Tancos – importam-se de não perder a noção?

Quem ouve por estes dias a oposição a comentar as acusações do Ministério Público ao ex-ministro Azeredo Lopes e aos militares da PJM diria que estes foram coniventes com os assaltantes do paiol de Tancos. “Grave, gravíssimo”, “encobrimento”, “perdão aos assaltantes”, “encenação” é o som dos carrilhões da oposição e dos pasquins que, por estes dias, pretendem ensurdecer os ouvintes. Como sempre, o ponto de partida é que os cidadãos têm permanentemente os neurónios de molho e são altamente mobilizáveis pelo alarido. Penso que se enganam.

Na prática e no fundo, qualquer pessoa percebe que apenas aconteceram duas coisas: 1. um furto de armas de um paiol (sem dúvida nenhuma que por incúria do exército, ou falta de meios – desculpa não atendível, apesar da penúria em que a austeridade deixou as instituições) e 2. uma recuperação das armas furtadas. Porque, surpresa das surpresas, foram mesmo recuperadas.

Dos acusados, apenas alguns – os ladrões e seus cúmplices – são responsáveis pelo primeiro acto, à luz da lei o mais grave. Os restantes dividem-se em duas categorias: os que terão negociado e lideraram a operação de recuperação, ao que tudo indica por excesso de zelo e brio, e quiçá a disfarçaram (a tal “encenação”), e o responsável máximo político pela PJM, ou seja, o ministro.

Acontece que a recuperação das armas foi, sob qualquer ponto de vista, um acontecimento positivo. Não percamos a noção. Não foi mau, foi óptimo (será isto que irrita o MP?). Deixou de haver armas “à solta”, tráfico, restabeleceu-se a segurança. A operação foi um sucesso.

A única coisa que pode, eventualmente, merecer alguma condenação à luz da lei foi o processo concreto de recuperação, por ter sido liderado pela PJM (segundo métodos muito próprios) à revelia da Polícia Judiciária civil, que tinha, tempos antes (e se calhar contestavelmente; foi o que entendeu o coronel Luis Vieira), sido encarregada do processo pela PGR. (Sobre esta matéria, o advogado do major Vasco Brazão frisou pormenores importantes ontem à noite, na SIC N, quanto às informações que chegaram à PJ antes do furto, e a sua inacção. Mais tarde, o jornalista Luís Rosa falou também na questão da competência como eventual razão para a inacção ou de uma PJ ou da outra)

Bom, mas competiria, pois, ao Ministério Público não perder de vista que, na base deste segunda “irregularidade” está sobretudo uma rivalidade entre polícias, no meio da qual poderá ter sido apanhado o ministro da Defesa (terá?), que não tutela a PJ civil, logicamente. Portanto, a gravidade dos segundos “crimes” não pode de maneira nenhuma ser comparada à do primeiro e muito menos deve ser criada essa ideia na opinião pública pelo Ministério Público. Mas estamos no domínio dos sonhos, não é? O MP tem tendência a esquecer propositadamente a dimensão política de cada problema, acusando automaticamente o responsável político (do PS, ora pois) por crimes pesados como “encobrimento”, “denegação de justiça”, “prevaricação” (= obtenção de ganhos!) e “abuso de poder”. Até nos leva a pensar que o ministro e a PJM impediram a descoberta das armas. Passou-se exactamente o contrário. Há alguma coisa de aberrante nisto.

Eu sei que a cara das pessoas muitas vezes nada nos diz sobre o funcionamento das suas cabeças, mas considerar Azeredo Lopes ou o major Vasco Brazão ou o ex-chefe da Casa Militar (e, consequentemente, um tal “papagaio-mor do reino”) criminosos é um abuso demasiado abusivo de poder pelo MP, passe também o meu abuso de linguagem. Marcelo fez questão de lembrar que não é um criminoso quando o seu nome veio à baila. E, no entanto, não há um português, aqui e no mundo inteiro, que pense o contrário. E mais não digo sobre caras e vidas de criminosos.

Não me substituo aos juízes nem procuradores, mas há certezas sobre algumas coisas: houve rivalidade entre polícias, uma delas não cumpriu o estipulado pela PGR, fê-lo por uma boa causa e não para obstaculizar a investigação (atenuante importante), e o objectivo de qualquer investigação a um furto de armas foi cumprido: recuperaram-se as armas. Quanto à ocultação do autor do furto, é uma contrapartida sempre discutível, mas não necessariamente um crime. O resto deviam ser detalhes ou, vá lá, crimes de muito pouca gravidade, atendendo aos papéis tradicionais das duas PJ. Mas é claro que a oposição, desesperada, está a adorar o Ministério Público.

17 thoughts on “Tancos – importam-se de não perder a noção?”

  1. A Penelope remete-nos para uma abordagem da vida tal como ela é. E até aí tudo bem. Há assuntos que se tratam nos bastidores e é aí que devem ser resolvidos. Por isso mesmo, reunir em gabinetes, receber “memorandos” oficiosos, ou tratar de semelhantes assuntos pelo telefone, é uma prática que não lembraria à senhora minha tia. Dito de outro modo: parece que os quadros do PS não se conseguem livrar de um tremendo amadorismo nestas matérias. No caldo de cultura de baixa politica em que vivemos, não basta ser honesto ou ter boas intenções . Ignorar isso é um erro de palmatória.

  2. “A única coisa que pode, eventualmente, merecer alguma condenação à luz da lei foi o processo concreto de recuperação …”
    Num Estado de direito democrático a PJM (qualquer polícia) não comete ilegalidades, ainda que pelas melhores intenções (será que foi o caso). Os fins não justificam os meios, e a “cara das pessoas” não as iliba de responsabilidades. Criminais e políticas.

  3. anónimo: Todas as caras. Incluindo as da PJ. Mas já vi citações da acusação em que o MP se mete nitidamente onde não é chamado, como no domínio das interpretações políticas.
    Lido em O Observador: “A recuperação da “imagem interna do Governo” de António Costa, que “se debatia com as nefastas consequências dos incêndios que levaram, inclusivamente, à demissão da ministra da Administração Interna”, e a reconstrução da credibilidade externa de Portugal junto dos países da NATO e da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa — são estas algumas das motivações que terão levado Azeredo Lopes a ser cúmplice dos líderes da Polícia Judiciária Militar (PJM) nas negociações com o grupo de assaltantes dos paióis de Tancos”

  4. “Mas o MP tem que saber efectuar o seu trabalho com ponderação”.

    Assim devia ser, Penelope. Mas sendo factual que o MP não é “ponderado” ( aliás: que a “ponderação” lhe descai habitualmente para o mesmo lado… ), não podiam as “vitimas” do costume reforçar as medidas de segurança ?

  5. Vai uma apostinha em como daqui a algum tempo vamos encontrar o celebrado Major Brazão numa candidatura do CDS a qualquer coisa ? Veja-se o exemplo Piazza .

  6. Sempre chato,relembro o que toda a gente sabe: o material roubado não. valia um traque e era tanto que cabia numa Renault 4L. Material tão sofisyicado como meadas de fio de tropeçar. ..
    Não são de agora as “boas” relações PJ-PJM. Quem por lá andou não precisa de explicações.
    Que desesperados se agarrem a traques para sobreviver é uma cena macabra de fazer rir as pedras.

  7. Cara Penélope,
    Partindo do princípio que faz sentido que o MP inclua nas suas acusações as motivações que levaram ao crime, então faz sentido que as motivações de um agente político (Azeredo Lopes – Ministro) sejam políticas.

  8. E prontos, a PJ, avisada pelo fechaduras, devia ter actuado preventivamente, colocando um piquete à porta do paiol, os militares encarregados das rondas, desconsiderados e colocados de férias, ou equiparados a bombeiros e colocados em prevenção para futuros incêndios, e a PJM, deixada em paz, para investigar os casos dos escândalos dos desvios na manutenção militar da força aérea, que vai até ao topo da hierarquia, nos roubos de armas dos comandos, e mais tarde nos fuzileiros, não esquecendo os casos recorrentes de mortes de recrutas nos cursos dos comandos, assuntos estes onde tem desde sempre, apresentado brilhantes resultados …

  9. Tudo isto é de tal modo risível e manipulado que só pode acontecer num país em que o correio da manha é o jornal mais lido e em que alguns se congratulam por o mesmo (grupo) ter adquirido a TVI vendo aí uma oportunidade de «pluralidade de opinião».
    Infelizmente a esquerda e em particular o partido socialista (inimigo publico numero 1 ,à esquerda e à direita) não se sabe defender de forma clara e concisa (ou talvez não tenha palco para isso)…muito menos atacar (todos os dias me pergunto como é possível que Paulo Portas possa continuar a « passar entre os pingos da chuva» seja no caso dos submarinos como nos Pandur, nas famosas fotocópias que levou do ministério (será por causa destas ?? serão estas o seu seguro de vida ??) ou mesmo nos envelopes capelo rego…e não se fala nisso…não há mesmo uma palavra há anos e anos…)
    Tudo isto é estranho, tudo isto é triste, tudo isto é fado !!

  10. anónimo: Não. Não faz sentido o MP especular sobre circunstâncias políticas que terão ditado certos comportamentos de um ministro. É uma questão pouco objectiva. O MP tem muito a mania de especular para fundamentar acusações. O MP deve cingir-se aos factos.

  11. Cara Penélope,
    Identificar as motivações de um crime é sempre subjetivo. Uma mulher que mata o marido e assim recebe o seu seguro de vida avultado (factos) pode tê-lo feito apenas por motivos passionais (para viver com outra pessoa, por ciúmes, por ambos, por outro motivo, …). Pode haver suspeitas fortes, mas no fundo só ela saberá.
    Dito isto, e com todas estas limitações e subjectividade, é importante para uma acusação identificar possíveis motivações para que o crime tenha sido cometido.
    Repito: sendo Azevedo Lopes um político e ministro, não me parece descabido apontar motivações políticas para justificar a sua atuação. Acha plausível, por exemplo, que a motivação tenha sido financeira? Eu não. Acha plausível que não tenha havido qualquer motivação? É assim tão descabido que um político em exercício procure desviar atenções de assuntos incómodos ou colher louros de “sucessos” dos seus tutelados?

  12. Um pormenor no modo como se fala do processo.
    “Ele sabe”, “ele sabia”, “tinha de saber”, “impossível que não soubesse”, etc, etc.
    E nenhum jornalista faz esta pergunta simples: “saber o quê?”.
    É que é bem diferente saber de um esquema de contatos para recuperação das armas, ou saber da farsa teatral montada, ou saber de compromissos assumidos com os larápios, ou saber das conivências, etc.
    Depois, vêm à tona as guerras PJ/PJM, MP Joana/ex PJ. E não falta a caça às bruxas contra magistrados mais independentes.

  13. É a primeira vez que estou a ler e a entender o que se passa com Tancos. Sempre que se fala disso desligo ou mudo de página. Agora percebi. Isto é tudo uma treta. Obrigado Penélope pela explicação.

  14. anónimo das 18h03: Não, neste caso não é. O MP não sabe nada (ou não quer saber de outras hipóteses) nem tem o direito de especular, e até parece que políticos a fazerem política é uma coisa inadmissível em democracia. Tanto pode ser desvio de atenções (!!), como inabilidade do ministro, ou ingenuidade, como até nada disso e o Azeredo Lopes nem ter percebido de facto o que lhe estavam a tramar e alguém ter mesmo montado uma tramóia para fazer tropeçar o Governo, depois de morta a ideia de que Costa andou a alterar o clima e a matar pessoas em estradas cercadas de chamas . Por isso, um MP isento abster-se-ia de opinar com base numa tese afunilada. Tem dados de que o ministro desrespeitou conscientemente as competências da investigação em conluio com a PJM? Então apresente-os e deixe-se de especulação sobre motivos. Não estamos perante um homicídio.

  15. Cara Penélope,
    Na medida em que qualquer enunciação de motivações em qualquer tipo de crime (incluindo homicídios ) será sempre especulativa (não há factos que sustentem motivações pessoais), então concluo que defende qua as acusações do MP não devem nunca incluir motivações. Discordo, mas é um ponto de vista.

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