Abrir a Pestana

As declarações de Catalina Pestana ao Sol são assombrosas. Não conheço, em toda a minha vida, caso mais grave do que este da Casa Pia no que respeita à possibilidade de se credibilizar a suspeita de não estarmos num Estado de Direito. As suas denúncias são esmagadoras, o silêncio à sua volta explosivo. E qualquer cidadão que passe numa junta médica de psiquiatria pode ter estas duas certezas: crimes foram cometidos e muita gente no topo do Poder sabe por quem.

Os que se calam com algo para dizer, de políticos a publicistas, de jornalistas a polícias, de vítimas a testemunhas, podem ter as melhores razões do mundo, incluindo a defesa da vida se a sentirem ameaçada. O que não podem é castigar o mensageiro. Ora, Ana Gomes oferece-nos um exuberante sintoma da doença moral com que a democracia portuguesa tem vivido nos últimos 30 anos. Creio que não serão apenas as peculiares hormonas femininas a explicarem a decisão de ter construído um soez ataque onde brinca com a gíria de pia. Há aqui outros factores em acção, como uma pulsão tribal, um ódio visceral contra outra fêmea, um urro de negação das evidências. E isso nem será o mais importante, pois todos temos direito à animalidade. O que verdadeiramente me fascina é a assunção de conhecimento. Ana Gomes revela saber de alguma coisa secreta, ilegal e escabrosa. Ela sabe de alguma coisa sobre os “outros”, os da outra tribo, do outro clube. E, justiceira, poderosa, equitativa, pergunta, protesta, ameaça.

Quer-se dizer. Ou seja. Isto é. E cá para mim. A Ana. Também. Não. Pia.

21 thoughts on “Abrir a Pestana”

  1. Esta dona Ana sabe de coisas que não lembram ao diabo…

    Quando li o que escreveu há dias, perguntei, que moral tinha ela, para falar daquela forma, da outra senhora, com o conhecimento que demonstrava ter do assunto, das pessoas, inclusive de um tal político “Loura” que atacava no Parque Eduardo VII…

    É uma vergonha percebermos que isto vai acabar com toda esta gente em liberdade, inclusive o “Bibi”, com uma carinha nova, porque, pelos vistos, ainda pode “engavetar” muita gente…

    Com a cumplicidade de muita gente, inclusive da dona Ana Gomes…

  2. É absolutamente meridiano (mas só um Valupi para no-lo dar a ver) que Ana Gomes faz uma confissão de cumplicidade. Num Estado de Direito, Sua Deputadíssima era imediatamente chamada a contar o que sabe. Assim, levarão, ela e os demais, também esta para a cova.

    Entretanto, os miúdos – já uns homenzinhos, mas mais desamparados que nunca – vão-se alcoolizando, vão resvalando em talvez irreversíveis brumas interiores, vão-se deixando morrer.

    Sua Deputadíssima será ainda Ministra. Sinistra, disse eu? Ajudará o cinismo a singrar na vida?

    P.S. Ainda assim, e quanto a sinistro, e a cinismo, a Pestana parece batê-la, à Gomes, por uns palmos. Em termos práticos, estão bem uma para a outra.

  3. Gritaria a mais, melodia e fado a menos.
    Não há mulher como esta!? Desculpe, que lhe diga, mas há sim. Outras e melhores. Ela bem gostava de ser outra Amália, mas Amália só houve uma: a Amália Rodrigues! Tem voz mas um longo caminho a percorrer. Mas tem amigos e um Partido que a promove.
    Devia também dizer o nome dos autores dos fados que canta. Será porque lhe custa pronunciar o nome de Amália Rodrigues, como no caso deste fado?

  4. Esta história da Casa Pia é tão nauseabunda que acho que o país só dificilmente se livrará do mau cheiro. E por falar em senhoras que estão bem umas para as outras, o que será feito de Teresa Macedo?

  5. O que acho de censurável na arenga da Ana Gomes é o tom chocarreiro, a rondar a peixeirada, com que ela aborda o tema da Casa Pia, como se estivesse no blog da esquina a comentar com os amigalhaços. Tirando isso, O Valupi e os comentadores parecem-me pouco objectivos, para não dizer injustos. A Ana Gomes não dá a entender que sabe algo que não revela. Ela faz apenas umas perguntas muito pertinentes e legítimas sobre a actuação (e a cronologia da actuação) da Catalina nos seus cargos da Casa Pia. E cita um artigo há muito conhecido duma revista francesa. Ponto, parágrafo. Ora porque terá Ana Gomes tomado estas atitudes que, em si mesmas, me parecem legítimas (com a excepção do tom chocarreiro)? A resposta deve ser simples: ela não acredita na culpabilidade de Pedroso e vem publicamente (bom, no tal blog da esquina) comentar a entrevista em que a Catalina Pestana mostra estar perfeitamente persuadida da culpabilidade do dito Pedroso, equivalendo quase a uma acusação. Onde está o escândalo da atitude da Ana Gomes? Mais escandalosa será a atitude da Catalina Pestana, que alimenta e difunde suspeitas, mas não as especifica nem prova. E que, em compensação, chegou sempre atrasada, como sublinha Ana Gomes, na denúncia pública do que se passava dentro da sua casa.

  6. É profundamente incoerente a AG indignar-se por causa das acusações de CP e fazer acusações que no fundo são identicas a estas.

  7. Ana Gomes só fez uma única acusação, e já estou a forçar muito o sentido desta palavra : Catalina Pestana chegou atrasada na denúncia dos casos da instituição. Mais do que uma acusação, é uma constatação, é um facto. Quanto às perguntas pertinentes que a Ana Gomes fez no seu blog sobre a POSSIBILIDADE de EVENTUAIS casos envolvendo alunas da Casa Pia, uma instituição que estava comprovadamente desgovernada, alguém lhes deu ou dá resposta? Não, pois não? Poderá condenar-se alguém que coloque essas questões, quando a lição que se pode tirar de todo o caso Casa Pia é que ele só foi possível porque houve uma espécie de conspiração do silêncio que abafou durante longos anos os crimes hoje conhecidos, cometidos à frente de muita gente indiferente e comodista?

  8. Nik, fazes bem em reconhecer os teus problemas de leitura. Pode ser o primeiro passo para uma eventual, se bem que improvável, recuperação da literacia. Felizmente, estás num espaço que prima pela sua vocação pedagógica. Para não te cansar os neurónios dou só um exemplo; relativo, apenas, a uma das dimensões da questão. Ora repara:

    “- já que todos finalmente perceberam – como eu cedo disse, mas então poucos compreenderam – que o objectivo da grotesca inépcia investigativa era manipular a projecção mediática, prestando-se assim a servir agendas pessoais e políticas diversas e realmente a obfuscar e descredibilizar a Justiça, para desviar atenções de criminosos e outros utilizadores das redes implicadas;”

    Que te parece que isto queira dizer? Que a Ana, ao se antecipar a todos os outros na descoberta duma tese de conspiração que envolve investigadores do caso e políticos variados, pelo menos (fora os jornalistas e os juízes, pelo menos), está a reclamar um estado de ignorância? E que fez ela com esse conhecimento de que faz gala ter sido temporão? Que faz agora?

    Sobre as implicações e consequências de um político com o estatuto de Ana Gomes tratar denúncias relativas a ministros e agentes da Judiciária com a bonomia de pátio de escola que o texto exibe, não me pronuncio. Por vergonha. Ou será nojo?

    Abre a Pestana.

  9. Eu cá acho graça a estas trocas de galhardetes entre figuras públicas, todas elas com mais ou menos responsabilidades na vida da nação, em sectores diferentes mas de importância igual e interligada. Mas a graça não a acho ás palavras, que essas são vazias de humor. Gracinha, mesmo, eu acho é ao sub-entendimento que repassa nas delarações de toda a gente que é gente e fala da casa pia. Como se fosse pacífico e facto universalmente aceite que “já se sabe como estas coisas são… se fosse eu, bem, se fosse eu fazia … dizia… sim, porque isto sempre se soube, toda a gente sabia e ninguém fez nada…”. Como se fizesse parte da sociedade moderna que, entre ricos e pobres, felizes e desamparados, filhos e órfãos, adultos e crianças, uns pudessem ir ao cú aos outros sem culpa, e o mundo seguisse em frente com toda a legitimidade para olhar para o outro lado. Fica bem a ousadia à Dra Ana Gomes. Quase tanto como mal lhe fica a pretensa ingenuidade. Em especial para os amantes das palavras neste blogue, Ana deixou inventado um novo verbo: catalinar. Foi tarde e a más horas, mas lá catalinou, enfim. E se é verdade que a Pestana fechada de Catalina foi bálsamo d’abusadores por tempo demais, não o é menos que o silêncio consciente e cúmplice da classe política (de que a Dra Ana Gomes faz parte) foi, estes anos todos, a vaselina que só impediu os gritos.

    rvn

  10. Ó Valupi, coitado, parece que estás com enjoos, amnésia e, se calhar, azia, a avaliar pelo estilo. Então foi a Ana que lançou em circulação a história da cabala contra os políticos do PS, então na oposição? Ou foram os próprios, as vítimas da suposta cabala? Entre os quais, se não te lembras, recordo-te, se destacava o Ferro Rodrigues. De resto, essas suspeitas de cabala andavam não só em milhões de mentes como em todos os jornais e canais de TV. Até houve quem fizesse com isso um site Muito Mentiroso, depois silenciado, que alinhava os nomes dos hipotéticos autores das manipulações. Por isso, deves estar a brincar, pá. Queres dizer mal da Ana, porque ela não é da tua linha política. E acho esse “abre a Pestana” um trocadilho meio obsceno, ó meu, entre a pornografia e a vivisecção, como o Estripador.

  11. Vá lá umas palavrinhas do Pedro Namora para alegrar a festa. Desculpa lá isso ó Neurónio.

    ANA GOMES REIVINDICA

    “Já se sabe que o PS tudo fez, ainda na oposição e recorrendo aos boys que instalou em locais fundamentais do Estado, para destruir a investigação ao designado Processo Casa Pia. Mário Soares, Ferro Rodrigues e amigos, na linha da estratégia delineada por Carlucci há já muitos anos, não descansaram: importava difundir que a investigação era uma cabala. Por isso afastaram Souto Moura, destruiram a brigada que investigou os crimes sexuais e substituiram Catalina Pestana.
    A par disso promoveram alterações legislativas, nos códigos processual penal e penal para proteger os pedófilos, como bem assinala, sem papas na língua, o juiz Rangel. Basta aliás atentar no artigo 30.º do Código Penal.
    Agora que Catalina Pestana corajosa e frontalmente veio denunciar o perigo real de na Casa Pia de Lisboa tudo voltar a acontecer, o PS destacou Ana Gomes para a atacar. De forma ordinária, malcriada e serventual, a deputada – a tanto chegámos… – que nada conhece do processo, vem injuriar uma mulher séria e digna.
    Ora a verdade é que se quisesse ser honesta, Ana Gomes teria que dirigir os impropérios de que parece ser feita aos seus correlegionários que, por acçao ou omissão, são responsáveis pela violação de centenas de crianças. E aos que, como ela, sem nada saberem, conspiraram, por formas diversas, contra a verdade.
    Mas prefere a prestativa tarefa de ofender Catalina Pestana. Porque não lhe perdoa a resistência às pressões do PS, nem a opção de permanecer corajosamente ao lado das vítimas. Afinal, tivesse Catalina Pestana cedido e agora poderia ser ministra de qualquer coisa. Mas o que efectivamente motiva o desnorte da deputada malcriada é o poder mostrar o lixo que produziu aos companheiros de bancada. Porque assim se arranjam os lugares e o actual governo é disso exemplo elucidativo”.

    Pedro Namora

  12. A reacção (pavloviana) da Ana Gomes é típica de uma certa “esquerda” que se acha acima de qualquer suspeita: então não querem lá ver a católica da Pestana a acusar o PS de estar metido no caso? Como se a pedofilia fosse monopólio da direita…

  13. Mais prova de amor pela humanidade e solidariedade parlamentar é esta opinião de Carlos Carvalhas, aquando da ilibação dum Pedroso lavado em lágrimas de contentamento:

    “Todos os cidadãos, políticos ou não, que não venham a ser pronunciados por a justiça não os considerar culpados é um regozijo para toda a gente.”

    Veio tudo pra rua com flores nesse dia.

  14. Este bofe podre da Casa Pia atrai o que há de pior aí pela gataria tinhosa da maledicência política. Já cá faltava o bacoco do Namora! Então o grande estúpido não vem agora insinuar que a Ana Gomes anda a mando da actual direcção do PS? Que infeliz!

  15. A primeira pessoa a sugerir a existência duma cabala contra o PS foi o próprio Ferro Rodrigues, que fora acusado em depoimentos de queixosos que foram tornados públicos. Alguém desmente?

  16. Com o “peixe podre” (de Sesimbra) este blogue já era, de longe, das melhores peixarias da área. A chegada do “bofe podre” obriga-nos à abertura de mais um balcão. Daqui a nada completaremos os serviços com “briol azedo” do Cartaxo e pudins Nikita com vermes.

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