Entre homem e mulher, mete garfo, faca e colher

Portugal, país de cobardes, não se enoja com a violência doméstica, talvez até esteja a tomar-lhe um renovado gosto: em 2007, os casos declarados subiram mais de 6% – do total dos casos, a maior incidência estando nas zonas urbanas, Lisboa à frente. Um aspecto crucial do fenómeno é o de ser transversal à sociedade, mesmo que haja factores de risco a remeter para diferenças de educação, valores e condição social. A transversalidade institui a violência doméstica como característica de identificação de género, gerando cumplicidades psicossociais que oprimem ainda mais as vítimas. A cultura de promoção da pornografia e da sexualidade irresponsável também reforça o potencial disfuncional das carências e deformações afectivas na origem dos comportamentos violentos, possível explicação para o crescimento a par da violência doméstica com os casos de assédio sexual no local de trabalho. Temos assistido, igualmente, à legitimação da prostituição como recurso legítimo e amoral, até complementar de relações estáveis e igualmente satisfatórias no acesso à actividade sexual. A prostituição como moda teve o seu momento de glória com os rumores, ou denúncias, relativos a Cristiano Ronaldo e suas animadas festas em hotéis ingleses; um rapazinho que, diríamos, não teria qualquer dificuldade em arranjar uma namoradinha descomplexada e descomplicada. O circuito da prostituição é ancestral, mas agora tem a sua promoção na cultura popular, gerando padrões de comportamento nos homens que validam a sua impulsividade e procura da gratificação instantânea a uma escala nunca antes vista. Por sua vez, este reforço do instinto animal e da psicologia primária é contrário às exigências cognitivas, afectivas, intelectuais e volitivas que se requerem numa relação monogâmica e civilizacional. Finalmente, a tentação de reduzir as mulheres à sua dimensão de fêmeas – anulando-as como cidadãs e pessoas, os únicos planos onde a igualdade é plenamente realizada – leva a que os seus óvulos sejam tratados como subproduto, até empecilho, da sua função como instrumentos sexuais e força de trabalho escravo ou explorado. Os defensores do aborto livre, e todos os que persistem em considerar que a educação sexual se resume à distribuição de preservativos e pílulas a crianças a partir dos 14 anos, são os algozes desta desumanização.

Precisamos de inteligência, precisamos do que se está a praticar na instituição House of Ruth, a qual desenvolveu o Gateway Project. Constata-se que os casos de violência doméstica implicam as duas partes, havendo ciclos de violência mútua em que as mulheres agridem os parceiros. As agressões podem ser físicas, mas a maior parte das vezes são verbais e emocionais, suscitando episódios sucessivos e escalados de mútua violência. O novo enfoque está em reconhecer que os violentadores também são violentados, e, a partir desta realidade bem mais interdependente, disponibilizar programas capazes tanto de tratar os agressores, como de ver os agredidos como vítimas também responsáveis pela situação que vivem.

Não precisamos de mais preconceitos e ideologia, de mais aproveitamentos da miséria para repetir alucinações políticas de que se desconhece a origem ou consequências. Precisamos é de mais ciência e de alguma, mínima que seja, coragem. Quando o amor é louco, não devemos continuar a fazer tão pouco.

19 thoughts on “Entre homem e mulher, mete garfo, faca e colher”

  1. Conheces mesmo alguém que defenda que “a educação sexual se resume à distribuição de preservativos e pílulas a crianças a partir dos 14 anos”? Eu nunca ouvi tal coisa, senão a ti.

    Na linha 7, quando estavas a falar de violência doméstica, descarrilas e desatas a falar de um suposto fenómeno recente de “promoção da pornografia”, como se, de facto, não tivesses mudado de assunto. Não basta introduzir um tema a meio de outro para provares a relação causa a efeito entre os dois.

    Depois aceleras e guinas fora da mão para a prostituição, também alegadamente promovida na “cultura popular” de hoje.

    Para completar o circuito alucinante do teu discurso de televangelista, e antes de voltares ao tema inicial, dás três saltos mortais para o “aborto livre”, para o preservativo e para a pílula, que se está mesmo a ver que têm tudo a ver com o problema da violência doméstica.

    Sobre a violência doméstica, tinhas começado por sugerir que há um “gosto renovado” por ela. Para sustentares opinião tão arriscada, mandas para o ar com uma estatística que mostra uma subida… dos casos declarados. Não te passa pela cabeça que essa tal subida de 6% possa revelar não uma maior incidência real do problema, mas sim 1) uma maior atenção da sociedade ao fenómeno (precisamente porque é mais falado, analisado e condenado) e 2) uma maior coragem da sua denúncia por quem a sofre e por quem a testemunha (precisamente pela mesma razão)?

    De facto, Val, “não precisamos de mais preconceitos e ideologia”. Precisamos de mais conhecimento, mais estudo e mais verdade. Mas o teu post não está a mostrar o bom caminho…

  2. Nik, vamos lá:

    – Nunca ouviste tal coisa porque não te interessas pelas ideias dos partidos portugueses. Que todas as tuas carências sejam só essas, desejo.

    – O que para ti pode ser um descarrilamento, pode ser para outros uma curva. Cuidado com as ilusões de óptica.

    – Não se alega que a prostituição seja promovida, constata-se.

    – Achas que a temática da sexualidade e concepção não tem nada a ver com a violência doméstica. Ok.

    – A possibilidade de se explicar o aumento por factores relativos a uma maior facilidade na denúncia dos casos parece-te mais relevante do que o total de casos denunciados, o seu factual aumento e a realidade dos casos não denunciados. Ok.

    – O meu post não está a mostrar o bom caminho?… Nesse caso, qual será o bom caminho? Vou ficar aqui à espera que o indiques, aposto que o sabes de ginjeira.
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    joão viegas, larga o vinho.
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    shark, achas careta falar da violência doméstica? Explica isso melhorzinho, vá.

  3. Valupi, Valupi, Valupi

    “Constata-se que os casos de violência doméstica implicam as duas partes, havendo ciclos de violência mútua em que as mulheres agridem os parceiros.”

    Constata-se quem? De que forma? Como? Quando? Estavam lá para ver? Sentir?
    E será que a realidade americana assemelha-se à portuguesa?

    Valupi confesso que perdi-me neste post. Qual é o objectivo? Se é falar de violência doméstica, então falemos com honestidade. Talvez esteja-se a ganhar o gosto ao dedo, apesar de eu estar mais inclinada para a hipotese do Nik: neste momento as mulheres já se aperceberam que não é justo, digno, correcto, aceite um homem bater numa mulher. Logo é normal que o número de denúncias tenha aumentado. Além disso não te podes esquecer que só nos ultimos anos é que a violência doméstica passou a ser crime público logo só agora é que os portugueses se apercebem que têm o dever e a obrigação de denunciar crimes destes.

    Dizes tu que devemos confiar numa treta de um projecto mal amanhado. Achas mesmo que os violentadores também são violentados? E que esse deve ser o focus da discussão?

    Pois, eu vou dizer-te a minha opinião como mulher. Qualquer ser humano merece respeito e não merece ser violentado muito menos pela pessoa com quem partilha uma vida. E se existe um ser que agride outro de forma verbal ou emocional ( partindo do principio que essa treta é verdade), esse outro não pode ser irracional para responder da mesma forma. E muito menos pode ser uma besta para responder com uma agressão fisica. É desproporcionado. É como eu agora mandar-te dar uma curva e tu, um dia, fazeres-me uma espera e dares-me uma tareia

    Tirando este teu pequeno devaneio que eu vou reunir esforços para esquecer, gosto de ti Valupi.

  4. O projecto de apoio ao agressor ( só mesmo tu para me fazeres escrever “apoio” e “agressor” na mesma frase).

    Os joguinhos de bola são muito bonitos mas nem um Newton estupido aplicaria a sua lei aqui. Nenhuma acção justifica uma reação violenta e agressiva. NENHUMA.

    Não acredito na reinserção do agressor porque este para o ser tem que ter doses de irracionalidade e bestialidade que lhe são intrínsecas. Não se resolve com 22 semanas de circo.

  5. Estás a pensar com as emoções, a moralizar. O que se passa, e toda a investigação o confirma, é que o agressor foi uma vítima no seu ambiente familiar de crescimento. Ora, entender que na relação de um casal disfuncional há violência de parte a parte (mesmo que diferente em consequências, não importa agora entrar em detalhes), não vem prejudicar alguma das partes, vem é ajudar a resolver o problema. Porque muitas vezes não chega separar o agressor da sua vítima, pois ele pode voltar. Interessa é ajudá-lo a deixar de ser agressor. Quanto à vítima, reconhecer que também agride (atenção: nos casos em que agrida) pode ser crucial para a salvar do ciclo da violência, e conseguir defender-se melhor.

  6. A propósito de aborto e o camandro, esta confissão de uma mãe católica que me mandaram pelo correio (a confissão):

    «Quantos filhos teve? – pergunta o médico.

    – Para a retrete foram quatro, senhor doutor, e à pia baptismal levei três.»

  7. Não tem a ver com o tema, não me trates como se eu fosse um alcoólico anónimo (daqueles que não largam o vinho, bem entendido…). :)
    Tem a ver com o tom diácono remédios. Lê lá a prosa e põe-te na pele de um jovem prafrentex como eu e logo vês que pegas no assunto certo com o tom errado. E acho que misturas alhos com bugalhos no meio da confusão.
    Andas fresco, andas…

  8. Valupi
    O excesso de emoção que eu tenho para abordar este assunto é compensado pelo teu excesso de racionalidade. E inevitavelmente nunca chegaremos consenso.
    A uma família onde existe um agressor e uma vítima tu chamas família disfuncional. Eu chamo pseudo família onde um disfuncional agride alguém fisicamente mais fraco.
    E como disfuncional ele tem que se tratar, claramente. Mas o seu tratamento não passa pela vítima assumir que também o agrediu quando isso pode não ter acontecido.

  9. shark, vou fazer uma confissão: já li a prosa. Tive até a sorte (ou o azar) de a ter lido antes de a ter escrito. É por isso que te peço ajuda, pois não sei a que tom te referes. “Tom”? Jobim? Mas, prontos, se queres fazer caixinha, leva lá a bola.
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    Durga, estamos todos do teu lado: os agressores têm de ser impedidos de agredir. E, em certos casos, impedidos seja lá como for, pois serão situações de autodefesa onde a própria vida estará em causa. Mas tu não resolves nenhum problema relacional, se psicótico o for, sem a racionalidade. Não te iludas, há muito para conhecer sobre o comportamento humano, e aceder a essas fontes de informação e aos especialistas que nelas trabalham é decisivo.

    Quanto aos casos em que a vítima não agrediu, então não agrediu – ninguém iria alterar a realidade e tratar do que não existe. Mas o que se constata é que em muitos casos de violência doméstica há agressões de parte a parte. É só isto, mas enquadrar este aspecto é de importância fulcral; a começar pela parte fraca, a qual está sem capacidade de libertação do ciclo da violência.

  10. Posso confirmar pelo meu testemunho um ponto específico do Val. Fui agredido diversas vezes por uma mulher para a qual nunca levantei a mão. Coisa que os homens geralmente não confessam, por horror a que se saiba, e que as feministas esquecem convenientemente. Bofetadas e murros não são argumentos exclusivamente masculinos. Tiros também não, como ainda há dias se soube pelo caso de uma fulana da GNR que matou o marido. O problema, porém, é que as mulheres que se exaltam e agridem os homens normalmente são mais fracas fisicamente do que eles e não tem pistola à mão. Portanto, não estão geralmente em condições de exercerem sobre eles um domínio permanente pela coacção física e pelo terror.

  11. Nik, é óbvio que há mulheres agressoras. E também convém lembrar que a violência doméstica não se limita às agressões entre o casal, mas abarca a violência sobre crianças e idosos. Essa ideia de que a mulher é uma santa, é a outra metade do preconceito. As mulheres são seres humanos, capazes de tudo. Dito isto, estatisticamente sabe-se que a enorme maioria dos agressores são homens – e sabe-se porquê.

    A abordagem que para aqui trouxe é que faz caminho, pois dá conta da complexidade do real.

  12. Valupi

    Certo. Mas nunca concordaremos que em MUITOS casos de violência doméstica há agressões de parte a parte.

    Uma coisa eu concordo contigo. O caso é complexo, sim.

  13. Uma abordagem que diz que os defensores do aborto livre são responsaveis pelo aumento da violência doméstica da conta da complexidade do real ?

    Ou não temos a mesma definição de “real”, ou não temos a mesma definição de “complexidade”.

    Mas deve ser do vinho…

  14. Durga, não faço ideia do número, ou percentagem, que está dentro dos “muitos”, mas não será fenómeno raro, isso podemos antecipar.
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    joão viegas, não achas que o aborto livre esteja relacionado com a violência doméstica? Ok. Talvez nem aches que o aborto seja um caso de violência, então, o que reduzirá drasticamente a complexidade da tua realidade.

  15. Acho o que disse, que esta escrito ai acima para qualquer um ler. E acho-o ainda mais quando leio o teu comentario.

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