Um ciclo de 12 anos para a esquerda

A esquerda portuguesa tem a cada vez maior probabilidade de conseguir ser a força governativa maioritária num ciclo de 12 anos. As contas, e as profecias, são fáceis de fazer:

– Rio apenas pode ambicionar a um tipo de triunfo, o PS não atingir a maioria absoluta nas próximas legislativas, e a um tipo de bóia de salvação, recuperar eleitorado nas autárquicas e deixar o CDS abaixo dos dois dígitos para a Assembleia. Vencer as legislativas em 2019, com os dados que se conhecem e se prevêem para a execução governativa e excluindo fenómenos extraordinários, será impossível.

– Assunção* Cristas, tendo Nuno Melo como seu tenente, está na corrida para comer eleitorado ao PSD que tenha Passos como o seu ídolo. Se quiser ir buscar outro tipo de votos, terá de se posicionar como uma candidata retintamente populista e começar a atacar o sistema a outrance. Nenhum destes caminhos tem a palavra “futuro” no bornal.

– Calhando Rio sair após a derrota em 2019 e Montenegro (ou um outro medíocre qualquer) pegar no partido, teremos o regresso do fanatismo beligerante, da baixa política e da decadência do poder pelo poder. Discursarão para um nicho e o PSD voltará a ter de tentar recuperar as origens a seguir a 2023 ou contemplar o seu desaparecimento como partido sociologicamente relevante.

Estamos perante 12 anos, começados em 2015, que podem continuar, aprofundar e expandir o que temos visto na primeira metade da actual legislatura – legislação que passa em Lisboa, contas que passam em Bruxelas, política que chega aos cidadãos de acordo com as suas necessidades e aspirações. É que aquilo que se aponta como a principal ameaça à estabilidade do Governo minoritário de Costa, as radicais diferenças em certas áreas para as posições do PCP e do BE, pode ser visto de forma absolutamente simétrica: nem com a influência centrífuga das divergências em relação à lei laboral e questões europeias, entre tantas outras, a união de responsabilidades do PS, BE e PCP se desfez.

Que os idos de Março de 2011 fiquem como a mais importante lição política deste início de século em Portugal.

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* Chamei-lhe “Conceição” na versão original do texto, no que fica como um desvio teológico quase imperceptível.

9 thoughts on “Um ciclo de 12 anos para a esquerda”

  1. Um dos problemas mais sérios que este Governo tem que resolver é o de não permitir que uma grande parte do território Centro Norte se torne inabitável. É preciso que a expiação dê lugar à visão de futuro. As medidas atontanadas de reacção às catástrofes de Verão, espancando as pessoas mais vulneráveis da sociedade com ameaças de multas aterradoras e expropriações, impondo obrigações e retirando possibilidade de gerar rendimentos, desqualificam-no como Governo de Esquerda. Bater nos velhos impotentes do interior para abraçar os jovens urbanitas do litoral pode até render alguns votos mas define um novo quadro de moral política dos actuais detentores de poder que cedo ou tarde terá consequências.

  2. Raramente se vê valupi empenhado em comentário do tipo oracular à Pacheco e chusma de rascas adivinhos plitólogoeiros e comentadeiros de jornais e tv.
    Os directores de jornais actuais não sabem fazer outra coisa senão fazer prognósticos mal amanhados e fundamentados e pior ainda quando não são ideias de leituras de fora.
    Num mundo tão instável política, social e tecnologicamente onde os casos surgem inesperada e abruptamente e são intrinsecamente imbricados uns com os outros é, realmente, ter um faro muito forte para acertar sequer na terminaçaão quanto mais nos números todos.
    Mas que, para pior, que seja como aqui previsto.

  3. isso era o que dizia um comentador espanhol sobre o pp e o psoe nuns idos quaisquer .. esqueceu a cena de ciudadanos podemos !! e , sei lá , 5 estrelas podem surgir de qualquer pizzaria. bem , ainda que haja latinos e latinos.

  4. Não que a (des)graça da criatura tenha qualquer importância, Valupi, mas da última vez que verifiquei respondia por Assunção e não Conceição. Já no que me toca (e vá-se lá saber porquê), quando um qualquer ecrã me enfia pela goela abaixo a imagem da flausina, o nome que me martela as meninges é João Bafedonça (ou Bafo-de-Onça).

  5. A (des)propósito:

    Para os distraídos, desmemoriados e anestesiados pela gesta gloriosa da democracia castelh… perdão, espanhola:

    «ESPANHA CENSURADA

    A transição pacífica espanhola, tão elogiada, permitiu limpar cadastros para novos democratas e seus descendentes. Hoje, o espírito franquista está vivo e já nem esconde os dentes para morder.

    Há muitos anos que a transição espanhola do franquismo para a democracia é citada como exemplo de sucesso. Sem violência, a democracia veio, instalou-se, lavou o rosto de todos os franquistas e transformou a Espanha democrática num exemplo. O país integrou-se na União Europeia, prosperou, as instituições consolidaram-se, principalmente a partir do golpe falhado do tenente-coronel Antonio Tejero.

    É sempre mais fácil fazer uma transição se em nenhum momento se afrontam os poderes instituídos ou se exigem contas a quem exerceu por décadas um poder autoritário e cerceador dos direitos, liberdades e garantias. Se não se toca nos ninhos de vespas, podemos até chamar-lhes abelhas e sustentar que agora dão mel.

    Colaboradores da ditadura, franquistas, falangistas, perseguidores de republicanos, de anarquistas, de independentistas, de ateus, de poetas e outros artistas, obscurantistas de grande fervor ou por razões mais pragmáticas, industriais e famílias aristocráticas, torturadores, criminosos de guerra e de Estado, militares, Igreja, de um dia para o outro transformaram-se, passaram pelo túnel da transição pacífica, e do outro lado saíram democratas prontos a estrear. Os quase 43 anos da Espanha pós-Franco e os 40 anos que a Constituição cumpre este ano, em dezembro, não erradicaram essa espinha franquista porque nunca ninguém a operou.

    Os crimes contra a humanidade foram silenciados a bem da pacificação da sociedade. Vidas destruídas, sonhos apagados, pensamentos arrancados, dor infligida, exílios, morte. Tudo se apagou para aproveitar a mesma folha e escrever as novas histórias democráticas. Essa transição cúmplice, sem um tiro, tapou todos os buracos feitos pelas armas franquistas.

    O franquismo não desapareceu, vestiu outras roupas, chamou a si o poder e governa alcandorado na varanda da democracia. Durante anos, porque parecia mal, escondeu o coração falangista, o fascismo que lhe veste a alma e, de roupagens conservadoras, agindo de maneira reacionária mas controlando os laivos autoritários, deu de si a imagem de democrata.

    O modernismo de que se quis vestir para o séc. xxi despe-o agora nesta contraofensiva das forças conservadoras, nesta tendência de contrarreforma que se generaliza mundo fora, numa reação dos setores mais retrógrados aos progressos sociais do séc. xx. Em tempos acelerados de individualismo exacerbado, a trilogia Deus, pátria, família volta a ecoar, sem vergonha de se assumir em pleno dia.

    A censura da obra de Santiago Sierra na ARCOMadrid é tão-somente o mais recente exemplo de uma sociedade que faz recair sobre a liberdade de expressão limites que são políticos, seus.

    Condenar o rapper Valtònyc a três anos e meio de prisão por difamar a coroa, incentivar ao terrorismo e ameaçar políticos através das letras das suas canções é sinal de que os limites à liberdade de expressão estão a tornar-se cada vez mais restritos e perigosos.

    Prender ou obrigar ao exílio políticos independentistas catalães, socorrer-se de um artigo da Constituição a que nunca fora preciso recorrer em democracia para suspender as instituições na Catalunha, recorrer à força da polícia sem nunca, por uma vez, intentar o diálogo, ouvir, estabelecer pontes, encontrar soluções, como seria apanágio da democracia – tudo isso são sinais fortes de que franquistas, falangistas, militaristas, nacionalistas católicos, carlistas, juanistas, juancarlistas e outros espíritos pouco democráticos estão a sair do armário onde a naftalina os tem mantido a comandar na sombra, à espera de sair de cara ao sol.

    As piadas que a jovem Cassandra V. contou sobre Carrero Blanco – o delfim de Franco que a ETA assassinou em 1973 – valeram-lhe uma condenação a um ano de prisão em 2017; o ano passado, um jovem de 24 anos fez uma fotomontagem do seu rosto na cara de Jesus Cristo e foi condenado a 480 euros de multa. Os exemplos vão-se multiplicando, o peso da lei como bota pisando a liberdade de expressão e o sentido de humor. A censura está viva e é preocupante.

    A fragilidade da democracia está no seu caráter democrático, passe o pleonasmo – abre a porta a todos e permite o mesmo espaço aos que a abraçam com fervor e aos que a vituperam a cada momento e conspiram para a derrubar. Não há melhor localização para a destruir que a partir de dentro, porque enquanto pensamos que as instituições democráticas funcionam como deviam, com o seu sistema de equilíbrios e controlos, alguém as utiliza para a aniquilar. E quando a União Europeia prefere olhar para o lado e não ver, dentro das suas fronteiras, como os projetos autoritários estão a tomar conta das nações que a conformam – não só a Espanha, mas a Hungria, a Polónia, a República Checa, a Áustria – cabe-nos a nós estar atentos, gritar, lançar piadas contra Carrero Blanco ou Marcelo Caetano, e quanto mais ácidas melhor, criar obras de arte com presos políticos, ser justos ou injustos nas críticas contra os governos e as instituições. O poder aguenta as nossas pequenas ferroadas, por mais arbitrárias que sejam. Nós é que não aguentamos a arbitrariedade do poder.»

    Do JORNALISTA António Rodrigues (sim, parece que ainda restam alguns), tirado daqui:

    https://ionline.sapo.pt/artigo/602029/espanha-censurada

  6. Futurologia?!
    Dos milhões de votantes, como eu, a maioria não sofre de clubite ou partidarite.
    Prática e obra com transparência e consistência precisa-se… Que o modelo seja perceptível, racional, pedagógico, debatido de modo a impedir o crescimento do populismo e demagogia.
    Como cidadão o meu desejo é poder fazer uma escolha positiva e não engrossar o número de desesperados e descrentes do sistema.
    Garantia vitalicia não há para ninguém nem para nada.
    Primado da Ética na Politica. defendo.

  7. ah sim claro , a transição espanhola não devia ter sido feita com diplomacia e mediação , pois está claro. deveria ter havido outra guerra civil e só um lado ganhador , pois está claro.
    a idiotia desta gente que odeia Espanha mete dó.

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