Brexit: nada encaixa, de facto

Fonte: The Economist

O que consta do acordo de divórcio RU/UE (não aprovado) é que continuarão a vigorar a quase totalidade das regras da livre circulação e da união aduaneira entre as duas Irlandas até que se estabeleça um acordo global e de comércio entre o Reino Unido e a União Europeia ou até que se encontre uma solução tecnológica que permita manter a fronteira invisível (solução de momento inexistente). É isto o chamado “backstop“.

Ora, acontece que isso equivale a colocar, nos entrementes, a fronteira entre o RU e a UE no mar da Irlanda, isto é, entre um território britânico e outro, singularizando a Irlanda do Norte em relação ao resto da Grã-Bretanha e potenciando ideias republicanas ou independentistas. Os negociadores de Theresa May sabiam disso e concordaram (recordo que May era contra o Brexit). No entanto, os deputados presentes no Parlamento britânico e alguns membros do governo, seguramente por terem andado distraídos, descobriram que não querem tal coisa. Se o regime transitório vigorar então para todo o Reino Unido, pior um pouco. Significa que sairiam e, na prática, não sairiam de União Europeia nenhuma e talvez nunca mais saíssem, dada a indefinição poder ter uma duração ilimitada. Para estes valentes, como Boris Johnson, Rees Mogg e outros, o Brexit significa abandonar o mercado comum e a união aduaneira, e tudo o que cheire a continente, de uma vez por todas, ir buscar novos parceiros ao resto do mundo e adeus canalizadores polacos. Alguém lhes lembrou, só depois, no meio dessa frescura e visão ampla do planeta, no fundo uma esquisitice, que, por muitas alterações que o aquecimento global esteja a provocar, a deslocação da ilha de Sua Majestade para milhas do continente ainda não é uma delas, pelo que ainda ali está mesmo ao lado um gigantesco mercado e, do outro lado, a frágil Irlanda do Norte.

Para agravar a situação, o governo de Theresa May só tem maioria no Parlamento com os votos dos dez deputados do DUP (Democratic Unionist Party), o partido unionista no poder na Irlanda do Norte e ultra-conservador. E, por último, para um apontamento verdadeiramente galhófico, o “remain” ganhou na Irlanda do Norte com 55,8% dos votos.

 

Esperava-se, com toda esta contestação ao acordo de Theresa May, que os revoltados pró-Brexit se apresentassem no Parlamento com uma proposta alternativa de acordo sobre a questão do “backstop”. Mas não. Não apresentaram, não apresentam, também não desejam substituir por um dos deles a primeira-ministra e principal responsável pelo acordo do qual discordam e também não querem eleições. May também não se demite. E assim estão. O antigo império a ser a chacota do mundo (e eles próprios a divertirem-se que nem uns javardos). Sem saída à vista, porém, mas com a data de saída a aproximar-se.

 

E agora? O que vão levar estas cabeças na segunda-feira a Bruxelas? Quererão os “brexiteers” abandonar algumas “linhas vermelhas”? Por exemplo, aceitar uma fronteira marítima transitória no mar da Irlanda até melhor solução? Será difícil, por razões óbvias. À Irlanda do Norte, com estatuto especial, seguir-se-ia a Escócia, e a independência da Escócia, e era o fim do Reino Unido. Então e se todo o Reino Unido aderisse a um regime do tipo norueguês ou do tipo canadiano em relação à União Europeia, apesar de isso significar que não abandonariam de facto o mercado comum, embora não lhe ditando já qualquer regra? Ah, isso seria um recuo demasiado grande nas suas posições e uma humilhação quase tão dramática como a de um novo referendo. Por esta mesma razão, a hipótese de um novo referendo será também rejeitada. Não vai acontecer.

E se alucinarmos um pouco e sugerirmos que organizem um referendo na Irlanda do Norte para saber se a população se quer separar do Reino Unido e manter-se na UE, dada a confusão, leviandade e incompetência reinantes? Como disse, alucino. Até porque, se o referendo acontecesse e a separação ganhasse, as bombas não tardariam a rebentar outra vez. Os unionistas costumam ser muito assanhados.

Perante tudo isto, será então mais lógica a saída sem qualquer acordo e a entrega dos capítulos seguintes a Zeus, não? Se calhar. A princípio, até parecerá não haver caos nenhum, estabelecer-se-iam acordos bilaterais ou pontuais sobre certas matérias, como a aviação, mas também outros eventualmente atentatórios do direito europeu, pelo que a bonança não iria durar muito e depressa surgiriam conflitos jurídicos, de concorrência, comerciais, aduaneiros, políticos, sociais e finalmente bélicos (ou de guerra fria, chantagista). Demasiado grave. Para quem acha que tudo o que se passou foram manobras dos russos para destruir a União, então sim, o divórcio sem acordo tem potencial para desestabilizar todo o bloco europeu. Força nisso. Força nisso??

Assim sendo, seus idiotas, proponham mas é um adiamento da saída, ponham fim ao recreio e voltem à sala de aula (com orelhas de burro), ou à biblioteca, à catedral, onde quiserem. Mas pensem. Depois digam como é. Só que, activado que está o artigo 50, não há cá eleições para o Parlamento Europeu, não é Farage?

6 thoughts on “Brexit: nada encaixa, de facto”

  1. Ninguém no RU se dispõe a assumir politicamente a responsabilidade de um Brexit duro (os que eram em favor desta solução fugiram logo a seguir ao resultado do referendo). Como é obvio, é completamente impossivel desenhar um compromisso entre um voto de protesto irresponsavel e uma solução de continuidade que, dêem as voltas que derem, aparecera sempre como uma derrota (mantém-se a situação anterior e o RU perde em poder de decisão).

    Um caso exemplar de impasse em consequência de um referendo. Mas, ainda assim, ha quem continue a defender esta estupidez (o referendo) como se fosse democratico (admito que nalguns casos muito especificos possa ser uma boa ideia, no entanto, na maioria dos casos é claramente brincar com o fogo).

    Em suma : uns brincalhões cheios de bazofia acharam que podiam fazer entrar o touro na arena, e agora, cheios de medo, estão a tentar fazer-lhe uma pega aproximando-se da besta pela retaguarda…

    Triste. Desta vez, tocou ao RU, mas é perfeitamente possivel que uma estupidez dessas venha a acontecer noutro qualquer pais da UE. Enquanto continuarmos a brincar com a responsabilidade politica e com os populismos, ninguém esta imune.

    Boas

  2. proponham mas é um adiamento da saída

    Ninguém aceita um adiamento da saída quando não se sabe com que fim é esse adiamento, uma vez que os britânicos não sabem o que querem.
    Ou bem que cancelam o Brexit, ou então levam-no avante. Agora, adiá-lo não faz sentido nenhum.

  3. Luis Lavoura: Adiar é uma forma de cancelar, sobretudo se entretanto os protagonistas mudarem. A não ser assim, resta-lhes aceitar um estatuto diferenciado para a Irlanda do Norte.

  4. A UE usa a questao irlandesa de forma absolutamente cinica nas suas “negociacoes”, quando a UE se dispoe a jogar um jogo de mutilacao economica mutua assegurada so para provar aos seus Estados-Membros que sair do clube tem consequencias terriveis, nada mais faz do que revelar a Mafia em que se tranformou a UE.

    E, como habitual, actos democraticos como referendos ou parlamentos funcionais causam azia nas instancias europeias desenhadas e construidas em estilo arquitectonico politico pos-democratico e seus apaniguados euroinomanos avulsos…

    Pela parte que me toca e mesmo no-deal, Brexit durissimo e mandar Bruxelas a bardamerda. Quanto a “desestabilizacao do bloco europeu”, a Penelope que fique descansada, o triangulo Paris-Bruxelas-Berlim cumprem esse papel ha muito tempo com honra e distincao.

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