
Caché_Michael Haneke
Começar é o mais difícil. Começar bem. É difícil começar bem um livro, uma sinfonia, um filme. Já Hesíodo o dizia, em grego. Mas não o dizia em relação aos filmes, sinfonias, livros. Por razões que ficam por explicar. Dizia-o, em grego, em relação a tudo. Tudo. Qualquer coisa. Então, uma coisa qualquer. Como um livro. Uma sinfonia. Um filme. Logo, este filme. Um filme que tem um dos melhores começos de sempre. Porque nos castiga. Castiga a nossa passividade, a nossa boçalidade. E isto que digo, em português, é o que diria Hesíodo; não necessariamente em grego, mas desde que visse o que eu vi.
Por bizarria dos deuses, este filme tem um dos melhores finais de sempre. E acabar é que é difícil. Muito mais difícil do que começar. Acabar bem, note-se. Não acabar por acabar, só porque se chegou ao fim. Chegar ao fim não é acabar, é apenas não poder continuar. Já o acabar que acaba pode acontecer muito antes do fim. Pode acontecer logo no começo. Pelo menos, a fazer fé em Homero, que o disse das mais diversas maneiras (e já contei duas).
Que não espante a conclusão: este filme só começa depois de ter acabado.