Relendo George

Neste país, nunca ninguém lê. Neste país, toda a gente «releu» sempre. Ou ainda o está fazendo. «Estou a reler Camilo…» Camilo, o tal, entenda-se. Está-se a reler «Os Maias», ou «O Milagre Segundo Salomé», ou «A Velha Casa». E cedo relerão toute Agustina, tout Antunes, tout Saramago.

E, está visto, sucede a todos. Estive, e digo-o a corar, estive a reler João Pedro George. Encontrei numa livraria Não é Fácil Dizer Bem (Tinta da China, 2006), e não resisti. Deitei-me, pois, a ler. E – agora vem – eu estava, na realidade, a reler. Uma parte do livro apareceu na «Periférica», o resto, e é muito, está simplesmente online no «Esplanar». Não dou os links, porque me importa, de momento, que prossigam a leitura aqui.

Reli, reli. E só senti uma falta. Duma pequenina nota de rodapé, corpo 8, digamos. É que, das talvez dezenas de atingidos pelo coruscante crítico, só um acusou o toque. Fui eu. Por isso, e só por isso, não teria sido nada de mais que JPG o tivesse assinalado. Ficava-lhe bem. Eu tive esse cuidado, esse bom gosto, quando, há uns anos, publiquei em livro as minhas georjadas, se assim me posso exprimir. Referi as reacções, nem sempre maravilhadas, daqueles que critiquei. (JPG, que abundantemente citou do volumezinho, poderá verificá-lo). Não é por nada, mas poupa-se trabalho aos investigadores, sempre haverá de havê-los, todos precisamos da nossa bucha.

Desse meu texto, fica aqui o essencial. Veio no número 11 da «Periférica», do Outono de 2004. Chamava-se «Aqui não há jantares. Uma resposta a João Pedro George». Dizia outras coisas e também isto:

A peça, «A coutada literária do Expresso», vinha assinada por João Pedro George. Era extensa, como o assunto pedia, e convocava quatro dos mortais que, na celebrada folha, se vêm eternizando. Era uma honra, não a atenção, porque tudo fazemos para consegui-la, mas a assinatura do George. Estava escrito, um dia calhava a nossa vez.

Há muito que o George traz os agentes culturais debaixo de olho. A todos. Anda fazendo a história da literatura actual, a verdadeira, a única realmente importante no futuro. A dos meandros, dos bastidores. É uma actividade meritória, sobretudo porque nunca suficientemente apreciada, sempre antes mirada com desconfiança. Todos quantos em Portugal, e não foram muitos, tentaram um dia a história da literatura coetânea acabaram esquecidos, activamente esquecidos. A universidade e o agenciamento cultural detestam ver-se examinados.

Isso não assustou o George. Continuou rastreando as movimentações de fundo, cartografando os processos e os conflitos, a pequena história que afinal não o era tanto assim. Mapeou, entretanto, alguns sectores da história presente, como as sondas fazem em Marte, criando vistas espectaculares, vertiginosas paisagens. E ali estava eu também, minúsculo relevo na vertigem.

Segundo o George, o Expresso desenvolveu um microclima literário de compadrio, de mútuo elogio, de autocomplacência. Os termos não são dele, sou eu que racionalizo. Nessa refervente calda, dois eixos se lhe desenharam então mais nítidos, mais descarados. Um que liga o filósofo e crítico António Guerreiro ao poeta e crítico Manuel de Freitas. Outro que corre entre o professor e crítico Ernesto Rodrigues e este vosso servidor.

Os medonhos ficheiros de João Pedro George justificam esta topografia. Um pressuroso vaivém de obséquios, de mimos, de conspirações, eis o que transpira da documentação. Ainda um escrevente não esvaziou o bafo, já o outro retoma alento. Dão-se o mote, dão-se a deixa.

Tem de fazer-se a George a justiça de supor nele, sobretudo nele, consciência de que isto é um retrato demasiado composto. É uma organização do caos, uma de numerosas, nem saiu mal feita. As realidades são, ainda assim, mais complexas.

E por aí prosseguia eu. Um dia, a posteridade haverá de ler-me. De reler-me, a desavergonhada.

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