Cineterapia

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Caché_Michael Haneke

Começar é o mais difícil. Começar bem. É difícil começar bem um livro, uma sinfonia, um filme. Já Hesíodo o dizia, em grego. Mas não o dizia em relação aos filmes, sinfonias, livros. Por razões que ficam por explicar. Dizia-o, em grego, em relação a tudo. Tudo. Qualquer coisa. Então, uma coisa qualquer. Como um livro. Uma sinfonia. Um filme. Logo, este filme. Um filme que tem um dos melhores começos de sempre. Porque nos castiga. Castiga a nossa passividade, a nossa boçalidade. E isto que digo, em português, é o que diria Hesíodo; não necessariamente em grego, mas desde que visse o que eu vi.

Por bizarria dos deuses, este filme tem um dos melhores finais de sempre. E acabar é que é difícil. Muito mais difícil do que começar. Acabar bem, note-se. Não acabar por acabar, só porque se chegou ao fim. Chegar ao fim não é acabar, é apenas não poder continuar. Já o acabar que acaba pode acontecer muito antes do fim. Pode acontecer logo no começo. Pelo menos, a fazer fé em Homero, que o disse das mais diversas maneiras (e já contei duas).

Que não espante a conclusão: este filme só começa depois de ter acabado.

18 thoughts on “Cineterapia”

  1. Ora aqui está, primo, uma prova da nossa remota cosanguinidade. Uma absoluta obra-prima. Por diversas razões. E a menor delas não será o facto de conter o mais belo plano sequência que já vi na minha vida.

  2. Brincalhão, como não dás a cara (e será que a tens?), vais ficar a saborear a humilhação sozinho. É pena, pois gostava de me rir à tua conta (rir ainda é o melhor remédio, e não se nega um remédio aos vizinhos, mesmo quando se é um brincalhão, pois não?). Talvez numa próxima oportunidade, pois és palonço para repetir a imbecilidade.

    Com que então, Horácio… Lindo. Genial. Ou seja, afirmas que Horácio escreveu a TEOGONIA e OS TRABALHOS E OS DIAS. Na primeira obra, temos o texto fundador da racionalidade ocidental. Um tratado sobre os deuses gregos que é uma intuição sobre a génese da racionalidade filosófica. Não sei se o teu Horácio te explicou, mas a TEOGONIA é uma exaltação do Princípio – ou seja, uma celebração e contemplação dos começos e do Começo.

    Já em OS TRABALHOS E OS DIAS poderás ler esta sublime e enigmática (ou não…) passagem:

    ρλέον ἥμίσυ ρανṯός

    É um dos mais famosos provérbios gregos, adentro da tal comunidade de eruditos que te parece incomodar – e foi ele, mais do que o resto, a inspirar a associação no texto. Pergunta ao teu Horácio, se duvidas de mim.
    __

    Primo, obra-prima. E tanto. É um festival de inteligência.

  3. O Cinema (com C grande) é uma festa. Também pode ser um funeral. Pode ser uma festa de baptizado, uma despedida de solteiro. Raras vezes é uma cremação, mas é isso mesmo que este filme é. Expectativas em fumo, previsibilidade em cinza, inteligência e engenho em alta. Gandaganda filme!

  4. O começo é mais do que a metade do todo. Porque começar é o mais difícil

    (Epistularum Liber Primus)

  5. Ó brincalhão, és um grande brincalhão. Passeias-te “nú” (é assim que grafas, talvez por seres coevo do Sr. Flaccus), traduzes grego, apagas a tradução… ui, ui… Que mais tens apagado por aqui, ó brincalhão? E trocar imagens nos posts, também o fazes? Serás o fantasma de Horácio?… Vexata quaestio.

    Agora, tens de completar o tirocínio. Explicares à malta que Hesíodo não passa de um copião de Horácio. Vá, coragem, tu consegues. Aliás, só tu.
    __

    Alba, sim.

  6. Repito:

    ρλέον ἥμίσυ ρανṯός => a metade é mais do que o todo. daqui para “começar é o mais difícil” ainda vai uma certa diferença

    (espero não ser censurado outra vez! é lamentável que o meu comentário tenha sido apagado)

    mais: quando o Valupi erra, em lugar de aprender e reconhecer o erro, teima em entrar numa argumentação desonesta e ilógica. Pode ser mais ou menos caricaturada assim:

    – como afirmou Moliére “Há mais coisas entre o céu e a terra”
    – erras: quem tal afirmou foi Shakespeare
    – O quê?!!! Shakespeare…Lindo. Genial. Ou seja, afirmas que Shakespeare escreveu o Tartuffe ou a École des Femmes!

  7. Brincalhão, mas erro em quê? Que culpa tenho eu que delires com uma intenção que não tive (essa de fazer uma citação de Horácio)? Que culpa tenho eu que sejas ignaro de Hesíodo, e das interpretações do passo em causa, e do meu raciocínio? Que culpa tenho eu que Horácio tenha lido Hesíodo? Que culpa tenho eu da influência da cultura grega na literatura romana? Que culpa tenho eu que a tua parvoeira histérica seja o único erro a registar no episódio?

    Acaso também consideras que erro quando atribuo a autoria da Teogonia a Hesíodo? Acaso a temática da Teogonia (e, por inerência, a de qualquer teogonia ou cosmogonia) não é a das origens, a do princípio, a do “começo”? Acaso não há um Homero para fazer par com esse Hesíodo na construção do significado do texto?

    Acima de tudo, erras, tu, ao não seres capaz de identificar uma glosa.

  8. Valupi, nunca esteve em causa, se bem leu a minha caricatura da sua “lógica”, negar a Hesíodo a autoria da Teogonia ou de Os Trabalhos e os Dias.

    Por outro lado, quanto a colocar Homero e Hesíodo a par um do outro, parece-me um pouco apressado. Embora ambos se ocupem da elevação do homem grego a um ideal de excelência, Hesíodo não serve a tradição homérica do ideal heróico (mais caro à casta nobre); antes se ocupa sobretudo da elevação do homem comum/camponês pelo cumprimento de um ideal de justiça a realizar na polis, dispensando a exaltação da valentia ou da astúcia do herói homérico.

    Também me parece, finalmente, que entre duas pessoas inteligentes a discussão escusava de ter resvalado para o tom em que a colocou. Obviamente que Horácio leu Hesíodo…mas a Horácio o que é de Horácio.

    atentamente

  9. Brincalhão, estás deliciado com a tua falácia. Atribuis-me um erro, constatas que tu é que erraste, e responsabilizas-me pela situação. Começo a suspeitar que és uma mulher.

    Vou-te fazer a papinha: Horácio está a citar Hesíodo quando constrói uma glosa. Ou seja, ele está a usar o passo original para o acrescentar (ou explicar ou desdobrar, ou um longo etecetera). Repara: tu achas difícil passar de “metade é mais do que o todo” para “começar é o mais difícil”. No entanto, a frase que apressadamente consideraste prova de erro meu contém a matriz original: a parte é maior do que aquilo que (num certo sentido) lhe é superior = o começo ultrapassa a metade.

    Claro que tu podes preferir entrar em negação, ou fuga (como já entraste ao tentar mudar de assunto), mas isso será exclusivo problema (e grande) teu. Não só Horácio está a usar o léxico como está a repetir a formulação noética do original. Estas as evidências.

    Quanto às temáticas da cultura grega clássica, não são para aqui chamadas. Eu servi-me das referências a esses dois autores para contextualizar um discurso estético cujo objecto era um filme. Tem tino.

    A tua caricatura apenas conseguiu um objectivo: provar que és uma anedota.

  10. «Atribuis-me um erro, constatas que tu é que erraste, e responsabilizas-me pela situação. Começo a suspeitar que és uma mulher.»
    esta conclusão é uma maravilha.

  11. É uma verdade pouco maravilhosa chamada misoginia. Esta é quase de antologia, embora não chegue lá. Pelo sim, pelo não, vou depositá-la no meu arquivo de ditos misóginos de portugas.

  12. Naf, tens de abrir ao público esse florilégio onde vais guardar esta verdade. Tanta verdade junta não pode continuar escondida.

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