Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye

Em 1980, José Cid foi ao Festival Eurovisão da Canção representar Portugal com uma canção que aludia na referência ao “muro em Berlim” àquele que era o mais grave problema mundial do tempo, a competição bélica e imperial entre os EUA e a União Soviética, o Pacto de Varsóvia e a NATO, configurada na expressão “guerra fria” e sua ameaça de conflito nuclear aniquilador da humanidade. Cid teve arte e engenho para sacar um notável 7º lugar, sendo premiado pela temática política, pelo internacionalismo da letra e pelo talento festivaleiro. Tinha 38 anos.

Em 2018, José Cid foi ao Festival RTP da Canção com uma canção onde conseguiu meter guitarras, alma, fado, rio, mar, ondas, povo, Abril, caravelas, Angola, Timor, Brasil, poetas tristes, lutas sozinho, Lisboa, Zeca, Camões, Pessoa, Maio, Amália, chorar, saudades, rezas por nós, país guerreiro, nunca te rendes, ideais, lendas, profecias, Alcácer-Quibir, utopias, livre, sonhar. É uma juliana de clichés despachados sem fio narrativo, como se alguém tivesse despejado para cima de uma mesa um expositor de postais de uma loja de souvenirs do Portugal very tipical e a letra fosse uma colagem dos que ficaram no tampo. Cid não passou à final, não esperou pela votação para abandonar o estúdio da RTP e não se livrará da maldição de ter afastado o seu sobrinho do espectáculo. Tem 76 anos.

Está velho? Não. Ter participado, ter sacrificado Gonçalo Tavares para manter a sua identidade, ter feito uma canção profissionalmente foleira, fica como um atestado da sua juventude – isto é, da sua força irracional. A audiência é que passou a comunicar noutra língua. Quem tem menos de 40 anos não sabe do que está a falar. Caravelas e Abril, Camões e Zeca, lendas e profecias são agora fantasmas esquecidos para quem só deseja heróis no activo: Mourinho, Cristiano, Sobral, a Lisboa da Madonna e das feéricas celebridades, o Portugal na moda. Os “poetas tristes” abriram restaurantes e empresas de serviços turísticos, a utopia está à disposição e aluga-se ou vende-se ao metro quadrado. Involuntariamente, a sua canção expõe por antinomia a alma de um povo que o Zé desconhece. Assim se assinalou a despedida de um folclore que era matriz do salazarismo sociológico e antropológico prevalecente.

Partamos à descoberta do folclore que se segue. Caravelas opcionais.

3 thoughts on “Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye”

  1. eu embarcava na caravela do J.P, Simões , desde os belle chase até hoje , com muitos copos e assim. mas ainda não percebi que raio foi fazer à foleirice do festival. o J.P, endoidou??

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