a próxima a levar é a clix

Há coisas que me irritam. Coisas que irritam a ponto de apetecer descarregar. Quando fico assim apetece dar pontapés em objectos pela rua fora. Antigamente havia sempre umas pedras da calçada soltas ou uma garrafa, ou uma lata, até uma carica para pontapear nos passeios. Mas agora só cagalhotos de cão escapam ao zelo varredor das funcionárias que cumprimento todas as tardes aqui na rua, trabalho ingrato. Isso também irrita, que se vão os detritos pontapeáveis e fiquem os dejectos que não dá jeito nenhum tocar com a biqueira, mas ainda encontra alguma compreensão e louvor.
O que verdadeiramente me irrita é a TMN e as trocas de pontos. Nas operadoras francesas pode-se trocar os pontos todos pelo telefone xpto que se quiser e o número dos ditos comportar, e assim é que devia ser. A transacção reduz-se ao valor simbólico de um mísero eurito e assim é que deveria ser sempre. Gostava de me sentir compensada pelo esquema. Ou bem que têm uma legítima vontade de beneficiar o cliente que exagera nas chamadas e nas mensagens escritas e ainda abusa do gprs, ou andam na palhaçada. A fidelização é um logro e a minha queda de cão fiel inevitável.

Dá ideia que não se passa nada em Marte

Tenho a explicação definitiva para a falta de animação na paisagem marciana, onde não se vê ninguém, nem sequer uma carroça lá muito ao fundo ou um cão vadio a mijar nos aparelhos da nave. É esta: faz tempo que os marcianos emigraram para a Terra. Mas ainda podem ser reconhecidos pelo uso de cartolas coloridas em desafios de futebol, senhores, e calças de ganga cortada pela meia-canela, ou pouco abaixo do joelho, com botas de salto a dar pelo tornozelo, senhoras.

Segunda balada para Luciana

Se aqui entra zangado
Com notícias de jornais
Já sabe que deste lado
O café tem algo mais

Uma força, um perfume
Trazido das plantações
Um calor feito de lume
Com lenha de emoções

Porque o café é diferente
Das bebidas do mercado
Mata o frio com o quente
E o corpo fica encantado

Só me apetece cantar
E entrar no pé de dança
Com a idade a recuar
Quase chego a criança
Continuar a lerSegunda balada para Luciana

A circularidade do quadrado

Na última edição da Quadratura do Círculo o grande tema foi a crise dos transportadores. Foi uma edição onde se riu muito, um riso de alívio. Lobo Xavier, figura que devia ser substituída por nada acrescentar que valha a pena conhecer, e Pacheco Pereira, reduzido à má-fé da superficialidade e enviesamento, foram de uma previsibilidade bovina: só falaram da suposta falta de autoridade do Estado. António Costa não precisou de suar a camisola e ficou no registo pachola. Carlos Andrade estava com uma curiosidade infantil, deslumbrado com a solução pacifista e querendo saber se ela se iria repetir nos próximos conflitos. Nenhum se lembrou de citar Tucídides.

Colhe juntar-se a edição de As Escolhas de Marcelo deste domingo. Marcelo foi pelo mesmo caminho: atacou Sócrates fenomenologicamente, falando de efeitos e não de causas. E pior, imitou o bufão Portas na expressão do desejo de futuras, e ainda mais graves, perturbações da ordem. À sua frente, Maria Flor Pedroso deu uma lição magistral de controlo e domínio do subtexto a partir da escolha das perguntas e, acima de tudo, dos enfáticos silêncios. De tal maneira que Marcelo se foi abaixo em segundos, acabando com a voz esganiçada, agastado.

Pacheco e Marcelo são duas putas velhas que vivem da política como espectáculo, pejadinhos dos vícios que consistem em tentar que nada se altere de fundamental na política portuguesa. Ficaram banzos com a gestão e desenlace da crise dos transportadores. Nunca tal tinham visto cá na terrinha, sabendo perfeitamente que eles próprios não saberiam lidar com a situação — e não amam Portugal o suficiente para reconhecerem que o Governo assumiu profissionalmente uma situação que era nova e imprevisível. Os que nada perceberam e gritaram por cargas policiais, os que anseiam por novas perturbações sociais descontroladas para tirar dividendos do caos, e até aqueles que ficaram e estão calados como se a política não lhes dissesse respeito, são iguais a este par de jarras. Uns trastes que já esgotaram o prazo de validade, e que só pretendem continuar a circular sem terem de pensar fora do quadrado.

Enorme peta

Está em Marte uma nave a esburacar solo à procura de bichinhos, ou cheiro deles. Entretanto, uma das áreas onde se vai mais longe no conhecimento é a dos supercomputadores. As capacidades de cálculo já alcançadas são decisivas para a sobrevivência da Humanidade, seja no plano científico ou militar. A última novidade vem da IBM, o Roadrunner, o primeiro supercomputador a atingir os mil biliões de operações por segundo: se cada uma das 6 mil milhões de pessoas na Terra pegasse numa calculadora e trabalhasse em conjunto num cálculo 24 horas por dia, 365 dias por ano, demoraria 46 anos para conseguir fazer o que o Roadrunner faz num dia. Segundo a IBM, o Roadrunner é o primeiro supercomputador híbrido do mundo, incluindo 12.960 processadores que são versões modificadas do Cell que equipa a PlayStation 3, que trabalharão em conjunto com 6.948 processadores AMD Opteron. O poder de processamento do IBM Roadrunner é equivalente ao de 100.000 computadores portáteis e é mais de duas vezes superior ao do antigo detentor do título de computador mais rápido do mundo, o IBM BLueGene/L, afirma a empresa.

Parece pouco? Mais fruta: o Roadrunner precisaria de apenas uma semana para executar cálculos que o supercomputador mais rápido do mundo, há 10 anos, levaria 20 anos para completar. Quebrar a barreira do petaflop é o maior desafio da supercomputação desde que a barreira do teraflop foi quebrada, há 11 anos. O próximo objetivo da IBM, após esta conquista, é criar um sistema na escala ‘exa’. O supercomputador será usado no Los Alamos National Laboratory para trabalhar com problemas de segurança nacional, testar materiais nucleares e sistemas de armas nucleares, além de prever mudanças climáticas a longo prazo e estudar o universo. A máquina ainda tentará descobrir a cura para o HIV, segundo o líder da divisão de computação de alta performance do Los Alamos, John Morrison.

Continuar a lerEnorme peta

Scolari, vai-te embora – III

Dentro dos prejuízos já causados pelo anúncio da saída do seleccionador nacional a meio do Europeu — como sejam as sucessivas e contraditórias informações sobre o processo, os conflitos entre futebolistas e jornalistas, os boatos que cruzam negócios de transferências com o comportamento de responsáveis federativos, a geral perplexidade e desconsolo dos adeptos portugueses e até as declarações escocesas de Eusébio em que se vira ao pontapé contra os avançados pátrios —, o pior é a repetição do anglicismo timing. Parece que jornalistas e comentadores perderam o tempo de aproveitar a oportunidade de estar à altura da ocasião nesse momento.

A mais elevada densidade de imbecis por caixa de comentários em toda a Internet

Há sucessivas vagas de novos utilizadores da Internet. E alguma força estranha, negra, informe — que, para certos teóricos no campo da Física das realmente pequeninas e ridículas partículas, já tem nome: josémanuelfernandização — está a reuni-los nas caixas de comentários do Público. É um cabaz de gente constituído por putos de 11 anos na desbunda, empregados de segurança com demasiado tempo livre e mais 5 horas de cu sentado até terminar o turno, donas de casa prolixas que usam secretamente os computadores dos filhos enquanto eles estão na escola, padeiros com insónia, e as cotas do Benfica pagas, em ressaca das caixas de comentários do Record, reformados furibundos que votaram no Manuel Alegre e estão prontos para pegar em armas se ele quiser atacar o Largo do Rato, e ainda entusiásticos militantes do PNR infiltrados no PCP, onde vão ascendendo a cargos directivos com notável facilidade. As opiniões que estas entidades produzem invadem toda e qualquer notícia e dão razão aos que defendem a tese dos universos paralelos. Entra neles por tua conta e risco:

comentario-publico-4.jpg

Toca na imagem para conheceres o que os teus compatriotas têm a dizer do investimento tecnológico nas escolas e da importância dos computadores — referente a esta notícia.

publico-comentarios-4.jpg

Toca na imagem para veres como um compatriota teu consegue relacionar um aviso relativo aos ultravioletas com o Governo, a ASAE e o TGV — referente a esta notícia.

comentario-publico-2.jpg

Toca na imagem para descobrires uma compatriota revoltada com a disponibilização da obra pessoana na Internet — referente a esta notícia.

Terceira balada para Luciana

Luciana quase menina
Tem o jeito de mulher
Lavando na sua rotina
Chávena, pires, colher

Envolvida numa espuma
As mãos na água quente
Não pensa coisa nenhuma
É trabalho transparente

Fica um balcão brilhante
Com brilho do seu asseio
O seu olhar tão distante
Lembra lugar donde veio

Nem repara que na mesa
Se veio sentar Cesário
Chegou aqui de surpresa
Ficou sentado ao contrário
Continuar a lerTerceira balada para Luciana

Queres ganhar 100 euros? Então participa no fantástico concurso “José Gil Hoje – A coragem de interpretar”

Estou disposto a dar 100 euros do meu bolsinho à melhor interpretação da seguinte frase de José Gil, hoje destacada na edição digital do Público:

Trava-se actualmente uma luta entre a democracia e o estilhaçamento do território mental das subjectividades identitárias.

José Gil, Visão, 12-06-2008

Não faço ideia se cometo uma ilegalidade, oferecendo dinheiro a estranhos (ou a conhecidos, talvez a familiares) através da blogosfera, mas até isso será ganho de informação se for o caso. Quanto à frase, esclareço que não a considero absurda, abstrusa ou absíntica — pelo contrário, e daí a curiosidade pela tua interpretação. Quanto ao prémio, 100 euros, maravilhoso, não é? O que é que tu não farias por 100 euros, tu aí na classe média e sem dinheiro para ires de carro para o emprego perdendo horas nas bichas e gastando combustível desalmadamente só para não teres de te misturar com o povo? Tu que estás sem dinheiro para comprar roupa a mais, comida a mais, estupidez consumista a mais, o que é que não farias por 100 euritos dos meus? Até farias a hermenêutica de uma frase do José Gil, confessa lá…

Caso este concurso tenha aqui sucesso, será proposto a um dos canais televisivos. Está na hora de alguém começar a pagar para que Portugal se torne numa nação culta e intelectualizada, e eu não me importo de ser o primeiro.

Scolari, vai-te embora – II

Scolari anunciou que se vai embora no meio do exercício de funções de responsabilidade máxima: o comando da selecção num Europeu. Na prática, é um motim. Equivale a declarar que cessou o seu vínculo de responsabilização perante as autoridades que lhe têm pago o salário. A escolha da ocasião do anúncio revela perfídia, deixa ver um megalómano vingativo. E consegue, assim, atingir de soco e escarro o país que ainda representa.

A gestão da crise dos transportadores e o que ela revela da cultura política do PS

É óbvio que o Governo, e mais uma vez, está a gerir bem uma crise original. Também as crises na Saúde e no Ensino foram originais e bem resolvidas, e tudo isto começou com a crise do aeroporto na Ota e sua boa resolução. Neste caso dos bloqueios nas estradas, e das consequências materiais e psicossocias resultantes, aquilo que o oportunismo e irresponsabilidade chama de passividade é, como se está a ver, estudo. O Estado de direito, e sua autoridade, não desapareceu — pelo contrário, alargou-se e envolveu a ilegalidade; ou seja, cresceu de modo extraordinário e a prazo. Aceita-se que um grupo profissional aja como foras-da-lei porque se compreende que a lei é feita para o homem, não o homem para a lei. O homem que bloqueia está baralhado, e ainda pressionado por uma reacção social internacional que o compele à emulação. É um grupo que precisa de ajuda, justificando que se dê tempo para que ele descubra a solução possível numa situação de evolução imprevisível. Embora o tempo seja limitado e acabe a qualquer momento, seguindo-se a resolução do problema por via policial e judicial, foi quase comovente assistir a esta verdadeira, e raríssima, exibição de solidariedade por parte das mais altas autoridades institucionais.

É por estas e por outras que o PS se tornou no único partido onde se pensa a política. E se ter só um partido com essa capacidade é insuficiente e perigoso, não ter nenhum seria trágico.

Vinte Linhas 208

Fala do gasolineiro da Sobreira a caminho dos Montes da Senhora

Fecho devagar as portas do escritório da bomba de gasolina à beira da estrada de Castelo Branco. São 23 horas e tenho todo o tempo do Mundo para me fardar. As contas foram fáceis de fazer: não tem havido trovoadas e o sistema não tem ido abaixo. À medida que me afasto da Sobreira e me aproximo dos Montes começo a ouvir o som de um conjunto que recria êxitos da música pimba. Não vejo mas sei que há meia dúzia de pares arrastando os pés no largo em frente. Alguns pares são de duas mulheres. Os homens estão mais perto da cerveja e dos petiscos. O palco onde vou actuar fica entre o silêncio da igreja e o ruído sem limites deste camião que vomita luzes e sons de discoteca. A minha música é outra. Não preciso de ser antropólogo para saber que o exercício do folclore tem algo de insólito e, em termos práticos, é uma batalha perdida. Visto a farda, subo ao palco e, como num poema ou numa oração, junto de novo o que o tempo separou. Sou de novo um resineiro, um ceifeiro, um azeitoneiro cansado e com os dedos gretados pelo frio. A resina hoje é feita por processos químicos. Já não há resineiros. Também já não há ceifeiros. As máquinas fazem hoje esse trabalho que alucinava os homens num calor de forno. E não havia água fresca que matasse essa sede antiga. Amanhã, quando manhã cedo abrir o posto de gasolina da Sobreira, já sem a farda, voltarei a ser o gasolineiro. Mas no olhar acumulo o sorriso do meu par, a pureza da música da tocata e a luz das tarefas antigas (ceifar, colher resina, apanhar azeitona) quando a vida era mais lenta e a única velocidade era a dos animais. Por isso chamam cavalos à unidade de força dos motores dos automóveis que chegam aqui mortos de sede.

o grelo e a pedra

A bicicleta passava ainda era dia e noite. Encostava-a à parede e seguia a pé para o campo, atrás do carro de mão. Aparece-me ligado à memória do lugar, paisagens substituídas. Um rosto afogueado a emergir dos feijoeiros, galochas avistadas por entre as videiras, som de borracha sobre o saibro. Uma sombra de viúvo pairava no ar dele, largos anos antes de a mulher lhe sobreviver. A ela só conheci um nome: a mulher do Francisco, por quem perguntava sempre. Na resposta descrevia meteorologias somáticas, porque a senhora trazia todo o tempo uma dor acoitada no corpo, em geografias diferentes.
Encontrava-o e apresentava-me o pulso. Eu gostava de lhe apertar a mão cheia de calos, as unhas contornadas por uma linha preta fechada. Havia nelas o atrito da terra, colada pelo suor. Na banda filarmónica tocava triângulo. O orgulho levantava-lhe o queixo feliz ao fazer tinir os ferrinhos, já com as faces congestionadas dos copos de vinho branco.
Num dia em que lhe dei umas roupas de homem, um pouco usadas mas de boa medida, deu-me um saco de supermercado cheio de nabos e dois de batatas. Apanhava-os num bocado de terra que roubara às silvas, deitando-lhes fogo, e onde cresciam sem cuidados que não os da chuva e da compostagem de folha e mato cortado que para ali se arrastava.
As batatas eram daquelas que acodem ao nome de tubérculos. Grandes e com formas variadas de saliências múltiplas. Por dentro havia porções nodosas e escuras, tive que as retirar com a ponta da faca, e descascá-las era tarefa de minúcia. Grelaram em pouco tempo. Os nabos não respeitavam o cânone do bolbo invertido e há muito que não tinham rama de nabiça, quanto mais grelo.
A lógica da batata é a de crescer para fora. Nós, grelamos por dentro. O Francisco trazia no bolso uma das pedras que expelira dos rins. Descrevia a agonia com caretas, a saltar de um pé ao outro como se estivesse aflitinho para deitar outra fora. A pedra era então retirada do bolso das calças e mostrada sobre a palma aberta. Uma minúscula batata de compra fossilizada, irregular e porosa. Fazia menção de lhe pegarmos. Quando não lhe devolvi a mão que me estendia recolheu o braço e fechou devagar os dedos, com medo de magoá-la. Sorriu primeiro com uma metade da boca e depois com a outra, invertendo a comissura. Baixou as pálpebras e deu meio passo atrás, condoído de si por simpatia com a pedra. Companheira do sofrimento físico a que se submetera, e que tanto lhe dava a contar, a pedra era tanto causa como consequência. Não era símbolo nem medalha; era o sintoma da sua bravura.

Raçudos

raca-racas.jpg

Cavaco, apostado em se tornar num dos melhores piadistas nacionais, teve raro momento de profundidade e informou a Nação de ser o 10 de Junho uma celebração da raça. É muito importante ser o Presidente da República a assumir esta escandalosa verdade: os portugueses, apesar das evidências em contrário, também pertencem à raça humana.

__
Já agora, um dos meus lemas de vida é: Cavalo de raça relincha sempre. Mas não contes ao Fernando Rosas, não vá ele desatar a falar do Pepe.

ao lado da ementa da semana, colado no portão da escola

afecto

Desde que comera o pai, após o seu suicídio, habituara-se a farejar os mortos em busca da proximidade mórbida. Não era gula que sentia, apenas a necessidade de preencher um espaço sombrio que se insinuava entre o ventre e o coração. Ora, como era frágil de estômago, vomitava quase de imediato. E embora não tivesse público, sentia-se sempre envergonhada. O velório do marido foi, assim, uma vitória pessoal. Perante uma assistência relativamente vasta, comeu primeiro o nariz, depois uma orelha, e por fim, na euforia da recém descoberta capacidade de retenção, atacou com volúpia a coxa direita do homem. O sucesso foi notório. Todos vomitaram, excepto ela.

eu sei que tu sabes quem sou

Manela de Ferro – 1 X Imbecis – 0

manuela-ferreira-leite-santana-lopes.jpg

O modo como Manuela Ferreira Leite lidou com a pesporrência, ressabiamento e irresponsabilidade de Santana, no caso da marcação de eleições para a direcção parlamentar, é notável. Sem qualquer alarido, en passant, tomou conta da situação e limpou o rabo aos chavalos, obrigou-os a comer a sopa e ir para a cama logo a seguir ao telejornal. Ao mesmo tempo, mandou a moção de censura do CDS para o esgoto donde não devia ter saído. Se o que aconteceu for critério, temos homem; isto é, perdão, temos mulher.

Colhe também lembrar Maria de Lurdes Rodrigues e a sua esmagadora vitória sobre os sindicatos da educação e demais grupelhos de imbecis que lhe ladravam. Na hora do triunfo, deixou os derrotados fazer a festa. Brilhante.

Como fica inteligente a política quando feita por mulheres que conhecem os homens.

Do que tu precisas é de um problema maior

Um dos principais, e primeiros, objectivos da psicoterapia é levar o paciente a relativizar o seu problema ou rede de problemas. Só dessa forma começa a transformação cognitiva que levará a encontrar soluções e a mudar comportamentos. Mostra-se que o problema, seja ele qual for, não é o pior que se pode ter, nem é tão mau como é sentido e imaginado. Ou que, ao invés, tem uma gravidade e consequências que o paciente desconhece. A intenção terapêutica é a de alcançar maior objectividade e menor distorção neurótica. Ora, por mais difíceis e dolorosos que nos pareçam os problemas pessoais, ou os sociais e políticos, nenhum se aproxima da magnitude deste: terá o Universo um sentido?

A melhor resposta, com o truque de ter um título contraditório com a mensagem, é a de Christian de Duve. Tão boa que fui à procura do corpo donde vinham as palavras, e encontrei esta deliciosa entrevista. Ao tempo, 2005, o senhor exibe 88 aninhos cheios de saber e sabedoria. Porque à sua actividade de cientista, no campo da biologia e da química, se juntou uma original visão filosófica da existência e da realidade.

A entrevista é um hino à inteligência, à curiosidade, à longevidade e à alegria — ou seja, é uma fonte de saúde. E posto que não faz sentido viver sem problemas, pois somente os mortos é que não têm com que se preocupar, ao menos que se escolham os melhores problemas. Aqueles que só por serem vislumbrados já nos fazem crescer e partir.