar quando este caiu da cadeira em 1968 – «Ponha-se-me bom depressa / Meu querido presidente / Depressa, que essa cabeça / Não merece estar doente».

Mas existe um outro lado da questão: segundo um informador da PVDE, Amália em 1939 fazia parte de uma denominada Organização Comunista do Fado na qual «a cantadeira Amália Rodrigues que fala inglês francês e espanhol, é quem, no Retiro da Severa, fala aos estrangeiros». Segundo esse relatório «Amália e o embarcadiço poliglota Alfredo Simões» desempenhariam um papel importante «pela sua cultura de línguas» …

Além do texto que revisita e situa historicamente várias biografias anteriores, algumas fotografias raras e mesmo inéditas (entre as quais uma de Amália com quinze anos na Marcha de Alcântara ao lado de sua irmã Celeste no ano de 1935) dão a este livro um novo motivo de grande interesse quando parecia que tudo afinal já estava dito e escrito sobre o tema Amália Rodrigues.

(Edição: Círculo de Leitores, Texto: Cristina Faria, Pesquisa: Margarida Belém, Genealogia: Lourenço Matos, Design: Rochinha Diogo, Direcção: Joaquim Vieira)

Larguem o vinho

Quem utilizar o Multibanco, nem que seja para verificar o dinheiro que não tem, depara-se com esta frase publicitária:

É uma casa portuguesa, concerteza.

O espírito do Acordo Ortográfico é o de aproximar a escrita da oralidade, livrando a Língua dos inestéticos e trabalhosos sinais da sua história, mesmo que para isso arrisque dar cabo da semântica e da sintaxe. Nesse sentido, o neologismo concerteza deveria ser aceite. Ele é usado por um número crescente de personalidades, algumas delas insignes figuras públicas. O mesmo fenómeno ocorre com o também publicitariamente famoso benvindo, o qual pede aprovação institucional. E por aí fora, dando-se carta de alforria ao povo que não está para canseiras. Aliás, que se espera para começar a grafar outras variantes, como as tão úteis sencerteza, concertezapoucochinha, tácertoentão, acertaláissoópá, maisdoiseuroseficacerto, eugostomaisédopreçocertoporqueogordodofernandomendesédemijararir?

Nota: a campanha do Multibanco promove a Adega Cooperativa de Pegões.

Afinal, o Galamba é que tem razão

Tudo começou com estas três frases:

Desaconselhando a utilização do preservativo o Papa é cúmplice da disseminação da SIDA.
Desaconselhando a utilização do preservativo, o Papa é tamém responsável pelo aumento do recurso ao aborto.
Mas como também é contra o aborto, quando desanconselha a utilização do preservativo, o Papa contribui para o aumento dos agreagados familiares das pessoas mais pobres, sobretudo em países onde a explosão demográfica é um dos factores que mais contribui para a fome e para a miséria.

Se o Daniel Oliveira não as tivesse escrito, aposto que ninguém se lembraria de comentar o Congresso Internacional Humanae Vitae: Actualidade e Profecia de uma Encíclica, acontecimento absolutamente ao arrepio das preocupações correntes. Sem surpresa, repetiram-se depois em cascata as mesmas acusações infames. São ideias partilhadas por muitos; com e sem instrução, com e sem fé, com e sem ideologia, com e sem ressentimento. E são ideias que exigem responsabilização. Porque se o Papa e a Igreja estão a ser cúmplices da disseminação da SIDA, ele e os que representam a Igreja têm de ser presos, denunciados ou, seja lá como for, impedidos de continuar nesse crime. Isto é óbvio; e, por maioria de razão, ainda o será mais para os que fazem a acusação. Mas óbvio será também que, entre as palavras de acusação e o Papa, há muita gente pelo caminho. Cúmplices da disseminação da SIDA serão todos os católicos, tem de se concluir se concluirmos pela legitimidade da acusação.

A minha prima que dá catequese, canta nos casamentos, organiza quermesses e vai para retiros, é cúmplice da disseminação da SIDA. Frei Bento Domingos é ainda mais cúmplice do que a minha prima, porque tem maior responsabilidade, até escreve num jornal e aparece na TV. Os católicos que estão em todo o Mundo a cuidar, tratar e educar os doentes de SIDA, e respectivas famílias e populações locais, são ainda mais cúmplices do que o Frei Bento, porque esses lidam directamente com as vítimas. É exactamente isto que está a ser dito, e isto é demasiado grave para passar em silêncio, como se fosse um disparate sem importância. Por ironia blogosférica, o João Galamba, um dos que alinhou no arrastão da inteligência, fez uma reflexão que antecipa a minha explicação para o fenómeno da imbecilidade ser frequente quando se discute a religião católica. Ele elabora sobre uma maleita relativa à ciência económica, mas a mesma terapia é extensível ao debate público na sua universalidade se o quisermos fonte de cidadania.

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Ver a distância

Chama-se Sensitive Skin e é uma criação de Hugo Blick, que assume a sua escrita e realização. Em Portugal tem o nome À flor da pele, e passa na RTP 2 em horários calculados para obter o menor número de espectadores que for possível. Não há qualquer dúvida quanto à intenção do programador, como poderás comprovar se tentares ver um dos episódios. O melhor é comprar a caixa dos DVD, ou, ainda mais barato, pedi-la emprestada a um amigo e não a devolver.

Há alguma coisa que misturam na água canalizada da Grã-Bretanha que leva ao aparecimento de génios televisivos para a comédia. Eles já nos ofereceram os Monty Python, The Singing Detective e The Office, para só referir três casos à prova de dissidência opinativa. E depois de os ver, ficamos a babar com a surpresa de o pequeno ecrã ser maior do que o tédio, o desespero e o cinismo, juntos. E depois ficamos orgulhosos por sermos europeus. E depois ficamos a sonhar com a possibilidade de imitar estes cabrões destes britânicos que fazem televisão genial. E depois desistimos, altura em ficamos à espera que os cabrões reinventem outra vez a comédia. Informação útil: voltaram a fazê-lo em 2005.

Em Portugal estão a passar os primeiros episódios. Mostram o quotidiano de um casal de cinquentenários ou sexagenários, ou alguma coisa pelo meio. Têm um filho trintão e neurótico, são cultos, endinheirados e trabalham em funções intelectualmente sofisticadas e narcísicas. Serão felizes? Claro que não, a felicidade nem sequer é narrável. Mas também não são infelizes, e este é o golpe de génio. O caminho do meio, que é o de todos nós se tivermos sorte, é o da natureza humana. Estas personagens de 60 anos estão mais humanas do que nunca. Elas sabem que a felicidade é apenas uma miragem no deserto do desejo, têm a obrigação de o saber pela sua experiência de vida, conforto material e decadência física. E igualmente sabem que a infelicidade é somente o pesadelo dos que passam pela vida a dormir. Neste último ponto, as nossas personagens têm de agradecer ao brilhante Hugo Blick.

A comédia é o género mais difícil, e um dos mais violentos; tanto para os autores, como para o público. A comédia vulgar, que é quase toda, explora mecanismos de agressão, tenha esta como alvo terceiros ou o próprio comediante. Em Sensitive Skin, o efeito cómico obtém-se através da exclusão de todos os efeitos de comicidade, ficando a realidade no seu esplendor. É que a realidade não é má, não é triste, não é cínica. A realidade apenas é. Por isso, o primeiro impacto no espectador será o da estranheza, andando ali um bocado à nora à procura dos sinais de trânsito que o orientem para o género em causa. Devagarinho, então, o trabalho do texto e dos actores começa a puxar-nos e não nos deixa partir. Algo se passa com aquela gente que é profundamente nosso. A realização aproveita a surpresa e prega-nos partidas terríveis, enternece-nos, comove. Os espaços e os silêncios, os rostos e as palavras, não estão a representar, estão a apresentar-se. Num repente, somos projectados pela superfície onde nos estávamos a afundar, trampolim interior. E ficamos a pairar no ar, banzos, por uns instantes livres da força da gravidade. Claro, livres da gravidade, a vida só dá vontade de rir e de abraçar.