ASPIRINAB.COM

Amigos, Senhores e outros Mortais,

Lamentamos interromper o vosso serão.Está o Tiago Martim a lavar a louça, está a Soraia Vanessa a deitar os miúdos, está a Dona Gilda quase quase a acabar o sodoku, está o Doutor Gustavo, de fones postos, na lição 7 do harpsicórdio – e vimos nós desassossegar tão amável mundo. Custa-nos sobretudo interromper o Gato Fedorento, que tão promissoramente nos precedeu na passagem destas bloguíticas paragens para sítios se possível ainda mais vistosos. Mas, vai ver já, a interrupção tinha mesmo de ser.É que, Senhores, Mortais e outros Amigos, nós estamos noutra. Percebeu bem: o Aspirina está noutra. Onde? Onde? Isso agora… Para achar coisa apelativa, investigámos, estudámos, suámos, fizemos três biliões de operações por segundo. Mudávamos os parâmetros, fazíamos rotação de algoritmos, e o resultado era sempre, sempre o mesmo. Este:

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Só. Só assim. Nem uns dâblius para uma última hesitação, um último desvio.

Rendemo-nos, pois. Migrámos. Transumançámos. Com armas e bagagens, lá fomos instalar-nos. Já aqui estamos. Já aqui estávamos. Foi o segredo mais bem guardado do século. E ainda ele é uma criança.

Sócrates faz implodir o Aspirina B

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As imagens não mentem. E a supra regista o olhar malvado do nosso Primeiro, logo secundado pelo sorriso maquiavélico de Belmiro. O industrial, feliz por ver ir abaixo um blogue que tinha mais leitores do que os editoriais do Zé Manel Fernandes. O ministro, por estar apostado em sufocar a imprensa livre, e já só restava este blogue onde ainda se podia ler um ou outro elogiozinho à sua prestação. O resto da comunicação social está vendida, é tudo a dizer mal de quem se sacrifica no Governo para cuidar duma cáfila de ingratos. Como dolorosamente se sabe, Sócrates não tolera desvios ao seu plano de acabar com as vozes desafinadas.

Maneiras que pum! Isto também nunca deu dinheiro, nadinha. Prova da sua inutilidade, irrelevância e mau-gosto. Espero que este espaço, que é tão bonito e amplo, se conserve aberto ao público. E que as famílias venham até cá, no futuro, fazer piqueniques ou outras coisas.

O fim do Aspirina B

A única coisa que me consola com o fim do Aspirina B é o facto de me ver finalmente livre da Susana, do Valupi e do Fernando Venâncio (os outros, confesso, mereciam muito melhor pousio do que este). Só me resta desejar uma coisa: que este blogue não renasça fruto de alguma metempsicose traiçoeira. Um grande abraço a todos os comentadores. Os que me veneram, é claro. Os restantes que se fodam. Amém.

A paixão de sóror Josefa do Menino Deus

Entre os seus papéis venerados no convento, depois de uma morte em odor de santidade, ao esmorecer da tarde de sexta-feira, dia 21 de Outubro de 1768, havia um soneto à margem do qual estava anotado pela madre superiora: “Soneto que fez a mui piedosa sóror Josefa do Menino Deus, grande devota da nossa Santa Madre Teresa, a quem neste soneto modestamente quis imitar depois que leu e meditou na bondade de Nosso Senhor pelo perdão que concedeu à mulher adúltera.”

A fama de santidade de sóror Josefa terá sido justa. Mas as razões que a levaram a todos os jejuns e penitências que apressaram a sua morte, e às longas orações muito além do que a regra impunha, foram outras que não essas por que é costume fazerem-se os santos. Como prova documental, que a uns servirá de acusação e a outros de exaltação das suas virtudes, leia-se a última carta que escreveu antes de ir para o convento. Guardava dela o rascunho, que só entregou, a dois dias da morte, a sóror Maria do Imaculado Coração para que a revelasse quando lhe parecesse conveniente, e no caso de entender que poderia servir de exemplo para prevenir futuros e desgraçados casos como o seu.

A carta, sem o nome do destinatário, começa com uma saudação simples: “Meu Amor”, e logo no princípio a jovem Josefa deixa perceber claramente as razões por que assim procedia.

DANIEL DE SÁ

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Lisboa é um tratado

Menos de 1% de portugueses saberá do que trata o Tratado de Lisboa. Estarei a ser optimista, pois a verdade será a de que menos de 0,1% de portugueses tem razoável noção do que está em causa neste acordo. E serão 0,01% de portugueses aqueles que poderiam discutir o texto com algum proveito intelectual para os espectadores. Finalmente, talvez apenas 0,001% de portugueses tenha conhecimento suficiente de todo o processo para dele ter uma visão completa. Sim, estou a falar de 100 pessoas.

Seria de esperar que a situação permitisse aos partidos e aos publicistas alguma promoção da cidadania. Seria de esperar se ainda esperássemos alguma coisa inteligente dos caquécticos que ocupam o espaço público. Mas eles não falham, e até há quem se esteja a queixar de não ter sido gasto vinho do Porto na celebração. A bebedeira da imbecilidade não vai conseguir entornar o facto: a presidência portuguesa esteve à altura do desafio, ou terá superado as expectativas, mostrando capacidades técnica e política irrepreensíveis. Os mesmos das mesmas inanidades seriam os mesmos de outras insanidades caso tivesse fracassado o encontro. Viriam dizer que tal insucesso provava a incapacidade de Sócrates para chefiar o Governo de Portugal, e que tudo se devia à arrogância e autoritarismo tirano do fascista do jogging.

Quando se troca o amor à bandeira pelo amor à camisola, a camisola fica a cheirar muito mal.

A minha Ota

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Em 1970, na esquadra da Ota, tudo chegava da América, ressalvando os géneros do rancho que vinham das hortas de Alenquer. Os aviões eram da guerra da Coreia, e a literatura que neles vinha inclusa tinha eficácia há muito comprovada, ou nas escolas do Texas ou em bases do Arizona. Ninguém sabia porquê, mas tudo funcionava. Obtinha-se a máxima produtividade com investimento mínimo, um conceito alienígena que só muito mais tarde assentaria arraiais no linguajar comum.

Faltava-nos treinar a sobrevivência no mar. E se a questão parece de somenos, num país de marinheiros, logo adquire as dimensões duma Ilíada caseira, quando calha apagar-se o fogareiro a trinta milhas da costa. E lá veio uma equipa americana.

Fingiu-se o mar na piscina que ali estava, ao fundo duma ladeira, rodeada de eucaliptos. Um cabo de aço amarrado numa copa, um rappel vertiginoso, e no fim um abraço de madrasta, à nossa espera nas águas de Fevereiro. Livra-te do arnês do pára-quedas, nada até ao salva-vidas que além está, a dançar ao rés das ondas, iça-te lá para dentro sem demora, verifica a pistola de sinais, os fumos e tudo o resto, não te esqueças dos anzóis que te farão muita falta, se ainda não congelaste estás muito bem assim, já que estás na mão de Deus.

Depois era só vencer os cem metros da ladeira, as botas a chocalhar e o fato a gotejar limos, e o vento enregelado que vinha do Montejunto, a morder-nos nas orelhas, a alancear-nos o peito.

A princípio ainda corri, mas aos poucos foi-me afrouxando o passo. E à porta do alojamento caí na primeira escada. Foi aí que me encontrou aquele anjo da guarda da senhora das limpezas, que vinha a pegar no turno. Deu o alerta, pôs-se a gritar por ajudas, e soltou-me das vestes encharcadas os ossos que estalavam sem controle. Levaram-me escada acima, meteram-me num chuveiro, gritaram que o médico viesse. E ele veio, um velho que era dentista, e estava na escala de serviço. Só o meu corpo é que não obedecia, tomado dum frenesi.

Desistiram do chuveiro que fervia, enfiaram-me na cama, e abraçaram a mim, numa esperança de milagre, o corpo generoso da femme de ménage, que me ofereceu o peito avantajado. Era uma pietá pagã. Mas nem ela conteve o motim dos meus ossos, nem acalmou aquela rebelião. E ainda hoje estou para decifrar o raciocínio do médico, que fez sair a mulher e lhe tomou o lugar, implorando ao meu corpo que parasse de vibrar.

Lentamente foi amainando o desvario, e os meus ossos deixaram de estalar. Eu voltei a tomar posse de mim mesmo e dispensei os serviços do médico. Tudo isto contaram-mo depois, o resto dos pormenores não os sei. Mas foram por muito tempo motivo de chacota. E talvez tema dum congresso médico, ou de algum brain-storming na América. A gente sabe lá!

Jorge Carvalheira

O falso Sporting-Benfica de 1907

No passado dia 29 de Setembro, o jornal A Bola publicava uma foto supostamente «histórica»: os presidentes do Sporting e do Benfica em alegre confraternização num campo pelado de Carcavelos, celebrando o centenário do primeiro derby entre «leões» e «águias».

Ora, a verdade é que o Sport Lisboa e Benfica só foi fundado em Setembro de 1908 e não poderia ter disputado nenhum derby em 1907. Consultando os jornais da época vê-se, na página 2 do Diário de Notícias de 2-12-1907, na rubrica «Vida Sportiva», uma notícia sobre o jogo entre o Sporting Clube de Portugal e o Sport Lisboa, cujo resultado foi de dois «goals» contra um. O jornal O Século dá uma notícia mais desenvolvida, sendo os elementos os mesmos.

Mas o livro Repórteres e reportagens de primeira página, de Jacinto Baptista e António Valdemar, na sua página 41 e sob o título «O primeiro Sporting-Benfica em 1907», vai mais longe. Ao citar as duas notícias do dia 2-12-1907, os seus autores tentam (num certo sentido) emendar a história: acrescentam um parêntesis recto e as palavras «e Benfica». Fazem essa operação duas vezes como quem repreende os zelosos jornalistas de 1907.

Simplesmente, os jornalistas de então limitaram-se a escrever a verdade: em 1907 não havia o Sport Lisboa e Benfica, que só foi fundado em Setembro de 1908. Logo não houve nenhum derby em 1907.

Os basbaques de 2007 (a começar pelos presidentes dos clubes) lá engoliram mais esta patranha do jornal A Bola.

José do Carmo Francisco

Abrir a Pestana

As declarações de Catalina Pestana ao Sol são assombrosas. Não conheço, em toda a minha vida, caso mais grave do que este da Casa Pia no que respeita à possibilidade de se credibilizar a suspeita de não estarmos num Estado de Direito. As suas denúncias são esmagadoras, o silêncio à sua volta explosivo. E qualquer cidadão que passe numa junta médica de psiquiatria pode ter estas duas certezas: crimes foram cometidos e muita gente no topo do Poder sabe por quem.

Os que se calam com algo para dizer, de políticos a publicistas, de jornalistas a polícias, de vítimas a testemunhas, podem ter as melhores razões do mundo, incluindo a defesa da vida se a sentirem ameaçada. O que não podem é castigar o mensageiro. Ora, Ana Gomes oferece-nos um exuberante sintoma da doença moral com que a democracia portuguesa tem vivido nos últimos 30 anos. Creio que não serão apenas as peculiares hormonas femininas a explicarem a decisão de ter construído um soez ataque onde brinca com a gíria de pia. Há aqui outros factores em acção, como uma pulsão tribal, um ódio visceral contra outra fêmea, um urro de negação das evidências. E isso nem será o mais importante, pois todos temos direito à animalidade. O que verdadeiramente me fascina é a assunção de conhecimento. Ana Gomes revela saber de alguma coisa secreta, ilegal e escabrosa. Ela sabe de alguma coisa sobre os “outros”, os da outra tribo, do outro clube. E, justiceira, poderosa, equitativa, pergunta, protesta, ameaça.

Quer-se dizer. Ou seja. Isto é. E cá para mim. A Ana. Também. Não. Pia.

Segredos públicos

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No debate surgido aqui sobre o galego e o português, interveio «Alexandre». Como a sua intervenção apareceu assinada num debate paralelo no Portal Galego da Língua, não nos parece indiscreto informar que se trata de Alexandre Banhos, conhecido sindicalista galego, destacado membro do Bloco Nacionalista Galego, hoje no poder em Compostela, e também Presidente da Associaçom Galega da Língua. Aqui segue uma reacção.

Caro Alexandre Banhos,

Escreve você que a nossa língua nasceu no eixo Compostela-Guimarães, e que por isso chamar «português» à actual língua dos galegos não é forçar grandemente as coisas.

Compreendo o seu ponto de vista. Ele exprime uma percepção das realidades em que ambos concordamos: a de que, qualquer nome que ele tenha, o seu idioma e o meu são, ainda hoje, o mesmo. A ortografia é divergente, bastantes formas são divergentes, mas as estruturas mantêm-se fundamentalmente as mesmas. Partilhamos uma morfologia, uma sintaxe e um léxico únicos na Latinidade. Por isso, e usando a nossa mais exacta expressão local, entendemo-nos sem grande dificuldade de Faro à Corunha, uma das maiores distâncias – se não a maior – de intercompreensão de toda a Europa Ocidental.

As particularidades exclusivas a galego e português são ainda hoje de tal ordem que só uma possibilidade resta: a de que, no momento em que começa a haver «Portugal», o idioma está em muito adiantada fase de desenvolvimento (não registada nos escassos documentos escritos que restam), e isso pressupõe largos séculos de evolução. Em todo esse processo, de «Portugal» nem sombra. Simplesmente, quando foi preciso dar nome à língua, os portugueses ignoravam quase tudo disto (até os principais documentos faltavam), e chamaram-lhe, nessas condições, o óbvio: «português». Mas os criadores desse portentoso idioma tinham sido o que havia: galegos.

Aqui está por que não adiro à sua proposta de se chamar «português» à língua da Galiza. E digo-lhe mais. Se a questão é um nome de internacional prestígio, que tenha em conta as actuais proporções de falantes, então só esta conclusão se impõe: que é uma incomensurável parvoíce não chamarmos, hoje já, à vossa e nossa língua, «brasileiro». Em matéria de população e de prestígio estamos falados.

Conheço as vossas vantagens de a língua da Galiza passar a usar um nome internacionalmente sonoro. Isso pode funcionar como valente açoite nas almas dos galegos que, em número crescente, e já alarmante, educam os filhos em castelhano. E é uma bofetada no rosto de Madrid, que há-de ter de reconhecer que uma das suas constitucionais «lenguas españolas» extravasa para o Atlântico e se espalha por continentes. O Estado Espanhol vai tremer nos seus alicerces, e você sabe que não estou a brincar.

Mas exactamente aqui está já um problema. A chance de o seu Estado aceitar uma balbúrdia interna, com a fragmentação territorial então mais visível do que nunca, e isso para dar à sua Comunidade Autónoma Galega o gosto de ter, para o idioma, um nome pomposo, essa chance é tão mínima, que das duas uma: ou esse seu sonho é lúdico, e vamos deixá-lo assim, ou ele é mesmo a sério, um real desafio a Madrid, e você pode ir pondo as barbas de molho.

Esse seu sonho malandro, esse saboroso desafio, que digo eu, essa directa provocação ao conjunto de Espanha, eles incluem a esperança de que Portugal – lisonjeado – diga logo: «Eh pá, porreiro, man, bué da fixe, vamos a isso, mèrmão».

Aqui, o seu sonho, que já era tramado, entra em pleno delírio. É que, assegure-se disso, nunca Lisboa – nem pelos, sem ironia, lindos olhos dos galegos – mexerá um dedo para colaborar naquilo que Madrid logo chamará o começo do estilhaçar do seu belo Estado. A sério: nem a Galiza, nem ninguém, ganhará com que Portugal se meta no atoleiro político que é Espanha. Se a Galiza for esperta, nunca aliciará Portugal para isso. Além do mais, exactamente por ser a língua a mesma, e portanto nossa também, não poderá admitir-se que ela sirva de instrumento político intra-espanhol.

Uma coisa parece, pois, clara: a tentativa de convencer Espanha e Portugal de que a língua dos galegos deve chamar-se «português» é dum êxito tão remoto, está tão fora de toda a triste realidade, que persistir nisso é um irresponsável gasto de energias, vossas e nossas. Que bem merecem um objectivo melhor.

E há, de facto, um objectivo óptimo, em que podemos começar a trabalhar amanhã de manhã: é o de aproximar estes dois magníficos povos que habitam o Ocidente Peninsular e tão lindamente se entendem. Sem agendas políticas secretas, sem golpes baixos. Só com esse, já ambicioso, programa de participar numa cidadania alargada.

E, quanto a picante, ele não faltará. Você saberá, e eu saberei que, em tudo isso, o seu e o meu idiomas são o mesmo. Alguns portugueses sabem-no, sabem-no alguns galegos (até dentro do establishment) e mesmo outros espanhóis. Deixamo-lo assim. É o nosso grande segredo. Tão grande que até em Madrid podem sabê-lo.

Dueto a uma só voz

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O meu amigo José do Carmo Francisco, um poeta de suave sensibilidade, foi também jornalista do jornal “Sporting”. Costumava acompanhar por todo o País as equipas jovens do nosso clube, e houve uma vez em que começou assim a crónica de um jogo: “Verde pode ser a cor da paixão. O verde das folhas da videira a anunciarem as uvas e o vinho novo. Os verdes anos da juventude que quer apressar a chegada do amanhã. Verde da paixão, paixão do verde. Das folhas da videira que hão-de secar no Outono. Felizes os que os deuses não amam, porque talvez não morram jovens. Felizes os que, como as folhas da videira, não são jovens para sempre. Porque só a morte faz eterna a juventude.” Esta introdução parecia ser mais do que um simples efeito literário. E era, de facto.

Dispondo de umas horas livres, resolvera passear pelos arredores da vila onde os juniores do Sporting iriam jogar, e chegara até uma quinta em cujo portão, ao lado de uma casa carregada de velha dignidade, era anunciado vinho do produtor. Mais como consequência do seu espírito curioso do que por desejo real de comprar algum, embora fosse esse o pretexto com que justificaria o que ali ia fazer, puxou a corda da sineta que servia para chamar quem devesse abrir o portão, mas foi à porta da casa que apareceu um homem de bom aspecto, com cerca de quarenta anos, que o mandou entrar por ali, dizendo depois das apresentações: “Minha mulher não está. Foi visitar a irmã.”

DANIEL DE SÁ

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fait divers

Ontem perguntaram-me como era ser a única mulher num blog de misóginos. Respondi, automaticamente, misóginos, eles?!, coitados.
Pensei que seria preciso saber, antes de mais, o que é ser mulher. E o que é ser única? A única mulher, ainda por cima.
Afinal, o que é um blog? Um blog pode ser tanta coisa. Um blog de gajos? Logo um blog, onde há tantas presenças, mesmo ausentes; olhamos a caixa com escassa dezena de comentários e pensamos a zazie não veio, hoje.
Como se caracteriza um misógino? E um gajo? Não faço ideia.
Respondi, remetendo apenas para a minha experiência: é bom.

susana

«O Galego, variante do Português»?

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Um despacho da Agência LUSA foi difundido por vários média portugueses no dia 7 passado. Era a propósito dum Congresso da Lusofonia, realizado em Bragança. Informava-se-nos de que «na sessão de encerramento o linguista Malaca Casteleiro (na foto) defendeu que “também o galego é uma variante do português e como tal deve se trazido para o espaço da lusofonia”».

Fiquei contente. E pasmei. Contente por ver o mais conhecido linguista português, Malaca Casteleiro, quebrar um tabu: aquele que manda silenciar as relações – íntimas, como se vê – entre português e galego. Mas pasmado pela forma em que o fez, subordinando o galego ao português.

Com efeito, afirmar que «o galego é uma variante do português» equivale a considerar o português a norma e o galego o desvio, a «variante». Com isso se avança, dá-se mesmo – em matéria de opinião portuguesa – um passo de gigante na percepção das realidades, mas esse passo dá-se para um lado deveras estranho. Ele necessitará de ser explicado, esclarecendo como é que a região de origem do nosso idioma acaba com a «variante» nos braços. É como se o Vinho Verde delimitado fosse «uma variante» do (aliás, excelente) do Bombarral. Não será por 200 milhões o consumirem que o vinho do Oeste se tornará mais ‘autêntico’.

Leiamo-lo assim: a opinião pública portuguesa não está preparada, de momento, para ouvir a verdade toda. Esta: que português e galego são variantes um do outro. Fica-se, agora, à espera da próxima façanha. E nem tão façanha como isso, pois o linguista Luís Lindley Cintra assim o concebia, e assim o escreveu, há cerca de vinte anos.

A meia verdade de Casteleiro é já muita verdade, é certo. Mas nós já somos crescidinhos. Vai custar a entrar, a verdade toda. Mas, depois, vamos ver logo o mundo com outros olhos. Este nosso mundo peninsular, por exemplo.

P.S. Talvez desnecessário

No debate ‘ibérico’, tomei sempre posição contra qualquer aproximação política entre os dois Estados da Península. A proximidade linguística entre Portugal e uma parte do Estado vizinho nada modifica nisso. Eu faria uma festa no dia em que a Galiza se tornasse independente. Seríamos talvez os maiores amigos do Mundo. Mas opor-me-ia, sempre, a qualquer união política dela com Portugal.

Reconheço que seja difícil explicar à nossa gente, medularmente nacionalista, como se podem conceber uma continuidade linguística e uma descontinuidade política. Mas não desisto de os meus compatriotas um dia o compreenderem.