Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Busca permanente do conhecimento II

Vamos lá a saber: que terá aprendido Passos no cargo de primeiro-ministro para saltar do grau académico de licenciado pela Lusíada para catedrático do ISCSP?

O até há pouco tempo presidente do PSD não terá nenhuma cadeira específica a cargo em qualquer uma das três instituições, podendo as suas aulas serem integradas em diferentes disciplinas mediante o calendário lectivo de que cada Universidade.”

Incompreensível a falta de cadeira. Então a cadeira prática de “Zona de conforto I” ou “Dependência do Estado III”?

Descodificando a cagufa dos direitolas

Eu acho que ele não conhecia o podcast, porque quem o conhece sabe que eles se preparam. [...] Mas é uma entrevista muito bem preparada, número um, e, segundo, eles não têm medo dele. Não sou ninguém para 'tar a criticar quem é que as pessoas têm medo ou não têm medo, mas vimos jornalistas encolhidos com José Sócrates, a evitarem perguntas, a fugirem ao assunto, etc. Eles fizeram uma entrevista bem preparada. Isto mostra como o Ricardo à bocado foi injusto com o Passos, ao não valorizar uma certa aceitação das perguntas, do contraditório... esta coisa colérica... Há dois ou três momentos aqui um bocadinho, tendo em conta quem são eles... que são pessoas que não são conhecidas do grande público... Não há justificação para àquele tipo de cólera! E portanto, e de facto, ainda bem que nos livrámos desse tipo eu sempre fui, independentemente das questões judiciais, ferozmente adversário do animal feroz.


Pedro Mexia, 2018

José Sócrates é um entrevistado “agressivo, duro, muito duro. Tem um olhar intimidatório, o que é muito relevante na televisão. Tem um olhar feroz”.


Judite de Sousa, 2013

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A Penélope, e em boa hora, já botou faladura sobre a ocorrência, mas vale a pena voltar a ela. Começo por agradecer ao sr. Araújo ter usado o seu poder mediático para me dar conta da existência de uma mui proveitosa, e divertida, entrevista. Provavelmente, não a teria descoberto sem a sua divulgação no Governo Sombra (isto porque não leio o Sol, onde foi igualmente referida). O número sarcástico que montou com ela está ao nível de “Os Trapalhões” e seu humor infantilóide, grupo que sempre me pareceu ser o modelo de referência para os “Gato Fedorento” caso estes vencessem a crise criativa e quisessem continuar a trabalhar juntos. A miudagem adorava os GF, esse filão poderia ter sido explorado indefinidamente.

Pois bem, o que os sombrios governantes disseram, contudo, foi muito mais engraçado do que o eficaz escárnio na manipulação da entrevista. Porque, pelos vistos, os próprios são incapazes de entender quão contraditório é acusar alguém que até aceita ser entrevistado por ilustres amadores, ou discretos e bisonhos profissionais, de estar a fugir a perguntas. De acordo com o argumento que ouvimos, Sócrates é um ser que está desesperado para ser interrogado e que, em concomitância, fica desesperado se for interrogado. O Ricardo, que usou as instalações visíveis no vídeo e a juventude dos jornalistas como material da piada onde Sócrates era caricaturado como um coitadinho a mendigar tempo de antena, lá admitiu que também ele, superestrela deste rectângulo, havia sido entrevistado no mesmo programa pelos mesmos fulanos. Ao seu lado, e ao mesmo tempo que se justificavam alegando terem apenas visto fragmentos da entrevista, Tavares e Mexia declaravam que a “preparação” e as “perguntas” dos rapazes eram excepcionais, melhores do que as dos jornalistas consagrados. Faz isto sentido? Não precisa de fazer. Os três tristes sicofantas estão a trabalhar para o seu espectáculo, são profissionais a despachar mais uma sessão. Ainda por cima, aquilo é um programa de humor, são apenas palhaços na palhaçada, né?

Acontece que a entrevista estava não apenas mal preparada como revelou a ausência de condições mínimas para se equivaler a um trabalho profissional – os elogios recebidos no GS ou nasceram da mais acabada chicana ou atestam que os elogiadores nem sequer prestaram atenção às perguntas ou que não perceberam no que consistiam. Desde o exagero desinteressante sobre a temática das barragens às manifestações de ignorância acerca de aspectos funcionais do que é um Estado, do que é a prática executiva num Governo e do que são as características da disputa partidária e seus contextos históricos, o retrato é de puro amadorismo, quando não de sectária tonteira. Exemplo mais espalhafatoso destas fragilidades, o facto de terem levado um artigo científico que defendia serem as barragens fontes de emissão de gases de estufa. O problema não estava na referência a esse estudo, o problema está em se considerar que um ex-primeiro-ministro pode ter algo de válido a dizer sobre esse ou qualquer outro estudo calhando não ter participado na sua produção como investigador ou não ser um académico ou jornalista nessa precisa área científica. A falácia é demasiado tosca, expondo a nescidade dos entrevistadores a respeito do que seja a cultura científica, a sociologia do conhecimento e até os mais elementares conceitos da epistemologia. O cruzamento da imaturidade de quem questionava com o temperamento sanguíneo e a conjuntura vivencial de quem explicava deu origem a diversas situações em que Sócrates foi intenso, enérgico e combativo, sim, mas sempre em modo amistoso, franco e leal. Foi ele próprio, portanto – e foi humilde na sua frontalidade e disponibilidade, por tanto. O final da entrevista mostra-o de forma cristalina.

O mais relevante acaba por ser a retórica do Mexia, acima exibida. É uma das facetas do ancestral processo de diabolização em que a um adversário poderoso se cola uma natureza maligna. Dessa forma, a exibição da sua força passa a ser prova mesma da fantasiada iniquidade. Por razões ligadas à antropologia e respectiva cognição, é muito mais frequente o fenómeno acontecer à direita do que na esquerda, embora seja universal. Na direita há um culto da individualidade que tende a substancializar traços de personalidade e atitudes. Isto leva a crenças determinísticas em que se funda todo e qualquer conservadorismo e sua defesa da oligarquia e da “tradição”, terreno da direita onde o Mexia se filia. Assim, se o adversário é mais forte do que nós, direitolas, passamos a considerá-lo perverso e de uma natureza ontologicamente ameaçadora. Se as mesmas características acontecerem num nosso companheiro ou “amigo”, então passamos a tratá-lo como forte, bravo, herói – ou, tão-só, mas igualmente de preciosa utilidade, como “o nosso filho-da-puta”. Isto é básico, o que faz do Mexia também um básico. Quando carimba como “cólera” o modo emocionado como Sócrates discursa em certos passos da entrevista, a sua deturpação ocorre ao nível do contexto e da expressividade. Por um lado, o fluxo da entrevista e a interacção com os entrevistadores explicam esses picos de tensão. Por outro, até nesses momentos se pode observar expressões de simpatia e respeito por parte de Sócrates. Estamos perante o mesmo abandalhamento que levou o Ricardo a recordar-se de como acabou a entrevista, de forma abrupta e com Sócrates a lamentar não poderem continuar a falar, mas a esquecer-se que também por aí a atitude de Sócrates era precisamente contrária à da sua zombaria. Ele queria mais perguntas, mais conversa, mais contraditório, não menos.

Não há nenhum mistério no fenómeno de irritação, asco, medo que Sócrates provoca na direita, em grande parte da esquerda e até em parte do PS. É uma consequência directa da psicologia política, onde se desprestigia e hostiliza sempre o adversário, e é um efeito nascido da percepção do seu valor guerreiro tomado antropologicamente, onde se acredita que esse indivíduo continua em condições de ser uma ameaça política para os interesses de quem o teme. Esta dimensão está absolutamente separada da interrogação judicial que sobre ele impende, não sendo possível saber apenas pelo que declara aqui e ali se irá ser ilibado ou condenado das acusações, escusado seria dizer. O que vier a ser estabelecido pela Justiça a respeito do passado de Sócrates terá as devidas consequências, seja qual for o desfecho. Até lá, podemos ir aproveitando o tempo para perceber melhor o que é que a direita decadente realmente teme, a ferocidade que corre solta nos seus pesadelos. Está aqui, no minuto 39 da entrevista:

"A última vez que o País teve uma ideia para o seu desenvolvimento, a última vez em que houve um partido político que apresentou a sua perspectiva para a modernização do nosso País, foi quando nós apresentámos o Plano Tecnológico."

Adenda à entrevista de Pinto Monteiro

Usar a Justiça para fazer ataques políticos é a mais velha perversão da democracia. Quem assim age está a expor a sua impotência intelectual, pois foge do confronto de ideias e da procura de acordos, entregando-se à violência de uma pulsão totalitária. Com estas pessoas não há qualquer possibilidade de diálogo posto que elas só aceitam a sua gula de poder como critério de sucesso. Merecem ser tratadas com tolerância zero pois são terroristas, desprezando a racionalidade e o bem comum.

Se o que acontece com Sócrates, Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento acontecesse com um político do PSD ou CDS e outros magistrados quaisquer, a obrigação de denunciar a degradação da comunidade, da sociedade e do regime que a judicialização da política provoca seria exactissimamente a mesma. E, nessa alternativa, provavelmente veríamos o que vemos agora: aqueles que utilizam a Justiça como arma política igualmente a atacarem seja quem for que se apresente independente, neutro e livre na crítica ao que estão a fazer. Para os fanáticos, a moderação e a objectividade são inimigos ainda piores do que aqueles que perseguem, não suportam a coragem de quem lhes mostra quão destrutiva é a sua influência na cidade.

Nesta entrevista, Pinto Monteiro volta a contar a mesma história que conta há anos e anos. É um relato onde os factos nunca são contestados. Os caluniadores têm de saltar por cima de todas as evidências para continuarem a envenenar o espaço público. As evidências dizem respeito à impossibilidade de Pinto Monteiro ter influenciado fosse no que fosse as investigações feitas a Sócrates durante o seu mandato, a começar pelo estatuto de independência de cada magistrado e a terminar no poder do sindicato e do CSMP. As evidências continuam com o extenso rol de decisões que provam como o ex-procurador-geral da República decidiu que se investigasse o que havia para investigar à luz da Lei. E as evidências culminam naquilo que Noronha do Nascimento resumiu desta maneira, cito de memória: “Se as escutas onde Sócrates foi apanhado – as quais foram consideradas pela Justiça como inúteis para qualquer investigação, e por isso destinadas a serem destruídas – tinham algum indício de crime, por que razão não aparecem publicadas?”. Ou seja, numa situação onde o segredo de justiça foi violado sempre que se quis e como se quis sempre que aparecia algo que pudesse ser ligado a Sócrates nem que fosse pelo cheiro, então ele seria preservado logo naquele naco onde o gatuno tinha sido apanhado com a galinha na mão? Se Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento tivessem feito essa golpada, acaso os sindicatos dos procuradores e dos juízes, mais os respectivos Conselhos Superiores, mais os partidos da oposição e, finalmente, o saudoso e heróico Presidente Cavaco, ficariam impávidos e serenos a ver passar a procissão? A referência ao Tribunal de Aveiro e sua deliberação sobre essas mesmas escutas pode até ficar sem comentário.

Houve e há dirigentes e deputados no PSD de Ferreira Leite e de Passos, Pacheco Pereira incluído e talibãs do CDS por arrasto, a que se junta o coro dos profissionais da calúnia no extenso laranjal mediático, que irão morrer a repetir que Pinto Monteiro foi um dia almoçar com Sócrates, e já depois de ter abandonado as suas funções na PGR, porque foram parceiros de corrupção. Qual a relação desse almoço seja com o que for que tenha influência na situação judicial de Sócrates eles não sabem explicar. Nem eles nem ninguém que tenha sido gerado no ventre de uma mulher. Obviamente, não seria com esse monte de calhaus com olhos que Rio poderia contar. Ou serão postos borda fora ou irão afundar o PSD.

Os novos cómicos

[...] Isto para já não falar da experiência que foi a maioria absoluta do PS.[...]


João Pedro HenriquesFaçam a política, não a guerra

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Este amigo tem décadas de acompanhamento interessado e profissional da política. É jornalista, suponho que com os salários em dia. E ainda se espraia na secção de opinião onde deixa preciosos recados morigeradores da cambada que anda por aí a ocupar os lugares nos partidos, no Parlamento e no Governo. Estamos perante um especialista da coisa.

Então, qual é a sua intenção ao teclar que não pretende falar de um certo assunto, no caso a maioria absoluta do PS? Será porque não tinha tempo ou espaço? Será porque é tímido? Será que tinha bebido de mais e já não se achava em condições de guiar o seu raciocínio por esses sinuosos caminhos adentro? Ou será porque imagina que aquilo que ele pensa a respeito, seja lá o que for, é o que todos pensam, seja lá quem for?

Não. O que se pretende é apenas uma gargalhada. Temos de rir a bom rir quando há alguém a pagar a um fulano para este nos informar que não pretende falar dos temas que, aparentemente, domina na perfeição.

Um ciclo de 12 anos para a esquerda

A esquerda portuguesa tem a cada vez maior probabilidade de conseguir ser a força governativa maioritária num ciclo de 12 anos. As contas, e as profecias, são fáceis de fazer:

– Rio apenas pode ambicionar a um tipo de triunfo, o PS não atingir a maioria absoluta nas próximas legislativas, e a um tipo de bóia de salvação, recuperar eleitorado nas autárquicas e deixar o CDS abaixo dos dois dígitos para a Assembleia. Vencer as legislativas em 2019, com os dados que se conhecem e se prevêem para a execução governativa e excluindo fenómenos extraordinários, será impossível.

– Assunção* Cristas, tendo Nuno Melo como seu tenente, está na corrida para comer eleitorado ao PSD que tenha Passos como o seu ídolo. Se quiser ir buscar outro tipo de votos, terá de se posicionar como uma candidata retintamente populista e começar a atacar o sistema a outrance. Nenhum destes caminhos tem a palavra “futuro” no bornal.

– Calhando Rio sair após a derrota em 2019 e Montenegro (ou um outro medíocre qualquer) pegar no partido, teremos o regresso do fanatismo beligerante, da baixa política e da decadência do poder pelo poder. Discursarão para um nicho e o PSD voltará a ter de tentar recuperar as origens a seguir a 2023 ou contemplar o seu desaparecimento como partido sociologicamente relevante.

Estamos perante 12 anos, começados em 2015, que podem continuar, aprofundar e expandir o que temos visto na primeira metade da actual legislatura – legislação que passa em Lisboa, contas que passam em Bruxelas, política que chega aos cidadãos de acordo com as suas necessidades e aspirações. É que aquilo que se aponta como a principal ameaça à estabilidade do Governo minoritário de Costa, as radicais diferenças em certas áreas para as posições do PCP e do BE, pode ser visto de forma absolutamente simétrica: nem com a influência centrífuga das divergências em relação à lei laboral e questões europeias, entre tantas outras, a união de responsabilidades do PS, BE e PCP se desfez.

Que os idos de Março de 2011 fiquem como a mais importante lição política deste início de século em Portugal.

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* Chamei-lhe “Conceição” na versão original do texto, no que fica como um desvio teológico quase imperceptível.

Revolution through evolution

What Women Want– How Personal Desire Impacts Pressure for Sex
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When it comes to our brains, there’s no such thing as normal
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Punishing a wrongdoer more rewarding to brain than supporting a victim
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Low-fat or low-carb? It’s a draw, study finds
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Mind-reading algorithm uses EEG data to reconstruct images based on what we perceive
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Einstein’s equations allow a non-determinist future inside some black holes
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Want a Great Employee? Hire a Liberal Arts Major
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Continuar a lerRevolution through evolution

Ó Helena, mas quanto vale o Passos neste momento?

Segundo Helena Matos, Rui Rio e António Costa são dois “frágeis” – um porque ganhou a liderança do PSD com poucos votos e o outro porque não conseguiu para o seu partido uma vitória nas últimas eleições legislativas. Assim sendo, para ela, é ridículo andarem a conversar sobre as grandes questões nacionais, porque não têm representatividade suficiente. Ou seja, ela «sente-os frágeis». Ela, que os odeia (e sem dúvida «se sente frágil»).

Quanto a este ângulo de abordagem induzido pela raiva e a frustração, eu pergunto apenas: se a Helena continua a achar que quem teria representatividade e zero de fragilidade seria a facção do querido ex-líder Passos, por que razão terá este abandonado a liderança do PSD e por que razão nenhum dos apoiantes da sua linha de pensamento e acção, digamos assim (embora isto seja um luxo), se candidatou à liderança directamente, e não encapotadamente através do Santana (e que rica aposta), no recente congresso laranja? Por que não provou a tal «força», alegadamente proveniente da vitória nas últimas legislativas?

Não interessando para o caso o que eu penso de Rui Rio na sua nova função ou do diálogo pretendido, tenho más notícias para a linha dura de colunistas inconformados do Observador. O radicalismo desse tipo de direita que defendem, e sobretudo com os protagonistas conhecidos, não tem futuro em Portugal na próxima década. Eu diria mesmo que nem que aconteça uma crise financeira internacional como a de 2008. Dez anos não são suficientes para as pessoas se esquecerem da aldrabice, da ligeireza, da indiferença, da subserviência, do telecomando e da incompetência com que o país foi governado de 2011 a 2015.

Ora, representando os padres e afins que proliferam no Observador  um culto reconhecidamente equiparável às minorias, essa linha só terá alguma hipótese, na ausência de um candidato originário do sindicato de magistrados do Ministério Público que se proponha meter os “xuxas” todos na choldra como vossas excelências gostariam, com um recrutamento-choque para as vossas fileiras de uma figura do género vedeta da televisão (ou do futebol, vá), algo muito moderno e genuinamente novo. “Like the kids in America”. No fundo, não muito diferente de um candidato a cantor de revistas à portuguesa com um único recurso apreciado e explorável – a voz. Só que, desta vez, alguém que nunca tenha passado sequer por uma juventude partidária. Aqui fica a sugestão. Não quer dizer que ganhe. Mas podiam entreter-se assim.

David Dinis explica o que é isso da judicialização da política e da politização da Justiça

«O risco é maior, porque junta as duas guerras no PSD numa só. A guerra pessoal, porque criticar o Ministério Público e pôr o foco no segredo de Justiça será visto, no partido, como uma ajuda a Sócrates e Salgado, persona non grata para o mundo social-democrata; a guerra estratégica, porque abre uma auto-estrada a António Costa onde o PS não podia entrar, precisamente por ter José Sócrates em julgamento.

É por isso que um pacto para a Justiça com António Costa é o maior risco que Rui Rio pode correr. Porque é pessoal, porque é estratégico. E porque Rui Rio não o assumiu na campanha interna.»


Da série “Pânico na direita decadente

Trump e os pistoleiros

Nas escolas norte-americanas, os tresloucados armados e com vontade de cometer massacres estão doravante avisados: o primeiro alvo a abater será o professor, que, embora com coldre e licença para disparar, certamente não estará a dar a aula de pistola na mão. Depois da próxima tragédia, armam-se as crianças todas. A NRA rejubilará. Nas palavras do seu presidente “o direito às armas é garantido por Deus a todos os americanos como direito de nascença“.

Dá um trabalhão, e tão bem pago, ser caluniador profissional

Portugal é pequenino, a nossa imprensa é minúscula, a chamada “imprensa de referência” corresponde a pouco mais do que uma mão cheia de títulos na comunicação social. Essa diminuta dimensão só engrandece a responsabilidade das entidades e indivíduos que são decisores do que diariamente é vertido em forma de notícias e opiniões. O espaço público é alimentado, moldado e excitado pela produção contínua de informações e interpretações protegidas por um quadro legal que até consente, facticamente, a prática de crimes sob as capas da “liberdade de imprensa” e da “liberdade de expressão”. A sociedade aceita estas normas tácitas, não se conhecendo qualquer intenção política para as alterar nem para diminuir as suas consequências.

Recentemente, explodiu com estrondo nesse pequeníssimo mundo jornalístico que é o nosso a problemática da violação do segredo de justiça, a qual também arrastou para a arena o conceito da presunção de inocência. O segundo tema é uma novidade como arma de arremesso político, e liga-se directamente a Sócrates e ao seu processo judicial. O primeiro, é uma presença regular nas conversas e peças mediatizadas há anos e anos, mas o qual também apresenta novidade. Em ambos, estamos a assistir pela primeira vez à defesa em “órgãos de referência” da abolição de uma lei e de um princípio jurídico. Abolição temporária e selectiva, claro, e ao serviço das agendas políticas e do lucro, claríssimo.

É fácil identificar aqueles a quem o crime da violação do segredo de justiça está a favorecer – Cui bono? São todos os que relativizam, desvalorizam e tentam que desapareça da atenção das audiências e dos eleitorados a prática de crimes no seio da Justiça, sejam procuradores ou juízes os seus agentes. Sempre que se aponta para os advogados, ou funcionários menores, ou entidades sobrenaturais conhecidas como “qualquer um” e “um qualquer”, em vez de se denunciar os casos em que só magistrados do Ministério Público podem ser acusados pelos crimes, sabemos que estamos perante um cúmplice de criminosos. Criminosos que, como explicou divertida Joana Marques Vidal, andam a aproveitar a benesse de o crime apenas ser punido com um máximo de 2 anos de prisão. Logo, não existe ninguém sequer para o investigar, quanto mais para o prevenir. Pelo que é fartar, vilanagem, na Procuradoria-Geral da República que se especializou em conteúdos para a indústria da calúnia a partir de 2012 a troco da promoção dos seus interesses corporativos e ideológicos.

Acontece que este lado sórdido e assustador de termos magistrados criminosos que se sabem impunes é apenas uma parte do problema, quiçá a de menor importância. Quando vemos o que a Cofina faz com os crimes dos magistrados – ao pegar nas versões da investigação maximizadas para denegrir e caluniar os suspeitos ou arguidos, e depois passando a tratar as vítimas como definitivamente culpadas de tudo e mais alguma coisa que lhes apeteça agitar em frente dos borregos, haja ou não acusação – podemos acabar por esquecer o que vem a seguir. Ora, há algo que se segue, algo que temos visto com holofotes de gala no processo “Face Oculta”: uma efectiva influência sobre os juízes, os quais são pressionados para punirem ideologicamente certos acusados. É o caso de Vara e Manuel Godinho, condenados a penas muito acima do que foi a prática comum nos tribunais portugueses perante valores pecuniários similares, e sem provas directas de se ter cometido qualquer ilícito no que a ambos diz respeito. Os juízes foram explícitos acerca do que estava em causa, descrevendo como a partir do que consideram o sentimento popular quiseram fazer de Vara e do sucateiro um exemplo para atingir a classe política – isto é, certas pessoas da classe política, bem entendido, a tal ralé que não pertence ao grupo da “gente séria” e andava a pedi-las. A indústria da calúnia à portuguesa tem gostos refinados, não dispara sem fazer cuidada pontaria, mas quando atinge o alvo podemos ver o edifício da Justiça a oscilar para o lado da sua estratégia.

Há um aspecto grotesco nisto de tropeçarmos em autopropalados “liberais” a reclamarem o direito a destruírem os direitos de terceiros. Em celebrarem crimes de magistrados. Em explorarem as difamações e mentiras vertidas no espaço público. E em declararem que a presunção de inocência não passa de uma burocracia lá dos tribunais que eles não têm nem querem respeitar enquanto chafurdam nas manchetes tão mais melhores boas do que a honra alheia. Preferem satisfazer a pulsão de violentarem o nome e a personalidade dos seus ódios e vítimas. Preferem o gozo do assassinato ritual dos que concebem como inimigos à defesa do Estado de direito democrático e da módica decência sem a qual não há comunidade, apenas guerra civil. E depois interrompemos o pasmo. Olhamos com mais atenção e vemos que eles estão apenas a tentar sacar o seu, que têm despesas, têm filhos, têm de garantir o pão na mesa e ainda ir de férias para sítios giros e confortáveis depois de tanto esforço ao longo do ano. Ficamos em demorada e condoída contemplação. Coitados. Dá tanto trabalho ser caluniador profissional.

Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye

Em 1980, José Cid foi ao Festival Eurovisão da Canção representar Portugal com uma canção que aludia na referência ao “muro em Berlim” àquele que era o mais grave problema mundial do tempo, a competição bélica e imperial entre os EUA e a União Soviética, o Pacto de Varsóvia e a NATO, configurada na expressão “guerra fria” e sua ameaça de conflito nuclear aniquilador da humanidade. Cid teve arte e engenho para sacar um notável 7º lugar, sendo premiado pela temática política, pelo internacionalismo da letra e pelo talento festivaleiro. Tinha 38 anos.

Em 2018, José Cid foi ao Festival RTP da Canção com uma canção onde conseguiu meter guitarras, alma, fado, rio, mar, ondas, povo, Abril, caravelas, Angola, Timor, Brasil, poetas tristes, lutas sozinho, Lisboa, Zeca, Camões, Pessoa, Maio, Amália, chorar, saudades, rezas por nós, país guerreiro, nunca te rendes, ideais, lendas, profecias, Alcácer-Quibir, utopias, livre, sonhar. É uma juliana de clichés despachados sem fio narrativo, como se alguém tivesse despejado para cima de uma mesa um expositor de postais de uma loja de souvenirs do Portugal very tipical e a letra fosse uma colagem dos que ficaram no tampo. Cid não passou à final, não esperou pela votação para abandonar o estúdio da RTP e não se livrará da maldição de ter afastado o seu sobrinho do espectáculo. Tem 76 anos.

Está velho? Não. Ter participado, ter sacrificado Gonçalo Tavares para manter a sua identidade, ter feito uma canção profissionalmente foleira, fica como um atestado da sua juventude – isto é, da sua força irracional. A audiência é que passou a comunicar noutra língua. Quem tem menos de 40 anos não sabe do que está a falar. Caravelas e Abril, Camões e Zeca, lendas e profecias são agora fantasmas esquecidos para quem só deseja heróis no activo: Mourinho, Cristiano, Sobral, a Lisboa da Madonna e das feéricas celebridades, o Portugal na moda. Os “poetas tristes” abriram restaurantes e empresas de serviços turísticos, a utopia está à disposição e aluga-se ou vende-se ao metro quadrado. Involuntariamente, a sua canção expõe por antinomia a alma de um povo que o Zé desconhece. Assim se assinalou a despedida de um folclore que era matriz do salazarismo sociológico e antropológico prevalecente.

Partamos à descoberta do folclore que se segue. Caravelas opcionais.

Depois do Princípio de Peter e da Lei de Murphy, eis que chegam os Axiomas do Monteiro

Henrique Monteiro assina o texto Ainda bem que o MP investigou Centeno. Nele defende que a palavra de Mário Centeno não vale nada, que o Ministério Público deve estar ao serviço das agendas comerciais e políticas da Cofina, que o PS é um partido de bandidos e que a Isabel Moreira não passa de uma tontinha. Estas quatro ideias, aparentemente díspares, radicam no mesmo tronco mental cuja substância consiste numa ilimitada estupidez.

Vejamos como esta pícara figura consegue atingir a quadratura da sua obtusidade:

«[sem a intervenção do MP] Ter-nos-íamos que fiar na palavra do próprio e uma mancha qualquer ficaria adstrita ao atual presidente do Eurogrupo. Mário Centeno tem agora algo melhor do que a sua palavra [...]»

Um pasquim criminoso lança uma acusação ignóbil e absurda contra um governante, ainda por cima numa altura em que este acaba de assumir um papel de representação de Portugal de notoriedade europeia e até mundial. Para o Monteiro, quem não tem crédito é a vítima. Precisa de ver a sua honra e bom nome resgatados pelo Ministério Público, caso contrário já não se livra da sujeira onde se enterrará se recusar ser investigado judicialmente.

Axioma do Monteiro: “Todos os governantes, todos os políticos e todos os cidadãos são suspeitos até arquivamento pelo MP em contrário“.

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«As suspeitas ridículas sobre Centeno foram investigadas. Ainda bem. Com isso o ministro teve ganho de causa.»

A direita decadente e o seu império na comunicação social tentam abater uma das principais figuras do Governo. A operação estende-se a Estrasburgo e à imprensa internacional. Durante dias e dias o assunto é explorado com mentiras, gerando manchetes, notícias e opiniões caudalosas. Até que Marcelo resolve acabar com a bandalheira. Para o Monteiro, o desgaste e desprestígio que atingem inevitavelmente Centeno e Governo são coisa boa. Tão boa que precisa de ser coroada com uma pulhice só ao alcance de um estúpido do seu calibre: declarar que Centeno recolheu vantagens do episódio.

Axioma do Monteiro: “Todos os governantes são alvos legítimos da indústria da calúnia, mas só se o Governo for socialista que é para gozarmos de pança cheia antes, durante e depois da torpe exploração mediática e política.“.

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«[os que protestaram contra a abertura do inquérito a Centeno] pretendem um controlo do MP, controlando também o ‘ridiculómetro’ para se saber quando deve atuar.»

Ai dos que levantem cabelo quando assistem a um Ministério Público a invadir e devassar gabinetes ministeriais a mando das parangonas absurdas e infames dos profissionais da calúnia. O Monteiro quer bico calado e bola baixa, dure o que durar a humilhação, a violação da privacidade e a difamação em manchete e abertura de telejornal. Se alguém se atrever a falar, vai logo corrido com o carimbo de “socialista”: bandido que não descansa enquanto não reduz a Procuradoria-Geral da República a uma sucursal do Rato.

Axioma do Monteiro: “Para esconder a eventual agenda política do Ministério Público há que carimbar como agentes políticos malignos todos os que questionem o que é evidente e gravemente questionável.

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«No seu habitual estilo de ir mais depressa atrás de palavras do que de raciocínios, a deputada Isabel Moreira afirmou o seguinte: “Achar que o ministro das Finanças se vendeu por dois bilhetes é digno de um Estado persecutório”. Independentemente de a deputada saber o que é um Estado persecutório, daqueles que prendem pessoas às quatro da manhã sem processo nenhum, sem nada, como aconteceu durante 40 anos em Portugal, o caso é que investigar seja quem for é digno de um Estado de Direito democrático. Mas se pessoas como Isabel Moreira e outras mais doutas [béu, béu, béu]

Monteiro a dar um responso à Isabel, reduzindo-a a uma garotinha parvinha que não sabe nada de perseguições estatais, de História, de direito constitucional, de ciência política, de participação política, de intervenção cívica, de democracia, de coragem, de liberdade. Uma miúda parva, que fala sem pensar e só diz disparates, coitada da gaja, e que, fatalmente, apenas ocupa o seu bestunto com o diabólico plano de conseguir meter no bolso a independência do MP, bolça o infeliz. Só possível, esta rancorosa e grotesca visão, quando a inenarrável estupidez do bronco supera a soma de todas as protecções morais que a sua consciência lhe oferece por automatismo genético.

Axioma do Monteiro: “Tendo um poleiro na comunicação social, e calhando não suportarmos a superioridade intelectual e a exemplaridade cívica de alguém, estamos autorizados a recorrer à pesporrência canalha para nos desforrarmos do complexo de inferioridade assanhado na sofrida comparação“.

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O conjunto destes axiomas permite identificar um superaxioma do Monteiro: “Quando se vai para o Parlamento fazer queixinhas aos deputados por causa de um telefonema que durou 90 minutos – mais ou menos hora e meia de paleio livre e privado, portanto – é natural, obrigatório e honesto assumir o que se é: «Sou do género estúpido.»”

Pedrada no charco

Rui Rio já tinha surpreendido, com perfume de escândalo, quando em campanha eleitoral para o PSD teve a ousadia de criticar o actual mandato de Joana Marques Vidal. As suas palavras causaram temor e tremor no laranjal por serem absolutamente contrárias à cultura decadente da actual direita portuguesa. Nessa decadência, Sócrates é uma obsessão diária (horária?) não só por razões ligadas à vingança oligárquica em curso, não só por motivos relativos à antropologia tribal e seus fenómenos de diabolização dos adversários em ordem a serem destituídos de humanidade e violentados sem qualquer limite, mas também, e profundamente, e essencialmente, porque os decadentes são decadentes por terem reduzido a política à conquista do poder pelo poder, para tal valendo tudo no manual da baixa política. Logo, não têm ideias de interesse comunitário nem valorizam a inteligência construtiva, basta-lhes o consolo de possuírem um troféu magnífico chamado Sócrates para exibir em parada e ir torturando e achincalhando com paixão maníaca. Daí terem pegado em armas, desvairados, na intenção de entronizar vitaliciamente a santa Joana, a heroína que lhes corre nas veias.

Com a escolha de Elina Fraga para vice-presidente do PSD, Rio fez uma outra coisa que já não se consegue descrever apenas recorrendo aos vocábulos “surpresa” e “escândalo”. Talvez indo buscar “shock and awe” nos aproximemos, embora quem melhor conseguiu até agora traduzir conceptualmente o que está em causa tenha sido Paula Teixeira da Cruz: “chama-se traição“. E de facto, pelo menos esse facalhão no lombo dos pulhas está garantido. Só que se trata de uma traição àqueles que atraiçoaram os fundadores do partido, que atraiçoaram os valores da decência e da lei democrática, e que atraiçoam constantemente a sua honra ao se submeterem voluntariamente à degradação última: transformarem a sua palavra na realização da sua miséria. Seja lá o que for que Rio tenha pretendido alcançar com a decisão, ela fica absolutamente original; seja no plano do seu trajecto político individual, seja no plano do ecossistema da direita dos últimos 14 anos.

Fraga chega aqui depois de ter cometido o crime de ter falado em defesa do Estado de direito a propósito da “Operação Marquês”, entre outras avarias fonte de asco para os fanáticos do empobrecimento e do castigo aos piegas e madraços instalados na sua zona de conforto. O ódio não lhe perdoa ter tentado apelar aos princípios constitucionais perante um linchamento institucional e mediático em curso. Acresce a este cadastro o ser mulher, saber do que fala e não ter especial gosto em passar despercebida. Vai ser o bombo da festa da pasquinagem – precisamente porque promete ser uma translúcida fonte de dignidade e coragem no charco degradante em que se encontra a direita nacional.

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Governo Sombra, três à esquina a tocar a concertina

Cada vez mais sintonizado com os seus colegas de direita, Ricardo Araújo Pereira dá repetidamente espectáculos decadentes no painel das sextas à noite da TVI24. Não só tem um discurso enrodilhado, do qual acaba por se extrair muito pouco, normalmente uma ideia mínima e apenas centrada na extracção de uma gargalhada fácil do público e no excessivo respeito pelos seus colegas, como também em temas como Passos Coelho ou José Sócrates (este uma constante, se não o motivo, do programa, perdão, da pândega) consegue ultrapassar largamente o que seria expectável do seu colega Tavares, no primeiro caso pouco vendo para apontar de negativo, apenas sussurrando umas palavrinhas em que se consegue entender “mandar pessoas emigrar” e pouco mais, como se Pedro Passos no governo não fosse um manancial de incompetências, mentiras, erros crassos, políticos ou de previsão, cenas caricatas, afrontas e brejeirices, e, no segundo, indo muito além do que o João Miguel poderia dizer de acusatório. Fazendo-o até parecer moderado.

 

Pois no último programa, Ricardo resolveu trazer à baila uma entrevista dada, esta semana, por Sócrates a dois jovens jornalistas de um site independente chamado “É apenas fumaça“.

 

Para fazer humor, apresentou uma montagem em que o entrevistado repete até ao enjoo a palavra “barragens”. Cómico, não acham?

Devo dizer que, apesar da montagem de efeito fácil, Ricardo tem razão quando diz que o tema das barragens ocupou demasiado tempo da entrevista e, honra lhe seja, teve o cuidado de referir que a culpa até nem foi do Sócrates, porque os rapazes estavam mesmo interessados em insistir naquele tema. Mas, portanto, em vez de se ficar por aí – ou seja, na opção bastante questionável dos entrevistadores pelo tratamento exaustivo e excessivo da matéria energética – resolve fazer uma gracinha como se Sócrates ali tivesse ido com a obsessão das barragens (eventualmente para evitar outros temas, o que não foi o caso, pois, no fim, ele até se declarou surpreendido pelo fim abrupto do interrogatório). Ora, o que irritou o Ricardo neste particular irritou qualquer pessoa que estivesse a ouvir. Também eu pensei, a páginas tantas, que já largavam aquele tema, o qual ocupa mais de meia hora em quase duas. Ora, precisamente por isso, não é de admirar que o entrevistado às tantas expluda e comece a atacar os jornalistas acusando-os de defenderem a inacção em matéria energética. Estas explosões foram, claro está, outro tema de gozo do Ricardo. Sim, a aparente cólera de Sócrates em relação aos pobres desgraçados foi algo deslocada e aconteceu algumas vezes. Mas, mais adiante, Sócrates tem o cuidado de lhes dizer que não são eles os visados directamente, mas que aquelas posições estúpidas estão ali a representar uma visão que ele rejeita liminarmente. Claro que esta referência não ajudaria à gracinha pretendida do Ricardo e é simplesmente ignorada.

A referência ao local da entrevista, que lembra ao Ricardo, se não me engano, uma arrecadação, visa também denegrir o entrevistado, pretendendo transmitir a ideia de que a Sócrates já pouco mais resta para comunicar com o público do que entrevistas em vãos de escada. Embora, note-se o paradoxo, os entrevistadores tenham sido muito elogiados pela sua coragem e preparação e até contrastados com os entrevistadores clássicos das televisões. Mas enfim, em vão de escada ou não, o Ricardo lá foi ver. Não precisava, de facto, se o objectivo era gozar com o local e a forma. E efectivamente não é certo que o Ricardo tenha ouvido sequer alguma coisa do que lá foi dito. O que foi pena.

 

Quanto à entrevista propriamente dita, que se propunha, nas palavras dos próprios autores, “questionar as decisões tomadas, responsabilizar os representantes, dar voz aos representados“, houve, de facto, a preocupação de esmiuçar certas decisões governativas, e foi, para mim, óbvio que Sócrates, com maior ou menor impaciência, acabou por esclarecer bem o que estava em causa nos diversos temas. No fim, foi também impossível não achar que faltavam perguntas. Possivelmente, os entrevistadores não tinham por objectivo esmiuçar a operação Marquês ou as relações de Sócrates com o BES ou outros temas mais quentes surgidos já depois de afastado do poder, focando-se mais nas decisões governativas. Infelizmente, porém, faltaram ou foram apenas aflorados inúmeros temas, como as estradas, as PPP, os chamados “projectos megalómanos”, as condições do resgate, etc., que ficarão talvez para uma próxima. Muito provavelmente a pedido do Ricardo. Para fazer dali uma gracinha. O Tavares esteve estranhamente reservado nesta matéria. Será porque o compincha RAP já dissera tudo o que poderia fazer rir, porque as respostas de Sócrates o calaram ou ainda porque só reagiria se os rapazes tivessem enveredado pela operação Marquês, a prova provada de que o homem é um vigarista?

O Governo Sombra conta ainda com Pedro Mexia, que também consegue ver imensas qualidades em Pedro Passos. Painel mais plural não há.

Para ser “riófilo” ou “rioista”, este Baldaia tem que ser parvo?

Rui Rio conhece bem os perigos que tem o caminho das esquerdas e sabe bem dos erros que foram cometidos pelo governo anterior, liderado pelo seu partido. De uma governação atenta às clientelas eleitorais, como a atual, e que hipoteca o futuro firmando despesa, ou uma governação excessivamente liberal que deixou para trás os mais desprotegidos, como a anterior, venha o diabo e escolha, porque atrás de uma vem sempre a outra. Tem, portanto, de haver uma alternativa ao que temos agora e ao que tivemos no passado recente.

 

De que está a falar o Baldaia, quando diz que o actual governo “hipoteca o futuro firmando despesa”? Que despesa? Baldaia não especifica. Estará a referir-se ao alegado aumento do número de funcionários públicos ou à reposição de algum do seu poder de compra? Pode ser. Provavelmente é. Mas aposto que, num próximo editorial, é bem capaz de nos estar a rosnar, perdão, a alertar para o facto de o Serviço Nacional de Saúde não dispor de pessoal médico e de enfermagem suficiente e de se estar a degradar a  cada dia que passa. Para o facto de, agora que as receitas aumentam, nada justificar que se continue a desprezar o sector da saúde (e da educação pública) como se estivéssemos sob o domínio da Troica. E acabar a chamar ao actual governo “austeritário”, ganhando quiçá um passaporte para o Observador. Também é capaz de, brevemente, nos alertar para o facto de não haver suficiente investimento público em infraestruturas; ou investimento público tout court. Enfim, uma farpa qualquer sem grande ou pequeno aprofundamento. E, já agora, no que toca a “clientelas”, qual é, qual foi e qual será o governo que não se preocupa com “as clientelas eleitorais”, também designadas «os seus eleitores» ou «a sua base de apoio eleitoral»? Muito gostaria de saber. O Rio não quer saber? Até o Pedro Passos, o pretenso indiferente aos votantes, com os seus insultos aos “preguiçosos” e portugueses em geral, mais não fazia do que apelar, com isso, àquela classe de gente adepta do “fartar vilanagem”, aqueles empresários do que é bom é pagar pouco, salários de miséria e Mercedes topo de gama à porta, e do quem não está contente que emigre. Há quem se identifique e excite com esta postura política toda ela novidade (na altura). Há, houve, muitos tansos que acharam piada. Gostaram do timbre que a acompanhava. Depois, enquanto dependentes de grunhos como esses entusiastas patrões, não gostaram de muito mais.

 

Mas o Baldaia insiste:

 

“Rio tem de saber explicar aos portugueses como se pode melhorar de vida agora sem comprometer o bem-estar futuro. “

Muito bem. E o Baldaia, não nos quer explicar já, poupando esforço ao Rio? Quem diabo estará a comprometer o bem-estar futuro e porquê, ó Baldaia? O que sugeres? Que maus resultados te atormentam?

[…]

“Regressando a Ferreira Leite e ao tempo em que um governo socialista aumentou os funcionários públicos em 2,9% para ganhar as eleições, importa recordar que a consequência desse serviço à clientela eleitoral resultou em prejuízo da própria clientela com um corte nos salários de 3,5 a 10% decidido no ano seguinte. Isto tem de ser dito com clareza a um povo e a um governo que vive como se não houvesse amanhã.”[…]

Mau. Porque exagera o Baldaia? Alguém está a viver “como se não houvesse amanhã”? E, se está, isso é mau? Repare-se como o Baldaia não se atreve sequer a utilizar o verbo “gastar”, que normalmente acompanha a referida expressão. Fica-se pelo “viver”. Contentemo-nos, pois, com a mera alegria de não estarmos a morrer como se não houvesse amanhã. Mas entretanto, estará tudo a dormir na União Europeia, no FMI, na Moody’s, na Fitch, no Eurogrupo?

Não é por nada, mas eu entendo que o director de um jornal devia ser mais objectivo do que estas afirmações cartilheiras (estou tão contemporânea) denotam. Tudo o que Baldaia aqui diz namora a sério com a parvoíce.

Como Sócrates e muitos outros já disseram e é fácil de entender, os funcionários públicos foram aumentados em 2010 – e com o apoio do PSD de Ferreira Leite – ao fim de vários anos de salários e carreiras congelados e como forma de estimular um pouco a procura numa altura de crise, uma tentativa de medida anti-cíclica, como, aliás, fora defendido pela União Europeia numa primeira fase (antes de o desastre grego vir ressuscitar as hegemonias morais). Era eleitoralista esta medida? Também era, mas não era só. Tinha outros objectivos. E os cortes que mais tarde se seguiram têm justificações igualmente fáceis de explicar. O BCE, a Alemanha, a Comissão Europeia e toda a parafernália institucional que geriu a crise do euro desencadeada em 2009 optaram, passado um ano, pelo conflito inter-êurico norte-sul, entre credores e devedores, virtuosos e pecadores, pelo garrote aos gastadores sem-vergonha, pelo “cada um por si” e pela austeridade recessiva (daí os cortes de salários) e isto durante tempo demais até o BCE decidir finalmente intervir na agonia, deixando-se de preconceitos e moralismos deslocados e suicidas e começando a comprar dívida, perante a iminência de colapso da moeda única e da própria União. Portanto, o Baldaia devia deixar-se de conversa tonta. Até porque toda a gente sabe que, caso surja nova crise internacional grave, não sendo nós a Alemanha, voltaremos a passar mal, como passarão mal os outros milhões de cidadãos da UE lá nos seus países, que, entre outras coisas, deixarão de vir até cá gastar o que agora ganham e de nos comprar o que não podem. Esteja cá o governo que estiver.

Se o Paulo gosta do Rui Rio, se gostaria de o eleger primeiro-ministro e quer aqui manifestar-lhe o seu apoio, é livre de o fazer. É o que está a fazer, aliás. Mas não deturpe nem tresleia nem maldiga as razões por detrás do sucesso actual da economia nem deixe subentendido que o que seria bom seria manter o garrote. Ao menos diga-o claramente. E prepare-se para ouvir que, nesse caso, os resultados económicos seriam outros. Outros e maus. O consumo interno, o dinamismo de muitas empresas e o consequente aumento das exportações são as peças mais lustrosas da turbina nacional actual. Que mais se pode desejar? O que há aqui a eliminar, ó Baldaia? Além disso, relativamente às despesas que apoquentam o Baldaia, lembro que funcionários públicos são também os bombeiros, os guardas florestais, os guardas prisionais, os militares, os polícias, os funcionários do SEF. Tragicamente escassos, não é?

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório