Do óbvio urgente

Agressores sentem-se impunes e inspirados por notícias de violência doméstica

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“Sociedade só teria a ganhar com a realização de uma autópsia psicológica”

A violência doméstica não é um fenómeno que se explique apenas nem fundamentalmente por factores sociais, nem há factores sociais capazes de a conter sem uma sua eventual inscrição nalguma mudança geracional a implicar um currículo escolar logo a partir do ensino básico – e uma cultura política e legislativa – ainda por inventar.

Entretanto, e porque Portugal está dominado pelo tabloidismo de direita, não há nada a esperar da comunicação social. A Cofina triunfou e serve de referência para a concorrência. Pelo que ainda mais relevante, decisivo e urgente é o repto lançado por Duarte Nuno Vieira para que se gaste dinheiro a fazer algo que trará conhecimento científico capaz de salvar vidas; incluindo as dos agressores que, fatalmente, igualmente são vítimas de si próprios.

Não era lindo que cada eleitor percebesse o que pode fazer com o seu voto? Também dá para perguntar a dirigentes partidários e deputados se têm ideias melhores do que esta para o flagelo em causa.

18 thoughts on “Do óbvio urgente”

  1. Diga lá, Valupi, o que fazer com o meu voto.
    Isso é o que a mim, desde há muitos anos, mais me amargura!
    Na direita nunca votei. Habitualmente voto no PS, tendo igualmente já votado mais à esquerda, mas a realidade é que nunca tive a impressão de que os governos liderados por esse Partido tenham alterado grande coisa a nível duma transformação civilizacional, relativamente a outros. A realidade é que continuamos a ser, em grande maioria, um povo de broncos incorrigíveis e nunca vi anunciadas politicas no sentido de civilizarem e humanizarem os nossos concidadãos. E, nesse aspecto, as politicas seguidas durante a democracia, por todos os governos, não têm ido nesse sentido, mas tão somente no sentido de darem ao povo um pouco mais de pão e circo. Assim tem sido e, quanto a melhorias civilizacionais, pouco há a acrescentar.
    Fale um pouco sobre isso e diga lá o que fazer com o meu voto que, na minha opinião, não tem servido para alterar nada no surgimento desse tal desejado Homem novo .

  2. Economicamente vive-se um pouco melhor, sem dúvida alguma.
    Na educação, e no seu acesso, houve transformações consideráveis, reconheço.
    Quanto aos resultados na transformação dos cidadãos e a sermos mais humanamente civilizados, parece-me não estarmos muito melhor. Hoje, como antes, o valor maior continua a ser ter mais uns dinheiritos para comprar o carro novo (pagar a prestação), ir de férias para as Caraíbas, (a crédito, claro) e , quanto ao mais, …
    o eterno futebol, fado e e Fátima.

  3. o meu voto vai direito para longe da direita :)
    A violência sobre as mulheres é, penso eu de que, uma questão cultural e de educação, passagem direta de pais para filhos. Eu tinha uma ideia, penso ser a única que poderia travar os homens e a mentalidade do homem. Uma organização, tipo #MeToo# – ai que me vão bater-, é a única maneira de travar este desnorte de matar mulheres, tratar mal mulheres e continuarem impunes e serenamente a continuar o trabalho deles, com a concordância dos homens juízes, dos homens polícias, dos homens médicos.
    É preciso dinheiro, mas também é preciso que haja MEDO. De outra maneira, não estou a ver como vai haver uma modificação de mentalidades nas próximas quatro a cinco gerações. Em Portugal, claro.
    A mulher não pode ter medo de denunciar; uma organização onde a denúncia do acto fosse o começo do julgamento geral. Uma polícia organizada para o efeito. Um pouco “pidesco”? Não sei! Não estou a ver outra saída, sinceramente!
    Eu sou das que não vê o homem como vítima da violência doméstica. Se existe, é irrelevante…

  4. José, se admites que se vive um pouco melhor, então pode-se concluir que não estamos condenados nem a viver cada vez pior nem a ficar na mesma. Depois, pode-se também aceitar que a avaliação de cada um é relativa, e que aquilo que a alguém aparece como pouco pode aparecer a outro como muito, que onde um vê verde outro pode ver azul ou cinzento. Isto é, podemos também concluir que se calhar houve grandes melhorias, enormes, impensáveis no passado, em certas áreas. Admitindo estas duas inferências, fica fácil admitir a terceira: sejam quais forem as dificuldades no presente, é possível que o futuro seja melhor, e a prova está no passado.

    Que te parece?
    __

    kodakkhrome, não entendi. Essa organização que propões faria o quê, exactamente?

  5. “A violência doméstica não é um fenómeno que se explique apenas nem fundamentalmente por factores sociais, nem há factores sociais capazes de a conter sem uma sua eventual inscrição nalguma mudança geracional a implicar um currículo escolar logo a partir do ensino básico – e uma cultura política e legislativa – ainda por inventar.”

    Uuhh ?

    Achas mesmo que com um curriculo escolar inteiramente revisto, que por exemplo ensinasse às criancinhas a dar algum sentido à frase completamente absurda que acabo de citar, haveria menos violência doméstica ? Duvido muito. Eu acho mais seguro irmos pela mudança de cultura civica e politica, que não esta nada por inventar (exprimenta ver no dicionario a palavra “respeito”) e, até ver, vou continuar a incluir esta mudança nos “factores sociais”.

    Mas também, não se pode ter tudo. Não podes andar, dia sim, dia sim, a refazer aqui o processo de José Socrates (e amigos), e, ao mesmo tempo, habituares-te a dizer coisa com coisa…

    Boas

  6. Tema delicado, onde o vozeirão da condenação obvia não dá espaço à busca das causas profundas.
    Sem dúvida que autópsia psicológica poderá abrir caminho para entendimento.
    As notícias que condenam o crime procuram a devassa do horror.
    Análise e retratos comportamentais das famílias, homens, mulheres e crianças com fins de tragédia pode ser o começo para encontrar padrões que possam iniciar o entendimento do que se repete em crescendo.
    Os comportamentos afetivos seguem padrões desfasados do hino ao individualismo e independência onde a mulher é destacada mas vítima maior.

  7. salvar vidas; incluindo as dos agressores que, fatalmente, igualmente são vítimas de si próprios

    Recentemente fez muito barulho o número de 9 mulheres assassinadas em janeiro. Falou-se muito menos do facto que 3 dos assassinos se suicidaram logo a seguir. (Em pelo menos um dos casos até poderemos indagar se se tratou de um ato de agressão, ou somente de um suicídio mutuamente combinado e consentido pelo casal. Não é anormal em certos meios as pessoas suicidarem-se quando são idosas e sentem que estão a constituir um peso para os seus familiares.)

  8. https://fra.europa.eu/fr/publications-and-resources/data-and-maps/la-violence-legard-des-femmes-une-enquete-lechelle-de-lue

    https://www.sbs.com.au/yourlanguage/portuguese/pt/audiotrack/mais-da-metade-das-mulheres-mortas-em-2017-foram-assassinadas-pelo-parceiro?language=pt ( estudo global)

    https://www.unodc.org/gsh/

    não faz mal nenhum terem um panorama global. na Europa é nos países onde há graves problemas de álcool, ao ponto do racionarem, que os índices são maiores… ou é nos países católicos que os índices são menores..

  9. Ainda estamos imersos numa cultura do Ter não do Ser. Cultura onde as trocas e posse de produtos, ie o consumo, é desbragadamente erotizado e narcísico. Nem por acaso o equivalente romano de Narciso (grego) é Valentim e não Cupido. O dia dos Namorados nao é a celebraçao do outro mas de “nós” através do outro(o espelho, o lago). A violência da posse é celebrada todos os dias de todas as formas, a agressão às mulheres é a superfície de um lago muito profundo.

  10. Muito bem, caro Luis Lavoura, também acho que é indecente ninguém falar nunca no drama dos assassinos que se suicidam a seguir. Os autores de atentados, por exemplo, ou o Adolf Hitler, não são pessoas ? Não merecem a nossa consideração ? Fala-se sempre nas vitimas mas essas, ao menos, têm o estatuto de vitimas e têm habitualmente muitas pessoas que chorem por elas.

    E’ um escândalo ninguém falar nisso.

    Boas

  11. a frase do Valupi até se percebe , tags : psiquiatria molecular, genes, biopsicosocial , o deus das moscas e tal.
    eu aconselhava cursos de contenção de emoções , autocontrole e controlo de raiva , kung fu ou yoga aos homens, desde pequeninos, usando as técnicas nalgumas situações privadas, nunca na guerra ou situações similares…(erradicar a violência doméstica é tão utópico como erradicar a guerra ou a violência no geral)
    às vitimas aconselhava cursos de identificação de manipuladores e caracteres violentos, cursos de aumento da auto estima e gravar na testa “o amor não muda ninguém”.

  12. “a frase do Valupi até se percebe , tags : psiquiatria molecular, genes, biopsicosocial , o deus das moscas e tal”

    Nesse caso, não poderiamos alcançar nada com pedagogias e cultura civica ou politica, mas apenas com laranjas mecânicas… Conheço muito bem essa “teoria” das moléculas e dos genes, e a sua variante para o outro sexo (coitadas, nasceram com disposições fisicas e psiquicas para levar pancada, o que vamos fazer ?). Curiosamente, ela nunca é invocada quando se trata de atentados à propriedade ou, sei la, de crime organizado ou de infrações ao codigo da estrada. “Pois, Meretissimo, de facto assaltamos o banco e deitamos o traidor do Zé ao fundo do Tejo com os pés em cimento, mas isto é genético, não conseguimos reprimi-lo” ou então “Realmente, Senhor guarda, eu até ia a 160 km/hora, mas o que posso fazer, são as minhas moléculas de cavalo”.

    Vão dar banho ao cão.

    Boas

  13. claro que a erradicação da violência só com laranjas mecânicas e substituição da “natureza humana “por “natureza de máquina.”. ; ou isso, ou a lei do talião, que é bastante eficaz.

  14. tratando-se do Homem, é de admirar não haver mais violência.
    ~
    tentando ser optimista, diria:
    – Mulher, educa os teus filhos.

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