Temos azar com eles

Temos azar com os Presidentes da República. Ainda não apareceu algum que deixe saudades, quanto mais ser exemplo de sabedoria; ou sequer que tenha uma qualquer ideia de Portugal que faça um qualquer sentido para os portugueses. Fingimos, até ao ponto de acreditar, que não faz mal estarmos pauperrimamente servidos lá por Belém — mas continuamos a dispensar a parvoeira em tão importante função.

A hipótese mais votada neste país de taralhoucos, e de hipocondríacos, era a da doença. Cavaco estaria gravemente doente e iria anunciar o abandono. Só isso justificaria o funesto silêncio quanto à alocução das oito da noite. Ou, então, Sócrates tinha sido apanhado a trocar armas por droga, na Quinta da Fonte, e o Governo teria de ir abaixo. De facto, a sua comunicação resumiu-se a uma queixa ressabiada contra todos os partidos com representação na Assembleia da República, a propósito de questões consideradas legítimas pelo Tribunal Constitucional. Isto confirma o acerto da previsão: o tipo está doente da cachimónia e qualquer semelhança com a responsabilidade presidencial é pura coincidência.

O trágico do episódio, porém, estava guardado para as 10 da noite: observei-me, como em sonho, a concordar com o Luís Delgado. Ainda não tenho uma estimativa dos prejuízos causados por tal catástrofe, nem sei como irei recuperar da vergonha. Apenas juro, Cavaco, que jamais te perdoarei.

E tu, sabes como começa uma massagem?


Toca na imagem se a quiseres ver maior ou se não tiveres alguém a quem dar, ou de quem receber, massagens.

Hoje em dia, e mesmo no dia de hoje, é sinal exterior de cultura afirmar em restaurantes, enquanto se encharca o coto de pão no pires de azeite, que foi Al Gore quem inventou a Internet, dando assim o melhor uso ao tempo livre que lhe caia nas mãos nas diversas, e sobejas, ocasiões em que não conseguia reunir-se com Bill Clinton; por estar este na labuta, coitado, deixando uma parte indelevelmente íntima e substancial de si no exercício da presidência, o que o impelia a ficar na Sala Oral até ao mais indisfarçável e pungente definhamento, contando para o efeito apenas com os préstimos de uma jovem estagiária, e recorrendo à duvidosa ajuda de alguns charutos dominicanos, os quais nunca conseguiu acender convenientemente, apesar das sucessivas tentativas, nalguns casos frenéticas, que até lhe pelaram a barriga do polegar como resultado do friccionar intenso da derme não calejada na rodinha dentada (é o nome técnico da peça) de um isqueiro Bic, dos pequenos, em cor azul-marinho. Ora, quem sabe da génese da Internet, sabe igualmente que a sua principal função, estes anos todos depois, ainda se resume à repetição ad nauseam de notícias idiotas tão ao agrado dos imbecis que sobre elas escrevem. É o que vou fazer já de seguida.

Continuar a lerE tu, sabes como começa uma massagem?

Um partido sem colhões

Nunca ninguém no PSD teve coragem para denunciar a corrupção e se demarcar dos vómitos de Jardim. Nunca, ninguém. Jaime Ramos será o continuador deste sistema que chantageia uma população ignorante, isolada e pervertida. O que acontece na Madeira é uma vergonha nacional, mas não é caso único, nem sequer o mais grave. Grave será pertencer a um partido sem colhões.

Veremos se a Manela de Ferro os tem, como se andou a prometer. Quem quer governar a casa tem de conseguir desinfectar a despensa.

«O cavaleiro da Ilha do Corvo» de Joaquim Fernandes

O ponto de partida deste livro (editado pelo Círculo de Leitores) é o episódio do desaparecimento dos restos da estátua do cavaleiro da Ilha do Corvo que o rei D. Manuel I mandou arrumar nos roupeiros da sua antecâmara em Almeirim no ano de 1519. E uma pergunta do rei venturoso: «Que teria a sua minúscula ilha de especial para albergar tão misterioso aviso em forma de estátua equestre?»
Dois jovens investigadores (Michael, americano e Lúcia, portuguesa) lutam contra uma seita (Os Cristoforos) para descobrirem a verdade sobre o cavaleiro da Ilha do Corvo: «A História está traçada desde há muito. Os livros já escritos vão continuar a ser lei e assim deverá continuar.»
Há perseguições nas estradas de Sintra, agressões a um cientista belga, mortes misteriosas de pessoas que tentaram ajudar os dois jovens investigadores, o suicídio de um responsável da Torre do Tombo no Padrão dos Descobrimentos e tudo isto acontece para que nada mude: «Impedir que os «povos sem Cristo» tomassem na História o lugar de pioneiros na descoberta do Novo Mundo. Preservar a todo o custo a imagem de Cristóvão Colombo como primeiro descobridor da América. Defender a ideia da primazia absoluta das viagens marítimas portuguesas no Atlântico. Uma das pistas mais curiosas é a descoberta de moedas cartaginesas na Ilha do Corvo no século XVIII. Como a data das moedas é entre 330 e 320 anos antes de Cristo, o mesmo é dizer século IV antes da era cristã, é mais um argumento a favor da ideia de que as ilhas portuguesas do Oceano Atlântico não foram descobertas pelos Portugueses mas apenas redescobertas.

(lido aos microfones da RDP Antena Um Açores em 18-7-2008 às 12 horas tempo de Lisboa)

Vinte Linhas 272

«A cunhada do Pintor» no Museu do Prado

O Museu do Prado encheu-se de retratos antigos na exposição «El retrato del Renacimiento». Um dos mais famosos é o retrato feminino de Bernardino Lucinio. O dito quadro, também conhecido por «A cunhada do Pintor», dá-nos a beleza em esplendor de uma mulher com um livro na mão. Este pormenor (com um livro na mão) lembra-me uma mulher que à hora a que escrevo, algures entre as estações de Nuevos Ministérios e de Barajas Terminal 4, deve estar a fechar a porta da sua livraria em Lisboa. Isto porque em Lisboa os relógios marcam menos uma hora. Mais ao lado está o retrato de Katharina Fürleger de Dürer e um Tintoretto com a imagem de Verónica Franco, a mais bela mulher que viveu em Veneza entre 1546 e 1591. E também Rubens com Brígida Spínola Dória sem esquecer Franz Pourbus com a bela Margarida Gonzaga. Em todos estes quadros há o projecto alcançado de vencer o tempo. Quase quinhentos anos depois de terem sido pintados, permanece nestes óleos uma beleza que não morre. Morreram os modelos mas o produto do trabalho dos artistas chega intacto até nós. No meu caso sem necessidade de pagar – os porteiros do Museu do Prado aceitaram a carteira profissional e, com um sorriso, entregaram-me um bilhete a zeros. Não são como os do Jardim Botânico que me obrigaram a pagar 2 euros. Quis juntar Arte e Natureza no mesmo dia. Além de uma temperatura agradável lá descobri uma rua dedicada ao nosso Avelar Brotero. Quando saí do Jardim Botânico a caminho da estação de Atocha ainda trazia no olhar o esplendor da beleza das mulheres da Renascença misturado com a memória da beleza de uma mulher que, a essa mesma hora, pegava num livro e fechava a porta da sua livraria em Lisboa.

ciência em tempos de bolsas

Em Espanha há um senhor que foi galardoado com um prestigioso prémio de investigação. A parte engraçada é que esse senhor, quando recebeu o prémio, ja tinha desistido da investigação e optado por dar aulas no secundário, ter uma vida pessoal e até mesmo fazer um filho.
Em Portugal, para fazer investigação, há que ter uma bolsa, e andar a saltar de Bê em Bê: começa-se com umas 3 BI, segue-se para uma BM, uma BD, um par de BPDs, e eventualmente, se correr bem, ser um cientista dois-mil-e-tais. Em Espanha, para além de bolsas (e diga-se em abono do país que há muitas mais entidades a dar bolsas), há mais algumas maneiras (contratos temporais e afins) que permitem mais alguma versatilidade na ciência, permitindo a pessoas que ainda não publicaram ou que tiveram piores notas fazer ainda assim ciência. Tanto estes contratos como as variadas bolsas são temporais. Tanto num país como noutro cada par de anos há que concorrer à próxima bolsa, nunca sabendo se esta vai ou não ser conseguida, até ao dia em que um cientista, acabadinho de fazer 40 anos, descobre que as BICs não são “bolsas para investigadores cotas”, e descobre que está desempregado.
Por isso é que o dito senhor que ganhou o prémio já não fazia investigação. Há quem prefira ter estabilidade laboral e financeira, até mesmo filhos, a trabalhar por amor à camisola. Os cérebros não fogem todos para o estrangeiro, muitos, mesmo que tenham capacidade de fazer ciência da mais galardoada qualidade, preferem ter uma vida.
Diz o senhor que ganhou o prémio que até gostava de voltar a investigar.
Se ganhasse a lotaria.

 

http://www.elpais.com/articulo/sociedad/cerebro/volvera/investigar/elpepisoc/20080720elpepisoc_3/Tes

Vinte linhas 81

A última aguardente do Tio Nascimento

Bebo devagar um cálice de aguardente branca e muito leve, puríssima e macia, tal como saiu do alambique no passado mês de Setembro. É uma aguardente que não pesa no estômago e que torna as digestões mais suaves. Mas não a posso gastar muito depressa porque esta aguardente é uma memória viva do meu Tio Nascimento e da sua Atalaia do Ruivo, paisagem perfeita entre sol e pó, entre pedras e pinheiros, entre água e vento. Lugar mágico onde a terra quase se junta ao céu numa espécie de oração sem palavras. Dois dias antes de morrer com o coração cansado e incapaz de trabalhar mais, este homem que foi, em novo, ceifar todas as searas do Alentejo e das regiões espanholas fronteiriças, estava possuído de um vigor inesperado e obrigou os filhos e as noras a trabalharem ainda mais para irem entregar o bagaço e o folhelho da uva a um certo alambique para os lados da Serra das Corgas. Depois foi fazer uma festa ao burro e enxotar as galinhas antes de olhar as cabras. Entretanto morreu na grande cidade um dia antes de fazer a grande intervenção cirúrgica que lhe poderia ter prolongado a vida caso corresse bem. Mas não correu. Hoje este gesto de beber um cálice de aguardente tem para mim o valor de um regresso. Esta bebida guardou a paisagem povoada pelo Tio Nascimento entre o seu lugar de sempre, a sua casa dos ventos onde se vê ao longe um bocado de Espanha e, mais perto, a terra das cerejeiras em flor. Essa paisagem povoada onde o corpo do Tio Nascimento descansa no cemitério da Sobreira Formosa mas onde o espírito circula no sabor macio e puro, leve e branco desta aguardente que não pesa no estômago. Porque incorpora a memória destilada de um homem cheio de humanidade.

Partido Nacional Renovador — Um exemplo para todos nós

O PNR comemorou o 10 de Junho com a melhor manifestação política de que tenho memória. Não sei o que foi dito pelos oradores, apenas tomei conhecimento das mensagens exibidas em cartazes; no que é uma redução ao essencial desse evento, devia ir sem explicação. Apesar da simpatia que frases como Viemos todos a pé! Não há €uros para combustível, Querem mais jovens na política? Não nos prendam!, O Multiculturalismo destrói a identidade nacional, Mais desemprego? Porreiro pá!, Bobos e lacaios de Bruxelas?, ASAE encerra o Parlamento e Nós não invadimos esquadras imediatamente despertam, foram as peças onomásticas a conquistar o meu coração. Ver apoiantes de um partido político, seja ele qual for, a erguerem cartazes com os nomes Viriato, D. Afonso Henriques, Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa é lindo. É lindo porque a associação política a Viriato pressupõe vastos conhecimentos de etnologia celta e das historiografias romana e grega, por exemplo, já para não falar na faraónica engenharia de teses arqueológicas para ligar a Lusitânia a Portugal. É belo ver a assunção pública da figura de Camões, por implicar apaixonada estima pela sua lírica, quiçá por todo o classicismo, seguramente por algum neoplatonismo. Encanta saber do transporte do nome Eça de Queiroz desde o Largo Camões até aos Restauradores, constituindo-se como tour de force daquilo que será o queirosiano e chiadístico realismo da ficção; onde se começa por cumprimentar Carlos da Maia e se acaba abraçado à Luísa ou à Juliana, é escolher. E temos todos, todos sem excepção — portanto, mesmo todos — de nos render ao iluminado dirigente, ou brilhante militante, que se lembrou de ir buscar o Fernando Pessoa ao baú das psicoses ainda não diagnosticadas, visto ter conseguido introduzir no seio de incautos pró-nazis uma criatura que se alimentou da mais densa mística judaica. Agora — e à medida que o opus pessoano for descoberto, estudado e digerido pelos quadros e apoiantes do partido, como será de esperar que aconteça na sequência do apoio público — poderemos assistir a radicais alterações estratégicas no PNR, e até a fenómenos de histerismo colectivo junto de elementos com mais dificuldade para gerir a mudança.

Por todas estas razões, acrescidas do facto indesmentível de nunca nenhum outro partido, em 34 anos de democracia, ter feito um mísero cartaz que fosse para promover estas figuras da nossa história e cultura, vejo no PNR um exemplo a seguir. A política pede este cabedal científico, académico, intelectual e artístico que os manifestantes manifestaram possuir. Esta gente que ergue acima da sua cabeça cartazes onde se inscreve um nome como Eça de Queiroz, numa postura a um tempo popular e fidalga, desafiando a ubíqua apatia do restante eleitorado, poderá em breve sair à rua com faixas onde se tenham impresso os nomes Jorge de Sena, António Botto, Maria Teresa Horta e Wenceslau de Moraes. Não? Sim, é apenas uma questão de tempo. As sementes já foram lançadas.

__

Nota: também vi um cartaz com a imagem de uma caravela e outro com a de um lobo-ibérico, os quais não me atrevo a comentar, aceitando resignado não ser capaz de entender todos os núcleos ideológicos do PNR.

Os cérebros, os ratos e a rata

Há várias formas de cobardia. E uma das piores, para o meu palato, é a da violência para com as mulheres. Entretanto, como ontem me lembraram, e nem sequer tinha ainda jantado apesar do já de si vanguardista adiantado da hora, há senhoras que legitimam o preceito de se recomendar ao homem para bater na sua mulher assim que entre em casa — mesmo que ele não saiba porquê, ela lá saberá. Ou assim pensam que pensam algumas delas, que nunca se sabe bem no que as mulheres pensam realmente ou se realmente pensam. É disto que nos fala um artigo que tem a elegância de se deixar ler em 3 minutos e 33 segundos. Acabada a leitura, é difícil lidar com a ilusão colectiva que defende estarmos em 2008. O desconchavo de, afinal, a maior violência sobre as mulheres ainda vir da ciência — continuando a não haver suficiente investigação do corpo feminino, o que leva a piores terapias cardíacas, oncológicas, neurológicas, sexuais, psicológicas, e podes continuar a somar disciplinas médicas enquanto eu acabo de escrever o resto — é um TAC à imbecilidade dos machos. Mas por mais que soubéssemos quão imbecis os machos conseguem ser, atinge-se um novo máximo com isto de se pretender conhecer o cérebro feminino sem o estudo da rata.

O Verão como nunca mais o verão

Só pela abolição das maiúsculas iniciais nas estações do ano e nos meses, já se justificava defenestrar o Acordo Ortográfico. Nunca escreverei Fevereiro e Outono e Abril e Primavera de cabeça baixa. Jamais me conformarei à vergonha que políticos e académicos minúsculos aprovaram. O meu desacordo é capital.

Vinte Linhas 79

Viagem com Ana Maria

De repente falámos de Veneza e as carruagens do Metropolitano sofreram nos meus olhos uma metamorfose, as estações ficaram inundadas e os seus nomes passaram a ser gritados em italiano pelo marinheiro fazendo sinal com o braço ao capitão para que a demora em cada paragem seja curta. Estamos num vaporetto prestes a chegar à Praça de São Marcos inundada de pombos e de japoneses com máquinas fotográficas da última geração. Á esquerda o grande areal do Lido com as mesmas pequenas casas de madeira usadas nas filmagens de «Morte em Veneza». Todos os anos as pintam no princípio da época balnear. E porque são muito caras há quem viva em Veneza e as alugue para usar de manhã subalugando a amigos à tarde. Vejo nos teus olhos a imensidão do Mar Adriático sem ondas e apenas sacudido ao de leve pela passagem de um petroleiro a caminho do Sul. Vem de Trieste, do outro lado do Golfo. Oiço na tua voz as sílabas perdidas de todas as minhas viagens. Um voo nocturno para Milão, uma viagem de autocarro até Bolonha, uma viagem de comboio até Veneza. No bulício da estação de comboios de Santa Lúcia descubro a tua voz límpida, terna e alta como num passeio da Rua do Ouro em 1969. Ao fundo está não a Ponte de Rialto mas o Cais das Colunas e os cacilheiros lentos cruzando um rio triste onde chegam aerogramas amarelos com notícias de emboscadas e de feridos evacuados de helicóptero. Os aerogramas estão todos amarrotados nos bolsos dos casacos dos passageiros. Tenho de novo dezoito anos na tua voz porque a memória não mente. Entre a emoção e a verdade a memória escolhe sempre a emoção que é, também, todos o sabemos, uma forma de verdade.

petite apocalypse doméstique

je suis la grande prostituée de babylone.
c’est moi qui se vend pour tes hanches,
celui qui craint tes regards. le serpent
emplumé guette de sa tranchée,
mais aussitôt, blâmé par la colombe,
retourne à la déesse qui l’a conçu : nin.ti.
parfois je suis ce que je suis lorsque je ne
suis ce que je suis. il me manque un peu plus
de discipline pour être canonisé. tu me dis
que tu es moi. il faut que je fouette mes vers.
et tu ne les veux pas fouettés, tu veux
qu’ils soient pécheurs, la bête au chiffre imparfait.
mais tu ne comprends rien. tu ne comprends
que c’est moi la bête e que le combat est terrible
de sortilèges : je ne suis ce que je suis, mais un
dragon, la fille de joie, quelquefois un fou.

Poema de Daniel Jonas (O Corpo Está Com O Rei, AEFLUP, 1997)
Tradução de João Pedro da Costa

Balada da casa da Ericeira

A casa que não é minha
Mas onde me sinto bem
Os galos de manhãzinha
Não deixam dormir ninguém

O vento traz a frescura
Que bate à porta do Verão
Uma varanda segura
Longe da maior confusão

A janela dá para o mar
O pinheiro serve de espelho
Que reflecte a luz do lugar
No moinho branco e velho

Caldeirada de paciência
Faz refeição de alegria
Entre a arte e a ciência
Esplendor de gastronomia
Continuar a lerBalada da casa da Ericeira

Voix

c’est une voix de velours celle qui te dit que tu pourrais rester
si un oiseau habite sa bouche
ou si un barbiturique a choisi d’y vivre, je ne sais dire
mais la voix qui meurt dans ta voix
n’a faim d’aucune autre
et elle ne veut que ta bouche
rien que ta bouche

c’est une voix qui coule comme une fiole
qui ne chante qu’une fois et puis meurt
et en mourant laisse un trottoir mouillé
et une maison abandonnée et en mourant
laisse un trottoir et une ville perdue
une voix qui en mourant
sort entièrement

c’est une voix celle qui te demande maigre et affaiblie
qui se dépouille des mots après la pluie
qui fait ses adieux de la pluie après les mots
une voix qui part pour mourir
comme un chat dans les banlieues de la nuit
après s’être donnée entièrement
à ce qu’elle t’a dit.

Poema de Daniel Jonas (Moça Formosa, Lençóis de Veludo, CCA, 2002)
Tradução de João Pedro da Costa

Aposta

Pessoa amiga sugeriu-me publicar o seguinte excerto de uma conversa:

Nunca o irás amar porque nunca saberás se ele te ama. Quando escondemos a nossa verdade do outro, não podemos saber se somos amados. Jamais.

Disse-me que iria ter muitos comentários. Apostei que não.

Bute lá ajudar a oposição

Com a traição de Barroso, e a inanidade de Santana, o 25 de Abril consumou-se. Algo ali teve o seu desfecho, algo ali pode ter germinado. A Revolução não substituiu os paradigmas, apenas alterou os processos. O salazarismo foi um cometa gigante que se fragmentou em 10 milhões de pedaços. Criou-se a ilusão de ter desaparecido, mas o seu impacto na inteligência e na liberdade continuou; diminuindo aqui, impedindo ali, destruindo acolá. Partidos, empresariado, povo, cada camada social reproduziu, agora completamente ocultos, os constrangimentos e inércias que vigoraram ao longo de 48 anos: provincianismo, ignorância, mesquinhez, desconfiança e medo. Antes e acima de tudo, medo. Portugal é, há séculos, uma terra de cobardes.

Continuar a lerBute lá ajudar a oposição