Hilariante o que nos conta, e como nos conta, este americano a celebrar à portuguesa.
Arquivo mensal: Junho 2008
Scolari, vai-te embora

Quando Scolari anunciou publicamente estar destituído de honra, mentindo apesar das imagens e nunca assumindo a responsabilidade no caso da agressão a Dragutinovic, o mais grave não foi a conivência da Federação, patrocinadores e Governo. O mais grave é esta vitória sobre a Turquia. E as que se seguirem, eventualmente. Porque validam a lei da selva. A lição é a de que a comunidade prefere aqueles que ganham a qualquer preço, que estão acima da lei, que têm amigos poderosos. Tem vastas consequências políticas e culturais, atingindo transversalmente a sociedade e ficando a libertar o seu veneno corrosivo por tempo indeterminado.
No caso do afastamento do Porto das competições da UEFA, muitos foram os que exibiram a mesma lógica: estar o clube acusado de tentativa de corrupção era falho de consequências internas ou externas, até a própria perda de 6 pontos se tinha visto ser absurdamente inconsequente — mas ser excluído da Liga dos Campeões já aparecia como uma injustiça a merecer protesto e indignação. Neste caso, também Madaíl aparece com a única missão de agradar a Deus e ao Diabo. Não sendo um exclusivo português, vai fundo o enraizamento desta cobardia na nossa normalidade.
Sairia para a rua de bandeira na mão, aos pulos, se amanhã Scolari pedisse a demissão e abandonasse de imediato a equipa, sem esperar pelo fim do Europeu. Sei bem que mais facilmente a água dos rios correria para a nascente, mas identificar-me com um bando de cínicos é que não.
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Balada da Calçada do Combro
A Rua de todos os dias
Onde eu ia quatro vezes
E as noites mais sombrias
Demoravam como meses
Polícia à porta da Escola
A proteger as meninas
O amor era uma esmola
Pedida noutras esquinas
Poço dos Negros abaixo
Em cima era o Calhariz
Na memória que eu acho
Tudo é escuro e infeliz
Havia a guerra e o medo
Estava perto a inspecção
Um poema era segredo
Na Escola Veiga Beirão
Ao sábado até à uma
O trabalho continua
A bica de alta espuma
Espera por mim na rua
Manhã de segunda-feira
Vinte e oito na pendura
Uma vida verdadeira
Não se vive em ditadura
Continuar a lerBalada da Calçada do Combro
no sábado

Não se deixem enganar pelo Carlos. É de carols que se trata. Aquelas peças de canto coral que fazem crescer as crianças inglesas no amor à música enquanto lhes afinam a voz e a sensibilidade. Razões de cultura que permitem a revelação de fenómenos como este e que tão pouco alimento têm nas nossas imediações. Vale a dedicação de uns poucos e a atenção que lhes dermos se queremos um tanto para nós. Quando os nossos filhos vêem meninos como eles a fabricar tecido musical com instrumentos tão acessíveis como a voz, o futuro tem mais mundo. Para nós o garante de umas lágrimas comovidas; eu, pelo menos, choro sempre.
Organizem excursões familiares, convençam estranhos na rua, gritem aos quatro ventos. A Aula Magna tem de encher. O coro infantil merece-o e com a escassez crescente de apoio ao ensino da música, eis uma oportunidade de mostrarmos que estamos desse lado. Entretanto fica um perfume de outras interpretações do mesmo.
Vinte Linhas 266
Perfil de mulher entre pedra e água
Todos o sabemos: de noite os rios não existem, são apenas água, puramente água, nada mais que água, no trânsito veloz das suas pedras laterais e do seu leito.
O sorriso da mulher, registado numa pequena máquina electrónica, abre-se aos mais ínfimos locais do seu próprio tempo, sua memória e seu trajecto, nessa tarde de luz que devagar morria.
Foi o tempo de uma pausa num passeio pela Beira Litoral, um olhar, um instante, um tempo suspenso que a fotografia testemunha.
Foi o tempo de um sorriso entre o usufruto da força da água e do conforto da pedra.
Todos o sabemos: não há vida sem água nem lar sem pedra. Nascemos na água e crescemos no diário calor da pedra na lareira.
Este sorriso que uma pequena máquina electrónica regista, ultrapassa a circunstância do lugar e do momento.
Então já não estamos na Beira Litoral mas num lugar onde tudo começa de novo, onde cada ponto de fumo na serra do Açor ou da Lousã, inaugura uma gramática de fraternidade que desagua numa casa sempre com mesa posta e numa porta que, mesmo de noite, não se fecha.
Assim como a palavra pronunciada pela primeira vez, solene e grave, começa a reordenar a realidade, também a mulher que sorri recomeça, no momento preciso do seu olhar, a ordenar a luz da vida, a recusa da solidão e a certeza de ser, entre pedra e água, o vagaroso pressentimento da felicidade.
A tarde em que me apaixonei pela Maria Valupi
[toca na imagem se te queres apaixonar]
*
Como não guardei, posso escolher. Escolho Junho. Foi em Junho, então. E princípios dos anos 90, isso garanto. Universidade Católica, Lisboa, biblioteca ainda a cheirar a edifício novo, ainda sem o outro edifício novo ao lado, construído no que foi um gigantesco relvado. A biblioteca da Católica é o melhor local do mundo, descubro por comparação. Enquanto na Biblioteca Nacional, ou na Faculdade de Letras, os livros estão cativos em armazéns, protegidos por esterilizante burocracia que obriga ao preenchimento de requerimento para cada leitura, ali esperam por nós nas prateleiras. Passamos, paramos, agarramos, lemos de pé, nas mesas ou aceitamos o teimoso convite da gravidade e descemos à alcatifa. Lemos o que queremos, o que procuramos, o que nos vem parar aos olhos, o que salta para as mãos, o que encontramos na gana de conhecer e mesmo que não tenha relação alguma com estudos, cadeiras, exames. A vida no edifício da biblioteca é helénica, com bar em baixo, gabinetes em cima, corações juvenis em ebulição, o futuro quieto a ver-nos passar.
O acaso levou-me gentilmente à revista Colóquio/Letras, n.º 41, Janeiro de 1978, página 62. A leitura do último poema é um nascimento, epifania de uma mulher que me conhece sem poder saber da minha existência. Acordo para o sonho e estou nessa praia onde o amor passou por entre um piscar de olhos. Eu era aquela espera, e aquela desatenção, mas também aquele mar e o que nele passa uno com a espuma. Um brilho, uma onda, talvez um certo reflexo do céu, e que não volta mais, mas que esteve à minha frente.
Que Maria Valupi foi um enigma esquecido por todos, mesmo dos especialistas de literatura, era para mim uma graça que aumentava a magia do encontro. A Internet até 2006 quase nada tinha de obra ou biografia. Isso permitiu-me questionar alfarrabistas, e animais exóticos que crescem nesses meios, só para tropeçar em ignorâncias e histórias fantásticas que começavam invariavelmente por Não tenho a certeza, mas acho que ela era/foi/estava… Só ganhou notoriedade nestes últimos dois anos, culminando com a edição da Antologia Poética em 2007. E agora apeteceu contar esta história para celebrar a lançamento na Internet do arquivo da Colóquio/Letras, aberto a todos os utilizadores e sem necessidade de qualquer registo. É o acontecimento cultural do ano, digo eu que sou um apaixonado.
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Nota: já aqui no blogue foi assinalado o lançamento do arquivo, pelo José do Carmo Francisco.
na bica de água
Ontem, na feira do livro. Espero na fila da bica de água, distraída com os meus filhos e as suas reclamações. Não vejo quem está à frente. Ambos bebem e depois é a minha vez. O papel estava colado pela água, rasgado, um pouco desfeito, mas reconheci-lhe a escrita. A lápis, astucioso. Secou sobre a relva, enquanto comíamos churros.
Desejo
Vendo-o assim na beira do passeio, bengala hesitante, acorri.
Prontamente, ofereci-me para amparar o seu andar cego, fascinada pelo olho abjecto, cor de borracha rotring. Sem uma palavra, peguei na mão dele e poisei-a no decote. Senti-lhe as pernas a fraquejar. Não foi difícil conduzi-lo então ao beco, onde o abandonei, acto contínuo.
Ao longe, fiquei a admirá-lo, deitado no chão, a borracha rotring perplexa por entre os pontapés dos dois homens.
eu sei que tu sabes quem sou
Vinte Linhas 265
«Diário de Notícias» – será só incompetência?
No Diário de Notícias de hoje (1-6-2008) é publicada uma entrevista ao presidente do Sporting Clube de Portugal. Até aqui nada de especial. Especial é uma pequena «caixa» sobre o Dr. Borges Coutinho (presidente do Benfica) aqui relacionado com o presidente do Sporting por ter sido seu sogro. Não sabemos se por incompetência se por qualquer outra razão, a verdade é que o jornalista escreveu o seguinte: «Borges Coutinho conquistou seis títulos de campeão consecutivos de 70/71 a 76/77.»
A verdade é diferente. No ano desportivo de 1973/74 o Sporting Clube de Portugal foi Campeão e ganhou a Taça de Portugal. No campeonato obteve 49 pontos e marcou 96 golos; o Benfica ficou em segundo lugar com 47 ponto e marcou 68 golos. Não é por acaso que se referem os golos pois nesse ano desportivo o jogador Yazalde marcou só ele 46 golos em 29 jogos batendo a melhor marca portuguesa (Peyroteo) com 43 golos e a melhor europeia (Skoblar) com 44 golos. Por isso foi o vencedor da «Bota de Ouro» europeia desse ano.
Quanto à Taça de Portugal desse ano de 73/74 o Sporting venceu o Benfica por 2-1 na final disputada no Jamor.
Não se percebe como é que perante dados tão indiscutíveis alguém se lembrou de escrever aquilo. Ainda por cima numa entrevista como presidente dum outro clube e quando a pessoa do Dr. Borges Coutinho era referido na circunstância apenas como sogro do presidente «leonino» e nada mais do que isso. Saiu o tiro pela culatra a quem quis ser simpático: exagerou e quis reescrever a história. Já não vai a tempo.
O DN está um nojo
A edição do DN do dia 1 de Junho, ontem, apresenta na página 2 uma fotografia de Manuela Ferreira Leite onde o seu rosto exibe uma contorção que a leva a ter um olho fechado e a sorrir sem mostrar os dentes, mas vendo-se a gengiva. A legenda diz Manuela Ferreira Leite estava visivelmente satisfeita com a vitória.
A escolha desta imagem é intencional na procura de um efeito de repulsa e a legenda é o seu reforço primário. Lembra o pior do Correio da Manhã, no auge do cavaquismo. Ou talvez ultrapasse o pior do CM. É nojento o que se faz no DN actualmente.
Os 10 vencedores das eleições no PSD — e o único derrotado
O PSD é o melhor partido português. Porque nunca perdeu tempo com a sua definição ideológica nem se preocupa com teorias, concentrando-se no pathos e ethos políticos. É um partido de gajos, de negociantes e vendilhões, de funcionários e lavradores. Até as mulheres são gajos neste partido, pensando e falando como eles. O PSD é a escolha daqueles que desconfiam da democracia e que gostam de sentir a rédea curta. Cavaco representou na perfeição este ideal, era um senhor que apenas tinha de parecer sério para ser levado a sério. Por estarem tão bem desenhadas as balizas, dá gosto fazer umas jogatanas neste campo, e os congressos do PSD foram sempre espectáculos romanos onde a oralidade, a retórica e a traição elevaram-se a níveis superiores de forma e força, como em mais nenhum espaço público cá no burgo. Agora, escolhido o novo presidente, o PSD inicia um velho ciclo. E quase todos saem a ganhar:
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