
Freitas do Amaral (1941-2019)
Livro de Recitações
“Estranho povo este, que não olha para as eleições como se de um circo se tratasse”
Luís Aguiar-Conraria, in PÚBLICO, 24/09/2019
Com esta frase irónica, o professor de economia da Universidade do Minho e colunista deste jornal terminava um artigo onde mostrava que há sinais claros de que o modo como a campanha eleitoral e os debates entre os partido são tratados pelos jornalistas, em que o pressuposto é que o povo fútil e ignaro quer é espectáculo de diversão, não corresponde à verdade e é afinal esse jornalismo que oferece o espectáculo pindérico da sua ignorância e irresponsabilidade. Uma pesquisa mais funda e alargada talvez mostrasse que este equívoco está generalizado e as elites responsáveis por um “editorialismo” que tudo faz para satisfazer o cliente afinal satisfaz menos clientes do que supõe e aliena grande parte da clientela que, à partida, estaria segura. Quando as “elites” já nem sequer estão ao nível das massas porque estão abaixo, então algo está errado nisto tudo e precisa de ser repensado.
Por vezes já tenho concordado imensíssimo com o que diz Ricardo Paes Mamede. Lembro-me de lhe começar a prestar atenção e de gostar de o ouvir quando debatia economia na televisão com o Braga de Macedo. Continuei a lê-lo regularmente. Hoje, neste artigo, não concordo com nada. (transcrevo excertos mais adiante) A tese é que o PS teve duas caras na legislatura que agora termina: uma muito agradável, porque a esquerda radical gostou dela, outra muito desagradável, porque essa mesma esquerda não gostou dela.
Não tendo eu a menor veleidade de defender oficialmente o PS, este artigo, por o considerar abusivo, propositadamente míope e, atendendo à época eleitoral, muito tendencioso, suscita-me as seguintes considerações.
Não foi para “agradar” aos seus parceiros de esquerda que o PS tomou certas medidas na primeira parte da legislatura, ou seja, por oportunismo e calculismo e sem qualquer convicção, segundo se depreende das palavras do Ricardo. Foi, sim, para cumprir o acordado com eles e que representa as matérias em que comungavam do mesmo entendimento.
Mas, obviamente, o PS não é nem o PCP nem o Bloco. Muito longe disso. Com outras lideranças, um quilómetro de distância ainda era muito perto.
Na maioria das restantes matérias da governação existe um profundo desacordo – seja quanto à Europa, seja quanto à organização da economia e organização laboral, seja quanto ao mercado da habitação, seja quanto à liberdade. Não é, portanto, de estranhar que, cumprido o acordado, nas restantes matérias o PS tenha mostrado em que consistem as diferenças.
“O que quer o PS?” – pergunta Ricardo. Sem me substituir aos militantes socialistas, é naturalíssimo que queira seguir os seus próprios princípios e programa, ora essa. O que é que o Ricardo tem contra isso?
“Pouco depois do início da legislatura, o governo denunciou os contratos de associação entre o Estado e os colégios privados, uma medida que não constava dos acordos mas que recebeu o aplauso unânime à esquerda, tanto pela sua coerência na defesa do ensino público como pela coragem em enfrentar interesses instalados. Casos como este levaram a que muitos acreditassem estarmos perante um partido transformado.” – diz o Ricardo.
Pois denunciou. E este é apenas um exemplo de que não é preciso o Bloco ou o PCP arvorarem-se em defensores de certos princípios ditos “de esquerda”, porque o PS já os defende. Pode? Sentem-se desorientados por gostarem deles?
“À medida que a legislatura avançava, a atitude mudou. A polémica em torno da chamada “taxa Robles“, em que o PS afirmou desconhecer uma proposta orçamental que o BE apresentara meses antes, foi o primeiro sinal claro de que os socialistas estavam menos interessados no ambiente de concílio à esquerda. A seguir a esse episódio vieram outros. A decisão de avançar para a revisão da lei laboral sem o envolvimento do PCP e do BE, a tensão em torno da Lei de Bases da Saúde ou as dificuldades em finalizar a proposta de Lei de Bases da Habitação foram outros momentos cruciais em que o PS se mostrou determinado em regressar à sua tradição centrista.“
O PS não tinha que concordar com a “taxa Robles”, ou tinha? Nem com as pretensões da esquerda comunista/extremista sobre a lei laboral, ou a lei de bases da Saúde, ou outras questões. Essa discordância faz do PS um partido “conservador”? Era o que faltava.
[…]O auge do afastamento do PS face ao discurso de esquerda aconteceu no Verão de 2019, no contexto da greve dos motoristas de matérias perigosas, em que as decisões e afirmações do governo contribuíram para pôr em causa o próprio direito à greve.”
Por favor. Pôr em causa o direito à greve? Que visão tão tendenciosa. Uma greve liderada por um advogado de Porsche saído sabe-se lá de onde? ( isto é um aparte meu; não foi pelo aspecto do senhor nem pelo inusitado daquela liderança que a greve teve que ser resolvida de forma “musculada”) Nunca o PS foi contra o direito à greve, que me lembre. Pelo contrário. Na minha modesta opinião, nalguns casos até deixou ir as greves longe demais. Na greve dos motoristas de combustíveis, estava em causa o funcionamento ou a paralisia de um país inteiro. No caso dos enfermeiros, a morte de pessoas. A greve não pode estar acima de tudo. Até o Cunhal o afirmou nos idos do PREC.
“Apesar dos alertas contra os perigos de “pensar como a direita”, a postura de António Costa no último ano e meio sugere estarmos perante o regresso ao antigo PS centrista, após um interregno de aproximação à esquerda nos primeiros anos de geringonça.”
Primeiro, aproximação não é sinónimo de fusão. Segundo, desde quando o centrismo é mau? (Vá lá que não lhe chama “o antigo PS de direita”)
“Uma explicação cínica diz-nos que nada disto tem que ver com hesitações ou opções ideológicas. Que o PS faz o discurso que for necessário para chegar ao governo e nele permanecer, como faria qualquer partido de poder. Demarcar-se da estratégia da troika era necessário para vencer eleições. Agradar ao PCP e ao BE era necessário para aprovar os Orçamentos do Estado. Distanciar-se do discurso das esquerdas permitia aproximar-se do eleitorado ao centro, alargando a base de apoio do governo e até da geringonça. Adoptar uma atitude agressiva contra quem protesta (típica de governos de direita) seria uma opção racional para quem pode aspirar a uma maioria absoluta.”
Não. Totalmente em desacordo, seja o Ricardo o cínico ou outras pessoas com quem fala. Nem tudo é calculismo e estratégia. É mais simples do que isso: o PS não partilha 80% dos pontos de vista da esquerda radical. É novidade?
A 24 de Setembro, Rui Rio fez afirmações confusas no reino dos Algarves, atabalhoadas pela emoção e falta de preparo. Foi uma juliana de alusões ao Governo, a camionistas e a professores à mistura com algo não identificado que iria acontecer nos próximos dias, servindo a rábula apenas para repetir enfaticamente as expressões “golpe de teatro” e “encenação”; um léxico codificado cuja cifra ele já possuía mas que ainda não queria partilhar com a malta. Algumas notícias interpretaram as suas palavras como sendo o anúncio de vir aí a caminho o tal “golpe de teatro”, mais uma “encenação” dos diabólicos socialistas, só restando saber relativamente a quê. Agora, sete dias depois e após a direita ter afundado a campanha na chicana e chiqueiro de Tancos, é possível interpretar claramente o que o homem estava a dizer. Rio não profetizava qualquer acção do Governo, antes fazia referência obscenamente implícita à divulgação iminente da acusação do caso Tancos, antecipada pela Rádio Renascença no dia anterior – numa violação ao segredo de justiça preparada para coincidir exactamente com o início da campanha eleitoral. Neste quadro judicial e político, sem sequer haver publicação da acusação, e logo ao 2º dia de campanha, Rio fez sua a tese dos procuradores responsáveis pelo processo e declarou que o Governo foi não só conhecedor como cúmplice activo e interessado no processo de recuperação das armas roubadas em Tancos e das variadas ilegalidades e mentiras que foram descobertas pelo Ministério Público. Era esta “encenação” que estava em vias de ser declarada oficialmente “verdadeira” com o selo da Procuradoria-Geral da República, festejou um candidato a primeiro-ministro incapaz de conter a pulsão assassina.
Vale a pena ver e ouvir os registos originais, à prova de estúpidos e pulhas: TVI – TSF
Faz sentido político registar como este comportamento de Rio é não só contraditório como antinómico com o que jurou ser a sua convicção mais profunda dias antes no debate com Costa, assim como noutras ocasiões logo desde a campanha para a presidência do PSD. Esta pessoa que prometeu ir fazer uma campanha sem berreiro e chungaria, antes com racionalidade e propostas melhores do que as dos restantes partidos, que garantiu ter uma vida inteira na defesa da democracia e de certas causas ligadas à Justiça, chegou ao ponto de proclamar com rugido homérico ter entrado na política aos 16 anos, antes do 25 de Abril, para combater os julgamentos na praça pública, “nas tabacarias e nos ecrãs de televisão“. O cidadão que colocou a actual Justiça de um regime democrático ao nível da do Estado Novo, contudo e já sem nada no alforge da decência, revelou-se um biltre ao ficar em êxtase por existir um SMS ambíguo captado pelas forças policiais a um político. Um SMS que ele Rio não faz ideia do que possa querer dizer posto que não é investigador do MP ou da Judiciária, posto que não foi testemunha dos factos na berlinda, mas o qual lhe iria permitir lançar acusações tóxicas, caluniosas e vexatórias das instituições da República e do bom nome e honra de terceiros.
Só que faz ainda mais sentido, agora cívico, registar como Rui Rio se expõe na sua absoluta incapacidade para assumir as responsabilidades inerentes à chefia de um Executivo. As acusações ao Ministério Público que se transformam de um dia para o outro em elogios assim que dá para aproveitar a munição colocada à sua frente por essa rapaziada mais dada à paixão da Ciência Política (escola da Católica) do que à leitura e respeito da Constituição, as acusações alucinadas às empresas de sondagens que desaparecem logo que mudam os números substituídas por inacreditáveis e primárias manifestações narcísicas, o despejo de teorias da conspiração canalhas contra o PS que são rebatidas pela TVI sem originarem do canalha em causa qualquer pedido de desculpas ou vagido de responsabilização. É este cata-vento, finalmente desmascarado como retinto e desprezível hipócrita, que queremos em São Bento a disparar atoardas e tonteiras deste calibre?
Rui Rio e Cristas querem fazer das eleições de 6 de Outubro um pelourinho onde o PS será castigado por Azeredo ter escrito numa mensagem pessoal “Eu sabia”. Saber a que é que ele se referia não interessa para o seu julgamento. O crime está provado, ele teclou “Eu sabia” no seu telemóvel e o Ministério Público já fez a hermenêutica autêntica, tornando-se irrelevante o que o próprio Azeredo tenha a dizer sobre os seus actos de fala. PSD e CDS não querem que se saiba mais nada, põem as brasas todas na acusação do caso Tancos e berram que o que ela contém já chega para irmos a votos e escolher como é que a Saúde, a Educação, o Ambiente, os Transportes, a Segurança, a Justiça, o Trabalho e a Economia, entre outras dimensões da nossa vida comunitária sem grande interesse, devem ser governadas. Podemos pois concluir que não é só a Justiça que lembra o salazarismo, também na direita há pides em campanha.
Commit a crime? Loved ones got your back
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Não há nada como acusar socialistas para animar as hostes social-democratas. O Rui Rio, que estava a levar os apoiantes ao desespero, tão mortiça andava a sua campanha, parece outro desde que se agarrou ao caso Tancos para atacar o Governo. Se calhar, para alguns, foi um bocadinho longe de mais, mas nada que tenha atrapalhado outros que acham que o caso tem mesmo de ser discutido na campanha. E não vale a pena virem cá com o “à política o que é da política e à justiça o que é da justiça” que isso não passa de “conversa estafada”, como nos avisa o Pedro Marques Lopes.
Mas estou aqui com uma dúvida. Como é que se discute este caso na campanha? Decide-se primeiro quem são os culpados com voto de braço no ar nos comícios? E discute-se a coisa com base nos resultados obtidos? Ninguém poderia acusar o Rui Rio de incoerência, afinal os comícios não são tabacarias. Mas infelizmente isto só é válido para os outros partidos. O líder do PSD não perdeu tempo, anunciou logo de caras quem são os culpados neste caso. Mas pode aproveitar o resto da campanha para informar os eleitores acerca do que fará a estes clones do Sócrates caso ganhe as eleições. Aposto que vai anunciar a construção de prisões em número suficiente para os encarcerar todos, estimulando dessa forma a economia, criando um número espectacular de empregos directos e indirectos, ao mesmo tempo que cuida do ambiente.
Quem ouve por estes dias a oposição a comentar as acusações do Ministério Público ao ex-ministro Azeredo Lopes e aos militares da PJM diria que estes foram coniventes com os assaltantes do paiol de Tancos. “Grave, gravíssimo”, “encobrimento”, “perdão aos assaltantes”, “encenação” é o som dos carrilhões da oposição e dos pasquins que, por estes dias, pretendem ensurdecer os ouvintes. Como sempre, o ponto de partida é que os cidadãos têm permanentemente os neurónios de molho e são altamente mobilizáveis pelo alarido. Penso que se enganam.
Na prática e no fundo, qualquer pessoa percebe que apenas aconteceram duas coisas: 1. um furto de armas de um paiol (sem dúvida nenhuma que por incúria do exército, ou falta de meios – desculpa não atendível, apesar da penúria em que a austeridade deixou as instituições) e 2. uma recuperação das armas furtadas. Porque, surpresa das surpresas, foram mesmo recuperadas.
Dos acusados, apenas alguns – os ladrões e seus cúmplices – são responsáveis pelo primeiro acto, à luz da lei o mais grave. Os restantes dividem-se em duas categorias: os que terão negociado e lideraram a operação de recuperação, ao que tudo indica por excesso de zelo e brio, e quiçá a disfarçaram (a tal “encenação”), e o responsável máximo político pela PJM, ou seja, o ministro.
Acontece que a recuperação das armas foi, sob qualquer ponto de vista, um acontecimento positivo. Não percamos a noção. Não foi mau, foi óptimo (será isto que irrita o MP?). Deixou de haver armas “à solta”, tráfico, restabeleceu-se a segurança. A operação foi um sucesso.
A única coisa que pode, eventualmente, merecer alguma condenação à luz da lei foi o processo concreto de recuperação, por ter sido liderado pela PJM (segundo métodos muito próprios) à revelia da Polícia Judiciária civil, que tinha, tempos antes (e se calhar contestavelmente; foi o que entendeu o coronel Luis Vieira), sido encarregada do processo pela PGR. (Sobre esta matéria, o advogado do major Vasco Brazão frisou pormenores importantes ontem à noite, na SIC N, quanto às informações que chegaram à PJ antes do furto, e a sua inacção. Mais tarde, o jornalista Luís Rosa falou também na questão da competência como eventual razão para a inacção ou de uma PJ ou da outra)
Bom, mas competiria, pois, ao Ministério Público não perder de vista que, na base deste segunda “irregularidade” está sobretudo uma rivalidade entre polícias, no meio da qual poderá ter sido apanhado o ministro da Defesa (terá?), que não tutela a PJ civil, logicamente. Portanto, a gravidade dos segundos “crimes” não pode de maneira nenhuma ser comparada à do primeiro e muito menos deve ser criada essa ideia na opinião pública pelo Ministério Público. Mas estamos no domínio dos sonhos, não é? O MP tem tendência a esquecer propositadamente a dimensão política de cada problema, acusando automaticamente o responsável político (do PS, ora pois) por crimes pesados como “encobrimento”, “denegação de justiça”, “prevaricação” (= obtenção de ganhos!) e “abuso de poder”. Até nos leva a pensar que o ministro e a PJM impediram a descoberta das armas. Passou-se exactamente o contrário. Há alguma coisa de aberrante nisto.
Eu sei que a cara das pessoas muitas vezes nada nos diz sobre o funcionamento das suas cabeças, mas considerar Azeredo Lopes ou o major Vasco Brazão ou o ex-chefe da Casa Militar (e, consequentemente, um tal “papagaio-mor do reino”) criminosos é um abuso demasiado abusivo de poder pelo MP, passe também o meu abuso de linguagem. Marcelo fez questão de lembrar que não é um criminoso quando o seu nome veio à baila. E, no entanto, não há um português, aqui e no mundo inteiro, que pense o contrário. E mais não digo sobre caras e vidas de criminosos.
Não me substituo aos juízes nem procuradores, mas há certezas sobre algumas coisas: houve rivalidade entre polícias, uma delas não cumpriu o estipulado pela PGR, fê-lo por uma boa causa e não para obstaculizar a investigação (atenuante importante), e o objectivo de qualquer investigação a um furto de armas foi cumprido: recuperaram-se as armas. Quanto à ocultação do autor do furto, é uma contrapartida sempre discutível, mas não necessariamente um crime. O resto deviam ser detalhes ou, vá lá, crimes de muito pouca gravidade, atendendo aos papéis tradicionais das duas PJ. Mas é claro que a oposição, desesperada, está a adorar o Ministério Público.
Rui Rio está a usar o caso de Tancos para uma exploração eleitoralista, demagógica e irresponsável que lhe retira qualquer vestígio de sentido de Estado que ainda tivesse esquecido nalgum bolso. A haver justiça cívica e patriótica a 6 de Outubro, o PSD ficaria de fora da Assembleia da República na próxima legislatura.
Assunção Cristas faz ainda pior, mergulhando na chungaria mais torpe e desmiolada a que a direita decadente está reduzida desde 2008.
Entretanto, quão mais se sabe do caso mais saliente é a gravidade do mesmo mas não por causa de Azeredo Lopes, o alvo político de todos os oportunismos e culpabilidades; um ministro da Defesa – tutelando uma área ministerial sui generis, a qual responde directamente ao Comandante Supremo das Forças Armadas – apanhado naquela que é, sem dúvida, a crise mais complexa e obscena do putrefacto Exército português depois do 25 de Novembro.
Uma crise onde o Ministério Público decidiu punir e humilhar institucionalmente o pilar militar do regime como resposta à ameaça que a PJM representa pela intenção e ilegalidade das suas acções. Uma crise que vai pedir, fatalmente, um Conselho de Estado e nova legislação.
Para a direita, nós devemos ser o pior povo do Mundo. Se não, vejamos: em 2008, não precisámos da maior crise mundial das últimas décadas para nada para arrasar a economia do País. É perguntar-lhes que a resposta sai pronta: foi Sócrates, com a nossa prestimosa ajuda, claro. Todos a estroinarmos as riquezas que os Centenos do Durão Barroso e do Santana Lopes tinham amealhado e deixado nos cofres do Estado. Como se não bastasse, a maioria voltou a eleger aquele monstro em 2009. E lá teve de vir a direita salvar-nos de nós próprios e da queda que temos para levar o País à ruína. De seguida, ingratos, em vez de mantermos a direita no poder para todo o sempre, apoiámos um dos piores governos que se pode imaginar. Um que até mete comunistas e bloquistas. Esquerdas unidas, ou lá o que é. Um nojo. E um perigo para as riquezas deixadas pelos Centenos do Passos e do Portas, lá está.
Entretanto, a conjuntura externa melhorou. Sem surpresa, a interna piorou. E muito. É o que a direita repete incansável. Mas em vão, pois já se sabe como são os portugueses. É os empresários a investirem e a contratarem gente como se não houvesse amanhã. É os que saíram danadinhos para voltarem para a sua zona de conforto. Enfim, o costume, todos a gastarem acima das possibilidades. Mas com que dinheiro, senhores, se vai todo para os impostos?! E lá fora também parece estar tudo doido. Não ouvem a direita? Não deviam estar já a cobrar-nos juros mais altos? E as agências de rating, estão à espera de quê para nos aplicarem o devido castigo?
A verdade é que não merecemos que a direita nos governe. É um desperdício de Centenos. E basta olhar para as sondagens actuais para ver que estes verdadeiros magos das contas só se enganaram numa. Não é preciso vir nenhum Diabo de fora. Sempre cá esteve, somos nós.
Segundo sondagens diárias da TVI, o PS deixou de tocar os números da maioria absoluta e Rui Rio começou a recuperar terreno após os debates, conseguindo já 28% dos votos, depois de meses e meses a afundar o partido, que já não captava mais do que 22 – 23% das intenções de voto. Esta recuperação do PSD não me surpreende. Sendo as expectativas pré-debates de tal maneira baixas em relação ao seu líder, prontamente os comentadores pós-debates (para mim, uma aberração, pois são enormes influenciadores – mais do que os candidatos – e não são neutros) lhe teceram os maiores elogios, apesar de totalmente imerecidos se atendermos ao conteúdo do que disse. Depois, nem toda a gente gosta de governantes com ar sério, responsável e respeitador (postura que Costa melhor deixa ver nos debates), sobretudo nos tempos que correm, que parecem ser de feição para patetas alegres. Rui Rio tem dito e diz as maiores alarvidades, mas fá-lo com o à-vontade e a “genuinidade” de quem tinha já pouco a perder, além de com grande técnica de “armar aos cucos”. Ora, a genuinidade, mesmo de contadores de anedotas, e o estilo convicto são apreciados. E Rio, mesmo que debite incongruências e impossibilidades, tem a seu favor o facto de não ser um arrivista, mas já ter sido presidente da Câmara do Porto durante vários anos.
António Costa tem tendência a negligenciar os adversários. Um pouco mais de “killer instinct” não lhe iria mal. Simpatiza com Rui Rio e não gosta de o hostilizar ou humilhar, mas devia. Estamos em campanha e Rio continua a dizer muito disparate. Além de que, se Costa estiver atento, verá que este não se ensaia muito para o atacar descaradamente, mesmo sem razão nenhuma e pela via da demagogia. E sempre bem disposto, agora que deixou os lugares de desclassificação. E isso, hoje em dia, pode ser fatal para o seu rival.
É compreensível que Rui Rio se revolte com as sistemáticas violações do segredo de justiça e a lentidão nos casos mediáticos e associe esse fenómeno ao Ministério Público. É também sabido que o Ministério Público e a Judiciária alimentam regularmente alguns órgãos de comunicação com informações sob segredo de justiça, mas a forma de acabar com isso não é punir mais os jornalistas mas sim, dentro das corporações, criar uma mentalidade e uma prática mais rigorosas e respeitadoras da lei e menos permeáveis a "amiguismos" ou "clubismos". Não é fácil, diga-se. O que não é possível, em democracia, é impedir a imprensa de dar notícias sobre processos judiciais. Alguém admite que sobre a Operação Marquês só tivéssemos tomado conhecimento dos factos a que a mesma se reporta quando foi divulgada a acusação, quase três anos após a prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates? Alguém admite que não soubéssemos que o ex-banqueiro Ricardo Salgado está em liberdade por ter prestado uma avultada caução?
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Neste singelo parágrafo, o ladino Chico Mota consegue subsumir tudo o que está em causa na questão de Estado, e de soberania, chamada “violação do segredo de justiça”. Eis o que nos diz, do alto de ser advogado e jornalista, o especialista do Público para as temáticas ligadas à Justiça:
– Que Rui Rio está autorizado a falar na Justiça sem passar acto contínuo por corrupto nas bocas dos donos da opinião pública pois não é socialista; sendo só de lamentar que Rui Rio, na sua ingenuidade e estultícia, esteja a querer ajudar os corruptos do PS.
– Que o Ministério Público e a Judiciária cometem crimes sistematicamente, impunemente, publicamente, e que tal tem de ser protegido, a começar pela protecção dos cúmplices nos órgãos de comunicação social que concretizam as intenções dos criminosos no MP e PJ, e lhes aumentam o alcance e a gravidade quando não mudam a tipologia do dano.
– Que o paleio de se ir resolver o problema criando «uma mentalidade e uma prática mais rigorosas e respeitadoras da lei e menos permeáveis a “amiguismos” ou clubismos”» só serve para um gajo se mijar a rir; e é precisamente por isso que essa cassete tem de tocar sem parar até abafar toda e qualquer tentativa de combate ao deboche que enche bolsos e agendas secretas.
– Que a “imprensa”, desde que controlada pela “gente séria”, pode despejar as informações que lhe apetecer no espaço público sem qualquer controlo pelo Estado nem pela sociedade, servindo essa violação do código deontológico do jornalismo e da Lei portuguesa para ilimitados objectivos imorais e ilícitos a coberto de serem alegadas “notícias”.
– Que a Operação Marquês é o exemplo perfeito, paradigmático, inexcedível na sua pulhice pelas décadas ou séculos afora, do quanto se pode ganhar em dinheiro e em influência sobre o jogo político, ao mesmo tempo alimentando o voyeurismo e sordidez quotidiana, ao se dispor do incomensurável poder das polícias, procuradores e juízes para diabolizar politicamente e assassinar moralmente alvos selectos.
– Que depois de tanto abuso da Justiça e da indústria da calúnia, depois de tanta “investigação” ao longo de tantos anos por tantos profissionais da investigação estatal e privada, não há ninguém em Portugal que possua um único facto relativo ao que supostamente estava na origem do processo e das draconianas medidas tomadas: um acto de corrupção, passiva ou activa, do cidadão José Sócrates. Daí ter de se ir buscar o Salgado sempre que Sócrates vier à baila para que o auto-de-fé não tenha falta de lenha junto do bom povo que grita por “justiça”.
– Que o Chico Mota defende crimes de agentes das polícias e da Justiça recorrendo ao argumento de que esses crimes lhe oferecem algo que curte bué desfrutar enquanto se ri à gargalhada do Estado de direito.
Estamos perante alguém que se anula como autoridade do que reclama como estatuto de superioridade e especialização. Alguém que se entrega às paixões onde chafurda agarrado a quem lhe permite despejar o seu ódio contra aqueles que detesta por razões que não explica por não terem explicação. Um taberneiro ilustrado.
Kindness is a top priority in a long-term partner
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Females tend to take risk more seriously, but their voices often go unheard
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Married CEOs are more committed to social issues than non-married peers
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How happy couples argue: Focus on solvable issues first
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Advice for introverts: Fake it, and you’ll be happier
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Inequality: What we’ve learned from the ‘Robots of the late Neolithic’
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The Amazon and You
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Penso que todos achamos que seria bom alguém fazer um filme sobre o Alentejo rural partindo das transformações por que passou uma herdade específica (e os seus proprietários ou a sua propriedade, o seu uso ou outros aspectos) desde o salazarismo até aos nossos dias. Eu acho que seria. Bom, interessante e importante. Alguém devia ser capaz, agora que alguns realizadores portugueses já começam a perceber o que é um filme e a quem se destina. Pois bem, surgiu agora aí um cuja publicidade diz que o faz, isso de apresentar as transformações, etc., e que até se candidatou ao festival de Veneza, onde ganhou um prémio da crítica independente, e se vai candidatar ao óscar de melhor filme estrangeiro e é anunciado em todo o lado e tudo isso. Mas tenham lá calma.
Fui ver. (Atenção: para quem tem intenção de ir ver o filme, vou falar do enredo!)
Cinco minutos de filme e eu a duvidar se deveria ficar. É que comecei a pensar numa famosa oliveira, filmada durante 10 minutos, sem mais, penso que na abertura de um dos filmes do Manuel de Oliveira. Únicas diferenças: aqui são menos de dez minutos, trata-se de um sobreiro e tem um homem enforcado. Porquê? Não sabemos. Se alguém percebeu, que me diga, por favor. E eu que fiquei sentada provavelmente por causa da expectativa assim criada.
Enfim, estava, então, dado o mote. Seriam três penosas horas, três, de passos do quarto para a sala, na sala para o bar, no terreiro em frente, silêncios, olhares, lindos cavalos (quase sempre nos estábulos), uísque, cigarros (uísque e cigarros constantemente, até à náusea, eu que não fumo), uma herdade como paisagem e uma total ausência de história e muito menos de história daquela herdade e dos seus problemas. Era o anúncio, lembram-se? Mas, perguntarão vocês, ao menos sabe-se o que levou aquele rapaz ao desespero? Não, já tinha dito. Nada. Não interessa. Possivelmente o realizador ouviu dizer que a taxa de suicídio no Alentejo era alta e daí a filmagem desse quadro. Mas, senhores, estamos no Alentejo da Comporta, não no coração tórrido da vertigem das searas e dos 45 graus à sombra. Mas vamos.
Nessa primeira cena, há um miúdo que é chamado pelo pai avô (? dizem-me nos comentários) para ver o irmão pai enforcado e ao qual é transmitida a máxima de que tudo acaba e que, quando acaba, acaba mesmo. O miúdo ouve, afasta-se para umas ruínas na outra margem do lago e pronto, é tudo o que há a dizer e a fazer quanto àquele suposto drama. Esse miúdo será depois (penso eu, posso estar a ver mal) o Albano Jerónimo, aliás João Fernandes, proprietário da herdade a partir da década de 70, supostamente um homem mal disposto com a existência, mas que ao mesmo tempo adora a vida no campo, não tem problema algum com o pessoal e é danadinho para a brincadeira, pois corre a eito (talvez sem se rir, querem que acreditemos) tudo o que é mulherio na propriedade, incluindo a mulher do capataz. Alto aí! A mulher do capataz? Drama nisso, não? Eles andam sempre juntos. Mas qual drama, amigos? Nenhum. Tudo numa boa. O bom do Joaquim, o capataz, gosta um bocado demais de vinho, possivelmente negligencia os seus deveres conjugais, mas se a mulher teve um filho com o patrão, tudo bem. Qual é o problema? Ela é boa rapariga e obediente. Ai, minha nossa!
Como é que não vim embora ao intervalo, ou até aos cinco minutos, e me deixei ficar até perto de uma crise de nervos? É que a última parte ainda consegue ser pior do que a primeira. Se na primeira ainda aparecem umas questiúnculas, muito mal engendradas, diga-se, (só para dizer que estávamos no fascismo) com o governo de Marcelo Caetano e seus agentes, um baile em Lisboa com música dos anos 70 e uma hipótese de paixão escaldante com a cunhada (ná, não tem qualquer desenvolvimento, nem “flasbacks” nem nada, e olhem que é a Vitória Guerra), na segunda, após um salto gigante do 25 de Abril para os anos 90 sem que nada de relevante se tivesse passado naquela herdade, nada de nadinha, nem com os trabalhadores, todos mansinhos, incluindo o suposto comunista, nem com a produção nem com nada, a “história”, sem maneira de apresentar dados sobre uma eventual quebra de vendas, ocupações, crise económica, sei lá, má gestão e outras circunstâncias que poderiam ter levado ao declínio, passa a concentrar-se no melodrama telenovelesco do filho que não era filho do capataz mas do patrão (coisa que toda a gente sabia e que o realizador não escondeu de ninguém desde a primeira hora) e que se enamora da filha legítima do mesmo. Ora, baseando-nos no que o filme nos mostra, isto é não só altamente improvável, pois tinham sido criados todos juntos (três miúdos) desde que nasceram, como irmãos, como também não era novidade nenhuma e teria certamente já sido acautelado. O mais cómico (às tantas, uma pessoa já se ri) e desesperante é que, à medida que o filme carrega neste forçado drama final de recurso, menos as personagens falam, mais se calam e mais olham, estáticas. O cúmulo deste comportamento é atingido quando a filha vê o pai a pegar numa pistola que estava na gaveta e sair de casa, e a rapariga não tuge nem muge, não faz uma pergunta que evite uma potencial tragédia, não faz um gesto, nada. Fica a olhar para o pai a sair com a pistola e pronto, ele lá sabia da vida dele. (e o facto é que ia só ali abater o cavalo ferido, por ter caído, mas ela não sabia, caraças)
Bom, já perceberam. Para mim, tirando a paisagem, os cavalos e o actor principal, que é bonito, e o filho mais novo, também bonito, nada neste filme se aproveita. Uma estopada. Uma fraude. Três horas. Um argumento e um guião escritos em cima dos joelhos e às três pancadas. Tirando os dois protagonistas, ele e ela, até o “casting” restante é mau. A actriz que faz de mulher do patrão é expressiva, mas o problema é que não estamos já na era do cinema mudo e a personagem dela é, como tudo o resto, indefinida e inverosímil e sobretudo sem palavras para dizer. Gosto do Albano Jerónimo, já o vi e elogiei como actor de teatro, mas até ele devia ter pensado melhor antes de se meter em argumento tão pobrezinho. Grande ambição, enorme publicidade e sai-me isto. Acho que até as telenovelas já fazem melhor.
Mas, é claro, sintam-se à vontade para me dizerem que não percebi nada, nem os simbolismos nem a história, nem a linguagem cinematográfica nem nada. Eu lerei o que dizem, mas não. Muito mau.
Então era isto que a Cofina queria? Comprar a TVI? Foi por isso que andou a acusar o Sócrates de andar alegadamente a conspirar para, através da compra da TVI por gente amiga, “controlar a comunicação social”?
Todas as acusações de há uns anos afinal eram para guardar a TVI em banho Maria até lhe poderem deitar a mão e transformarem a informação em Portugal num gigantesco Correio da Manhã. Uma Fox News à portuguesa. Lembro que o Correio da Manhã é o jornal do crime, um criador de alarmes sociais falsos, um tablóide sem escrúpulos, sem ética, sem nada. Um imenso pelourinho para abater quem se detesta. Um jornal que ainda há uns dias defendeu que os julgamentos se devem, sim, fazer na praça pública.
Bem podem dizer neste momento que manterão jornalistas, linha editorial, total independência e tudo de bom da TVI (enquanto dizem que só ficará quem quiser aderir “ao projecto”, claro). A gente sabe como é. Para contraporem algo de jeito à CMTV, teriam que dar cabo desta. Portanto, passarão a ser uma e a mesma coisa.
Mas o panorama é de desgraça. Se pensarmos que a única alternativa que existirá será a televisão do PSD, a SIC do mano Costa e do imberbe do Ferrão, isto fica mesmo, espera, como era? Claustrofóbico? Era isso que diziam no tempo do Sócrates. E não havia claustrofobia nem asfixia nenhuma. Apenas a direita a não estar no poder. Mas a deter a comunicação social. Agora é mesmo. E ninguém se agita e ninguém faz nada. Eu não tenho dinheiro. Mas o Ronaldo, li de raspão que gostava de ter uma televisão. Então? Não atirou ele o microfone do “CM” à água?
Devo dizer que ainda está a TVI nas mãos da Prisa e eu já quase deixei de ver televisão. Agora, se não fugir, vou andar pela natureza ainda mais tempo, parece-me. Na que o PAN não conhecer.
Deveria haver um limite para as modas. Não sei se esta mulher ainda vai a tempo de apanhar a onda de cabeças leves (e, algumas, loiras) a ocuparem lugares de poder político, mas a Cristina Ferreira admitiu que gostaria de se candidatar à Presidência da República. A sério. A esganiçada da Malveira (nada contra a Malveira, bela terra) a estudar a Constituição e a ouvir os partidos políticos. A discursar na Assembleia e perante outros chefes de Estado. Espero que, até lá, a “trend” já tenha passado. Se não, uma pata-brava na Presidência e eu a fugir daqui com vergonha.
Que raio de coisa deu à Ana Gomes? Quero dizer, coisa mais forte do que o habitual. Agora erege o “hacker” Rui Pinto em herói só porque o rapaz penetrou na correspondência digital de alguns clubes de futebol que ela considera lavandarias de dinheiro? E o resto? E a rede informática da Justiça? E a chantagem com os dados? A extorsão?
Será provavelmente uma das primeiras contratações da Cofina-TVI.
Que “timing” para reaparecerem na agenda mediática, não foi? Flagrante. Era o secretário de Estado que tinha que ir embora? O Carlos Alexandre estava ansioso? E então? Está bem assim?
Outra coisa: já não se disse e provou que afinal as golas não ardiam? Que apenas abriam buracos? E que, para isso, era preciso estarem praticamente em cima do lume, coisa para que não foram feitas de todo? Pois é. Disse-se e provou-se. E no entanto as televisões continuam a referir-se às ditas como “as golas inflamáveis”. Sabe ou não sabe o Carlos Alexandre que a comunicação social faz o que ele quer?