Este amigo é um excelente comunicador e a sua história uma delícia genética.
Todos os artigos de Valupi
Revolution through evolution
This kind of flirting works best
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Higher Antioxidant Levels Linked to Lower Dementia Risk
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Cutting calories and eating at the right time of day leads to longer life in mice
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Researchers’ tools show who is most easily duped by “financial bullshit”
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Skeptics of welfare schemes don’t increase with more immigrants
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There’s a reason why aliens haven’t visited Earth yet, say scientists
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Putin’s invasion miscalculation could result in a coup
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Dominguice
A escola ensina-nos a ser inteligentes? A família ensina-nos a ser inteligentes? As empresas ensinam os trabalhadores a serem inteligentes? Não, não e não, apesar do sim, sim e sim. Sim, porque qualquer forma de socialização é ao mesmo tempo um processo de aquisição de informação e treino de comportamentos adaptativos, factores que aprofundam e aumentam a inteligência. Mas não porque a inteligência não equivale exactamente ao acrescento de informação e à adaptação a um qualquer meio. Informação errada não gera conhecimentos válidos, por exemplo. Informação correcta não gera conhecimentos aplicáveis, sem método. E conseguirmo-nos adaptar a um meio racista, xenófobo e fanático implica a destruição da inteligência própria.
O que nos ensina a ser inteligentes é a inteligência – ou seja, a consciência da nossa insidiosa e tirânica ignorância.
Vamos lá a saber
Por maioria de razão
O PS maioritário pode resolver muitos problemas com uma eficiência máxima. Se tal acontecer, o melhor das maiorias absolutas será realizado.
Um desses problemas é este:
PS pressiona Centeno para “audição urgente” no Parlamento
Imperdoável se não o fizerem.
Beliscões
«“De repente, passamos a viver em troika?” A pergunta é do Presidente da República, foi proferida esta semana, em conversa com jornalistas no Palácio de Belém, e não saiu por acaso. Depois de ter aproveitado a guerra na Europa para assumir, como Chefe Supremo das Forças Armadas, as dores do sector da Defesa que há muito se arrastam e que escolheu para tema único no 25 de Abril, Marcelo Rebelo de Sousa sabe que a frase que libertou a propósito das promoções dos militares não só se ajusta como uma luva a outros sectores da Administração Pública como belisca o Governo de António Costa, que anda há semanas a fugir da palavra “austeridade”.»
Temos um Presidente da República que recorre a jornalistas para “beliscar” o Governo de António Costa, garante uma consagrada especialista nessa mesmíssima função: servir de altifalante para os beliscões, empurrões, caneladas, sopapos, cabeçadas e/ou apalpões de qualquer direitola que ocupe o Palácio de Belém.
Deve ser uma vida santa esta que a Ângela leva. Vai ao chá com bolachinhas na Casa Civil e despacha os recados marcelistas em 20 minutos (ou menos) a teclar. Depois, no resto do tempo livre, pode usufruir do circuito artístico da Velha Lísbia e descontrair da feérica profissão de “jornalista” nas esplanadas da Marginal. Enquanto não a chamam de volta ao chá com bolachinhas para mais uma encomenda, coitada.
Belisco-me de inveja.
Perguntas simples
Após este comunicado, o PCP estará a preparar-se para declarar guerra à Ucrânia nos próximos dias?
Lapidar
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Study finds that males are represented four times more than females in literature
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How your breath could reveal your sexual attraction
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Study shows sharing behavior among young children may be related to their counting skills
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Seven hours of sleep is optimal in middle and old age, say researchers
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Being in nature: Good for mind, body and nutrition
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Home sweet home: Pet cats rarely stray far
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Educate to Indoctrinate: Education Systems Were First Designed to Suppress Dissent
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Dominguice
Nenhum de nós saberá o que é ter o poder de acabar com as vidas de milhares de pessoas, de um dia para o outro. Milhares? Podem ser imprevisíveis milhões. Dos outros, dos seus. E de caminho destruir cidades, sistemas de protecção e cuidado das populações, obras de arte, partes da cultura humana e suas memórias. Nenhum de nós se irá deitar, e conseguir dormir, na véspera de tomar tal decisão.
A banalidade protege-nos do grau último da desumanização.
O eterno retorno de Sócrates
«Já se esqueceram do que aconteceu ao aumento salarial de 2,9% decretado pelo governo de José Sócrates em 2009? Resultou em cortes salariais de 3,5 a 10% dois anos depois. Quem tudo quer tudo perde. Seria de esperar que as diferentes corporações e as pessoas que delas fazem parte tivessem memória, mesmo que a memória seja curta, não há como ter esquecido o que aconteceu no início desta década.»
«Lembram-se no que deram os aumentos de 2,9% do governo socialista de José Sócrates em 2009? Cortes progressivos em 2011, que iam dos 3,5% aos 10%.»
🤹♀️🤹🤹♂️
Vamos lá a saber
Esta coisa sumarenta
No Eixo do Mal da semana passada voltou a falar-se de Sócrates. Digo “voltou” não por ser raro falar-se de Sócrates nesse programa mas porque ele esteve ausente num período recente. Período onde na comunicação social quase toda (sobram dedos numa só mão para as excepções televisivas) se aplicou censura editorial absoluta sobre Sócrates e o motivo pelo qual ele fazia parte da actualidade política e judicial. Nessa altura, o Eixo do Mal alinhou com o ostracismo e ninguém por lá soltou meia vogal acerca de um ex-primeiro-ministro que acusa um juiz de ter feito aquela que, a ser provada, seria a mais grave violação do Estado de direito em Portugal de sempre dada a autoria (um juiz, e logo aquele) e a importância, dimensão e consequências da Operação Marquês. É que o assunto não dá para rir nem para continuar o linchamento, percebe-se. A pulharia está calada à espera que outros juízes arquivem e enterrem a pequena chatice para voltarem a pegar nos archotes e nas forquilhas.
Mas na semana passada, sim, risota solta e muita pilhéria gostosa, feliz. Aurélio Gomes, exalando jovialidade, lançou o número: “Bom, deixei para o fim esta coisa sumarenta: Sócrates-Costa. Luís Pedro Nunes…“. A coisa sumarenta foi espremida pelo bronco com a usual bronquite crónica que o ódio de estimação lhe desperta, e até o Pedro Marques Lopes se juntou à festa para tornar ainda mais lamentável a cena. O lamento não vem de se gozar com Sócrates, de o procurar ridicularizar, insultar, ofender, humilhar. Essa agressividade automática nos comentadores, e essa violência já sedimentada como cultura mediática, são forças incontroláveis, sistémicas. Não, pá, fogo à peça. O que fica a pairar como odor nauseabundo é assistirmos a Aurélio Gomes e Pedro Marques Lopes a deixarem-se nivelar pelo deboche infantilóide e inane do Luís Pedro Nunes quando os mesmos alinharam no interdito a respeito de Carlos Alexandre ter sido constituído arguido por suspeita de crimes de abuso de poder, falsificação de funcionário e denegação de justiça. Pura e simplesmente, não é possível dar qualquer justificação lógica para o seu silêncio a não ser a de se recusarem a falar em público do assunto.
E porquê? Vou especular e vou acertar. O editorialismo e o comentariado calaram-se a respeito da acusação de Sócrates a Carlos Alexandre porque estamos perante a explicação mais simples – portanto, mais verosímil, Ockham dixit – para radiografar os acontecimentos suspeitos. Não se tratando da Operação Marquês, aquilo que o próprio Conselho Superior da Magistratura já reconheceu terem sido indesmentíveis ilegalidades na atribuição do processo a Carlos Alexandre teria imediatamente gerado um escândalo homérico num qualquer outro caso. O que se sabe sobre tal, materialmente estabelecido, é mil vezes mais factual do que qualquer suspeita de corrupção que tenha Sócrates como alvo, e isto depois da reunião de 14 milhões de ficheiros informáticos na investigação ao engenheiro. Daqui vem uma evidência: se porventura se levasse a julgamento Carlos Alexandre, e mesmo na hipótese de não ser condenado, tal seria suficiente para estabelecer a Operação Marquês como uma golpada política. As razões para tal estão inscritas na biografia do Calex, como obsceno e ostensivo cúmplice de um Ministério Público que pretende violar os direitos e garantias dos arguidos sempre que lhe convenha. E foram confirmadas por Ivo Rosa, ao ter detalhado e explicitado a farsa que lhe foi parar às mãos. Donde, quando Joana Marques Vidal aceitou avançar para a detenção de Sócrates – sem possuir prova alguma de corrupção e na urgência de queimar Costa que acabava de substituir Seguro e partia para um ano eleitoral – precisava de ter um “super juiz”, estrela-mor do justicialismo e da indústria da calúnia, que garantisse o domínio completo da narrativa de culpabilidade e aceitasse oprimir, assustar, devassar e castigar os arguidos de forma maximalista. E isso, precisamente, foi feito logo a partir do espectáculo no aeroporto para assim fazer desaparecer do espaço público – e do ecossistema judicial – qualquer presunção de inocência.
Está à vista de todos, todos sabem que a Operação Marquês foi um circo de indignidades e abusos de poder, de crimes cometidos por magistrados. E todos aceitam que assim seja e assim fique. Há que salgar (pun intended) o solo do auto-de-fé. A alternativa é impossível, pôr no banco dos réus a Justiça, o sistema político, o regime, a comunidade miserável que somos. Esta coisa sumarenta.
O PCP ficou à beira do abismo em Janeiro, e depois veio Fevereiro
«O PCP não cedeu perante uma má proposta e o Orçamento foi rejeitado em novembro.»
Até 24 de Fevereiro de 2022, o PCP era o partido que mais eclécticas simpatias congregava em Portugal. Esse fenómeno começou com Carlos Carvalhas, uma escolha surpreendente para suceder a Álvaro Cunhal por não possuir as características leninistas que tinham estilizado a liderança do partido até então. Estávamos nos anos 90 e Carvalhas, com a sua retórica macia e resignada, simbolizou a “perestroika” possível na Soeiro Pereira Gomes. Depois chegou Jerónimo de Sousa, em 2004, e o partido rendeu-se estrategicamente a um novo marketing adequado ao absurdo do seu programa: começaram a apelar ao voto num comunismo pragmaticamente reduzido à sua expressão folclórica e a vender competência tecnocrática e integridade militante para manterem posições no mercado autárquico. Jerónimo foi uma escolha perfeita graças ao seu carisma hollywoodesco de “operário-agricultor”, era um português castiço com quem apetecia beber um copo e largar umas gargalhadas. Uma antítese de Cunhal para um novo posicionamento mediático nascido da dialéctica eleitoral. Os elogios correram fáceis e abundantes desde 2005, reconhecendo-se até a importância do PCP para conter extremismos e manter a paz social – muitos desses elogios vindos da direita que adorava o bloqueio do sistema partidário à esquerda e que, numa altura de desespero com a força política de Sócrates, chegou a admitir ir para o poder numa aliança com os comunistas. Pelo meio, a Festa do Avante evoluiu para ser uma etapa excêntrica do calendário e negócio dos festivais onde os direitolas faziam questão de ir como quem vai pela primeira vez ao jardim zoológico.
A seguir a Jerónimo, João Oliveira e António Filipe foram durante muitos anos igualmente o rosto da afabilidade e normalização do PCP, transformado numa peça indispensável de um regime que os comunistas vituperavam entre portas. O primeiro, reforçando o aceno rural, até missionário, adequado à envelhecida demografia eleitoral. O segundo, exibindo o heroísmo do trabalho, no caso parlamentar, que alimenta a mitologia da “pureza” do “povo comunista”. Mais recentemente, João Ferreira foi lançado para a ribalta de uma eventual sucessão de Jerónimo para se continuar a tentar estancar a perda de votos recorrendo a critérios que nada têm a ver com a ideologia ou um renovo programático e tudo com factores de apelo estético e atracção comunicacional. A aposta nele nasce de conseguir simular ser competitivo com eleitores que não queiram votar PS por razões conjunturais e hesitem entre o BE e o PCP. Foi assim que obteve um resultado anómalo nas últimas autárquicas, recolhendo votos só pelo boneco ser agradável à vista e da sua boca apenas saírem clichés que não assustavam ninguém.
Portanto, a forma como estas vedetas dos amanhãs que cantam se afundaram no putinismo extremo causou um choque que ultrapassa a questão da invasão russa da Ucrânia e põe em causa a relação de décadas entre o partido e a sociedade. Mais do que nos indignarmos com o espectáculo de obscena cumplicidade com o agressor, importa descobrir qual a causa para tão bizarro acontecimento, isso de ver o PCP a marchar ao lado do maior financiador de grupos da extrema-direita antidemocrática no mundo. Proponho como pista de investigação que se olhe para o dilema que o PCP enfrentou na votação do Orçamento para 2022. Lendo o artigo do António Filipe, de que cito o sofisma a que se agarraram bovinamente, percebe-se o que já se tinha percebido em Outubro: os comunistas foram para eleições porque não resistiram à pressão do BE, o qual com a sua visibilidade nos impérios de comunicação da direita conseguiu minar e destruir as frágeis resistências ao sectarismo que tinham permitido ao PCP ficar isolado na viabilidade de um Governo PS minoritário. Foi só isso, nenhuma de nenhuma preocupação com o “povo” e os “trabalhadores” contou para colocarem o interesse nacional acima e à frente do pânico identitário. Preferiram a irresponsabilidade de abrir uma crise política no meio de uma pandemia sem qualquer razão atendível. Daí, nessa ressaca – e no trauma eleitoral que se seguiu em Janeiro onde se materializou o começo da extinção parlamentar – terem entrado numa trágica deriva radicalizante, de sobrevivência em trincheira.
E calhou ser Putin a oferecer-lhes essa barricada, para a qual saltaram alucinados e dispostos a defenderem a bandeira até ao último homem (ou mulher, mas o mais certo é que o último comunista seja macho, né?).
A ética nunca alimentou ninguém
No último Governo Sombra, tanto Ricardo Araújo Pereira como Pedro Mexia deixaram remoques acerca de dois artigos seguidos do caluniador profissional pago pelo Público: ISCTE – O braço universitário do Partido Socialista (14 de Abril) + João Leão financiou com cinco milhões o seu novo emprego (16 de Abril). O Ricardo foi sarcástico a respeito da “coincidência”, afirmando que se tratou de um embuste onde o caluniador foi avisado de ir rebentar o caso (daí o primeiro artigo tendo todo o PS como exclusivo alvo). E o Pedro foi explícito no seu protesto contra o que designou como “suspeitas genéricas”, culminando numa enfática declaração de princípios a separá-lo de quem alinha em tais práticas.
A forma como o caluniador profissional respondeu aos seus colegas de programa, tanto na linguagem verbal como na expressão corporal e facial, não carece de intérprete. Trata-se de um agente político que recebe dinheiro de órgãos de comunicação social para atacar – a coberto do estatuto de “independente” e “jornalista” – o PS e personalidades socialistas de forma sistemática. Igualmente sem surpresa e interesse foi o registo displicente do Ricardo, embora tenha valor positivo a sua breve e superficial referência. Está na posição do Pedro algo que importa desenvolver só para satisfazer a curiosidade analítica. E que é o seguinte: este licenciado em Direito, supinamente culto, sabe de ginjeira que ao escolher os vocábulos “suspeitas” e “genéricas” está a recorrer a uma fórmula hiper-eufemística para se relacionar publicamente com o que são evidentes difamações e/ou calúnias.
Ora, que aconteceria na cabeça do Pedro Mexia se lhe acontecesse ver uma figura altamente influente no espaço público como comentador, com presença constante em vários dos mais poderosos meios da imprensa, que se estivesse especializado em lançar difamações contra o PSD, o CDS, agora também a IL, e demais personalidades dessas áreas? Que pensaria vendo esse modus operandi ao longo do que já conta com 13 anos ininterruptos? Que diria se esse fulano, exclusivamente por se prestar a esse papel, tivesse recebido o prémio de ser escolhido para presidente da comissão das comemorações do 10 de Junho? Que diria o filho de João Bigotte Chorão, o consultor de Marcelo Rebelo de Sousa, o colaborador do CDS para a feitura do programa eleitoral de 2019, de uma farsa e deboche desse calibre montados na comunicação social para despachar caudalosos assassinatos de carácter e apelos ao ódio contra a sua família política, contra os seus amigos?
Pois é, Pedrinho. Servir a dois senhores pode fazer-te muito bem ao bolso e ao ego mas não te julgues acima do caluniador profissional. Estás literal e moralmente ao seu lado.
Começa a semana com isto
Revolution through evolution
Women’s earnings drop after childbirth, study finds
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Girls Excel in Language Arts Early, Which May Explain the STEM Gender Gap in Adults
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Stop the clocks: Brisk walking may slow biological aging process, study shows
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Fewer smartphones, more well-being
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Praising essential workers — nurses, grocery workers, corrections officers — is not just a good thing, it’s critical to their recovery from burnout
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Prehistoric humans turned their campfires into makeshift movie theaters
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Brazilian study finds COVID-19 cases and deaths higher in areas with electoral support for President Bolsonaro
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Dominguice
Ser humano é ser animal e fingir que não se é animal. Fingimos porque o animal em nós está incompleto, desligou-se do ecossistema de que é uma emanação e um súbdito. Fugiu, ou foi expulso, desse paraíso. E agora o ser animal que é ser humano sente-se perdido, só, com medo dos animais à solta. Com medo da animalidade soberana.
Estamos, nós humanos, a tentar criar um novo ecossistema adequado a animais mutilados e disfuncionais. Chama-se civilização.
António Costa e a Aura Mediocritas
Foi publicado, e não desmentido pelo próprio, que António Costa considerou ter sido “aldrabado” por Sócrates a respeito das heranças que a mãe deste teria recebido, afirmações feitas em Julho de 2021 para a actualização de uma biografia de Mário Soares. Também nessa ocasião terá declarado a Joaquim Vieira que Soares foi instrumentalizado com a finalidade de assim impedir o confronto de Costa com Sócrates na prisão de Évora.
A primeira reacção que esta notícia provoca é de atarantação. Não por existir alguém que considere Sócrates mentiroso, sequer por existir alguém que ache verosímil Soares ter sido manipulado para (cônscia ou inconscientemente) alinhar com uma artimanha indigna e vexante. Isso são banalidades irrelevantes. A perplexidade, a raiar o estado comatoso, vem da pessoa que permite (e que o permite nesta altura) ficarmos a saber que tal pensa, em tal (pelos vistos) acredita. Como é possível ser-se tão imbecil?
Comecemos por este cenário: um dia, de uma maneira qualquer, será provado que Sócrates mentiu a respeito das heranças familiares e que Soares foi uma vítima, ou um cúmplice, do ardil que impediu Costa de esclarecer lá o não sei quê que alega ter ido a Évora para esclarecer. Problemazinho: esse dia não é hoje, não será amanhã e, aposto os 10 euros que tenho no bolso, a acontecer só virá um mês depois do dia de São Nunca. Isto porque a matéria das heranças está documentada junto das autoridades e é, no seu conteúdo, assunto que se esgota na privacidade de Sócrates e da sua família. Que importa, seja para o que for com estatuto de interesse público, que as heranças tenham sido assim ou assado, e que o pecúlio tenha sido gasto desta ou daquela maneira, e que o homem tenha publicitado ao longo dos anos isto ou aquilo a seu respeito? Importa como eventual indício em foro de investigação judicial, claro que sim, mas fora desse âmbito é uma problemática estritamente moral e mesquinhamente polémica. Ter um primeiro-ministro a envolver-se com a Operação Marquês, na qual Sócrates está como inocente pois ainda de nada foi condenado, para atacar – recorrendo à subjectividade – aspectos de personalidade do principal arguido fica como um registo quase tão abjecto como o de Carlos Alexandre na infame entrevista em que condenou em público um cidadão à sua guarda constitucional.
Continuemos com este cenário: nunca se saberá ao certo o que se passou para que Soares tivesse aparecido em Évora ao mesmo tempo que Costa mas, lançada a lebre, vão começar a aparecer versões, relatos, teorias da conspiração. Primeiro efeito, indelével, a memória de Soares fica inacreditavelmente maculada por uma das mais importantes figuras da história do PS e da política nacional, António Costa, primeiro-ministro em funções. O alvo do que é tecnicamente uma colossal difamação não se pode defender, e só por este aspecto as declarações de Costa são um monumento ao despudor e à chungaria. Parece conversa de tasca, um vale tudo etílico, ou então o planeado intento de fazer o assassinato de carácter a Soares. Hipótese irracional? Não tão irracionalizante como o facto consumado, ter feito as declarações na berlinda e logo para ficarem inclusas numa biografia de Mário Soares. No outro lado da ladeira, o prestígio de Costa não surge mais bem tratado. Ao querer ficar colado à imagem de não ter conseguido interromper o “comício” de um Soares incontinente verbal (cheché, como deixa sugerido) para encostar o vilão às grades e sacar-lhe a confissão dos seus homéricos crimes, vendo-se assim obrigado a regressar a Lisboa a chuchar no dedo, esta consciência revela ter perdido por completo a noção do ridículo. Espero, em nome de todos quantos lhe queiram bem, família e amigos, que a passagem do livro onde se cobre de alcatrão e penas seja desmentida.
Mas não será, né? O que nos leva para o último cenário: Sócrates foi corrompido, o dinheiro do amigo era dele, enganou este mundo e o outro, a mielas com o Salgado serviu-se do PS e do cargo de primeiro-ministro para se encher de milhões, de fatos caríssimos, de férias luxuosas, de droga e sexo. Um monstro, portanto, e um génio do crime como nunca houve outro no Planeta pois conseguiu fazer isso tudo sozinho e nos intervalos do expediente. Ora, sendo esse o retrato, como é que Costa se revela tão falho de curiosidade em ter uma conversinha com o fulano logo em 2014? E se não conseguiu em 2014, por via da tal armadilha com o idoso que não se calava, que o impediu de continuar a tentar em 2015? Ou 2016? 2017? 2018? 2019? 2020? 2021? E 2022, que ainda nem vai a meio? Aliás, por que raio não aproveitou a presença do patriarcal e heróico Mário Soares para lhe imitar o exemplo e confrontar na sua presença Sócrates com tudo o que lhe quisesse perguntar e dizer? E por que caralho não fez como Guterres, que visitou Sócrates mais do que uma vez e, milagre, ainda conseguiu ser eleito secretário-geral da Organização das Nações Unidas? Das duas uma: ou Costa sabia que as suspeitas de corrupção não passavam de tangas, ou Costa… o quê? Como caracterizar a atitude de indiferença que o próprio assume em relação ao que o Ministério Público berra ser o maior crime alguma vez cometido em Portugal e que, a ser provado, envolve directamente o PS e todos os que integraram o partido e os Governos quando Sócrates era o líder?
Espantoso, inexplicável, misterioso episódio. O silêncio que se seguiu à imediata resposta de Sócrates, com uma frontalidade à prova de pulhas, só adensa o absurdo criado por Costa. Um Costa que, para supina sorte deste país, é primeiro-ministro desde 2015 e acaba de ganhar uma maioria absoluta que não poderia ter vindo em melhor altura dado o novo ciclo de crises internacionais imprevisíveis e potencialmente catastróficas. Um Costa que merece um lugar no panteão dos melhores políticos da nossa democracia por ser um oceano do tal bom senso que alimenta e protege o bem comum. E um Costa capaz de se aliar a um caluniador profissional, servindo-se das instituições e instalações da República para um número político-mediático onde se exploraram menores. Contrastes de quem talvez nunca tenha tido a ambição de chegar onde chegou, e que disso fez uma força que lhe deu os merecidos triunfos políticos.
Eis a aura mediocritas daquele que continua sem rival no horizonte para se fazer melhor em S. Bento.