Vinte Linhas 266

Perfil de mulher entre pedra e água

Todos o sabemos: de noite os rios não existem, são apenas água, puramente água, nada mais que água, no trânsito veloz das suas pedras laterais e do seu leito.
O sorriso da mulher, registado numa pequena máquina electrónica, abre-se aos mais ínfimos locais do seu próprio tempo, sua memória e seu trajecto, nessa tarde de luz que devagar morria.
Foi o tempo de uma pausa num passeio pela Beira Litoral, um olhar, um instante, um tempo suspenso que a fotografia testemunha.
Foi o tempo de um sorriso entre o usufruto da força da água e do conforto da pedra.
Todos o sabemos: não há vida sem água nem lar sem pedra. Nascemos na água e crescemos no diário calor da pedra na lareira.
Este sorriso que uma pequena máquina electrónica regista, ultrapassa a circunstância do lugar e do momento.
Então já não estamos na Beira Litoral mas num lugar onde tudo começa de novo, onde cada ponto de fumo na serra do Açor ou da Lousã, inaugura uma gramática de fraternidade que desagua numa casa sempre com mesa posta e numa porta que, mesmo de noite, não se fecha.
Assim como a palavra pronunciada pela primeira vez, solene e grave, começa a reordenar a realidade, também a mulher que sorri recomeça, no momento preciso do seu olhar, a ordenar a luz da vida, a recusa da solidão e a certeza de ser, entre pedra e água, o vagaroso pressentimento da felicidade.

13 thoughts on “Vinte Linhas 266”

  1. De dia os rios são de quê? De vinho?

    Ora cebo! Nem sequer falou do seu íntimo Jacinto Prado Coelho. Não há pachorra.

  2. Pois é Cláudia… Já parece uma história passada comigo na Protecção Civil. Havia lá umsenhor a quem eu perguntei se não se achava um bocadinho vaidoso. Respondeu: a minha filha e a minha mulher dizem isso mas eu tenho é excesso de personalidade. Tens todo o direito de me pensar vaidoso mas não concordo. Falar de site da Gulbenkian e dizer que conheci JPC lá e lhe dediquei um poema será vaidade?

  3. jcfrancisco, damos nomes diferentes a uma mesma característica. Ao excesso de personalidade, prefiro vaidade, jactância, brio acirrado, megalomania, atracção pelo mundanismo. Quanto ao poema dedicado ao JPC, não sei se será vaidade ou devastadora paixão…

  4. Cláudia, tudo bem, aceito e respeito as tuas opiniões. Entro em parafuso é quando aparecem expressões de maldosa agressividade. No meu íntimo e a propósito do novo «site» surgiu apenas a ideia de referir a existêmcia de um poema para o JPC mas como informação. Aliás nem faz sentido falar-se em «vaidade» só porque um poema aparece numa revista chamada Colóquio-Letras. Foi só isso que quis dizer – a propósito. Ou seja – faz parte de um percurso, foi uma etapa. Nada mais.

  5. jcfrancisco, é maldosa agressividade eu constatar amor ao umbigo em determinados comentários? Nada menos.
    Salvo seja, os textos são bons (fechemos os olhos aos comentários).

  6. Foi o JCF quem escreveu este poema?

    CRISTIANO RONALDO

    Vêmo-lo nas revistas do mundo
    um herói com a bola nos pés.
    O génio de talento profundo,
    o craque do anúncio do BES.
    Pelas capas do mundo, sua cara-metade,
    de tanta fama quanto o campeão, Nereida
    pelas capas do mundo mostra os seus atributos.
    Por isso um dia Ronaldo há-de
    tornar portuguesa aquela peida.

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