Vinte Linhas 357

«Ninguém nos peça o que não somos» (Pedro Homem de Mello)

A propósito de algumas ferroadas quase venenosas que aqui foram publicadas sobre o texto do Cristiano Ronaldo não podia deixar de recordar (para quem já se esqueceu) que a minha entrada no «aspirinab» foi patrocinada pelo Fernando Venâncio a propósito de um texto meu publicado na Gazeta das Caldas com o título sugestivo de «Não o ponha tão alto que ele nem é licenciado!». Tudo aquilo tinha um enquadramento: aquela frase aparecia proclamada por uma criatura que julgava exagerado tanto o espaço ocupado pelo meu verbete no Dicionário de Literatura Jacinto do Prado Coelho como a nota atribuída por Clara Rocha, Silvina Rodrigues Lopes e António Cândido Franco à tese de mestrado de Ruy Ventura sobre a minha obra poética. Eu tive o cuidado de fazer acompanhar o meu texto de duas citações – uma de José Loureiro Botas e outra da Tomás Ribeiro Colaço. Ou seja: a propósito de um incidente que me colocava no centro de uma pequena polémica eu tive o cuidado de chamar a atenção para uma outra história exemplar passada nos anos 40 com um escritor sobre o qual se dizia que não tinha nome de escritor. E também não era licenciado. Moral da história: Fernando Venâncio, que teve em 1993 a inteligência, a capacidade investigativa e o discernimento para explicar a todos nós que no tempo do Eça de Queirós quem era muito conhecido era o Pinheiro Chagas (tal como no tempo de Cesário Verde o famoso era Cláudio Nunes) terá visto nessa minha crónica um bom princípio para me convidar. Aceitei e aqui estou para o que der e vier. Quem sabe se o Valupi não verá nesta crónica sobre Cristiano Ronaldo um motivo para suspender a minha participação. Aceitarei. Mas o Pedro Homem de Mello tem razão.

Por favor, falem mais do Freeport

Que se saiba, a polémica relativa à licenciatura de Sócrates, mais a da sua actividade profissional na Guarda, não produziu matéria factual para o comprometer legal, política ou moralmente. As sondagens, e a voz na rua, não manifestaram haver escândalo popular nem especial dano à sua credibilidade. E não foi por falta de investigação, nem de recursos, nem de interesses os mais violentos e desesperados, que tudo se ficou pelas suspeitas infundadas, antes porque os esclarecimentos dados por Sócrates e pelas entidades envolvidas não foram contraditos. Mas vamos imaginar que existe pelo menos um ser humano neste mundo que acredita haver boa razão para manter as calúnias, e vamos imaginar que ele se chama Zé Manel e é director de um jornal diário que já mereceu ser lido. Esse ser humano, posto que em conflito com a realidade, tentará com crescente intensidade convencer os outros da superioridade do seu entendimento das coisas. Por exemplo, pode chegar ao ponto de escrever um editorial onde se serve de um blogue para afirmar que Sócrates é igual a Dias Loureiro, e ainda afirmar que Vital Moreira fez muito mal em exigir ao PSD que se responsabilize política e moralmente por alguns dos seus mais importantes militantes e colaboradores e respectivas acções — quando estas ofendem o bem comum na gravidade e tipologia do caso BPN. Este Zé Manel, a existir, e a ter escrito o editorial no dia 30 de Maio de 2009, é um dos mais notáveis e poderosos promotores da campanha negra.

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Vital erro de casting? Think again

Vital entra na segunda parte da compita transformado na grande vedeta da campanha eleitoral, com o Rangel reduzido à insignificância de um fala-barato sem ideias nem credibilidade, e o PS com uma sondagem muito simpática. É uma enorme surpresa.

E surpresa enorme está a ser a ousadia do seu discurso. O que disse do BPN foi uma cabeçada à Cais do Sodré; ou seja, nem se percebeu donde veio, mas acertou em cheio na mona do opositor. A direita ranhosa estranha e barafusta assustada porque tem estado muito mal habituada, achando-se no direito de vociferar os maiores impropérios contra Sócrates a partir das calúnias da campanha negra, e calando-se medricas e sem honra perante o escândalo de ver uma parte da elite do PSD e da banca expostos como chungosos ladrões ou inacreditáveis incompetentes (não sendo claro qual das duas possibilidades seja mais dolorosa para os acabrunhados socias-democratas).

Há no Vital uma confiança na democracia que se aprende a conhecer, e que nenhum outro candidato tem. Todos são de plástico comparados com ele, que é granítico na sua honestidade intelectual. A curva de crescimento da sua popularidade é uma incógnita: até onde poderá chegar?

Crespologia – V

Assistir ao Jornal das 9 com o Crespo é testemunhar a prestação profissional de alguém que devia estar de baixa ou a trabalhar na TVI, sendo que estas duas alternativas poderiam até ocorrer em simultâneo que ninguém iria perceber a diferença. Hoje abriu as hostilidades com a leitura de uma notícia vaga sobre aquilo que parecia ser a saída de Lopes da Mota do Eurojust. A satisfação no seu rosto era exuberante, estava pimpolho e justiceiro. No frente-a-frente, com Helena Roseta e Miguel Relvas, era disso que ele queria falar, da saída do Lopes da Mota, pois é só disso que ele quer falar com quem lá vai alimentar o ogre. E eles falaram, dizendo as banalidades possíveis. Passado um bocado, surgiu uma clarificação da notícia anterior, e Lopes da Mota voltava a ser admitido no Eurojust pela simples razão de nunca de lá ter saído. Crespo desrespeitou toda e qualquer metodologia de aferição e esclarecimento da informação que serviu aos convidados, os quais acreditaram ser factual. Trata-se de um erro profissional grave e de uma falha deontológica muito grave, pois levou terceiros a prestarem declarações sobre falsidades. Isso poderia, ou poderá, ter consequências de vária ordem, escusa-se de explicar.

Crespo é uma pessoa doente, paranóica; ou, a não ser, é um debochado, um raivoso. O espaço que apresenta não é informativo, é o palanque opinativo onde se serve da ambiguidade do seu estatuto profissional para deformar o serviço noticioso. Atitude especialmente cobarde, pois, se é apenas opinião o que deseja fazer no espaço público, não devia apresentar aquele formato mediático.

Agora já sabes: se fores convidado do Crespo, leva o telemóvel para o estúdio. Vais precisar de ligar a alguém de confiança antes de comentar seja o que for que ele diga que aconteceu.

Miscelânea

Why It May Be Wiser To Hire People Without Meeting Them

How Many Scientists Fabricate And Falsify Research?

Fighting Back Against Abuse With GPS

Most Polluted Ecosystems Can Recover, Study Finds

Completely Different Way Of Looking For A New Antibiotic

Don’t cure cancer, stabilize it*

Rethinking the Global Money Supply

Achieving Fame, Wealth And Beauty Are Psychological Dead Ends, Study Says

Thomas the Tank Engine helps autistic kids identify emotions

Biochemists And Computer Scientists Collaborate To Create Protein-folding Computer Game

When Mice Choose Mates, Experience Counts**

‘Evolutionary Algorithms’ Mimic Natural Evolution In Silico And Lead To Innovative Solutions For Complex Problems

The Liberating Effects Of Losing Control***

Men And Women Are Programmed Differently When It Comes To Temptation
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* Genial
** Coisas que nem vale a pena perder tempo a estudar, posto que estão sempre a acontecer à nossa volta
*** Não tenhas medo do preto

Um livro por semana 121

boa-morte-manuel-de-freitas

«Boa Morte» de Manuel de Freitas

Nestes 16 poemas de Manuel de Freitas (n. 1972) há o registo da viagem na geografia de uma ilha. «Boa Morte» é o título do último poema do livro: «Não se pode acreditar num mapa / numa vida. Apagam-se, como levadas / secas, todas as palavras que escrevi». O contraponto entre vida e literatura, aqui enunciado, surge no poema «São Martinho»: «Tenho atrás de mim um bar / e à frente um cemitério. / Assim (na opinião de um amigo) / deveria terminar não apenas o postal / mas um poema que não escrevi».

A viagem é a metáfora da vida; por essa razão os títulos de todos os poemas são lugares, paisagens povoadas como «Câmara de Lobos», «Calheta» ou «Ponta Delgada» por exemplo. Ou «Porto da Cruz»: «Não me esquecerei. O engenho de / açúcar, à direita de quem morria / lançava calmos apelos de desordem».

Entre o precário da vida («O indeclinável cerco da tristeza / levou-me aonde queria sempre estar») e o inevitável da morte («a igreja velha onde o meu pai / aprendeu música já só abre para velórios») surge o amor enquanto recusa da morte: «A aflição da luz tornava-se / mais concreta. Seguimos / sem demora para o Pico do Areeiro / com passagem pelo Poço da Neve – onde uma ave negra debruava o céu / Mas não quis morrer».

Na aparente simplicidade dum poema breve inscreve-se a interrogação maior da vida: «De repente, pai, entre / o silêncio de duas ondas / ouvimos a única pergunta: / quantas vezes / ainda nadaremos juntos?»

(Edição do autor, Capa de Luís Manuel Gaspar)

Maluco do riso

Cavaco tem-se revelado um cómico de vocação, fazendo chalaças e trocadalhos a propósito das grandes questões da actualidade. É um contraste chocante com a imagem de austero e lacónico professor de Finanças que cultivou durante 30 anos, desde o Governo de Sá Carneiro, mas veio para ficar. O caso Dias Loureiro não será excepção, e os brilhantes conselheiros do piadista de Boliqueime andam numa roda-viva a escrever graçolas para entregar ao chefe. É patriota ajudar o Presidente da República neste tão importante momento da política nacional, onde se assiste ao julgamento moral do cavaquismo. Aqui fica um contributo.

Humor presidencial:

O Dr. Dias Loureiro disse-me que não cometeu qualquer ilegalidade, mas eu lembrei-me logo foi da ASAE, que podia aparecer numa reunião do Conselho de Estado só para chatear. Foi melhor assim.

Perguntarem-me se me escandaliza ver um conselheiro de Estado a mentir perante a Comissão Parlamentar de Inquérito não é “just”, mesmo quando a matéria diz respeito a milhões de “euros”.

Quanto às pessoas envolvidas no calote do BPN, tenho uma opinião muito bem definida sobre elas ali na algibeira, mas está na algibeira do casaco.

Esta traquitana toda do BPN e SLN é como um bolo-rei: quem parte e reparte e não se engasga nas declarações às autoridades, esse é que fica com a melhor parte.

Eu não faço qualquer distinção entre os 19 conselheiros de Estado. Aliás, foi por isso mesmo que deixei de convocar o Conselho de Estado, pois eu estava sempre a baralhar os nomes e aquilo era um sarilho primeiro que conseguíssemos iniciar os trabalhos.

Anda muita gente preocupada com os dois mil milhões de euros que foram à vida, mas o que realmente me preocupa é a seguinte questão: é “Oliveira e Costa” ou “Oliveira Costa”? Os portugueses precisam que lhes falem verdade.

O caso BPN, para mim, olhe… tem Dias…

Vinte Linhas 356

Cristiano Ronaldo poderia ter morrido em 17-10-1999

O anúncio televisivo com Cristiano Ronaldo a dizer que daqui a três anos terá o dinheiro no BES arrepiou-me e trouxe-me à memória o dia 17 de Outubro de 1999. Era uma manhã gelada no pelado de Pina Manique, o jogo Casa Pia-SCP, 5ª jornada do Nacional de Iniciados. Chuva e frio ao mesmo tempo e em doses fortes. Aos 24 minutos, sem nada que o fizesse prever, o árbitro António Cardoso interrompe o jogo e chama de imediato o enfermeiro Fontinha. O jogador nº 10 do SCP estava mal. Muito mal. O pulso estava a correr como um cavalo à solta, a taquicardia foi sustida com uma injecção mas só a operação pôde mais tarde debelar o problema que era grave e congénito – o músculo do coração funcionava em duplicado. Tudo correu bem em Santa Cruz e o menino que veio da Madeira com 11 anos pôde prosseguir a carreira até aos píncaros da fama mundial. Eram seus colegas de equipa o Carlos Saleiro (que brilhou na Académica este ano) e o João Pimenta que me lembro de ver jogar no Covilhã além do Christopher que jogou no Torriense. O Carlos Marques chegou à equipa «B» do Sporting. A minha crónica no jornal «Sporting» de 19-10-1999 ficou com o título de «Triunfo no lamaçal» e referia duas contrariedades: a febre do guarda-redes Christopher e a taquicardia do Cristiano Ronaldo além da maior e mais geral – jogar num lamaçal quando o relvado estava às moscas. O treinador era Rui Palhares e o delegado era António Atanásio. O fotógrafo foi Vinicius Carriço mas só saiu uma fotografia porque era preciso espaço para as fichas dos jogos de Escolas e Infantis onde já brilhava um tal Daniel Carriço, esse mesmo. Ninguém é senhor do seu destino e por isso me arrepio quando vejo o anúncio. E sei porquê.

Sociedade lusa dos negócios

O depoimento de Oliveira Costa transcende em importância tanto a situação de Dias Loureiro como a responsabilidade moral de Cavaco Silva sobre ambos. Não terei sido o único a ficar surpreendido, aposto, com o registo de completa descontracção do preso à solta. Parecia que tinha nascido para aquele papel de arrebimbomalho e estar na cerimónia da sua consagração como rockstar da banca. À saída, depois de 8 horas a reduzir Loureiro, Coimbra e Cadilhe a farrapos e dos relatos a operações à próstata com pós-operatórios heróicos e outras maleitas do camandro, não resistiu a mandar bocas encharcadas de lubricidade às jornalistas que o cercavam. Era como se tivesse 20 fogosos anos e um descapotável estacionado em frente à escadaria de S. Bento para levar alguma a dar uma voltita pela Marginal. Quer-se dizer, temos homem.

Todos os que trabalharam no BPN e SLN, ou foram accionistas, têm uma responsabilidade que está em relação directa com a sua posição na hierarquia e o seu poder accionista. Assim, basta olhar para a listagem desse grupo de pessoas e identificar a tipologia do envolvimento ético daqueles que aceitaram ter um líder como Oliveira Costa. Ficámos ontem a saber algo mais sobre eles, através do muito que se tornou transparente nas opacas declarações à comissão de inquérito. O que fica é um retrato debochado, imagem de gente que provavelmente terá ficado tão intoxicada com a facilidade com que todos enriqueciam que perderam o contacto com a realidade. A promiscuidade com os poderosos, as engenharias dos financiamentos partidários, as protecções e cumplicidades das direcções políticas, os cruzamentos amiguistas, os nós de interesses financeiros e as filiações pessoais, mais do que chegavam para um sentimento de impunidade blindado. Por isso se dizia, quando o caso começou, que seria impossível Dias Loureiro deixar-se apanhar — tão fundo, e tão alto, chegava o seu poder.

Outro elemento de interesse antropológico está na reacção dos blogues da direita ranhosa. Silêncio traumatizado e cobarde até à demissão do Loureiro, imediata reacção histérica após a notícia com imbecis ataques a Sócrates. Imbecis e reveladores daquilo que Oliveira Costa, fazendo História, desvelou na sede da democracia: há muitos que trocarão a alminha e o cuzinho por trocos só para protegerem a sociedade lusa dos negócios.

O gato de Fernanda – nove fragmentos

Atento, discreto, pacato. No perímetro da luz, olha a dona. O gato.

No lume aceso com a lenha do barracão antigo, as sombras são afastadas até ao sótão da infância. Aos gatos, sua paisagem, seu povoamento.

Que força empurra o gato frente ao sol no castanho-luz do telhado?

Teu gato a quem a chuva proíbe telhados e terraços. Veio do Egipto num navio de Veneza. No Cacém, sorri à dona portuguesa.

Terra trazida. Pequenas partículas de chuva nos limões e nas maçãs, invisíveis memórias de uma terra trazida. Minha terra, perto do teu gato.

Vejo intervalos de sol nos telhados do bairro, humidade permanente a respirar nas telhas como se o prédio fosse um corpo cansado, humano. O gato espreita.

Roubar alguns cabelos teus para fazer cordas de uma guitarra. Suave melodia, frente ao gato.

Há no teu olhar telhados infinitos, memória de paquetes brancos no rio e de sardinheiras vermelhas na varanda ao lado. Luz e calor. Gatos e sorrisos.

Há na tua voz um som que incorpora os sinos de Lisboa. De São Roque à Sé, da Conceição Velha à Madre de Deus. Toda a geografia de um afecto assim reproduzido, junto ao gato na janela.

Falar verdade

Dias Loureiro foi recebido pelo Presidente da República no dia 24 de Novembro de 2008. À saída, disse que lhe comunicou toda a verdade sobre os imbróglios da SLN e BPN. Pelo seu lado, Cavaco fez do tema da verdade o centro estratégico do seu discurso para este ano triplamente eleitoral. Numa espantosa coincidência, o PSD também se lembrou do mesmo e anda a prometer a verdade aos portugueses. Oliveira e Costa gostou da ideia e resolveu partilhar umas verdades. Não? São mentiras? Ah, espera… Nesse caso, um dos dois, Cavaco ou Loureiro, que venha contar o que sabe, contar a sua verdade.

Os Presidentes da República, pelo menos esses, devem ser coerentes com a ética que recomendam a terceiros.

Vinte Linhas 355

«A Ericeira vista por quarto gerações Franco Caiado» entre 1895 e 2007

Publicado pela Mar de Letras, organizado por José Constantino Costa e com prefácio de Maria da Conceição Reis, este livro divulga um tempo significativo (1895-2007) da história da Ericeira no testemunho de quatro gerações. A família Franco Caiado tem raízes na Ericeira desde 1630. O ponto de partida do livro são os escritos de António Franco Caiado (1871-1941) que regressou de África em 11-1-1895, pegou na casa comercial da família e iniciou o registo dos factos marcantes da Ericeira. Veja-se o 5-10-1910: «Rebentou a República. De manhã, pelas 10 horas fundeou aqui defronte o vaso de guerra. O comandante veio a terra, montou num cavalo e foi a toda a pressa a Mafra convidar a família real a embarcar, o que fizeram pelas 3 da tarde». José Leão Franco Caiado (1905-1969) escreveu sobre os anos de 1931 a 1968 tendo registado em 20-6-1945 a «visita emocionada da última rainha de Portugal» ao lugar de onde partiu para o exílio em 1910. Pio António Caiado (n. 1930) participa com o maior número de páginas (68) e recorda figuras da Ericeira como os médicos da terra (Bento Franco, António José Caiado e Manuel Peralta) e os de fora (Álvaro Malta, Arsénio Cordeiro e Fernando Namora), os padres da vila (Padre Zé, Padre Monteiro) e o Padre Cruz que em 1929 já tinha fama de santo. Recorda os fadistas (o Airoso, o Grande, o Pirolito, o Zé de Mafra e o Francisco Gato) e os que eram apontados pelos seus defeitos (Luís Pateta, Américo Marreco, Tanganho) sem esquecer o Catitinha que andava nas praias a alertar as crianças para o perigo dos automóveis; dizia-se que lhe morreu um filho atropelado. O quarto texto pertence a Nuno Franco Caiado (n.1959) para quem «olhar a terra é ver um amontoado de casas num sítio proibido mas devidamente permitido por alguma personagem dotada de excepcional incompetência cognitiva». Conclui de forma certeira: «A Ericeira de hoje é parte de um subúrbio mas continua a mobilizar entusiastas com as praias, as Furnas, as Ribas, os restaurantes e as vistas que restam.»