Eu acho que ele não conhecia o podcast, porque quem o conhece sabe que eles se preparam. [...] Mas é uma entrevista muito bem preparada, número um, e, segundo, eles não têm medo dele. Não sou ninguém para 'tar a criticar quem é que as pessoas têm medo ou não têm medo, mas vimos jornalistas encolhidos com José Sócrates, a evitarem perguntas, a fugirem ao assunto, etc. Eles fizeram uma entrevista bem preparada. Isto mostra como o Ricardo à bocado foi injusto com o Passos, ao não valorizar uma certa aceitação das perguntas, do contraditório... esta coisa colérica... Há dois ou três momentos aqui um bocadinho, tendo em conta quem são eles... que são pessoas que não são conhecidas do grande público... Não há justificação para àquele tipo de cólera! E portanto, e de facto, ainda bem que nos livrámos desse tipo eu sempre fui, independentemente das questões judiciais, ferozmente adversário do animal feroz.
Pedro Mexia, 2018
José Sócrates é um entrevistado “agressivo, duro, muito duro. Tem um olhar intimidatório, o que é muito relevante na televisão. Tem um olhar feroz”.
Judite de Sousa, 2013
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A Penélope, e em boa hora, já botou faladura sobre a ocorrência, mas vale a pena voltar a ela. Começo por agradecer ao sr. Araújo ter usado o seu poder mediático para me dar conta da existência de uma mui proveitosa, e divertida, entrevista. Provavelmente, não a teria descoberto sem a sua divulgação no Governo Sombra (isto porque não leio o Sol, onde foi igualmente referida). O número sarcástico que montou com ela está ao nível de “Os Trapalhões” e seu humor infantilóide, grupo que sempre me pareceu ser o modelo de referência para os “Gato Fedorento” caso estes vencessem a crise criativa e quisessem continuar a trabalhar juntos. A miudagem adorava os GF, esse filão poderia ter sido explorado indefinidamente.
Pois bem, o que os sombrios governantes disseram, contudo, foi muito mais engraçado do que o eficaz escárnio na manipulação da entrevista. Porque, pelos vistos, os próprios são incapazes de entender quão contraditório é acusar alguém que até aceita ser entrevistado por ilustres amadores, ou discretos e bisonhos profissionais, de estar a fugir a perguntas. De acordo com o argumento que ouvimos, Sócrates é um ser que está desesperado para ser interrogado e que, em concomitância, fica desesperado se for interrogado. O Ricardo, que usou as instalações visíveis no vídeo e a juventude dos jornalistas como material da piada onde Sócrates era caricaturado como um coitadinho a mendigar tempo de antena, lá admitiu que também ele, superestrela deste rectângulo, havia sido entrevistado no mesmo programa pelos mesmos fulanos. Ao seu lado, e ao mesmo tempo que se justificavam alegando terem apenas visto fragmentos da entrevista, Tavares e Mexia declaravam que a “preparação” e as “perguntas” dos rapazes eram excepcionais, melhores do que as dos jornalistas consagrados. Faz isto sentido? Não precisa de fazer. Os três tristes sicofantas estão a trabalhar para o seu espectáculo, são profissionais a despachar mais uma sessão. Ainda por cima, aquilo é um programa de humor, são apenas palhaços na palhaçada, né?
Acontece que a entrevista estava não apenas mal preparada como revelou a ausência de condições mínimas para se equivaler a um trabalho profissional – os elogios recebidos no GS ou nasceram da mais acabada chicana ou atestam que os elogiadores nem sequer prestaram atenção às perguntas ou que não perceberam no que consistiam. Desde o exagero desinteressante sobre a temática das barragens às manifestações de ignorância acerca de aspectos funcionais do que é um Estado, do que é a prática executiva num Governo e do que são as características da disputa partidária e seus contextos históricos, o retrato é de puro amadorismo, quando não de sectária tonteira. Exemplo mais espalhafatoso destas fragilidades, o facto de terem levado um artigo científico que defendia serem as barragens fontes de emissão de gases de estufa. O problema não estava na referência a esse estudo, o problema está em se considerar que um ex-primeiro-ministro pode ter algo de válido a dizer sobre esse ou qualquer outro estudo calhando não ter participado na sua produção como investigador ou não ser um académico ou jornalista nessa precisa área científica. A falácia é demasiado tosca, expondo a nescidade dos entrevistadores a respeito do que seja a cultura científica, a sociologia do conhecimento e até os mais elementares conceitos da epistemologia. O cruzamento da imaturidade de quem questionava com o temperamento sanguíneo e a conjuntura vivencial de quem explicava deu origem a diversas situações em que Sócrates foi intenso, enérgico e combativo, sim, mas sempre em modo amistoso, franco e leal. Foi ele próprio, portanto – e foi humilde na sua frontalidade e disponibilidade, por tanto. O final da entrevista mostra-o de forma cristalina.
O mais relevante acaba por ser a retórica do Mexia, acima exibida. É uma das facetas do ancestral processo de diabolização em que a um adversário poderoso se cola uma natureza maligna. Dessa forma, a exibição da sua força passa a ser prova mesma da fantasiada iniquidade. Por razões ligadas à antropologia e respectiva cognição, é muito mais frequente o fenómeno acontecer à direita do que na esquerda, embora seja universal. Na direita há um culto da individualidade que tende a substancializar traços de personalidade e atitudes. Isto leva a crenças determinísticas em que se funda todo e qualquer conservadorismo e sua defesa da oligarquia e da “tradição”, terreno da direita onde o Mexia se filia. Assim, se o adversário é mais forte do que nós, direitolas, passamos a considerá-lo perverso e de uma natureza ontologicamente ameaçadora. Se as mesmas características acontecerem num nosso companheiro ou “amigo”, então passamos a tratá-lo como forte, bravo, herói – ou, tão-só, mas igualmente de preciosa utilidade, como “o nosso filho-da-puta”. Isto é básico, o que faz do Mexia também um básico. Quando carimba como “cólera” o modo emocionado como Sócrates discursa em certos passos da entrevista, a sua deturpação ocorre ao nível do contexto e da expressividade. Por um lado, o fluxo da entrevista e a interacção com os entrevistadores explicam esses picos de tensão. Por outro, até nesses momentos se pode observar expressões de simpatia e respeito por parte de Sócrates. Estamos perante o mesmo abandalhamento que levou o Ricardo a recordar-se de como acabou a entrevista, de forma abrupta e com Sócrates a lamentar não poderem continuar a falar, mas a esquecer-se que também por aí a atitude de Sócrates era precisamente contrária à da sua zombaria. Ele queria mais perguntas, mais conversa, mais contraditório, não menos.
Não há nenhum mistério no fenómeno de irritação, asco, medo que Sócrates provoca na direita, em grande parte da esquerda e até em parte do PS. É uma consequência directa da psicologia política, onde se desprestigia e hostiliza sempre o adversário, e é um efeito nascido da percepção do seu valor guerreiro tomado antropologicamente, onde se acredita que esse indivíduo continua em condições de ser uma ameaça política para os interesses de quem o teme. Esta dimensão está absolutamente separada da interrogação judicial que sobre ele impende, não sendo possível saber apenas pelo que declara aqui e ali se irá ser ilibado ou condenado das acusações, escusado seria dizer. O que vier a ser estabelecido pela Justiça a respeito do passado de Sócrates terá as devidas consequências, seja qual for o desfecho. Até lá, podemos ir aproveitando o tempo para perceber melhor o que é que a direita decadente realmente teme, a ferocidade que corre solta nos seus pesadelos. Está aqui, no minuto 39 da entrevista:
"A última vez que o País teve uma ideia para o seu desenvolvimento, a última vez em que houve um partido político que apresentou a sua perspectiva para a modernização do nosso País, foi quando nós apresentámos o Plano Tecnológico."