Pedrada no charco

Rui Rio já tinha surpreendido, com perfume de escândalo, quando em campanha eleitoral para o PSD teve a ousadia de criticar o actual mandato de Joana Marques Vidal. As suas palavras causaram temor e tremor no laranjal por serem absolutamente contrárias à cultura decadente da actual direita portuguesa. Nessa decadência, Sócrates é uma obsessão diária (horária?) não só por razões ligadas à vingança oligárquica em curso, não só por motivos relativos à antropologia tribal e seus fenómenos de diabolização dos adversários em ordem a serem destituídos de humanidade e violentados sem qualquer limite, mas também, e profundamente, e essencialmente, porque os decadentes são decadentes por terem reduzido a política à conquista do poder pelo poder, para tal valendo tudo no manual da baixa política. Logo, não têm ideias de interesse comunitário nem valorizam a inteligência construtiva, basta-lhes o consolo de possuírem um troféu magnífico chamado Sócrates para exibir em parada e ir torturando e achincalhando com paixão maníaca. Daí terem pegado em armas, desvairados, na intenção de entronizar vitaliciamente a santa Joana, a heroína que lhes corre nas veias.

Com a escolha de Elina Fraga para vice-presidente do PSD, Rio fez uma outra coisa que já não se consegue descrever apenas recorrendo aos vocábulos “surpresa” e “escândalo”. Talvez indo buscar “shock and awe” nos aproximemos, embora quem melhor conseguiu até agora traduzir conceptualmente o que está em causa tenha sido Paula Teixeira da Cruz: “chama-se traição“. E de facto, pelo menos esse facalhão no lombo dos pulhas está garantido. Só que se trata de uma traição àqueles que atraiçoaram os fundadores do partido, que atraiçoaram os valores da decência e da lei democrática, e que atraiçoam constantemente a sua honra ao se submeterem voluntariamente à degradação última: transformarem a sua palavra na realização da sua miséria. Seja lá o que for que Rio tenha pretendido alcançar com a decisão, ela fica absolutamente original; seja no plano do seu trajecto político individual, seja no plano do ecossistema da direita dos últimos 14 anos.

Fraga chega aqui depois de ter cometido o crime de ter falado em defesa do Estado de direito a propósito da “Operação Marquês”, entre outras avarias fonte de asco para os fanáticos do empobrecimento e do castigo aos piegas e madraços instalados na sua zona de conforto. O ódio não lhe perdoa ter tentado apelar aos princípios constitucionais perante um linchamento institucional e mediático em curso. Acresce a este cadastro o ser mulher, saber do que fala e não ter especial gosto em passar despercebida. Vai ser o bombo da festa da pasquinagem – precisamente porque promete ser uma translúcida fonte de dignidade e coragem no charco degradante em que se encontra a direita nacional.

10 thoughts on “Pedrada no charco”

  1. Como já disse em outro tópico esta é uma boa malha do salazarento Rui Rio – atacar a merda que vai na Justiça !
    É o tema tabu do PS, e particularmente do Costa.
    Pois é justamente por aí que o Rui Rio ataca o eleitorado do “centro” — não vai pela Economia porque não pode, vai pela JUSTIÇA porque pode !
    CHAPEAU !
    E bem podem o DIAP e o Dâmaso tentarem “tratar do assunto” que não lhes vai correr nada bem.
    – Primeiro porque já é coisa que dá muito nas vistas.
    – Segundo porque o Rui Rio é mais teimoso que um milhão de mulas empacadas.
    – Terceiro porque me cheira que não há-de ser fácil apanhar nem Rui Rio nem Elina Fraga.
    Resultado:
    – A Achadeira-Mor do Reino pode começar a fazer as malas
    … e o que mais se há-de ver … !

  2. Cada vez a tremideira do mundo corrupto do cavaquismo é maior e se esforça mais e sempre mais por encobrir esses mundo decadente e corrupto remetendo tudo sobre a figura de Sócrates como bode expiatório.
    Tudo deriva e é filho da escola de Cavaco, esse espírito tacanho que imitava ser reinante para disfarçar a sua elevada envergadura de mesquinho vingativo. A tentativa de apagar por liquidação moral a figura de Sócrates como dirigente visionário com um projecto pensado para um verdadeiro salto inovador para o país não passa de uma imolação na praça pública para transplantar exorcisticamente os pesados malefícios e corrupções do cavaquismo e seus mais executores continuarem à solta ilesos dos enormes roubos que praticaram enquanto governantes.
    Essa corrupção grandiosa esteve centrada no BPN dos ministros e Secretários do Cavaco e teve o seu expoente máximo em Durão Barroso, corrupto cá que na UE se tornou corrupto internacional ao ponto de seis meses depois de lá sair até foi proibido de lá entrar.
    O julgamento de Sócrates é o julgamento do país de Cavaco por interposta pessoa de um inocente imolado como catarse de um povo enganado pela aliança da imprensa com a justiça de gente medíocre vingativa, feita à imagem e semelhança de Cavaco.
    O mundo corrupto do cavaquismo tem conseguindo enganar o pagode mas mesmo que assim o mantenham até à morte restará o cadáver como catarse da sua vida de inocente.
    Nesse dia irão chorar todos lágrimas vergonhosas.

  3. Dâmaso e a entourage de Passos e Cavaco sabem que, se for nomeada uma Vidal do PS, a probabilidade de encontrar materiais criminosos, por acção ou negligência, por exemplo, e sem ser preciso recuar muito no tempo, entre os conluios mediático-judiciais ocorridos durante o mandato da actual Procuradora, ou nos processos de transferencia de rendimentos garantidos do Estado Português para especuladores chineses, franceses e outros, aumenta. É natural que a saída de Joana lhes perturbe o sono.

  4. Mais do que Fraga como vice no PSD de Rio, apetece comentar a notícia súbita de mais um inquérito do MP. A notícia e sobretudo o timing. Só para quem ainda tinha dúvidas que tínhamos uma PGR a soldo e de quem.

  5. Já agora e em relação à política, o meu prognóstico. Em 2019 Costa vai ter que voltar a entender-se com alguém. E como não acredito na reedição da Geringonça numa conjuntura totalmente diferente…

  6. Uma última achega só para eleger a melhor análise ao Congresso. Ou à eleição da Fraga. E o óscar vai para o Júdice Clientelismo Puro e Duro. Não é a vichyssoise que também se serve sempre fria?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.