Lapidar

«O jornalismo editorialista, governado pelos editocratas (um neologismo surgido em França há alguns anos e que serviu de título a um livro colectivo), anula a função crítica do jornalismo e funciona segundo a lógica do entretenimento: promove a encenação de polémicas e debates que funcionam em circuito fechado, segundo uma tendência endogâmica, tautológica e mimética que atinge os cumes da exasperação quando há um acontecimento ou um assunto actual que polariza as atenções. Nesses momentos, impera um espírito de rebanho e o espaço mediático é varrido por uma onda avassaladora que cresce e desaparece. O jornalismo torna-se então uma caricatura, uma engrenagem autotélica que funciona para se alimentar a si própria, como o homeostato de Ashby. Alguém chamou a isto “comunicação autística”. Cria-se assim a ilusão — uma das maiores ilusões do nosso tempo — de que este jornalismo cria um espaço público alargado, próprio de uma sociedade transparente, quando na verdade a reduz na sua amplitude e no seu alcance.

[…]

A dança e circulação frenética de directores e editores, nas principais empresas de comunicação social (em todo o mundo e não apenas em Portugal), devem-se em grande parte ao facto de as funções directivas na esfera editorial terem perdido autonomia em relação aos órgãos de gestão administrativa. E isto não é um facto sem consequências: perante um público esclarecido e atento, o jornalismo entrou num processo de perda de legitimidade e tornou-se permeável a interesses que não são apenas político-ideológicos. O triunfo de um pragmatismo estrito — e afinal sem grandes resultados — em resposta aos desafios que os antigos media de massa hoje enfrentam e a obediência a um modelo que projecta o jornalismo, no sentido mais lato, ao serviço do cliente (e daí a deriva culturalmente populista dos media, mesmo daqueles que têm uma vocação mais elitista, e a cumplicidade com a indústria do entretenimento), retirou ao jornalismo a sua dimensão de projecto cultural. E é por esta ausência que ele se desmorona por todos os lados e se torna um instrumento de implosão e asfixia — e não de vitalidade — da chamada sociedade civil.»


Rezar pelo jornalismo

5 thoughts on “Lapidar”

  1. acordou tarde, há que tempos que ” merdia” e “jornalixo” e “jornaleiros” se tornaram linguagem comum. não dá para ler, não sei se abordou a questão dos licenciados a mato em comunicação social, pois é preciso coisa diferente para ser jornalista, uma coisa chamada talento e faro, que uma licenciatura não dá.

  2. Gritemos um grande VIVA unânime ao nosso MNE Santos Silva,por corajosamente ter ousado apoiar a política do grande democrata Trump,farol da Liberdade .
    Ditosas as Pátrias e as grandes Mátrias que tais filhos têm

  3. O efeito mais desolador deste “jornalismo” foi a criação de uma opinião publica iletrada e deformada politicamente cujo pensamento se resume a uma serie de silogismos e falacias com base em premissas falsas e conspirações.

    “Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma”
    Joseph Pulitzer

  4. Vai ser muito curioso acompanhar o desenvolvimento desta actual farsa que pode acabar em tragédia. Será que António Costa vai desempenhar, com Trump, o papel de Durão Barroso com Bush?
    A ver vamos se não nos irão fazer embarcar numa aventura trágica de consequências. O que vai acontecendo não augura nada de bom.

  5. precisando o mundo de uma guerra como pão para a boca, para matar praí metade da população e depois voltarem ao divino crescimento económico, realmente não me admirava nada que a Venezuela funcionasse como umas balcãs. o eixo chinorussoturco contra os palermas useuropa . já estão com inveja do brexit?

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