Os 14 dias de Barbara Hepworth
No dia em que eu nasci o filho de Barbara Hepworth alistou-se na RAF. No dia em que eu fiz dois anos o filho de Barbara Hepworth desapareceu com o avião que pilotava nos céus da Tailândia, ao serviço da RAF. Isto é apenas uma curiosidade de datas mas um dos pontos mais interessante na vida desta escultora (1903-1975) famosa pelas suas esculturas respirando formas de grande pureza e ligando de modo feliz Natureza e Arte, é a história dos 14 dias. Chamo eu história dos 14 dias a esta história. Vejamos. Corria o ano de 1926 quando a então jovem artista se deslocou de Florença a Carrara para aprender «in loco» a trabalhar o mármore e a deslocar grandes pesos. Casada há pouco tempo com o pintor John Skeaping, o dinheiro não abundava («cheguei a Florença com apenas 9 libras no bolso» – recordou mais tarde) e por isso alugou um pequeno estúdio. Nele mostrou ao público os seus primeiros trabalhos de escultura e nele esperou 14 dias mas ninguém apareceu. Mesmo no fim do dia apareceu um senhor, cujo nome era Eumorfopoulos e que, depois de lhe adquirir seis peças, se tornou seu amigo. A amizade entre os dois só terminou com a morte do senhor Eumorfopoulos durante a segunda guerra mundial.
Todos nós precisamos destes exemplos. Mesmo numa escala muito modesta («pequenos e médios comerciantes, pequenos e médios industrias, pequenos e médios escritores» – diz uma amigo meu, com piada) esta perspectiva de estar 14 dias à espera de um visitante numa exposição de escultura em 1926 e mesmo assim nunca desistir é um exemplo meritório. Os 14 dias de Barbara Hepworth podem ser lidos assim: o poema, o conto, o romance, a peça de teatro, o óleo, a escultura podem esperar 14 dias que aparecerá sempre um senhor Eumorfopoulos disposto a compara seis peças e ao mesmo tempo ajudando à sua divulgação pela Europa e pelo Mundo.

