Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

Só se esqueceu de chamar o Ku Klux Klan*

«1. Lentamente, mas de forma segura, o PS António Costa vai aumentando a sua influência sobre o aparelho do Estado e sobre a sociedade civil. Com o Presidente Marcelo concentradíssimo nas suas taxas de popularidade, os socialistas vão atacando tudo o que mexe que não seja do seu agrado. Ora atacando a independência das entidades reguladoras, ora controlando órgãos incómodos como o Conselho de Finanças Públicas, ou preparando a nomeação de um fiel compagnon de route ou até mesmo de uma camarada do PS para o Banco de Portugal.

Uma boa prova dessa atração por um regresso ao passado do tenebroso consulado José Sócrates é o veto que o Governo fez à presença de Álvaro Santos Pereira em Portugal para apresentar, enquanto diretor da OCDE responsável por essa área, o relatório sobre a economia nacional.

Esse veto é, aliás, uma típica manobra socrática:

Pela intolerância. Vetar alguém, e logo um português que é titular de um alto cargo internacional, só porque não é da cor política do Governo e porque fala de temas incómodos como a corrupção, revela intolerância.
Pelo autoritarismo. É uma espécie de quero, posso e mando de António Costa. Já que o tema da corrupção foi escolhido pela OCDE ao arrepio da vontade do Governo, há esta manifestação de força para que sirva de exemplo para o futuro.
Pela censura. Se Sócrates tinha um especial gosto em controlar a comunicação social, escolhendo direções editoriais, financiando administrações de jornais e interferindo ativamente nas respetivas linhas editoriais, António Costa começa pelos relatórios das instituições internacionais. É um caminho que, no futuro, poderá ter intersecções com aquele que foi feito por José Sócrates.

É caso para perguntar: se fazem isto em minoria e em aliança com a extrema-esquerda, o que fariam com maioria absoluta — ou em aliança com Rui Rio?»


Talibã do Observador
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* Diferente país e cultura, a mesma geografia do ódio

O fim da impunidade não pode ser desperdiçado com mulheres

«A mulher de 53 anos morta este domingo à noite a tiro na Golegã já tinha feito queixa do seu agressor à GNR pelo menos uma vez, no ano passado. Mas a Justiça não actuou a tempo de salvar esta vítima.

Confirmando a existência de uma queixa, a Procuradoria-Geral da República explica que o agora homicida chegou a ser constituído arguido. Mas a investigação “ainda não estava concluída, tendo o Ministério Público ordenado a realização de diligências complementares às já realizadas pela GNR”. O PÚBLICO está a tentar saber se foi decretada alguma medida de coacção ao suspeito, um empregado fabril de 62 anos.»


Fonte

Revolution through evolution

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Shameful secrets bother us more than guilty secrets
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Normalização da normalidade

Usar os direitos constitucionais e as instituições políticas para melhorar a sociedade é algo que pode partir da iniciativa de qualquer indivíduo. Pode, e deve, mas é raro que tal aconteça porque há um discurso alimentado pela indústria da calúnia e pelo tabloidismo de direita que desmotiva e assusta a enorme, a quase totalidade, dos cidadãos. Então eles vão para a tasca, o cabeleireiro, a Internet e o táxi maldizer a desgraça que os aflige: estão cercados por corruptos, não vale a pena mexer uma palha na defesa dos seus direitos e sonhos democráticos, os poderosos são intocáveis (e daí, como assinalou o actual Presidente da República, ser tão importante termos conseguido enjaular o Vara, que é para os poderosos se borrarem de medo e podermos deixar de nos preocupar com eles nos próximos 40 anos).

A cidadã abaixo dá uma das melhores lições de política a que já assisti. Ela reconhece que ser livre comporta alguns riscos, mas que o risco maior é passar pela vida sem descobrir aqueles outros, tantos, que se juntaram a ela por causa da sua coragem. O risco maior é deixar que os pulhas nos roubem a liberdade.

De olhos fechados, como sombras

Foi há um mês, Graça Franco publicou um texto cuja popularidade superou largamente a que costuma colher – Jornalismo a meia-haste – tendo nele ligado vários temas correntes a uma denúncia do sensacionalismo e demais abusos e deturpações cometidos sob a protecção constitucional da “liberdade de imprensa”. Uma das situações tratadas, quiçá a que explica o impacto das suas palavras, foi a da entrada de Armando Vara na prisão de Évora e o que alguns meios de comunicação social fizeram na ocasião. A autora ilumina a fragilidade da pessoa condenada naquela situação de exposição incontornável, onde foi reduzida a mera figura abstracta cujo estatuto cívico consistiu apenas em servir de matéria desalmada para a exploração mediática. É um exercício de empatia o que serve aos leitores, oferecendo a raridade de olharmos, no espaço público, para um dos maiores bodes expiatórios do regime com módico humanismo – e ainda permitindo uma colagem retoricamente eficaz com o tema seguinte que queria igualmente (ou até mais) tratar e realçar, a reportagem da TVI acerca da Igreja Católica onde se usaram câmaras ocultas.

Do muito que se poderia dizer, tanto, sobre uma intervenção política (ah, pois é, bebé) que poucos dias depois estava já soterrada no mais fundo esquecimento, escolho o ponto de vista onde Graça Franco revela o seu instinto assassino no acto mesmo de estender a sua mão, as suas palavras, o seu coração católico (ou que seja só cristão, ou nem isso) a Armando Vara prisioneiro. É que ela exigiu um preço altíssimo para a vulgaridade ética de apelar à mais básica decência para com Vara: aproveitar para confirmar que ele é alguém que deve ser odiado, porque foi um “poderoso” de um tipo que ela detesta, um fulano socialista e com actividade governativa e na banca. Para tal, agarrou num episódio com perto de 20 anos. Ao tempo, Vara terá passado uma informação à Renascença em que admitia demitir-se do Governo de Guterres, pedindo que a fonte não fosse revelada. A notícia saiu e Vara desmentiu-a, só para se ver denunciado pela Renascença. Foi isto, não mais do que isto, e isto é ridiculamente importante seja para o que for. Aliás, a ter importância que justifique a sua recordação, ela remete é para a violação pela Renascença do sigilo exigido. Contudo, eis que a directora de informação da RR nos conta a história da carochinha em que se pinta Vara como o papão que a rádio da Igreja (da Igreja Católica em Portugal, senhores) enfrentou num combate biblicamente desigual. Ele o Golias e um órgão de comunicação social com o poder da RR como David. Nem para rir dá.

Ao mesmo tempo que Graça Franco compõe o retrato pungente de uma vítima da turba linchadora, um alvo social que nenhuma condenação judicial justifica ver despojado dos seus direitos e dignidade, vai colocando estrategicamente elementos que assinalam a sua concordância com o veredicto popular: aqui está o monstro. É, ainda e sempre, a dinâmica da diabolização. A expressão de uma agressividade antropológica inerente à vivência política e ao combate identitário. Daí recorrer ao processo mais antigo ao dispor de todo aquele que se prepara para cometer uma violência que precisa de disfarçar como um acto de defesa: dizer que alguém ou algo é ameaçador, poderosíssimo, que já fez e vai continuar a fazer muito mal se não for abatido. E depois de o declarar, depois de chamar o bom povo para a caçada nocturna, até dá para acreditar nisso. Tem a vantagem de permitir adormecer com facilidade.

Do óbvio urgente

Agressores sentem-se impunes e inspirados por notícias de violência doméstica

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“Sociedade só teria a ganhar com a realização de uma autópsia psicológica”

A violência doméstica não é um fenómeno que se explique apenas nem fundamentalmente por factores sociais, nem há factores sociais capazes de a conter sem uma sua eventual inscrição nalguma mudança geracional a implicar um currículo escolar logo a partir do ensino básico – e uma cultura política e legislativa – ainda por inventar.

Entretanto, e porque Portugal está dominado pelo tabloidismo de direita, não há nada a esperar da comunicação social. A Cofina triunfou e serve de referência para a concorrência. Pelo que ainda mais relevante, decisivo e urgente é o repto lançado por Duarte Nuno Vieira para que se gaste dinheiro a fazer algo que trará conhecimento científico capaz de salvar vidas; incluindo as dos agressores que, fatalmente, igualmente são vítimas de si próprios.

Não era lindo que cada eleitor percebesse o que pode fazer com o seu voto? Também dá para perguntar a dirigentes partidários e deputados se têm ideias melhores do que esta para o flagelo em causa.

Até tu, Miguel?

«Tenho muitas dúvidas sobre a justiça da condenação a cinco anos de prisão efectiva de Armando Vara, por crime de tráfico de influências. Certamente que uma caixa de robalos não chega como pagamento pelo crime e mesmo que os “25 quilómetros” referidos numa conversa escutada entre Manuel Godinho e Armando Vara sejam, como pretendia o Ministério Público e o tribunal aceitou reconhecer provado, 25 mil euros de pagamento por serviços de intermediação, a verdade é que Vara não exercia na altura qualquer cargo público. E se porventura terá posto o industrial de sucatas de Ovar em contacto com pessoas que lhe terão facilitado negócios, fazendo-o a troco de robalos ou de 25 mil euros, eu conheço quem o tenha feito e continue a fazer a troco de milhões, intermediando e facilitando negócios em que o Estado investe dezenas, centenas ou milhares de milhões. Aliás, conheço, todos conhecemos, quem faça disso profissão, disfarçada ou não sob o título de advogado ou outro, à vista de todos, com a maior aceitação social, pública e política. De tal forma, que chego a pensar se ser-se apanhado em crime de tráfico de influências não será apenas uma questão de interpretação, de sorte ou de azar. Ou pior.

Mas se a prisão de Vara não me incomoda por aí além é apenas porque acredito que, se não por este caso, outros há que a justificam. Estou a lembrar-me de um telefonema entre ele, na altura administrador do BCP e acabado de chegar da Caixa, e um camarada de partido, na altura secretário de Estado. Vara tentava arrolar o outro para convencer a Caixa-Geral de Depósitos, sua antiga casa, a ficar com um crédito incobrável que o BCP tinha sobre a empresa dona do Autódromo do Algarve. Se já é extraordinário que alguém possa imaginar ganhar dinheiro com um autódromo na Mexilhoeira Grande, e ainda mais extraordinário que haja um banco para financiar tal projecto, é verdadeiramente eloquente do espírito desta gente que alguém que tinha acabado de vir do banco público para um banco privado estivesse a tentar varrer o lixo deste para aquele. Mas era com este espírito que serviam a coisa pública estes “banqueiros”, que viveram décadas a saltar de um lado para o outro, trocando de lugares uns com os outros, cobrindo-se uns aos outros, atribuindo-se prémios de gestão uns aos outros, mesmo quando no banco público e mesmo quando o que tinham para apresentar era prejuízos para os contribuintes pagarem. Para eles, para este clube de amigos, não tenho a menor dúvida de que lhes era absolutamente indiferente se o banco era público ou privado: tratava-se apenas de gerir as suas carreiras, de precaver as indemnizações sumptuosas em caso de saída antecipada e as reformas escandalosas no futuro. O problema com Armando Vara é que, por enquanto ele esteja sozinho na cadeia de Évora.»

Miguel Sousa Tavares

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Destruir é muito mais fácil do que construir, como sabe quem tenha passado a barreira dos 12 meses de idade. Em dois parágrafos, Miguel Sousa Tavares destrói a sua reputação de cidadão integro, decente e corajoso. É que não se pode servir a dois senhores, calhando esses dois senhores serem inimigos. Usar o seu abastado prestígio e enorme alcance para fazer coro com a decadência e atacar o Estado de direito democrático expõe uma fraqueza moral imperdoável por contraste com os altos ideais que também propala como figura pública.

No primeiro parágrafo, tropeçamos em suspeitas de arrebimbomalho. Suspeitamos que MST, como também já Ricardo Costa assim se assumira, é testemunha de crimes de tráfico de influências que fazem aquele com que se conseguiu prender Vara por pena máxima parecer uma inexistência ridícula e grotescamente penalizada. Crimes que envolvem “dezenas, centenas ou milhares de milhões” investidos pelo Estado, garante em letra impressa. Crimes esses que ele não denuncia, por um lado, e crimes esses que nos convida a admitir que são do conhecimento público, pelo outro. Mas se são do conhecimento público, e o Ministério Público à luz do princípio da legalidade tem de investigar esses casos, ahhhh… por que raio é que… como é que (cum caralho, ó cona da minha foda-se) se conseguiu fazer do Vara o primeiro preso por essa tipologia de crime num processo onde não se provou que ele tivesse recebido o que se alega que recebeu, onde ficou provado não ter existido qualquer benefício ilícito fosse para quem fosse, e onde Mário Lino (que nem como arguido acabou, apesar de ter sido validado como cúmplice sendo ao tempo ministro) foi sua testemunha de defesa?

Ainda no primeiro parágrafo, e ligada com essa questão acima aflorada e só do interesse de curiosos que ainda não desistiram de viver numa comunidade que se respeite a si própria, aparece uma brevíssima reflexão sobre o que estará na origem do inaudito fenómeno judicial que permitiu a devassa, humilhação e castigo desse tão longamente perseguido e cobiçado troféu de caça. Para MST, a explicação mais provável da ilógica e vexante sentença transitada em julgado encontra-se no arbítrio da subjectividade dos juízes, uma forte e assustadora hipótese, ou em algo “pior”. Ora, que poderá ser pior do que o abuso do poder dos tribunais por factores psicológicos disfuncionais, do que a violação da Constituição e do espírito e limites da Lei pelos magistrados? Ocorrem-me várias possibilidades, confesso, mas nenhuma tão interessante como aquela que o autor da prosa terá concebido. Infelizmente, tragicamente, ficamos sem saber no que pensava ao teclar. MST esteve perto de nos ajudar a ver o que ele vê algures no horizonte, tendo-se aproximado de um acto heróico na defesa da dimensão sagrada do Estado de direito democrático, os direitos e garantias dos cidadãos. Porém, qual Ícaro, as asas da defesa da liberdade que o levaram a essa tangente derreteram sob a luz ofuscante da violência exercida pelo regime sobre Vara, tendo o valente Miguel caído a pique na canalhice do parágrafo seguinte.

A ideia de que Armando Vara foi condenado em pena máxima de forma a conseguir-se metê-lo na prisão, e que foi preso por razões outras que transcendem o alegado crime usado como pretexto no processo, tem sido invocada e glosada pelos vencedores políticos do “Face Oculta”. E não estamos apenas a falar da arraia-miúda da oligarquia – os profissionais da calúnia e fanáticos dos semipasquins, das madraças e dos esgotos a céu aberto da direita – pois quando Ricardo Costa, Marques Mendes e até, ou especialmente, Marcelo Rebelo de Sousa celebram pública e ufanamente o cárcere de Vara, então aquilo a que se assiste é a uma parada triunfal, com exibição pelas ruas de Roma de um dos chefes bárbaros derrotados e apanhados pelas legiões do império. Na assistência, a esquerda observa sem piar, ou também aplaude a humilhação do pobre diabo, pois o ódio é uma fruição de gasto universal que oferece catarses e compensações à borla para nós todos, mole de miseráveis. MST resolveu juntar-se à festa e contribuir para o linchamento. Diz-nos que existem cidadãos que se podem acusar e condenar por umas coisas que talvez nem tenham acontecido desde que na opinião pública exista material para criar a percepção de serem culpados de outras. Coisas estas que não precisam de ser investigadas, sequer provadas, basta aparecerem publicadas de uma certa forma que permita carimbar o alvo como bandido. Entusiasmado com a facilidade com que descobriu as malfeitorias de Vara, MST partilhou connosco o seu percurso mental entre um estado em que respeitava a presunção de inocência de um dado cidadão e o estado seguinte em que usa o seu palco mediático para espalhar calúnias e validar a implosão do edifício constitucional que estrutura a aplicação da Justiça em Portugal. Foi assim: “Estou a lembrar-me de um telefonema entre ele, na altura administrador do BCP e acabado de chegar da Caixa, e um camarada de partido, na altura secretário de Estado.” Ou seja, MST, que não consta tenha participado na captura desse telefonema, nem que tenha participado na investigação no Ministério Público onde esse telefonema teve algum uso judicial, dá como suficiente para criar uma convicção de culpabilidade o acesso a uma transcrição descontextualizada, para começar, e mediática e politicamente distorcida, o que a deixa num estatuto absolutamente inválido se o intento for o de descobrir qualquer tipo de crime. Dito de outro modo, conseguiria MST em tribunal provar algum crime do catálogo penal apenas tendo como matéria factual o tal telefonema a que acedeu lendo-o num certo jornal? Telefonema esse que ele nem sequer sabe se foi feito ou recebido por Vara? Se não conseguiria, podemos concluir que aprova a prisão de Vara por razões morais ou políticas? Consta que não foi para deixarmos ao jornalismo amarelo a missão de aplicar a Justiça que se tem construído a civilização ao longo de milhares de anos, e por cima de incontáveis pessoas que morreram em nome da nossa liberdade, mas talvez o grande Miguel tenha melhores informações.

Alunos do Secundário não terão a mínima dificuldade em entender que há situações onde certos indivíduos mentem. Que essas mentiras podem ser intencionais ou consequência de factores que diminuam a sua responsabilidade. Que essas mentiras podem consistir em aparecer alguém junto das autoridades a confessar crimes que não cometeu. Será que queremos viver com uma Justiça que condena quem faça confissões falsas ou que condene aquele de quem se diz na praça e no jornal que cometeu um crime mesmo que não se saiba qual, nem quando, nem como? Se não queremos, então precisamos de ter como princípio inviolável a noção de que um qualquer cidadão é inocente até prova em contrário devidamente transitada em julgado – tanto para nossa defesa, e daqueles que amamos, como para evitarmos as consequências de não seguirmos esse principio: o estado de guerra permanente. Se uma dada força política consegue utilizar os recursos do Ministério Público e de alguns tribunais para escutar alvos políticos seleccionados, de forma a obter informações relativas à sua privacidade individual e política, e ainda a tentar envolvê-los em quaisquer processos judiciais que dê para lançar com razoabilidade aparentemente legítima, então a única forma de tal ser justificado num Estado de direito democrático passa por se erigir mediaticamente um inimigo monstruoso, um polvo de corrupção a merecer que se utilizem todos os meios para chegar a certos fins. Agita-se a bandeira da cruzada e anunciam-se autos-de-fé. O povo rejubila, porque o festim da tortura e do ostracismo é antropologicamente fascinante. Nesse ecossistema, agentes da Justiça passam a cometer crimes em conluio com jornalistas, directores e accionistas de comunicação social, uns e outros berrando sem parar que estão cercados e ameaçados pelos maus da fita. A poderosíssima máquina de devassa e perseguição ao dispor do Estado, e sem surpresa, invariavelmente consegue descobrir nódoas e caruncho. Nos impérios mediáticos, técnicas sensacionalistas caluniosas e caluniadores profissionais fazem o resto, amplificando e deformando os materiais fornecidos assim que são captados ou enviados de acordo com calendários políticos. Foi a esta gente que o outrora honroso Miguel se juntou.

João Soares é o único nome que me ocorre quando listo aqueles que publicamente alertaram para o perigo das escutas. Não faço ideia se desenvolveu o tema por escrito, pelo que apenas conservo a essência das suas avulsas e espontâneas intervenções televisivas numa recordação já com 10 anos. Creio que o seu alerta estava relacionado no tempo com o processo “Casa Pia”, altura em que a percepção de não haver qualquer controlo sobre as escutas feitas com os recursos do Estado emergiu na sociedade – sendo actualmente um tema capturado pela indústria da calúnia, tendo-se chegado ao ponto de usar vídeos de interrogatórios de arguidos e testemunhas para proveito comercial e político. Mas igualmente acredito que a sua posição era muito mais funda e estava enraizada na História de Portugal, no que tinha acontecido ao seu pai no Estado Novo e a tantos outros que lutaram pelo que veio a ser o 25 de Abril. Então, ao ver que se voltavam a usar escutas feitas pelas autoridades policiais e judiciais para atacar adversários políticos, 30 ou 40 anos depois do fim de um regime onde a Justiça era usada para perseguir e castigar opositores políticos, tal espectáculo provocava-lhe um sentimento de nojo e absoluto repúdio. É este o sentido e a mensagem que conservo a respeito do que disse, pouco me importando que possa ser uma memória inventada.

Leituras imperdíveis na quadra carnavalesca

Começar com esta:

João Miguel Tavares, a escolha improvável

Passar para esta:

As algemas de Armando Vara

Também se pode inverter a ordem de leitura, fica ao gosto do freguês. No primeiro caso, é como passar de um ritual de mescalina na SEDES para um curso de formação de “jornalistas” na Cofina. Na opção alternativa, será como estar a assistir a uma peça de teatro no Natal dos Hospitais Psiquiátricos e sair de lá a correr para nos enfiarmos na assembleia da Igreja de Sócrates e dos Socráticos dos Últimos Dias.

É desta que os reformados vão para o Parlamento fazer reformas

Santana Lopes tem tudo para varrer o eleitorado com mais de 65 anos, sem estudos e ligado à televisão 8 ou mais horas por dia. A sua única dificuldade será a de conseguir acompanhantes e transporte para levar a sua gente aos locais de voto. Quanto ao resto, a marca e o estilo, a retórica e o espaço mediático, tem de tudo com fartura.

Vai ser divertido testemunhar como é que PSD e CDS vão lidar com quem os irá comer por detrás (nada contra e “honi soit qui mal y pense”) e por baixo (idem, aspas). Por razões sociológicas e cognitivas, os reformados são conservadores do pouco ou nada que calhem ter. Discursos populistas que apelem ao medo, ao individualismo bronco e à mais pura demagogia entram como faca quente no afecto derretido desse vastíssimo eleitorado que pode provocar radicais surpresas nas próximas legislativas calhando favorecer significativamente um certo partido. Cristas, Ventura e Jerónimo igualmente passarão muito do seu tempo a tentar captar votos neste território, mas nenhum tem os predicados de persuasão de alguém que já virou frangos em todas as voltas e reviravoltas do regime.

Aposto na entrada de Santana no Parlamento. E para quê? Para se esfalfar a tentar ir para o Governo com o PSD e CDS? Para se valorizar como comentador televisivo e garantir tempo de antena? Ora, é de caretas: para preparar a sua candidatura a Belém em 2026. Ele com 70 anos contra António Costa com 65. Os reformados poderão aí confirmar o que já fazem em relação ao Marcelo, trocar o voto por um beijinho de quem é tão simpático.

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Stereotyped, Sexualized, and Shut Out: The Plight of Women in Music
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Research finds investors dismiss analysis from those who have less favorable surnames
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High-calorie desserts might not be all bad
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Como?! Atão, mas o Vara, coiso e etc.?…

«Carlos Costa foi administrador da Caixa Geral de Depósitos (CGD) entre 2004 e 2006, parte de um período crítico onde uma auditoria independente detetou perdas de 1,64 milhões de euros. Mas, ao contrário dos restantes gestores da Caixa à altura, não será submetido ao exame de idoneidade do Banco de Portugal. Isto porque Carlos Costa é atualmente governador do próprio Banco e, por lei, “o Banco de Portugal não supervisiona a própria casa”, segundo explicou uma fonte próxima do processo ao Jornal Económico.

Carlos Costa, ex-gestor da CGD, fez parte da administração do banco que aprovou alguns dos créditos que se revelariam ruinosos, como os empréstimos a Manuel Filho e Joe Berardo, que geraram perdas de 161 milhões de euros para o banco público. De acordo com a revista Sábado, o atual governador do Banco de Portugal esteve em pelo menos quatro reuniões do Conselho Alargado de Crédito onde foram aprovados empréstimos a alguns destes devedores.»


Fonte

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Carlos Costa, um dos carniceiros ao serviço de Passos&Relvas no afundanço do País em 2011, ficou calado enquanto Vara foi transformado no bode expiatório e bombo da festa do ataque da oligarquia ao PS e à CGD. Não é preciso explicar porquê. Apenas se regista para ilustrar por que razão notícias como esta não fazem manchetes nem despertam infindos disparos da opinião engajada. É que a aldrabice demencial para trocar os olhinhos aos borregos, isso de Vara ter sido o “todo-poderoso” na CGD capaz de dar dinheiro aos amigos de Sócrates sem que ninguém o conseguisse impedir ou sequer denunciar, não aguenta um nanossegundo no plano de realidade onde as pessoas realmente aquecem água para o chá e distinguem um sinal verde de um sinal vermelho.

Igualmente fascinante é o efeito antibiótico das declarações de Paulo Macedo, famoso socrático que foi ministro de Passos e tem uma reputação à prova de bala. De cada vez que abre a boca para explicar o b-a-bá do que se está a tentar fazer na indústria da calúnia e pela direita, o plano de comprometer o negócio e viabilidade da CGD, cria-se uma zona à sua volta onde até as mais resistentes bactérias da pulhice desaparecem. É no que dá recorrer a evidências por parte de quem não troca a sua integridade pela decadência dos decadentes.

A novela da CGD, e o seu novelo de protagonistas e decisões, não permite concluir que houve um assalto chefiado pelo bandido Sócrates, como o mais vocal dos conselheiros de Estado publicita semanalmente. Num certo sentido, é pena. É que essa versão acabaria por ser benigna, na sua indescritível estupidez e alucinada calúnia, quando comparada com a exibição ofuscante de um regime onde impérios mediáticos, tribunais e órgãos cimeiros da República confluem para a instauração de excepções onde o Estado de direito deixa de valer para certos cidadãos.

O mano Costa não é fratricida

«Vara pode ainda queixar-se de outra coisa, a dureza das penas. Foi-lhe aplicada a pena máxima para o crime em causa, o que parece excessivo dada a natureza do processo, dos objetivos pretendidos e alegadas contrapartidas. Mas houve claramente, por parte dos juízes, uma vontade de tornar este caso exemplar. De mostrar que o Face Oculta não é uma exceção, mas um virar de página.

Não nos podemos esquecer do que foi o Face Oculta numa primeira fase, com as escutas entre Armando Vara e José Sócrates. O caso abalou fortemente o sistema judicial, com Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento a decidirem destruir essas escutas e, assim, acabarem um inédito caso em que um primeiro-ministro em funções podia ser investigado por um atentado contra o Estado de direito, por conspirar para a compra da TVI.

O caso começou assim e acabou por ser outra coisa. Mas a Operação Marquês surgiu poucos anos depois para fechar o ciclo. Vara pode queixar-se, mas é sobretudo disto. De ter estado no centro de muita atividade judicial, com as piores companhias, péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer.»

Ricardo Costa

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Talvez Ricardo Costa seja quem melhor nos consegue mostrar o que esteve e está em causa na condenação abstrusa e grotesca de Vara num caso sem provas nem proveito ilícito. Ele é uma das raríssimas super-vedetas da imprensa portuguesa, chefiando o poder editorial de um dos maiores grupos mediáticos nacionais cuja agenda consiste em desequilibrar o espaço público a favor do PSD. Para além disso, é irmão do actual secretário-geral do PS e primeiro-ministro. As coisas que este passarão não deve saber, com tantos almoços e jantares animadíssimos à mesa da oligarquia, né? Pois é.

Como se pode ler acima, está consolado e satisfeito com a prisão de Vara em pena máxima. Acontece que o seu agrado nasce de saber que os juízes resolveram violar a razão de ser da sua independência como poder soberano. Essa independência garante-se constitucionalmente para que cada juiz se saiba na posse de uma liberdade absoluta. Porém, acarreta uma inerente e indelével responsabilidade: que a sua liberdade inviolável seja posta ao serviço do mais absoluto respeito pela Lei no acto mesmo de se fazer justiça aos cidadãos. Dito de outro modo, a Justiça só se justifica como poder soberano se estiver ao serviço do Soberano donde recebe esse poder. Ora, o que o Ricardo Costa nos está a dizer através do Expresso, para que não haja qualquer dúvida sobre o seu pensamento, é o oposto destes princípios. Quando se faz de um julgamento uma exibição de força para usar a liberdade dos cidadãos, e o seu bom nome, como carne para um canhão que dispara sentenças “exemplares”, então a liberdade dos juízes que assim decidem está a servir para destruir a liberdade inscrita na Constituição – a liberdade que antecede e supera a sua legitimidade como magistrados. Não foi para deixar aos tribunais um arbítrio com intentos políticos que se delegou nos mesmos a representação dos direitos e garantias, isso é antinómico com a noção de Estado de direito democrático e apenas serve intentos violentos.

Igualmente nos diz que o abuso judicial e penal sobre Vara corresponde a um “virar de página“, é o saboroso fruto de uma «“evolução” no Direito». Vara como vítima sacrificial de um bem maior, eis o sofisma que agita. Acontece que nada mais acrescenta, nada demonstra, nada sequer existe no que escreve que permita ir além da mais pura hipocrisia, do mais cristalizado cinismo. Será que os juízes vão passar a repetir os critérios usados neste julgamento, é disso que se trata? Pena máxima para situações onde um funcionário de um banco apareça invocado nas declarações de uma testemunha que alegue ter ouvido o seu nome referido por um terceiro, sendo que esse terceiro nega o que a testemunha disse e nem sequer acaba como arguido? Qual é exactamente a lógica que vai marcar a nova jurisprudência onde entrámos graças aos justiceiros de Aveiro? E, já agora, tendo em conta que Vara foi apanhado há 10 anos, onde é que estão os novos casos já ao dispor dos ferozes juízes que perseguem o flagelo criminoso do tráfico de influências? Presume-se que Vara, para citar o angélico Marques Mendes, seja apenas a ponta da ponta da pontinha do icebergue, daí se justificar o seu linchamento penal em nome da salvação da Pátria. Cadê o resto da bandidagem? Ou será que não temos conhecimento de mais nenhum caso de tráfico de influências onde dê para atacar partidos e prender ex-políticos porque este aconteceu durante o mandato de Pinto Monteiro à frente da PGR? Vai na volta, com a Joana Marques Vidal é que terá voltado a impunidade, fica a suspeita.

Ricardo Costa atinge o zénite da utilidade na compreensão do que se fez a Vara quando nos explica que o “Face Oculta” e a “Operação Marquês” são partes de um mesmo processo. Que processo? O processo de tentar derrubar um primeiro-ministro em funções usando a Justiça, numa primeira fase, e depois conseguir prender um ex-primeiro-ministro sem esperar por qualquer acusação, condenação e trânsito em julgado, a “fechar o ciclo“. Então, como expõe e aprova, Vara não passa de um protagonista menor num drama muitíssimo maior. Em 2009, recorda feliz, espiou-se um primeiro-ministro de forma ilícita e estava tudo pronto para enfiar Sócrates num processo judicial nas vésperas de ir a votos para as legislativas e autárquicas. Depois se ele era acusado ou não, condenado ou não, seria até indiferente. O simples facto de ficar como arguido levaria a decapitar e afundar o PS, estava o ganho político obtido. Só que Pinto Monteiro e Noronha do Nascimento não alinharam na golpada, como corruptos socialistas que são, tendo a operação borregado. À pressa, lançou-se a Inventona de Belém como substituto do plano original. Em 2013, aí sim, foi possível usufruir de todas as vantagens políticas e mediáticas que a captura de Sócrates iria trazer. O director-geral de informação pago pelo Balsemão não podia estar mais contente com o desfecho da operação bicéfala.

Sabemos que Ricardo Costa pensa assim, e exactamente assim, porque o deixou escrito:

«Vara pode queixar-se, mas é sobretudo disto. De ter estado no centro de muita atividade judicial, com as piores companhias, péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer.»

Aqui chegados, a perguntinha fatal: quem são as restantes figuras que compunham “as piores companhias“, essas que tinham “péssimas intenções e uma ideia de que tudo se pode fazer“? Ou seja, de quem fala sem nomear seja quem for para além de Sócrates? Quem são os outros “socráticos” que adoraria ver em tribunal a receber condenações exemplares e na ramona a caminho de Évora? Jamais o dirá. Porque não lhe convém, bem pelo contrário, olá. Por um lado, porque recorrendo à sonsaria a calúnia expande-se ao máximo e engole o Partido Socialista por inteiro. Por outro lado, porque as suas reuniões familiares passariam a decorrer num ambiente pesado ou exaltado, quiçá atentatório da sua integridade física, tendo em conta que António Costa era um dos mais notáveis e influentes membros do núcleo duro de Sócrates; sendo que no actual Governo estão outros que compunham esse grupo de intimidade política e vivencial nos Governos socráticos, os quais nunca renegaram a sua lealdade partidária e pessoal. Ricardo Costa não se pode dar ao luxo de emporcalhar o nome de tanta gente tão importante pelas melhores razões no PS e no País, especialmente o nome do seu mano. Daí optar pelo recurso favorito dos cobardes, a pulhice embrulhada num hilariante e decadente “jornalismo de referência” que não passa de uma exibição de impotência política e miséria cívica.

Lapidar

«O jornalismo editorialista, governado pelos editocratas (um neologismo surgido em França há alguns anos e que serviu de título a um livro colectivo), anula a função crítica do jornalismo e funciona segundo a lógica do entretenimento: promove a encenação de polémicas e debates que funcionam em circuito fechado, segundo uma tendência endogâmica, tautológica e mimética que atinge os cumes da exasperação quando há um acontecimento ou um assunto actual que polariza as atenções. Nesses momentos, impera um espírito de rebanho e o espaço mediático é varrido por uma onda avassaladora que cresce e desaparece. O jornalismo torna-se então uma caricatura, uma engrenagem autotélica que funciona para se alimentar a si própria, como o homeostato de Ashby. Alguém chamou a isto “comunicação autística”. Cria-se assim a ilusão — uma das maiores ilusões do nosso tempo — de que este jornalismo cria um espaço público alargado, próprio de uma sociedade transparente, quando na verdade a reduz na sua amplitude e no seu alcance.

[…]

A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos. O triunfo de um pragmatismo estrito — e afinal sem grandes resultados — em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.»


Rezar pelo jornalismo

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Bute dar dinheiro à Netflix

Que mais resta dizer sobre o nazismo? Tudo. Porque todos os dias morrem aqueles que o testemunharam. Todos os dias nascem aqueles que vão demorar muitos anos até estarem em condições de perceber, entender e compreender como é que o nazismo foi possível. Que o nazismo, e suas variantes de desumanização, é uma possibilidade sempre à espreita no magma da nossa pulsão assassina.

Esta série tem os dedos e os olhos de Spielberg, alguém cuja obra pode ser vista como um permanente exercício de exaltação civilizacional a partir da banalidade humana. Mas nasce das palavras de um jornalista e historiador, Mark Harris. Não li o livro, pelo que não sei até que ponto houve fiel reprodução ou livre reinvenção da narrativa original. Sei outra coisa. Que Five Come Back é um filme disfarçado de documentário.

Cinco realizadores vivos falam da sua admiração por cinco realizadores eternos. Cinco estrelas da indústria cinematográfica norte-americana, quando Hollywood era Hollywood, que aceitaram arriscar a sua vida quando o ódio ameaçava triunfar no Mundo. Entre eles, ia o mais influente realizador da História. Estes protagonistas românticos e heróicos, ricos e famosos, preferiram ser um ecrã da coragem.

Não há história de amor mais bela do que a da luta pela liberdade. Da liberdade daqueles que nunca vimos nem iremos ver.

Brexit: nada encaixa, de facto

Fonte: The Economist

O que consta do acordo de divórcio RU/UE (não aprovado) é que continuarão a vigorar a quase totalidade das regras da livre circulação e da união aduaneira entre as duas Irlandas até que se estabeleça um acordo global e de comércio entre o Reino Unido e a União Europeia ou até que se encontre uma solução tecnológica que permita manter a fronteira invisível (solução de momento inexistente). É isto o chamado “backstop“.

Ora, acontece que isso equivale a colocar, nos entrementes, a fronteira entre o RU e a UE no mar da Irlanda, isto é, entre um território britânico e outro, singularizando a Irlanda do Norte em relação ao resto da Grã-Bretanha e potenciando ideias republicanas ou independentistas. Os negociadores de Theresa May sabiam disso e concordaram (recordo que May era contra o Brexit). No entanto, os deputados presentes no Parlamento britânico e alguns membros do governo, seguramente por terem andado distraídos, descobriram que não querem tal coisa. Se o regime transitório vigorar então para todo o Reino Unido, pior um pouco. Significa que sairiam e, na prática, não sairiam de União Europeia nenhuma e talvez nunca mais saíssem, dada a indefinição poder ter uma duração ilimitada. Para estes valentes, como Boris Johnson, Rees Mogg e outros, o Brexit significa abandonar o mercado comum e a união aduaneira, e tudo o que cheire a continente, de uma vez por todas, ir buscar novos parceiros ao resto do mundo e adeus canalizadores polacos. Alguém lhes lembrou, só depois, no meio dessa frescura e visão ampla do planeta, no fundo uma esquisitice, que, por muitas alterações que o aquecimento global esteja a provocar, a deslocação da ilha de Sua Majestade para milhas do continente ainda não é uma delas, pelo que ainda ali está mesmo ao lado um gigantesco mercado e, do outro lado, a frágil Irlanda do Norte.

Para agravar a situação, o governo de Theresa May só tem maioria no Parlamento com os votos dos dez deputados do DUP (Democratic Unionist Party), o partido unionista no poder na Irlanda do Norte e ultra-conservador. E, por último, para um apontamento verdadeiramente galhófico, o “remain” ganhou na Irlanda do Norte com 55,8% dos votos.

 

Esperava-se, com toda esta contestação ao acordo de Theresa May, que os revoltados pró-Brexit se apresentassem no Parlamento com uma proposta alternativa de acordo sobre a questão do “backstop”. Mas não. Não apresentaram, não apresentam, também não desejam substituir por um dos deles a primeira-ministra e principal responsável pelo acordo do qual discordam e também não querem eleições. May também não se demite. E assim estão. O antigo império a ser a chacota do mundo (e eles próprios a divertirem-se que nem uns javardos). Sem saída à vista, porém, mas com a data de saída a aproximar-se.

 

E agora? O que vão levar estas cabeças na segunda-feira a Bruxelas? Quererão os “brexiteers” abandonar algumas “linhas vermelhas”? Por exemplo, aceitar uma fronteira marítima transitória no mar da Irlanda até melhor solução? Será difícil, por razões óbvias. À Irlanda do Norte, com estatuto especial, seguir-se-ia a Escócia, e a independência da Escócia, e era o fim do Reino Unido. Então e se todo o Reino Unido aderisse a um regime do tipo norueguês ou do tipo canadiano em relação à União Europeia, apesar de isso significar que não abandonariam de facto o mercado comum, embora não lhe ditando já qualquer regra? Ah, isso seria um recuo demasiado grande nas suas posições e uma humilhação quase tão dramática como a de um novo referendo. Por esta mesma razão, a hipótese de um novo referendo será também rejeitada. Não vai acontecer.

E se alucinarmos um pouco e sugerirmos que organizem um referendo na Irlanda do Norte para saber se a população se quer separar do Reino Unido e manter-se na UE, dada a confusão, leviandade e incompetência reinantes? Como disse, alucino. Até porque, se o referendo acontecesse e a separação ganhasse, as bombas não tardariam a rebentar outra vez. Os unionistas costumam ser muito assanhados.

Perante tudo isto, será então mais lógica a saída sem qualquer acordo e a entrega dos capítulos seguintes a Zeus, não? Se calhar. A princípio, até parecerá não haver caos nenhum, estabelecer-se-iam acordos bilaterais ou pontuais sobre certas matérias, como a aviação, mas também outros eventualmente atentatórios do direito europeu, pelo que a bonança não iria durar muito e depressa surgiriam conflitos jurídicos, de concorrência, comerciais, aduaneiros, políticos, sociais e finalmente bélicos (ou de guerra fria, chantagista). Demasiado grave. Para quem acha que tudo o que se passou foram manobras dos russos para destruir a União, então sim, o divórcio sem acordo tem potencial para desestabilizar todo o bloco europeu. Força nisso. Força nisso??

Assim sendo, seus idiotas, proponham mas é um adiamento da saída, ponham fim ao recreio e voltem à sala de aula (com orelhas de burro), ou à biblioteca, à catedral, onde quiserem. Mas pensem. Depois digam como é. Só que, activado que está o artigo 50, não há cá eleições para o Parlamento Europeu, não é Farage?

Este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório