“Nada fazia prever que havia perigo de fuga”, diz uma juíza atoleimada acerca do agora fugitivo Rendeiro. Trata-se de um malfeitor financeiro que foi condenado em três processos a 18 anos de prisão efectiva e que, graças às piruetas de advogados da Mafia e aos alçapões da justiça portuguesa, se encontrava simplesmente em liberdade com termo de identidade e residência. A juíza até deixou o sentenciado ir a Londres “tratar da saúde”, mas o gajo apanhou logo um jato privado para fora da Europa, um destino programado há meses, segundo sabem os jornais, mas a juíza ainda hoje decerto ignora.
Nem o facto de Rendeiro, condenado por crimes económicos, se pretender arvorar em perseguido político abriu os olhinhos da juíza. Ela não é o tal cego que não quer ver, é o que vê, mas diz que não vê.
A comparação é inevitável com outras situações, sobretudo a de um cidadão não condenado nem sequer acusado, como José Sócrates, que foi mantido um ano em prisão preventiva devido ao tal “perigo de fuga” que, no caso do já condenado Rendeiro, a justiça zarolha dos dois olhos não conseguiu enxergar. A diferença é que Rendeiro apanhou o primeiro avião para se pôr na alheta, enquanto que o tal cidadão, que estava em França, apanhou o primeiro avião para se vir colocar nas mãos da justiça.
Rendeiro seria um sério candidato à Ordem do Mérito Financeiro, que só não foi ainda instituída em Portugal porque vivemos tiranizados pela esquerda há bué da tempo — 20 dos últimos 26 anos, segundo se queixa hoje amargamente o conselheiro Acácio Tavarrres no Público.
Mas já temos aí a Ordem da Liberdade, muito apropriada para quem continua livre apesar de condenado. Caso haja dúvidas, sempre se pode criar a Ordem da Liberdade sem Perigo de Fuga. Deixo a sugestão ao grão-mestre das ordens honoríficas.

