Cineterapia

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Caché_Michael Haneke

Começar é o mais difícil. Começar bem. É difícil começar bem um livro, uma sinfonia, um filme. Já Hesíodo o dizia, em grego. Mas não o dizia em relação aos filmes, sinfonias, livros. Por razões que ficam por explicar. Dizia-o, em grego, em relação a tudo. Tudo. Qualquer coisa. Então, uma coisa qualquer. Como um livro. Uma sinfonia. Um filme. Logo, este filme. Um filme que tem um dos melhores começos de sempre. Porque nos castiga. Castiga a nossa passividade, a nossa boçalidade. E isto que digo, em português, é o que diria Hesíodo; não necessariamente em grego, mas desde que visse o que eu vi.

Por bizarria dos deuses, este filme tem um dos melhores finais de sempre. E acabar é que é difícil. Muito mais difícil do que começar. Acabar bem, note-se. Não acabar por acabar, só porque se chegou ao fim. Chegar ao fim não é acabar, é apenas não poder continuar. Já o acabar que acaba pode acontecer muito antes do fim. Pode acontecer logo no começo. Pelo menos, a fazer fé em Homero, que o disse das mais diversas maneiras (e já contei duas).

Que não espante a conclusão: este filme só começa depois de ter acabado.

É do Cartaxo, mas é bom

António Cartaxo tem uma das melhores vozes da rádio (frase que não sei o que queira dizer, nem tenho modo de justificar, mas que fica aqui muito bem, isso é inquestionável), a que se junta uma cabeça que resguarda o seu apurado gosto musical das ameaças externas. Na Antena 2, logo a seguir ao noticiário das dez matinais, fica o éter De Olhos Bem Abertos. São cinco minutos, não mais, de trechos musicais embrulhados em palavras apaixonadas. É a minha bendita cocaína dos dias úteis.

A cada semana se pode ouvir online os cinco programas da semana anterior. Recomendo-vos todos, e sempre, mas o do dia 25 de Setembro em particular. Porque termina com uma comparação entre Londres e o Campo Grande (em Lisboa). E isso, meus amigos, nunca antes tinha sido tentado neste universo.

(e o de 24 de Setembro devia ser de audição obrigatória na Escola, em todos os níveis e logo a começar pelo 1º, gastando-se 5 minutos por ano com estes 5 minutos, até ao fim da escolaridade, e convocando-se o pessoal auxiliar, incluindo o da cozinha e o da limpeza, para a festa)

Nascidos em caixas

Nenhuma norma ou lei – da Internet, do café ou da Galáxia – pode justificar o enxovalho público a que, há dias, foi submetido aqui o Daniel de Sá. A libérrima política do Aspirina em matéria de comentários permitiu que indivíduos exercessem a ofensa (não a crítica, a ofensa) sistemática.

Paralelamente a isso, construiu-se (se não nas intenções, decerto nos efeitos) um microclima em que a insinuação delirante ganhou rédea solta. Assim, alguns comentadores declararam-se «certos» de que o Daniel de Sá fora induzido à colaboração no Aspirina para ser publicamente massacrado. Uma variante virulenta desse delírio anunciou ao Mundo que esse é um procedimento habitual neste blogue.

Nada me obriga a dar acolhida a quem usa as caixas de comentários para a terapia de frustrações e paranóias. Anuncio que, nos «posts» que eu assine, valerá alguma – mínima, mas decidida – restrição. As caixas de comentários têm criado espaços onde frequentemente apetece estar. Deles, quanto de mim dependa, banirei a violência.

Nunca esquecerei que eu – e o Valupi, e o José do Carmo, e o Jorge – todos «nascemos», para o Aspirina, nas caixas de comentários (o João Pedro e a Susana já eram bloguistas – e o Zé Mário, bloguista pioneiríssimo, soube ser para alguns de nós um querido parteiro). O Daniel foi, apenas, o último a revelar-se… blogogénico.