Angiogénese

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Naquele dia, deixou-se fascinar por veias. Veias e artérias. Pensou e admirou o seu crescimento, a forma ordeira como se espalhavam em silêncio por dentro do seu corpo. Pequenos rios de sangue a crescer de acordo com as leis escondidas de uma orografia espantosa; alimentando continentes, levando cheias sem aviso a terras sequiosas. A cada segundo, mais um milímetro de tubagem era construído com precisão e sem fadiga. Quem convencera o seu próprio organismo a alimentar assim o pequeno invasor? E onde estaria o projecto de uma tal empreitada? Como poderia, logo desde o início, aquela mão-cheia de células ambiciosas comandar um prodígio assim?
E não era apenas a logística com que as linhas de abastecimento acompanhavam a invasão; todo seu corpo se rendia a um sem fim de exigências famintas, cedendo nutrientes, calor, protecção. Um instinto maternal à escala celular, colaborando com a inflação desenfreada dos tecidos?
Ela conformara-se desde o início. Sabia bem que esse era o caminho da Natureza. Aquela vida dentro de si só existia porque podia contar com uma hospedeira prestimosa. E apenas conhecia um ditame: crescer. Crescer sempre, mesmo que à custa de tudo o que a rodeava.

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Cancro Pequeno

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Quando pessoas de bom senso e sensibilidade se vêem do mesmo lado da barricada que malta da extrema-direita, algo de estranho aconteceu. Neste caso, aconteceu mais uma entronização das touradas no renovado altar do grunhismo nacional. Mesmo a tempo de prolongar esse êxtase do lusitanismo obscurantista que são as cerimónias da Cova da Iria e fazendo já a ponte para mais uma gloriosa jornada de patriotismo descartável a propósito do futebol.
Quando alguém aplaude como espectáculo uma encenação em torno da agonia de um animal, está a desistir de muitas das coisas que nos tornam humanos. Será folclórico, será do agrado dos turistas, será cultura… mas é por certo um momento de júbilo para o que há de mais negro nas nossas almas.

Relendo George

Neste país, nunca ninguém lê. Neste país, toda a gente «releu» sempre. Ou ainda o está fazendo. «Estou a reler Camilo…» Camilo, o tal, entenda-se. Está-se a reler «Os Maias», ou «O Milagre Segundo Salomé», ou «A Velha Casa». E cedo relerão toute Agustina, tout Antunes, tout Saramago.

E, está visto, sucede a todos. Estive, e digo-o a corar, estive a reler João Pedro George. Encontrei numa livraria Não é Fácil Dizer Bem (Tinta da China, 2006), e não resisti. Deitei-me, pois, a ler. E – agora vem – eu estava, na realidade, a reler. Uma parte do livro apareceu na «Periférica», o resto, e é muito, está simplesmente online no «Esplanar». Não dou os links, porque me importa, de momento, que prossigam a leitura aqui.

Reli, reli. E só senti uma falta. Duma pequenina nota de rodapé, corpo 8, digamos. É que, das talvez dezenas de atingidos pelo coruscante crítico, só um acusou o toque. Fui eu. Por isso, e só por isso, não teria sido nada de mais que JPG o tivesse assinalado. Ficava-lhe bem. Eu tive esse cuidado, esse bom gosto, quando, há uns anos, publiquei em livro as minhas georjadas, se assim me posso exprimir. Referi as reacções, nem sempre maravilhadas, daqueles que critiquei. (JPG, que abundantemente citou do volumezinho, poderá verificá-lo). Não é por nada, mas poupa-se trabalho aos investigadores, sempre haverá de havê-los, todos precisamos da nossa bucha.

Desse meu texto, fica aqui o essencial. Veio no número 11 da «Periférica», do Outono de 2004. Chamava-se «Aqui não há jantares. Uma resposta a João Pedro George». Dizia outras coisas e também isto:

A peça, «A coutada literária do Expresso», vinha assinada por João Pedro George. Era extensa, como o assunto pedia, e convocava quatro dos mortais que, na celebrada folha, se vêm eternizando. Era uma honra, não a atenção, porque tudo fazemos para consegui-la, mas a assinatura do George. Estava escrito, um dia calhava a nossa vez.

Há muito que o George traz os agentes culturais debaixo de olho. A todos. Anda fazendo a história da literatura actual, a verdadeira, a única realmente importante no futuro. A dos meandros, dos bastidores. É uma actividade meritória, sobretudo porque nunca suficientemente apreciada, sempre antes mirada com desconfiança. Todos quantos em Portugal, e não foram muitos, tentaram um dia a história da literatura coetânea acabaram esquecidos, activamente esquecidos. A universidade e o agenciamento cultural detestam ver-se examinados.

Isso não assustou o George. Continuou rastreando as movimentações de fundo, cartografando os processos e os conflitos, a pequena história que afinal não o era tanto assim. Mapeou, entretanto, alguns sectores da história presente, como as sondas fazem em Marte, criando vistas espectaculares, vertiginosas paisagens. E ali estava eu também, minúsculo relevo na vertigem.

Segundo o George, o Expresso desenvolveu um microclima literário de compadrio, de mútuo elogio, de autocomplacência. Os termos não são dele, sou eu que racionalizo. Nessa refervente calda, dois eixos se lhe desenharam então mais nítidos, mais descarados. Um que liga o filósofo e crítico António Guerreiro ao poeta e crítico Manuel de Freitas. Outro que corre entre o professor e crítico Ernesto Rodrigues e este vosso servidor.

Os medonhos ficheiros de João Pedro George justificam esta topografia. Um pressuroso vaivém de obséquios, de mimos, de conspirações, eis o que transpira da documentação. Ainda um escrevente não esvaziou o bafo, já o outro retoma alento. Dão-se o mote, dão-se a deixa.

Tem de fazer-se a George a justiça de supor nele, sobretudo nele, consciência de que isto é um retrato demasiado composto. É uma organização do caos, uma de numerosas, nem saiu mal feita. As realidades são, ainda assim, mais complexas.

E por aí prosseguia eu. Um dia, a posteridade haverá de ler-me. De reler-me, a desavergonhada.

Ainda o grande derby Couves x Alforrecas

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Em princípio, a estrambótica providência cautelar contra o livro do JP George terá destino daqui a pouco mais de uma hora. Não se aceitam apostas; espera-se sim que o bom senso prevaleça. Até lá, vai prevalecendo a promoção ao lançamento da Objecto Cardíaco e ao autor.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de pensar que o título desta pequena maldade, “Couves e Alforrecas”, caía que nem uma luva no recente ajuste-de-contas-em-forma-de-livro de MM Carrilho.

A Guerra em close-up

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Como fazer uma série de televisão sobre uma operação militar que envolveu centenas de milhares de soldados, sem dispor de grandes meios? Como mergulhar no inferno, sem gruas, hordas de extras, meses de pós-produção? Simples mas não fácil. Filma-se de perto a verdadeira matéria-prima das grandes guerras clássicas: a carne.
Eis a verdadeira vedeta da série “Dunkirk”, da BBC, de que ontem voltou a ser exibido o último episódio. A carne dos soldados. Carne suja, suada, rasgada, amputada, gangrenada. Ou apenas exaurida por esforços para lá do humano. A câmara faz mais do que procurar intimidade com as suas presas. Ela aproxima-se até que a pele mais não permite. Fixa-se nos poros, num nariz sujo, num ombro destroçado, numa esfregona que limpa um convés, ensopada de sangue. A câmara recusa a imobilidade, adopta os ritmos daqueles derviches insones; gira e rodopia, bem dentro do desespero dos soldados e civis envolvidos na maior evacuação militar da história. Induz a vertigem no espectador, faz do seu movimento mais uma barreira entre o horror da guerra e a nossa tranquilidade no sofá. De quando em vez, lá surgem as imagens documentais, algumas a cores, para nos lembrar que tudo aquilo aconteceu mesmo, ainda no tempo dos nossos pais. Estranhamente, os grandes planos de multidões em fuga a custo organizada, as enormes barcaças em chamas, todas as intrusões do mundo real no tecido microscópico da narrativa de “Dunkirk” acabam por funcionar como um contraponto perturbador na sua coerência: como se a verdadeira guerra apenas conseguisse igualar, nunca ultrapassar, em “realidade”, a presença palpável da carne dos actores.
E há o fantasma da sempre presente caução (bem anunciada no início de cada episódio) realista: estas histórias foram todas recolhidas de entrevistas e diários de sobreviventes. Cada nome, cada corpo, pertenceu mesmo a um ser humano. A intimidade que a câmara celebra a cada segundo não é apenas um artifício da ficção; é uma busca da realidade perdida no pó dos arquivos. Um último resgate dos heróis de Dunquerque.
E há os olhos também. Os olhos que são dos poucos sinais a distinguir cadáveres de combatentes ainda vivos. Os olhos do oficial inglês que abate um seu camarada desertor. Do ferido que só aguarda o tiro de misericórdia e recebe dos alemães um cigarro e água. Do moribundo que pestaneja sob a chuva, gota a gota, do sangue do seu companheiro de beliche. De Churchill ao ordenar que os feridos sejam deixados para trás.
“Dunkirk” é excessivo, manipulador, exibicionista, quase demagógico. Por tudo isso, é uma grande obra de televisão.

O Tibete de África

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O primeiro romance de MARGARIDA PAREDES é logo, também, um de violência, de sexo, de traumas. A receita da época? Enganam-se. A história não é de hoje, tem o seu desenlace numa guerra africana dos anos 90 e lança raízes numa Angola colonial, ela também em guerra. Que tudo gire em volta duma jovem gestora portuguesa de telecomunicações, eis o que não se esperava.

Só este pormenor: um dos apresentadores do livro – quarta, 17 de Maio, às 18.00, na Biblioteca Orlando Ribeiro, sita à Estrada de Telheiras, 146, em Lisboa – é este vosso servidor.

Multidão ausente

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A 36.000 pés, e como uma embaladora turbulência, leio um suplemento do NRC-Handelsblad, o diário holandês de referência. Traz um artigo sobre a tese de Kurt Gödel de ser o decorrer do tempo uma ilusão. A tese não convenceu ninguém, nem o seu amigo Einstein. Por um raciocínio que não penetrei totalmente, considerava-se que, a ser realidade o que Gödel intuíra, estaria a máquina do tempo praticamente concebida.

A corroborar tão decepcionante conclusão, o artigo dizia: «Se a máquina do tempo fosse possível, podia ter-se esperado um público considerável na crucifixão de Cristo».

E eu não sei que mais lamentar: se a falta da multidão, com a minha ausência nela, se a inexequibilidade da máquina do tempo. Cristo morreu para nos salvar? É, não se pode ter tudo.

Mais «eduquês»

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Jorge Buescu

Leio no número de Maio de A Página da Educação, excelente jornal de – e para – professores, o artigo de Licínio C. Lima, «O ‘anti-eduquês’ como ideologia pedagógica». É uma crítica, segura e moderadíssima, ao livro de Nuno Crato, O “Eduquês” em discurso directo, da Gradiva. Esse número de Maio, note-se, ainda não está em linha no site da Página.

A questão do «eduquês» e da ideologia que o inspira tinha, em França, excitado os ânimos, e feito estragos, no âmbito do Caso Lafforgue. Já aqui o tínhamos referido, citando Guilherme Valente, que, num artigo no Expresso, se referira ao mesmo Caso.

De uma comentadora nossa, Shyznogud, recebi – e muito agradeço – a referência de um artigo anterior de Jorge Buescu sobre a mesma «affaire». Veio publicado no número de Janeiro/Fevereiro de 2006 na Ingenium, Revista da Ordem dos Engenheiros. O texto foi, informa-se-nos, retirado da página da Escola Secundária de Alberto Sampaio, de Braga.

É um artigo magnífico, como são todos os deste grande mestre da divulgação. Lembram-se de «O mistério do bilhete de identidade e outras histórias» e de «Da falsificação de euros aos pequenos mundos»? É ele.

Destaco a passagem: «Estas políticas foram inspiradas por uma ideologia que consiste em passar a não valorizar o conhecimento, associada ao desejo de fazer a escola desempenhar outros papéis que não a instrução e transmissão do saber, à crença em teorias pedagógicas delirantes, ao desprezo das aprendizagens fundamentais, à recusa do ensino construído, explícito e progressivo, à doutrina do aluno “no centro do sistema” que “deve construir ele próprio os seus saberes”».

Trata-se da mesma visão das coisas – digo eu – que, na teorização literária, afirmava que «o leitor é que constrói o livro», a mesma que, portanto, permitia, e avalizava, monstruosidades, publicadas ou por publicar. Era a mesma, também, que proibia qualquer afirmação de gosto. Sim, proibia-se (e ainda se proíbe, senhores) dizer isto: «Gosto deste livro». Pois, a literatura é para ser ‘analisada’, não propriamente lida, e por nada deste mundo degustada.

Parecendo promover o aluno, essa pedagogia não faz senão abandoná-lo.

Estimada e leda MUSA

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No Verão de 2003, três alfacinhas de férias na Zambujeira do Mar, cercados por fogos de dimensão histórica, incendiaram-se num projecto: organizar, editar e publicar, com distribuição internacional, um livro exclusivamente só com peças de design gráfico de artistas portugueses. Na Primavera de 2006, conseguiram-no.

MUSABOOK foi o nome escolhido; e desse projecto nasceram outras actividades preparatórias, complementares e divergentes, reunidas sob a marca Musa. A editora é a IDN, de Hong-Kong, uma das maiores e mais reputadas editoras mundiais em design gráfico.

O feito é tanto de realçar quanto em Portugal, como indulgente e auto-intitulado “país de poetas”, não existe cultura visual. Essa iliteracia estética está patente na feia paisagem urbana, na modéstia da pintura, na pobreza da ilustração, no deserto do cinema. Mesmo assim, e até por isso, o espírito que animou o projecto tinha um cunho decisivamente nacional e geracional.

Este vosso humilde escriba assina, com outro criptónimo, um dos textos introdutórios no livro, mas não faz parte do trio fundador, sequer partilha as mesmas disciplinas. Acontece, apenas, haver uma coincidência de olhares. Consequentemente, o que atrás fica escrito não tem um único caractere imparcial.

O Quinto Império vai ter olhos azuis

O que vai ser de Portugal? A economia esboroa-se. O optimismo foi fazer companhia aos dodós no paraíso das criaturas alérgicas à realidade. Os analistas mais lúcidos só concordam num ponto: ninguém sabe porque é que esta nação porfia na acédia e derrapa na ineficiência desde há séculos. As “elites” empresariais rabiam à caça de culpados, nunca se lembrando de procurar no cotão dos seus umbigos forrados a Maludas. Os pessimistas passam dias a gemer o luto antecipado pelo finis patriae. E a realidade teima em dar-lhes razão: a cada ano, lá somos ultrapassados por mais um recém-chegado à europeia fraternidade. Até já se estimou a data em que daremos connosco a segurar com cotos decrépitos a lanterna vermelha desse pelotão imparável: 2050.
Se Portugal fosse um animal, a extinção seria destino certo e merecido. Mais uma experiência falhada, mais um projecto simpático mas inviável. Um dia, Portugal acordaria vazio. Assim sem mais menos. E, como a geopolítica e a demografia têm horror ao vácuo, logo outras populações viriam reclamar tanta riqueza imobiliária devoluta. Construindo cidades vibrantes onde hoje estiolam praças desertas; empresas inovadoras em vez dos estaminés que agora se limitam a dar “empregos”, não trabalho; multidões alegres em lugar das sorumbáticas turbas portuguesas.
A única coisa que nos poderia salvar? Uma mutação inopinada que nos ofertasse novas qualidades, que nos trasnmutasse em criaturas plenas de energia, inteligência e instinto. Impossível, desconfia o bom-senso. Infelizmente, acrescenta o mesmo.
Mas… e se esta mutação já estiver mesmo em curso?

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Bubble Boy

Depois de uma semana passada debaixo de água, no interior de uma esfera de acrílico, em Nova Iorque, o ilusionista David Blaine quis rematar o brilharete com um recorde mundial: ficar nove minutos submerso e sem respirar, ao mesmo tempo que se libertava de pesadas correntes que lhe prendiam as mãos e os pés. A coisa deu para o torto ao fim de sete minutos, quando o pseudo-Houdini desmaiou e tiveram que o retirar da água in extremis. Mais do que a desfaçatez de querer ultrapassar limites de apneia ao mesmo tempo que fazia um exercício de escapismo, o que mais impressiona nesta história toda é a tortura voluntária a que Blaine se entregou. Além de muitos outros efeitos secundários da permanência durante sete dias dentro de água, a partir de certa altura a pele do ilusionista começou a cair, sobretudo a das mãos (o que obrigou ao uso de umas luvas especiais). Nas palavras de Blaine, a dor equivalia a ser picado de forma constante por agulhas. E para que serviu tanto sofrimento? Para os 15 minutos de fama da praxe (a juntar aos que recebeu quando ficou suspenso numa caixa sobre o Tamisa)? Please. Como diz a outra, get a life, Bubble Boy.